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Resumo
O artigo trabalha o conceito de campo transferencial elaborado por Fabio Herrmann. Para a Teoria dos Campos, a transferência constitui- se como um campo que implica também a contratransferência, retirando do conceito psicanalítico tradicional de transferência o caráter de fenômeno interno e repetitivo.


Palavras-chave
Teoria dos Campos; transferência; contratransferência; Fabio Herrmann.


Autor(es)
Leda Herrmann


Notas

* Este artigo, com algumas modifi cações, foi apresentado em mesas-redondas de dois eventos: em 1998, na I Jornada Psicanalítica de Aracaju (ABP), e no I Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos, São Paulo, 1999.

1 Cf. F. Herrmann, Andaimes do real: o método da Psicanálise, Partes I e II, e Clínica psicanalítica: a arte da interpretação, cap. 2 e 5.

2 O exemplo extraído de minha clínica integra o artigo “Da interpretação na Teoria dos Campos: condições e conseqüências”, em colaboração com Fabio Herrmann e publicado em Psicanálise brasileira – brasileiros pensando a Psicanálise.

3 S. Freud, Sobre o início do tratamento, p. 168.



Referências bibliográficas

Freud S. (1996). Sobre o início do tratamento. Jornal de Psicanálise, vol. 29, no 54. Trad. Paulo César Lima de Souza.

Herrmann F. (2001). Andaimes do real: o método da Psicanálise. 3.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Herrmann F. (2003). Clínica psicanalítica: a arte da interpretação. 3.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Herrmann L. e Herrmann F. (1995). Da interpretação na Teoria dos Campos: condições e conseqüências. In: Oiteiral J. O. e Th omaz T. O. (orgs.). Psicanálise brasileira – brasileiros pensando a Psicanálise.





Abstract
This paper deals with Fabio Herrmann’s concept of Transferencial Field. According to the Multiple Fields Theory, transference is considered as a fi eld that also implies the counter transference. In this case, the traditional concept of this process in Psychoanalysis loses its character of internal and repetitive phenomenon.


Keywords
transference, countertransference, Theory of the Fields, Fabio Herrmann.

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 TEXTO

Campo transferencial

nos rastros de uma teoria para a clínica *


Transferential field
on the spurs of a theory upon the analyst´s work
Leda Herrmann

A Teoria dos Campos defi ne a transferência como campo, 23 envolvendo nele, no campo transferencial, imediata e indiscernivelmente, a contratransferência. Como campo, tanto transferência como contratransferência perdem, portanto, a condição de serem tomadas como um conjunto de relações e como fenômenos. O tema do campo transferencial é tratado, ao longo da produção escrita de Fabio Herrmann, no âmbito da construção de uma teoria para a clínica, derivada diretamente da refl exão sobre o método psicanalítico em operação na sessão de análise [1]. São construções teóricas que não se prestam para a constituição de um saber objetivado sobre o sujeito enquanto sujeito, mas para a peculiar situação vivida na sessão analítica de um homem em crise de auto-representação, o Homem Psicanalítico. Penso ser válida a afi rmação de que esta teoria para a clínica constrói noções e conceitos operacionais propiciados pelo método.

Uma breve consideração sobre o conceito de campo transferencial

A concepção psicanalítica mais corrente de transferência e contratransferência considera-as como fenômenos internos, repetitivos, passionais que se atualizam na relação transferencial e cuja ocorrência precisa ser detectada e denunciada pelo analista para que o trabalho analítico possa se dar.

A Teoria dos Campos considera a transferência como uma forma de apreensão do discurso humano que permite a revelação de seus valores inconscientes, por propiciar o surgimento de sentidos possíveis que aquele discurso compreende. Implica essa apreensão uma escuta peculiar por parte do analista, que põe de parte o valor intencional consciente aprisionador da fala do paciente no assunto ou tema tratado pelo diálogo estabelecido entre os dois. Abre-se a escuta analítica para os sentidos marginais contidos naquela comunicação e evidenciados pela justaposição de assuntos aparentemente aleatórios, pelo tom discrepante de uma frase, por um lapso ou um trocadilho involuntário, por uma espécie de ruptura de significação. Esses sentidos possíveis que emergem na escuta analítica vão denunciar vivamente os limites consensuais da identidade do par analítico. Isto é, as representações vigentes para analisando e analista acoladas ao tema do diálogo, desvestidas da exclusividade de serem as únicas, abrem a potencialidade de signifi cações nelas contidas. Tal dissolução de limites identitários poderia, em princípio, revelar qualquer conjunto de pressupostos ocultos ou ordens inconscientes, desde conjunções históricas e sociais, até aspectos psicológicos mais ou menos triviais. Mas a atenção interpretativa, ou a escuta peculiar do analista, busca as conotações emocionais apontadas pelo dizer do paciente. É o campo transferencial que constrói, de tais conotações, um sentido outro, cujo choque interpretativo com as representações conscientes de analisando e de analista denuncia os limites arbitrários de suas representações de identidade, deixando que surja uma crise representacional do par.

Dito de outro modo, a Teoria dos Campos pensa a transferência não como um fenômeno a aparecer ou não na sessão analítica, mas como uma forma de apreensão do discurso humano, que deixa vazar a lógica inconsciente de sua construção. Do ponto de vista teórico e metodológico, a transferência, entendida como condição de interpretar, inaugura um campo abrangente e constante, o campo transferencial, onde o par analítico se disporá de acordo com o sentido afetivo-disposicional do discurso do paciente com respeito ao analista: par sadomasoquista, pai e fi lho, interlocutores desencontrados, amantes etc. É pela ação do campo transferencial que o analista vai decifrando ao longo do tempo estruturas lógico-emocionais organizadas do paciente, inicialmente ocultas ou inconscientes.

O campo transferencial, que se apreende na escuta do analista e se revela por sua atividade interpretante, propiciando crises representacionais do par analítico, vai se constituir no suporte da ação terapêutica do trabalho analítico. É nele e por ele que o paciente pode experimentar choques de representações e mudanças em suas auto-representações. Por causa dessa compreensão do campo transferencial, a ação interpretativa do analista, para a Teoria dos Campos, não precisa fi car atrelada à denúncia da relação intersubjetiva analista/analisando. Isto é, a referência à pessoa do analista é circunstancial na interpretação, não o é a atenção ao campo transferencial. O que, sim, é essencial para a atividade terapêutica do analista é o diagnóstico transferencial ou o diagnóstico do campo transferencial.

Um exemplo

Passemos a um exemplo clínico na tentativa de esclarecer estes pontos teóricos [2].

Laura é uma jovem profissional, passando da categoria de autônoma para a de micro-empresária. Desde que iniciou a análise, pôde também começar outro movimento de passagem, de mudança pessoal e de vida, rompendo a paralisação que lhe impunha sua depressão ansiosa. Até então, vivia a desmanchar-se em lágrimas, o que, por assim dizer, tornava cada coisa de sua vida permanentemente úmida de si. Este colar-se umidamente ao mundo e assim por ele esparramar-se manifesta-se, nas sessões, por uma forma peculiar de comunicação comigo. Ao relatar idéias ou acontecimentos, vale-se de um estilo fortemente telegráfi co, deixando a mim a tarefa de transformar o telegrama em carta.

Temos aqui a apresentação do caso e já um diagnóstico transferencial: a paciente esparrama- se no mundo e, pela sua comunicação telegráfi ca, na analista.

Explicitando um pouco mais esse diagnóstico:

Em certa sessão, ao explicar como o marido tornara-se mais tolerante com ela, lembra que sempre que o avisava de seu período fértil, ele se preocupava em usar um preservativo nas relações sexuais, alegando que só o fazia porque ela fumava; dessa vez, não usou nem falou de seu cigarro, sinal de que algo havia mudado entre ambos.

Se ela fuma então ele coloca camisinha
– esse estranho emprego de um conectivo lógico de implicação (se… então), que junta dois reinos tão diferentes (cigarro e procriação), só adquire algum sentido quando, na minha escuta, insiro-o no contexto de um tema anteriormente tratado na análise – ela acreditava que o cigarro pudesse prejudicar uma gravidez eventual, no entanto, não se animava a parar de fumar.

Ora, Laura mesma jamais se dignaria a estabelecer tal gênero de conexão, deixando-a para mim. É como se atrelasse a seus ditos a minha atividade mental, que deve incessantemente segui-la, completá-la, ampará-la. Este estilo transferencial de esparramamento por telegrafi a ou de invasão lacônica acabava por restringirme a cumprir uma rotina de atenção fl utuante algo viciada. A obrigação de complementar os ditos da paciente torna muito difícil o deixar que surja para tomar em consideração da Teoria dos Campos, que aqui representaria o poder escutar a paciente sem estar atrelada ao tema da conversa. Libertar a escuta analítica, portanto, é neste caso mais que uma necessidade técnica: é, em si mesmo, um ato terapêutico. Não basta à analista desprender-se de modelos teóricos interpretantes; é antes preciso completar sem completar o pensamento de Laura. Isto é, negar-se a completá- lo equivaleria a um abandono insuportável, mas se continuasse sempre atrelada ao carro de suas idéias, limitar-me-ia a contextualizar, sem ter espaço para, por exemplo, atinar com a falta de certos elos signifi cativos de seu discurso emocional.

Vejamos como se moveu o campo transferencial, com o recurso técnico que utilizei, ao longo do trabalho com Laura, de completar os telegramas da paciente com lacunas e frases dubitativas.

Laura inicia certa sessão comunicando uma “briga horrível” com o marido. Atribui ao fato de trabalharem juntos a impossibilidade de separar os assuntos do trabalho daqueles do casamento. Considera-se muito exigente no trabalho, mas impedida, pelo casamento, de manter esse mesmo nível de exigência com o marido. Convém esclarecer que, do casal, ela é a profi ssional mais experiente. Na mesma linha de queixas e explicações, comenta um trabalho de fotografi a que passou ao marido. Ele, além de atrasar todo o trabalho, não se desempenhou bem. Ela me diz: “As fotos ficaram uma porcaria. Eu achei, o cliente achou e o Carlos também. E eles sabem que o Carlos é meu marido”. Prossegue dizendo que Carlos “cismou” em voltar a fotografar. Sua experiência anterior era com fotos de paisagem e de rua, não fotos de produto, mais complicadas, pois exigem iluminação e equipamento especiais, sob o risco de “ficar uma porcaria, cheia de sombra”.

É interessante notar que a paciente, apesar de expor longa e detalhadamente o processo de fotografi a requerido, suas condições e requisitos, jamais chegou a empregar a expressão estúdio fotográfi co. Evidentemente, Carlos não dispunha de um ou não sabia usá-lo. Estúdio fotográfi co seria o elemento telegráfi co que lhe teria dispensado tanta explicação. Quando repete ter sido a briga horrível, acrescenta: “Fiquei pensando se fui eu quem criou o clima…”.

Agora Laura já contava uma história e responsabilizava- se por seu sentido. Antes teria dito, talvez: “E o Carlos não sabe fotografar em estúdio”, deixando a mim o trabalho de deduzir por que isso a enfurecera. Todavia, nesse exato ponto em que principia a narrar compreensivelmente, deixando-me em liberdade, omite justamente o termo-chave.

Que pode haver passado? O estúdio é um lugar propício, há lá um clima, uma atmosfera reclusa e estimulante. Para quê? Para uma relação erótica e descontraída, sem preservativos ou reservas de sentimento, talvez.

Quando pode soltar-se, contudo, desaparece o lugar, o estúdio fotográfi co some da fala, assinalando possivelmente a natureza precisa da prisão em que vive: o clima erótico dá sempre lugar a outro. Arrisco então dizer-lhe: “O clima para a briga?”

A resposta de Laura é uma negação imediata seguida de reticências e depois de uma concordância, cúmplice e sorridente: “É, para a briga”. Penso que essa resposta evidencia sua adesão à proposta interpretativa que a minha pergunta trazia: é melhor ficar na briga.

Continuo dizendo-lhe: “Mas parece que não era isso que você ia dizer, não é verdade?” Agora sim, Laura se surpreende. Não era. Ela pensara num outro clima, mas nem se dera bem conta de que pensara, de um outro clima que estava mais para quarto que para estúdio e mais para casamento que fotografi a. Suas queixas são de que Carlos, agora que é marido, não cuida mais dela, só seus pais é que sabem cuidá-la. Imagina uma solução mágica para o problema: ter um fi lho, que pode dispensá-la até do marido, convertido em pai. Tudo isso vem espontaneamente, seguindo a pequena intervenção analítica.


A ausência da expressão estúdio fotográfico na fala da paciente revela a tentativa falha de uma auto-representação em que se descola do esparramamento no mundo pelo estúdio. Estúdio marcaria os limites eu/mundo, no entanto Laura é levada a um refúgio mágico mas insufi ciente: estúdio = barriga + fi lho, ou seja, solidão matrimonial transformada em maternidade compartida. A ameaça mais negra é a de permanecer sozinha.

Mostro-lhe, em seguida, que, por meio das múltiplas queixas, está falando simplesmente do problema maior de estar sozinha, de ser a agente autônoma de seus pensamentos e atos. Com esta intervenção rompe-se o campo da solidão introvertida. Laura experimenta, então, uma aliança comigo, num estúdio/sessão sem ameaças, onde lhe é possível considerar as difi culdades com o trabalho e com o marido, desfrutando de certa confi ança nas próprias capacidades.

Podemos dizer, por essa vinheta clínica, que as alterações do campo transferencial deveram- se a dois momentos interpretativos. O primeiro, antes uma mudança de estratégia de comunicação, aconteceu ao longo de diversas sessões até produzir algum resultado. Consistiu simplesmente em levar ao pé da letra a proposta de completar sem completar a paciente. O segundo momento ocorreu, mais convencionalmente, numa sessão determinada. Ao dar-me conta de que a paciente sofrera uma reversão de sua forma de comunicar-se, pude também perceber a falta de um elo fundamental: o estúdio, no caso. Não o introduzi de imediato, nem assinalei o sentido erótico que nele estava embutido. Ao contrário, atendo- me voluntariamente às aparências, completei sem completar: “Clima para a briga?” Esse equívoco, também estratégico, provocou certa tensão na analisanda, o movimento de revelação espontânea do desejo erótico tornou- se mais intenso, bastando acrescentar o apontamento de que ela não parecia em verdade querer falar de brigas, para que se desatasse sua manifestação. O esclarecimento posterior, a sentença interpretativa que explicava seu temor à solidão, teve tão-somente o papel de articular melhor um efeito que já se dera – a paciente já pensava sozinha, quando lhe foi mostrado quão difícil era aceitar pensar sozinha.

Como se pode ver, essa interpretação consistiu, primeiro, em dois pequenos toques interpretativos que lhe tensionaram as emoções, um no sentido manifesto, outro no que se costuma dizer latente. Não que o valor erótico do estúdio fosse realmente desconhecido: estava na ponta da língua e no ponto de fala, foi só puxar para lá, para que ganhasse tensão, e depois para cá, para libertá-lo das amarras, da briga em lugar de amor. E, depois, no uso de uma sentença interpretativa descritiva das aquisições e temores da paciente. Como escreveu Freud em “Sobre o início do tratamento”, nos Artigos sobre técnica, interpretar consiste em “…ter cautela, a fi m de não comunicar uma solução de sintoma ou tradução de desejo antes que o paciente esteja bem próximo dela, de modo que baste um pequeno passo para ele mesmo se apoderar da solução” [3]. Só a título de reforço de esclarecimento, afi rmo que para a Teoria dos Campos a interpretação é um processo e não se limita ao momento de se comunicar ao paciente uma sentença interpretativa.

Insistindo na explicitação do campo transferencial desta vinheta

Laura faz relatos, propõe um tema na sessão – como o trabalho obstrui o casamento. Espera que a analista a siga nesse campo do, chamemos assim, espaço público e privado. Espera que a siga aí como qualquer outra pessoa com quem conversasse o faria, apegada ao tema. A analista, só por reconhecer ou nomear o campo – escutar o tema das queixas contra o marido noutro tema, o da autonomia para pensar sozinha – já deixa de lado esse trato imaginário. Ao observar-lhe algo como: “Você sente que eu não estou com você”, como diria um analista excessivamente apegado à letra das interpretações transferenciais, ou simplesmente: “Clima para a briga” e “Mas não era isso que você queria dizer”, como o fi z, exibo-lhe já o relato noutro campo, o do confronto com uma analista indiferente como o marido, na primeira intervenção, ou o do erotismo em forma de confronto, na segunda. Qualquer paciente apartado da auto-representação que lhe oferecia o campo onde se assentava até então sua relação com o analista – o esparramar-se no mundo e na analista – experimenta estranheza, irritação ou repugnância, experimenta a agonia da expectativa de trânsito, do trânsito para outra auto-representação.

Entretanto, Laura pôde ouvir a analista e aceitar a expectativa de trânsito, porque entre nós há uma relação emocional sufi cientemente forte, permitindo o trânsito entre os campos e mantendo a ligação do par. O rompimento do campo da comunicação da paciente, que a interpretação propiciou, leva à alteração da relação do par analítico. A paciente experimenta outros sentimentos pela analista, começa a partilhar uma intimidade de estúdio. Outro efeito, porém dependente desse primeiro, foi ainda mais terapêutico – o campo rompido tornou-se visível, aparece, surge. Enquanto em vigência, escondia-se, todo campo, no avesso da relação sustentada. A paciente constituíase quase exclusivamente como uma espécie de refl uxo do carinho e do prazer erótico, mas não conseguia perceber, evidentemente, como tal refl uxo era determinado por seu terror à solidão. Em vez disso, procurava capturar a atenção da analista, atribuindo-lhe a função de contextualizar seus telegramas emocionais. A estratégia interpretativa de completar sem completar, ao produzir seus frutos, deixou-a de certa forma ainda mais desvalida, contudo permitiu que surgissem à tona certos elementos do campo anterior, o de esparramar-se no mundo e na analista, como a transformação defensiva de amor em trabalho, a exigência de pronto atendimento e, sobretudo, a disposição a entregar-se a qualquer sentido emocional – briga ou intimidade erótica – que lhe pudesse prometer cuidados e proteção. Pendurado no vazio, por efeito do processo interpretativo no campo transferencial, o campo de uma comunicação mostra seus constituintes de omissões, preconceitos, supostos gerais, constituintes da própria auto-representação momentânea de cada paciente. No novo campo organizado, a auto-representação já se modifi cou, a analisanda pôde substituir uma dada fantasia original – a necessidade de agarrar-se à promessa de cuidados e proteção – por outra versão – poder pensar por si –, desfazendo o imobilismo das fantasias dominantes. Vai assim, através de encarnações particulares expressivas, apropriando- se aos poucos da estrutura determinante de sua consciência, de aspectos de seu desejo.

Concluindo

Na escuta analítica descentrada, constituída pelo campo transferencial, tudo o que o analisando diz na sessão é também apreendido como uma vasta e bela metáfora de sua vida anímica nessa peculiar situação de seu estar agora e aqui presente. O analista, por sua vez, no manejo do processo interpretativo, apreende tudo transferencialmente. O trabalho no campo transferencial – a escuta enviesada, ou aquela que presta atenção às fantasias – vai propiciar, por rupturas de campo, mobilidade nas formas de auto-representação. Vindos do avesso, passam para o lado direito da consciência idéias e sentimentos que permaneciam ignorados, por aberrantes e inabituais, e que, quase certamente, o paciente virá a negar em seguida. Do caso clínico tomemos como modelo dessas representações negadas e rejeitadas o estúdio fantástico, onde ao mesmo tempo são possíveis o amor sexual, mas também cuidados maternais e trabalho, além de fotos matizadas da alma de Laura, símbolo momentâneo da sessão analítica. A mobilização e a presentifi cação dessas auto-representações negadas, no decorrer do processo analítico, re-encaminham o drama neurótico da repetição sintomática para a cura, entendendo por cura o estado de quem cuida do próprio desejo e o toma em consideração. E a cura, para a Teoria dos Campos, é um fi m diferente para uma história, quando construída e tratada em análise, ou seja, o redirecionamento dessa história e não a sua simples explicação para o paciente.
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