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Resumo
Resenha de Tales A. M. Ab’Sáber, O sonhar restaurado, 1. ed., São Paulo, Ed.34, 2005, 318 p.


Autor(es)
Janete Frochtengarten
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Autora de vários artigos publicados em livros e revistas especializadas.

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 LEITURA

Quando sonhos conversam

Janete Frochtengarten


Resenha de Tales A. M. Ab’Sáber, O sonhar restaurado, 1. ed., São Paulo, Ed.34, 2005, 318 p.

Uma premiação

O livro de Tales ganha, em 2006, logo após sua publicação, um importante prêmio, já que se trata do mais antigo prêmio literário do país, o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria de melhor livro de Psicologia, Psicanálise e Educação – importante, em si, pelo reconhecimento de um trabalho de criação na área da Psicanálise, mas, também, importante por ser um reconhecimento que transcende a especifi cidade desse campo; publicamente, o Jabuti é conhecido por consagrar fi cção em literatura, embora tenha várias categorias que contemplam livros científi cos, em múltiplas áreas do saber. Além do indubitável valor do livro para os psicanalistas, assinalo também o que, a meu ver, são algumas das características que conferem uma especial qualidade a esta escrita.

Tales olha para o texto freudiano, observando, com fi nura, o quanto, em algumas obras, o fluir da escrita é o próprio movimento do pensamento do autor, sem talvez perceber (por estar imerso em seu próprio fl uxo) que também realiza, em inúmeros momentos, esta rara fusão do teor da forma com o teor das idéias, formando imagens que nos envolvem e que capturam as possíveis formas que temos de apreensão de um texto que é lido.

O autor escreve com leveza, clareza e precisão poética, como quando relata esta passagem em um processo terapêutico: “o paciente parecia encontrar, nas minhas palavras tão prosaicas, ou, talvez, em minha presença na hora exata da alma, quando ele se dilacerava…” (p. 114). Para Winnicott, o psicanalista mais extensamente trabalhado no livro, o sonho que é sonho, que não é produto de um fantasiar, tem valor poético; Tales, por sua vez, dedica-se a restaurar o sonho, e poesia e sonho, sonho e poesia, giram e giram, elaborando composições inusitadas.

Em uma feliz continuidade com o espírito freudiano, Tales dialoga com a cultura ao longo de todos os capítulos, desde Fernand Braudel, com seu conceito de economia-mundo, passando por fi lósofos das décadas de 1940 e 1950, por fi lósofos da atualidade (Giorgio Agamben e Axel Honneth), incursionando pela pintura de Picasso e pelo cinema de Eisenstein, por Calderón de la Barca, pela poesia de Blake e Rimbaud, além de Walter Benjamin, proporcionando articulações-surpresa entre psicanálise, epistemologia, arte e política. O autor, também, indica pontes, inclusive uma engenhosa ponte com as teorias da cultura, através “do poderoso impacto de Freud em Adorno e Horkheimer” (p. 48, nota 16 e p. 249, nota 7), filósofos da dialética sem síntese (p. 284, nota 66); propõe, por outro lado, a instigante distinção entre a evolução conceitual em psicanálise que “se apoiaria em uma temporalidade que não é, ela própria, linear” e o “tempo comum do trabalho consciente na cultura capitalista” (p. 287, nota de rodapé).

Há elegância na construção do texto. Tales é exuberante ao citar exemplos clínicos próprios e fragmentos de textos clínicos e teóricos de Winnicott, Bion e Freud, mas o faz de forma tal, tão incorporadamente, a ponto de parecer texto seu, pois o conjunto acontece em harmonia, sem as quase inevitáveis quebras que ocorrem quando se cita textualmente e, principalmente, quando as citações são longas, como muitas vezes o são.

Por fim: uma escrita tecida no coloquial, onde não há temor de se falar em humanidade no fazer clínico, e onde o humor recai sobre o próprio autor como terapeuta: “a fala amalucada do analista” (p. 238) – e como pensador que quer reconhecer suas limitações: “ainda não estou na idade para estas refl exões mais profundas…” (p. 284).

Um sonho e um livro

[…] e que o processo do ser do analista e do conquistar instrumentos para pensar a análise se desdobram permanentemente, um no interior do outro (p. 202).

Tales inaugura o seu trabalho, relatando- nos um sonho, sonho de sua infância, que, nas águas do tempo, vem desembocar em uma intensidade de interesse tal, que resulta no trabalho de criação, de pensamento e de escrita – escrita deste livro, em que sonhos conversam. E como conversam! São sonhos tagarelas, irrequietos, que dialogam com vários interlocutores: dialogam com outros sonhos, dialogam com psicanalistas que elaboraram suas próprias teorias, e dialogam com a clínica.

O autor nos apresenta seu livro, comunicando- nos que é ele composto por seis ensaios, divididos em “um conjunto de três trabalhos de teoria da clínica e três trabalhos de clínica, guiados por sua específi ca teoria” (p. 16). E eu me permito indicar um caminho próprio de leitura do livro de Tales, uma apresentação que é uma tentativa de fazer justiça ao rigor que se faz moradia em clima afetivo de um escrito que nos diz que, em psicanálise, “o conceito está, desde a origem, encarnado ao corpo e à alma do analista” (p. 202).

É nesta carnalidade que o sonho de Tales, que adquire sentido de sonho quando lhe é devolvido como sonho pela mãe, “presença amorosa, desejante de meu próprio sonho” (p. 13), encontra Winnicott, para quem o sonho só é integrado psiquicamente em um espaço no qual o outro humano está incluído, “no qual aquele sonhar é integrado e, no mesmo movimento, retorna à criança como próprio” (p. 191). A propósito: várias vezes somos levados a um interessante jogo de adivinhação, levados a nos perguntar: este aqui é Tales ou este aqui é Winnicott? Experimentem entrar no jogo!

São cinco as direções de leitura que passo a considerar.

A clínica

O sonhar do analista parece ser, assim, um dos lugares privilegiados da própria clínica, um profundo ensinamento freudiano (p. 205).

Há um fragmento, logo no início do livro, em que Tales, em meio à narrativa de uma experiência clínica, coloca-se com uma força particular; eu o tomo como a declaração de algo que vai ressoando, ao longo dos capítulos, como um ethos de sua clínica pessoal (que também o conduz nos comentários que faz da clínica de seus autores eleitos). O fragmento faz com que se possa afi rmar que, nele, Tales está nos dando algo fundamental de sua clínica.
Transcrevo-o:

[…] Assim haveria em nós algo que é a imagem impressa, mas invertida, da forma psíquica do outro. Se em nós se dá a luz da imagem da relação criada entre os sujeitos, com as criações advindas desde a luz de nosso próprio desejo, também temos indicado ali o negativo da foto, algo da forma psíquica que é próprio do outro e que se ilumina em nós […] A análise precisa reconhecer estas formas não-eu, verdadeiras formas do outro que se fazem sobre nós, reconhecer o outro nos forçando em seu desejo e em sua própria história libidinal, nos fazendo em suas próprias formas (p. 27).

Este fragmento, que se irradia pelo livro, vai confi gurando um analista que propicia que se expanda, sobre si, a matéria psíquica do outro que está a seus cuidados, um analista que é um lugar humano em que se dão as forças integradoras, estas forças que instauram o sonhar e o viver; um analista que é um continente psíquico eu e nãoeu, que lança o desejo para além de si, no sonhar e no viver, um analista implicado no sofrimento de quem o procura e que é um elaborador estruturante, simultaneamente externo e interno ao sujeito. Com esta caracterização, resulta, de imediato, acessível ao leitor, o depoimento de Tales, feito a partir de um processo analítico: “… assim se deu uma experiência que mudou minha vida de analista. Muito também se transformou na vida daquele moço… que voltava a ter uma vida imaginativa com as pessoas do mundo…” (p. 120).

Particularmente, no capítulo “Menina bonita não sonha”, temos a oportunidade de seguir o analista em sua atividade, através do relato detido e extenso do acompanhamento clínico que Tales realizou junto a uma menina de dois anos e meio e seus pais.

A teoria

Sonho, vida e teorização vão se entrelaçando na caminhada que o autor faz junto a Freud e Winnicott.

Com Freud: em uma carta a Fliess, de novembro de 1897, na qual, em meio a comentários de um cotidiano com os fi lhos, em que um acaba de perder mais um dentinho e em que outro redige um novo poema, Freud escreve que o paciente mais importante com o qual vinha trabalhando é ele próprio, que a auto-análise volta a caminhar e que, depois de algumas buscas, em que o conhecimento lhe escapava, está por encontrar a fonte do recalcamento sexual normal.

Aqui desdobram-se, “um no interior do outro, os processos do ser do analista e da conquista dos instrumentos para pensar a análise” (p. 202).

Com Winnicott: depois de dias em que se percebia trabalhando mal com seus pacientes, o analista tem um sonho no qual vive a angustiante sensação de não ter uma parte de seu corpo; este sonho é considerado “curativo”, pois, após ele, a difi culdade clínica desaparece. E há bem mais: para Tales, a ansiedade fi gurada neste sonho de Winnicott “será, anos mais tarde, colocada no rol das principais ansiedades inimagináveis que um bebê pode sofrer no tempo de sua dependência absoluta” (p. 204, nota 84).

Nesses cruzamentos, em que o onírico é vida e vida é trabalho de pensamento e é avançar na construção da teoria, Tales vai perambulando por vários tipos de “matérias-indício” nos textos de seus autores de referência, e em sua própria clínica, deixando sedimentar, aos poucos, uma história do nascimento e desenvolvimento de vários conceitos, que, assim, adquirem uma outra luz, mesmo porque “um conceito não existe no analista fora da dança de sua suspensão pela atenção equifl utuante, e cada forma de vida teórica psicanalítica traz consigo um espírito, um movimento, uma tendência a uma certa postura do analista” (p. 123).

Relação entre teorias

Tales vai desenvolver seu trabalho de restaurar o sonhar, dedicando-se particularmente a Winnicott, apoiando-se em Bion, e, principalmente, em Freud, onde, sabidamente, pela vez primeira, modelos de funcionamento psíquico são elaborados a partir de uma refl exão sobre o sentido do sonhar humano. O autor realiza toda uma genealogia acerca da importância do sonhar, passando por Abraham, Ferenczi, Melanie Klein e seus primeiros seguidores, mas Freud é o grande ponto de apoio, de confl uência e de divergência pelo qual Tales se interessa, em seu caminho rumo a Winnicott.

Winnicott com Bion: em ambos surge muito do que foi abordado nas pesquisas pós-freudianas, sobre as origens, os limites e as múltiplas funções do sonhar. E, em Bion, “se há uma teoria do pensamento como ponto de fuga da constituição estrutural do sentido psíquico humano, a origem de todo pensar está fundada sobre a capacidade de sonhar” (p. 94). Winnicott comentou com Bion o grande impacto que sentiu no contato com suas idéias, pois há anos já trabalhava com os problemas da ruptura, do ataque ao sonhar e de suas possibilidades de sua recuperação; ele parecia estar às voltas com o mesmo ponto no qual Bion pensou em uma matéria psíquica que não serve à experiência. Mas, em Winnicott, há uma

nova teoria do desenvolvimento emocional primitivo e das condições metapsicológicas do ambiente, uma teoria da função materna levada às últimas conseqüências, que ganha textura, realidade […] frente à abstração conceitual […] que é a rêverie bioniana (p.194).

Tales com Freud: além de todas, inúmeras, referências a Freud, há um trabalho específi - co, cuidadoso e fortemente investido em seus sonhos, indo e voltando, seguindo um mesmo sonho ao longo dos anos (p. 289 a 290), acompanhando, nessa trajetória, os novos alcances na teorização. No capítulo dedicado a Freud, Tales conclui, a partir do sonho da “sepultura etrusca”, que este é “um sonho epistemológico da psicanálise, que não desenha apenas o livro dos sonhos, mas, também, o próprio campo psicanalítico…” (p. 275). Temos, neste momento que assinalo, um feliz exemplo de tudo o que um sonho pode oferecer ao pensamento, quando é trabalhado, com dedicação, nas enredadas malhas da obra, assim como o pode a aliança entre vários sonhos ao longo de um tempo (p. 290 a 298).

Ainda neste capítulo, “Freud e o outro sonho”, tomando em mãos o texto “Futuro de uma ilusão”, Tales vai estabelecendo a conexão com a pulsão de morte, enveredando por “Além do princípio do prazer”, a partir do qual “os sonhos não operariam como a fala do reprimido, mas como repetições do ainda não elaborado, ainda não pensado…” (p. 287). Esse percurso também origina uma concepção própria do autor, vinculando, agora, Freud com Winnicott (em uma de várias aproximações). No relato do uso da espátula com um bebê que tinha espasmos brônquicos, diz-nos Tales: “tal energia única, que ataca os pulmões ou serve ao brincar, de nosso ponto de vista, é a libido freudiana, força movente de toda pulsão que, aqui, Winnicott reconhece em seu momento fundante […]” que, ou poderá marcar o choque da pulsão não capturada, ou poderá ser simbolizada, em um processo que só se dá “pela ligação amorosa com o objeto e o ambiente humano precisamente disponíveis à experimentação no tempo” (p. 147-8). Tales também examina uma nota de rodapé no texto do “Além…”, quando Freud, no jogo do fort-dá, descreve a experiência psíquica de um bebê, e nos diz que aí está, a seu ver, uma primeira formulação da lógica dos fenômenos transicionais.

Ao mesmo tempo, o autor marca as diferenças entre os dois psicanalistas, sendo uma delas, justamente, a signifi cativa – e cheia de conseqüências – questão da pulsão de morte, que, para Winnicott, não faz o menor sentido como movimento (ou ausência de) pulsional.

Um percurso inédito pela obra de Winnicott

Tales faz uma travessia não cronológica, mas histórico-conceitual pela obra de Winnicott, enveredando por caminhos laterais, por desvios, pelas pequenas notas ao pé de página, pelos pontos de intersecção na teoria, acompanhando, de dentro da clínica do analista, várias nascentes conceituais, constituindo, assim, um livro dentro de seu livro, um livro dedicado a Winnicott. O autor relaciona-se com Winnicott, de forma viva e íntima, como quando escreve que o analista, diante da falência do sonhar, recorreu à noção de gasto de energia, mas que não era necessário, pois “a partir de suas próprias construções teóricas […] redescreve estes fenômenos, com nítida vantagem […]” (p. 193-4), como quem diz:

veja só, meu caríssimo amigo, o senhor não percebeu que não era preciso isso… o senhor deixou de usar o que já tinha concebido do seu jeito […] logo o senhor, que sempre dizia que é importante falar do seu próprio jeito! Bem, escapou, não é?

Vou mencionar apenas alguns pontos, entre os tantos que Tales aborda, por me parecerem, estes, traços muito próprios ao psicanalista inglês do middle group.

Além da maternagem (que é a função estrutural e estruturante da presença materna), há, na teoria de Winnicott, um diferencial em relação a outros pensamentos, na medida em que aí encontramos, cristalinamente afirmado, que o bebê tem seus próprios movimentos psíquicos e que são justamente estes os que são sustentados “pelo holding e no espelhar humano da mãe viva” (p. 189-90).

Outro ponto: a psicose. Há uma esclarecedora conversa de Winnicott com Maud Mannoni em que este diz que, muito freqüentemente, temse a preocupação em corrigir, de “pôr em pé” um sujeito que pede uma ruptura e que deve poder existir, primeiramente, na recusa (p. 159, nota de rodapé); nesta medida, os delírios devem ser acolhidos e acompanhados, pois são, também, expressão de uma experiência singular de estar no mundo. Diga-se, de passagem, que Mannoni incorporou as idéias de Winnicott quando da criação da escola de Bonneiul para crianças psicóticas.

E mais outro ponto, intimamente conectado: o delírio, bem como a alucinação e as dissociações psíquicas “surgem onde o objeto subjetivo foi roubado ao sujeito criativo da pulsão, impedindo um certo campo de apresentação do ser no mundo, campo da emergência dos fenômenos transicionais” (p. 182). Toda a matéria psíquica que recebe representação no brincar, que ganha compartilhamento humano – da mesma forma que no sonho – é a mesma que pode surgir como matéria absolutamente subjetiva, alucinação, matéria onírica que desconhece o contato com o mundo. Temos, assim, uma concepção de distúrbios psicopatológicos que se enraízam nas origens, com o acento colocado no mecanismo da dissociação. “A clínica da dissociação de Winnicott ganha uma temporalidade psicanalítica radical, que engloba relações inusitadas de tempo e de sentido ao longo de toda a experiência humana” (p. 212, nota 99). A dissociação básica na vida humana é aquela que ocorre entre o sono e a vigília, na medida em que a integração entre uma criança que dorme e uma criança acordada é um trabalho que se dá com o tempo, na sustentação do adulto; a experiência de sonhar e de lembrar do sonho marca, justamente, uma quebra da dissociação. Sonho, sono e vigília caminham juntos na direção da integração do self, na condição imprescindível da presença ambiental e objetal de outro humano vivo; por outro lado, em sua ausência, há o sonho rompido, a falência do sonhar e a prevalência de matéria dissociada. Winnicott dedicou-se particularmente a esse tipo de distúrbio no qual o espaço do sonhar não se constitui, colocando em risco o processo global de desenvolvimento.

A passagem da dissociação à integração, do sonho rompido ao sonhar do self, além de ser operada no tempo, também o é em um espaço: a zona de ilusão entre o bebê e a mãe.

A ilusão


Encontramos, em Winnicott, a abertura de um espaço inédito entre a percepção e a apercepção: reinvindico, diz-nos ele,

um estado intermediário entre a inabilidade de um bebê e sua crescente habilidade em reconhecer e aceitar a realidade; estou, portanto, estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê, e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião (p. 163).

Este estado de ilusão, esta área intermediária, é uma zona de compromisso, na qual não se coloca a questão, onde nem faz sentido pensar em termos de “ou”: ou criada pelo bebê ou aceita como parte da realidade percebida. Com o tempo – e com a sobrevivência do objeto aos desajeitados movimentos pulsionais de voracidade e de ataque do bebê – o sentido do que é subjetivo e do que é objetivo vai se desdobrando, sem que jamais ocorra, entre estes, uma separação defi nitiva e absoluta, formando toda uma gama de possibilidades psíquicas, que desliza sobre a zona de ilusão, dando origem a um contato criativo com o real. A ilusão “também faz transmutar o psiquismo do sonho que nega a realidade e a realidade psíquica, ao sonho que inclui o mundo e os termos possíveis da realidade, sonho desejante” (p. 164).

A ilusão é, assim, a responsável pela própria instalação do aparelho psíquico, o aparelho que permite que pensamentos desejantes se expressem em sonhar e não invadam a vida de vigília e que esta caminhe orientada pelas fontes do desejo, em uma realidade compartilhada.

Winnicott, no início dos anos 1970, apresenta seu livro Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil; neste, os relatos clínicos revelam, como nunca até então, a habilidade do terapeuta para chegar ao momento em que os sonhos emergem em seus pequenos pacientes, sendo então apanhados em mãos gentis. Esse livro está atravessado por toda a teoria winnicottiana do acesso ao sonhar na confi ança e na ilusão, e do sonho como acontecimento integrador do self e do mundo. Tales nos diz que está mesmo convencido de que estas “Consultas” se constituem no livro dos sonhos de Winnicott, pois estariam “para seu pensamento, como o livro dos sonhos de Freud está para a fundamentação de sua psicanálise” (p. 169-70).

E com esta bela idéia um restaurador do sonhar presenteia um seu próximo, um pescador de sonhos.

Breves considerações finais

Finalizo com uma tentativa de contribuição pessoal, um convite.

Convido o autor para, nas próximas edições – que certamente ocorrerão – pensar na possibilidade de rever a questão da distância entre ego, em Freud e self, em Winnicott, pois há, em alguns momentos, uma passagem mais direta entre esses conceitos do que ele próprio almeja (e realiza!) em outras situações da escrita. O convite também segue, nesses termos, para o que ocorre na passagem de pulsão em Freud e de pulsão em Winnicott, na medida mesmo em que este insiste em diferenciá-la de necessidade, extraindo, a partir dessa diferença, todo um processo temporal no qual essas excitações podem ser disruptivas enquanto o ego não pode integrá-las.

Ambas as observações não me parecem alheias ao trabalho extremamente cuidadoso de Tales, na medida em que se apóiam, inclusive, em uma referência dele próprio, a um livro de Maurice Dayan (L’ arbre des styles). O que é assinalado particularmente, em Dayan, são as denominadas “distâncias internas” dentro da própria obra freudiana e a noção de “estilos” diferentes que dão a distância entre os diversos autores em psicanálise, aspectos aos quais, por outro lado, em muitos outros momentos, Tales está muito atento.

E, nos rastros de Winnicott, que em seu caminhar nos ensina que a discriminação do que é subjetivo e do que é objetivo não se dá de forma irrestrita ao longo da vida, será que o convite que faço a Tales emerge de uma sobreposição de áreas intermediárias, a sobreposição que faz com que uma experiência pessoal possa ser uma experiência compartilhada? Será que emerge de algum espaço de ilusão entre minha leitura e o seu “sonhar resgatado”?
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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