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Resumo
Resenha de Flávio Carvalho Ferraz, Rubens Volich e Wagner Ranña (org.), Psicossoma III Interfaces da Psicossomática, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003, 464 p.


Autor(es)
Felipe Lessa da Fonseca
é psicanalista, doutor em Psicologia pela PUCSP e Coordenador de Grupo de Pesquisa no Laboratório de Saúde Mental Coletiva (LASAMEC) da Faculdade de Saúde Pública da USP.

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 LEITURA

Opiniões sobre o espírito extenso

Felipe Lessa da Fonseca


Resenha de Flávio Carvalho Ferraz, Rubens Volich e Wagner Ranña (org.), Psicossoma III Interfaces da Psicossomática, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2003, 464 p.

Como resultado do iii Simpósio de Psicos somática Psicanalítica, realizado no Sedes Sapien tiae em 2001, o livro Psicossoma iii, publicado junto à Casa do Psicólogo, reúne 27 autores que apresentam um instrutivo leque de opiniões sobre o assunto. Organizada por Rubens M. Volich, Flávio C. Ferraz e Wagner Ranña, esta coletânea, visto a qualidade de seus textos, merecia ter sido resenhada logo após sua publicação em 2003. Com cerca de 450 páginas, os artigos distribuem-se por regiões temáticas, numa edição de grande utilidade para clínicos e pesquisadores. O livro vai da epistemologia psicanalítica, passando por considerações sobre os processos psicossomáticos da infância e da adolescência, sem que faltem momentos líricos e comoventes em sua leitura. Além de levar em conta os fenômenos conversivos da histeria, apresenta artigos sobre questões relativas às patologias específi cas, discute aspectos práticos do trabalho psicanalítico e refl ete a respeito da atuação médica sobre o corpo e seu adoecimento.

Paulo Schiller e Sidnei J. Castro circunscrevem os limites teóricos do campo psicanalítico da psicossomática. As condições etiológicas do adoecimento somático são refl etidas segundo as causalidades psíquicas e orgânicas, tendo em vista o curso e o prognóstico das doenças. Wagner Ranña e Th emis Regina Winter sublinham a importância das relações intersubjetivas na saúde mental e somática infanto-juvenil. As possibilidades de simbolização, dada a qualidade das relações parentais, são vistas como determinantes do desenvolvimento da criança. As funções materna e paterna são analisadas no sentido de indicar a importância de seu papel nos processos psicossomáticos. Mariane Telles Silveira nos oferece um exemplo claro da grande infl uência da maternagem no estabelecimento de condições intersubjetivas propícias ao adoecimento, apresentando um caso clínico onde sintomas somáticos (eczemas) puderam ser diluídos a partir da possibilidade de simbolização dos confl itos familiares de uma paciente.

O “corpo histérico” e as implicações da histeria são refl etidos por Silvia L. Alonso, que retoma os grandes argumentos de Freud e os contextualiza nos dias de hoje. Seu artigo nos dá a ver a atualidade das observações freudianas, além de mostrar como o modelo da histeria encontra-se no centro dos problemas psicossomáticos nas neuroses. Lia Pitliuk também se ocupa do problema das relações entre a vida psíquica e as vivências corporais na histeria, debatendo a complexidade das relações corpo/mente tal como são compreendidas pela psicanálise. Neste artigo, o debate psicossomático é alimentado pelas posições monistas do fi lósofo Bento Espinosa e dualistas do psicanalista Ricardo Rodulfo, tudo ilustrado por um interessante caso clínico. Vale notar a importância da retomada do tema da histeria, visto que a psiquiatria contemporânea não contempla a histeria entre seus quadros nosográfi cos. Parece razoável dizer que os fenômenos histéricos fi caram restritos aos chamados Transtornos Somatoformes e/ou aos Transtornos Dissociativos, quando não a outros.

Considerando o espectro de relações entre as fantasias e o adoecimento do corpo, não poderiam faltar observações sobre a hipocondria. Maria Helena Fernandes comenta as vicissitudes dos sintomas hipocondríacos desde as neuroses até as psicoses, observando o interesse ansioso e a atividade delirante em torno da doença corporal. O masoquismo primário e o auto-erotismo são refl etidos no sentido de apontar a hipocondria como um modelo útil para a compreensão das somatizações. Pela mesma linha de argumentação, Rubens M. Volich observa como a hipocondria, no pensamento de Freud, relaciona-se aos diferentes quadros patológicos e, insistindo na dinâmica narcísica própria à experiência hipocondríaca, aponta para a razão e pertinência das sensações corporais dos pacientes hipocondríacos.

As complicações alimentares também tocam o corpo e a vida psíquica dos sujeitos. Mario Pablo Fuks, falando das anorexias, e também das bulimias, sintomas mais comuns entre as mulheres, retoma a tese de que a perturbação da imagem corporal da paciente decorre da problemática edípica. As difi culdades do relacionamento mãe/fi lha levam às complicações narcísicas que tendem à identifi cação maníaca com um “ideal de magreza” que recobre a fragilidade do corpo que adoece por falta de alimento. Depois de refl etir sobre algumas implicações do princípio de prazer e do princípio de realidade, Cássia A. N. B. Bruno apresenta um caso clínico, no qual também podem-se ver as difi culdades identifi catórias da paciente com sua mãe, levando a importantes distúrbios alimentares. Já Aline C. Gurfi nkel aproxima o transtorno alimentar diretamente às fobias. Questões relativas à feminilidade, à oralidade e à angústia são apresentadas num caso clínico cuja sintomatologia não se reduz nem às fobias em geral, nem aos chamados transtornos alimentares tal como mais comumente são descritos.

Nas fronteiras entre a psique e o soma não poderiam faltar comentários sobre o sono e o sonho. Nayra C. P. Ganhito faz uma série de observações sobre o dormir nos dias de hoje, sublinhando a importância e a delicadeza da retração narcísica durante o sono. A autora aponta para o papel da mãe no estabelecimento do sono desde a primeira infância, mostrando como o embalo do sono condiciona os fl uxos libidinais, marcados pela saciedade oral e pelo equilíbrio da presença/ausência da mãe que guarda o sono do bebê. Também articulando as interfaces das questões psicossomáticas, Décio Gurfi nkel explora os pensamentos de Freud e de Winnicott em torno das relações entre o sono e o sonho. O equilíbrio psicossomático é entendido como sendo articulado pelo sonho que, por sua vez, é enquadrado pelo sono. O sonhar não apenas garante o sono e o dormir, mas opera os deslocamentos das necessidades para os desejos, entre o eu e a experiência corporal. Assim, o autor refl ete sobre o papel do sono-sonho na reorganização do psiquismo face às exigências da realidade, seja no adormecer ou no despertar, questionando as diferenças entre a regressão narcísica de que fala Freud e o retraimento patologicamente independente de que fala Winnicott, processos que ocorrem também no adoecimento somático. Ainda tratando do sono, mas das difi culdades para dormir, Mário E. Costa Pereira escreve sobre a insônia a partir de uma bela análise de Macbeth, de Shakespeare. O perturbado sono de Macbeth, que se deixará levar pelo Mal disparado em seu espírito, assassino edipiano, não contava mais com o Outro para apaziguar seus sonhos. Desiludido e assolado pelo desamparo, sofria com o espectro da morte na insônia, e com a impossibilidade de sonhar. A aproximação poética entre o sono e a morte, entre o orgasmo e a morte, aponta para a força das pulsões que, além de cumprirem o circuito auto-erótico, despertam a censura, clivando o sujeito que assim não consegue mais conciliar o repouso, levando à morte do sono.

Ao pensar as possíveis clivagens entre psique e soma, Renata U. Cromberg localiza na ruptura psicossomática o problema do adoecimento corporal. A autora, apoiando-se em Liberman, observa como os pacientes psicossomáticos apresentam um self ambiental sobre-adaptado em detrimento de um self corporal subjugado. As fantasias onipotentes, desde a primeira infância, alimentam a estereotipada sensatez com que o sujeito busca atender e superar sua realidade, negando seu corpo, e obliterando suas possibilidades de elaboração, o que leva ao sintoma somático, mas que é também um sinal da forma “psicótica” de vida pela qual o sujeito coteja o suicídio e faz a morte ecoar em seu corpo. Flavio C. Ferraz também se ocupa dos pacientes que adoecem pela excessiva adesão à realidade em detrimento da vida subjetiva. Pensando a normopatia, de que fala Joyce McDougall, o autor debate a tênue fronteira entre o normal e o patológico, entre a saúde e a doença, indicando a importância dessa categoria diagnóstica no tratamento de pacientes cuja incapacidade de simbolização os coloca sob o risco tanto de graves somatizações como da psicose. Depois de observar a importância das neuroses operatórias de Pierre Marty, comenta os desenvolvimentos psicanalíticos sobre esse tipo psicopatológico, lembrando as noções de alexitimia, de Sifneos, de desafetação, também de Joyce McDougall, de recalcamento do imaginário, de Sami-Ali, e de sobreadaptação de Liberman. Com Winnicott, sublinha a vulnerabilidade dos sujeitos que, fortemente ligados à realidade objetivamente percebida, como uma defesa contra a psicose, evitam o contato com a vida subjetiva. Um exemplo de Jung termina de ilustrar como o espectro da normopatia cria o solo fértil e delicado dos adoecimentos psicóticos e psicossomáticos.

A angústia e as reações somáticas do pânico são pensadas por Maria Luiza S. Percicano, sugerindo serem as relações entre a catástrofe primordial, o desamparo e a angústia automática que articulam as condições dos processos psicossomáticos. Também Rubens M. Volich dedicase a traçar as linhas gerais de uma semiologia da angústia nos processos psicossomáticos. As experiências traumáticas, o desamparo e a apatia são vistos não apenas como condicionantes da angústia sinal, como antecipação do perigo imaginado, mas como angústia difusa, desorganizadora do eu e das funções psicossomáticas. A atonia depressiva das crianças, o sonambulismo, e mesmo a asma, o eczema, as úlceras e as cefaléias são pensadas em relação à possibilidade de o sujeito experimentar sua angústia em relação aos objetos, ao passo que doenças evolutivas mais graves, como as auto-imunes, o câncer e as doenças cardíacas – como sugere o autor inspirando-se em Marty – estariam geralmente ligadas à desorganização progressiva do eu e as neuroses malmentalizadas.

As cefaléias tensionais e as enxaquecas são discutidas por Wilson de C. Vieira, que indica suas relações com o aprendizado na infância e com o saber e o controle na vida adulta. Segundo Marty, a mio-cefaléia é associada às experiências de difi culdade escolar e ao impacto das incompreensíveis descobertas causadas pela curiosidade sexual infantil. A enxaqueca, por sua vez, é pensada como um esforço de controle intelectual, de caráter anal, das situações do dia-a-dia. À moda das alergias, o sujeito tenta lidar com a não-distinção do estranho e, tomado pelas disputas cotidianas, faz pulsar suas dores de cabeça. Um caso do Ambulatório de Somatizadores é apresentado por Cristiane C. Abud, no qual múltiplos sintomas de dor física são tratados tendo em vista o universo de fantasias e os destinos pulsionais de uma paciente poliqueixosa. Entre as neuroses atuais e as hipocondrias, a autora analisa a história de vida de uma paciente e considera os traços depressivos que assolam suas representações com relação à mãe, indicando a pluralidade de fatores etiológicos que podem estar envolvidos nas somatizações.

Bernardo Bitelman comenta alguns aspectos psicossomáticos da pele, desde a formação embrionária desse grande órgão sensorial até as complicações dermatológicas do adulto. O autor apresenta um panorama dos problemas fisiológicos da pele, indicando suas relações com a psicossomática psicanalítica. Também ocupada com a psicanálise da pele, Sônia M. R. Neves, partindo do conceito de eu-pele de D. Anzieu, vai das funções orgânicas da pele às suas funções psíquicas: a sustentação, ligada aos apoios internos e às angústias de vazio pela sensação de falta de suporte; o continente, ligado à delimitação do corpo e as angústias difusas; a proteção, como a capa que defende o sujeito do meio, ligada às angústias paranóides; a individualização, que confere pela aparência a marca distintiva do sujeito; a sensualidade, pela qual a sensibilidade e o prazer produzem sentido na vida psíquica; a comunicação, pela qual transmitem- se experiências e estabelecem-se contatos; e, fi nalmente, a autodestrutividade, que, por um viés masoquista, leva a pele a servir como órgão de ataque do próprio sujeito. O eu-pele, portanto, é visto como um conceito fronteiriço entre o psiquismo e o corpo, pois a pele, além de conferir o sentido de si, é portadora das memórias e das marcas fantasmáticas do sujeito.

Mais cinco artigos abordam aspectos clínicos em psicossomática. Márcia de M. Franco faz um apanhado das questões relativas ao enquadre analítico, observando a importância da mente do analista na transferência e sugerindo o valor do olhar e das percepções corporais fora do divã. Andréa Satrapa aponta para o papel transicional do relato de histórias no atendimento de pacientes hospitalizados quando, dada a brevidade das internações, não é possível o desenrolar das condições clássicas do tratamento psicanalítico. Uma cirurgiã, Maria José F. Vieiras, narra o comovente caso de Suzana, paciente que, devido a uma neoplasia de cólon, falece ao fi nal do tratamento. Vida e morte são pensadas pela autora que não poupa sua narrativa dos detalhes transferenciais que dão ao leitor uma boa dimensão do papel central da pulsão de morte nos processos psicossomáticos.

Mario A. De Marco tece considerações sobre as interconsultas no trabalho hospitalar, apontando os grandes problemas psicológicos aí enfrentados: desde a comunicação entre os especialistas até a relação com os familiares, passando pela morte e pelos dilemas éticos da prática médica. Concluindo o livro, Ângela F. C. Penteado situa historicamente a psicanálise junto às práticas médicas e, observando as contribuições de Groddek, Spitz, Ferenczi e Balint no trabalho hospitalar, foca sua refl exão no trabalho das equipes interdisciplinares que, pelo reconhecimento de seus próprios medos e desejos, encontram condições favoráveis para o cuidado psicossomático dos pacientes a que atendem.

Dos parâmetros epistemológicos da psicossomática psicanalítica às práticas interdisciplinares, o livro Psicossoma iii é certamente um esforço signifi cativo no sentido de abordar um dos problemas mais complexos da saúde humana e, por que não dizer, da fi losofi a. As relações entre a coisa extensa e a coisa pensante, como dizia Descartes, ou entre o orgânico e o psíquico, entre o físico e mental, como gostamos de dizer hoje, sem dúvida, são um problema que ainda não foi resolvido. Entretanto, esta coletânea de artigos nos oferece alguns recursos para lidarmos, de um ponto de vista psicanalítico, com os efeitos que nossas fantasias produzem sobre os usos e as tensões de nossos corpos.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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