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Resumo
Resenha de Daniel Kupermann, Presença sensível: cuidado e criação na clínica psicanalítica, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008, 250 p.


Autor(es)
Eurema Gallo de Moraes
é psicóloga, psicanalista, doutora pela Universidad Autonoma de Madrid (Espanha), membro pleno da Sociedad Psicoanalitica Del Sur (Buenos Aires, Argentina), membro pleno da Sigmund Freud Associação Psicanalítica de Porto Alegre, coautora de Neurose: leituras psicanalíticas, Mônica M. Kother Macedo (org.); Eurema Gallo de Moraes… [et al.]. 3.ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

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 LEITURA

Sensibilidade para psicanalisar

[Presença sensível: cuidado e criação na clínica psicanalítica]


Sensibility to analyze
Eurema Gallo de Moraes

O livro Presença sensível: cuidado e criação na clínica psicanalítica vem ocupar um lugar privilegiado na estante da psicanálise contemporânea. O autor, o psicanalista Daniel Kupermann, constrói sua trajetória tanto na atividade acadêmica, como no exercício da clínica, investindo em uma produção teórica consistente, fértil e criativa, já observada em suas publicações anteriores: Ousar rir: humor, criação e psicanálise (Civilização Brasileira) e Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições (Revan). Agora, em Presença sensível apresenta seus ensaios psicanalíticos alinhavando conceitos teóricos à escuta analítica. Distante da obviedade, o texto que resulta neste livro é de um autor que lê, lê muito, mas é capaz de transformar o que lê fazendo, assim, intervenções nos legados teóricos da psicanálise que sustentam suas ideias. Não apenas relê Freud, Ferenczi, Winnicott e alguns dos seus principais comentadores, mas o faz de maneira crítica, como é a atitude de um analista comprometido com a psicanálise. Na esteira das proposições dos precursores, sustenta seus argumentos, amplia suas inquietações e produz esses ensaios, que desalojam o leitor de seus saberes constituídos, do agir previsível e das interpretações fabricadas em série. Daniel proporciona atividade a seu leitor, correspondente ao leitor ativo que é.

Assim, na primeira parte, A formação do psicanalista, o autor apresenta um balanço de resultados do movimento psicanalítico. Por um lado, não tem dúvidas do lucro proporcionado pelo espírito subversivo que permeia as descobertas freudianas do inconsciente, sexualidade infantil, recalcamento e transferência, as quais proporcionaram uma rotação psíquica não apenas no entendimento do homem como, também, da sociedade, da cultura e da política. Por outro, enfatiza o prejuízo visível do modelo que norteia a maioria das instituições psicanalíticas em relação à formação dos analistas. Kupermann é um crítico atento do engessamento das ideias, da obediência ao padronizado e da servidão transferencial. São fortes suas observações, mas também é consistente a proposta de um novo arranjo institucional que oferece: a transferência nômade no campo psicanalítico. Ser nômade, como psicanalista, é transitar livremente nos espaços institucionais, implica ter autonomia no intercâmbio de modos de pensar e de expressar as diferenças, é conquistar a liberdade de criar no exercício do psicanalisar.

Na parte II, Clínica e metapsicologia, Daniel Kupermann expõe a fecundidade das suas reflexões acerca do encontro entre analista e analisando. Espera-se que, na clínica psicanalítica, a potencialidade do campo transferencial assegure que o analisando possa manifestar suas estranhas formas de padecer e encontre, na sensibilidade da escuta do outro, o suporte da ética do cuidado. A direção da clínica está no duplo trânsito entre o “não saber” do analista e o que pode “vir a ser” do analisando. Assim, o autor enfatiza as possibilidades de construção no processo de análise, nesse exercício entre dois. Reconhece ser no campo transferencial que o trabalho psíquico do analista proporciona efeitos terapêuticos, ou seja, abre vias facilitadoras ao analisando para que este possa encaminhar um novo saber sobre si. Nessa presença sensível instala-se a escuta do cuidado e a criação de sentidos compartilhados na experiência psicanalítica.

Na parte III, Trilogia ferencziana, acompanha se a maneira inteligente como o autor articula suas observações sobre o filme Fale com ela, de Pedro Almodóvar, a certas passagens do Diário clínico de Ferenczi. A criatividade dessas associações remete à complexidade das demandas da clínica contemporânea, que desafiam a sensibilidade e o tato na escuta dos psicanalistas. Na equação falar – escutar – silenciar, Kupermann tece suas reflexões acerca de três momentos de uma palavra de ordem que recai sobre o analista: “Fique quieto!”; “Fale dela!”; e “Fale com ela!”.

A primeira palavra de ordem remete à necessidade de que o analisando encontre, no “silêncio” da escuta do analista, uma ressonância para suas versões psíquicas de dor. A segunda refere-se às vicissitudes no dispositivo transferencial marcado, com uma frequência desconcertante, por desdobramentos e equívocos que transformam a arte da escuta em uma ciência da interpretação. A teatralidade do silêncio do analista desperdiça a potencialidade da livre associação. Ao recuperar a linha sensível que contorna as questionáveis contribuições à técnica desenvolvida por Ferenczi, Daniel vislumbra o vigor a ser descoberto no “diálogo psicanalítico”: o jogo da proximidade psíquica entre os parceiros restitui a compreensão necessária e livre na alteridade da escuta. Assim, a palavra de ordem “fale com ela!” impõe-se na linguagem da ternura, subtraindo a força tirânica da linguagem da paixão. Por meio da presença sensível do analista, é possível capturar e deixar circular o que se mostra muitas vezes ausente na palavra, mas presente em outras formas de expressão do sofrimento psíquico.

A qualidade da leitura por meio da qual o autor incursiona nas páginas do Diário clínico de Sándor Ferenczi evita que partes importantes desse legado à psicanálise e aos psicanalistas se desperdicem em interpretações apressadas ou em leituras equivocadas. Todo trabalho de apropriação de uma herança requer que se separe o valioso do idealizado, o fecundo do árido, o rançoso do aproveitável. Daniel aproveita a estrutura que alicerça a obra ferencziana para assentar suas considerações acerca do jogo que é o psicanalisar. Daí resulta seu corajoso ensaio “A libido e o álibi do psicanalista”. Volta-se mais de uma vez à leitura deste capítulo.

A atualidade das contribuições ferenczianas é também destacada no ensaio “A progressão traumática: algumas consequências para a clínica na contemporaneidade”, no qual Kupermann indica a relevância do conceito de trauma tanto em relação ao processo de constituição subjetiva da criança, como na constituição das manifestações de sofrimento que invadem a atualidade. A esperança para esse sujeito – cria do abandono do desmentido – é que encontre no analista uma referência afetiva possível de inaugurar outras configurações no viver.

Na parte intitulada Psicanálise, criação e cultura, o dispositivo acionado pelo autor reside em duas questões de base: “De que maneira a experiência clínica pode facilitar a emergência de processos criativos aos que a ela recorrem?” e “De que modo o psicanalista se vê implicado na possibilidade de resistência e de criação na clínica?”. Assim, convoca seu leitor a acompanhá­ lo no percurso de uma argumentação consistente, tecida por meio da articulação das obras de Freud, Ferenczi e Winnicott. Ao traçar um alinhamento das suas ideias com autores contemporâneos, Daniel busca também uma interlocução com a filosofia. Suas reflexões testemunham o quão é valiosa a sensibilidade no ofício da clínica e como se encontra na sublimação, no humor e no brincar os recursos necessários ao exercício da alteridade para o qual o psicanalista é convocado.

Na última parte do livro, Psicanálise e educação, Daniel Kupermann assina com leveza e entusiasmo a seriedade e o rigor que atravessam as páginas do livro Presença sensível. Ao reconhecer o recurso do humor no campo psicanalítico, inscreve-o na contiguidade com o espaço da criação estética, como também na elasticidade necessária à compreensão nas dimensões da ética e da política presentes na clínica psicanalítica. Assim, oferece inspirações suficientes para que o psicanalista possa brincar de “Juquinha”, ou seja, possa experimentar “a capacidade de afetar e ser afetado pelo outro” e, nesta brincadeira, descobrir a vacina contra o contágio da hipocrisia no ofício de psicanalisar.

É uma satisfação recomendar a leitura deste livro que, sem dúvida, será muitas vezes revisitado por aqueles profissionais que não se cansam de se surpreender com as produções de sofrimento psíquico encontradas na cultura contemporânea e seus desafios à criatividade estética do cuidado. A esperança para esses analisandos é, efetivamente, encontrar na escuta sensível do analista a ressonância necessária para criar outros e novos caminhos de acesso ao viver criativo.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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