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Resumo
As metáforas do tempo emergem naturalmente do pensamento de Fabio Herrmann, sustentando o que lhe é essencial – a vitalidade do método. Por meio de imagens, como a do tempo do calendário e o tempo da chuva, o artigo ilumina a dimensão temporal e metafórica presente em sua obra e na clínica psicanalítica.


Palavras-chave
metáforas; tempo; método; técnica; clínica psicanalítica.


Autor(es)
Osmar Luvison Pinto
é psicanalista do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Professor do curso de Atendimento em Orientação Familiar do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas

1 P. Fédida, “Amor e morte na transferência”, p. 49.

2 J. Saramago, “O tempo e a paciência”, p. 187.

3 F. Herrmann, “Tempo e entrelaçamento dos campos”.

4 F. Herrmann, op. cit., p. 106-107.

5 F. Herrmann, op. cit., p. 109.

6 F. Herrmann, op. cit., p. 110.

7 F. Herrmann, “O escudo de Aquiles”, in O divã a passeio, São Paulo, Brasiliense, 1992, p. 169.

8 F. Herrmann, op. cit., p. 114-115.

9 F. Herrmann, op. cit., p. 116.

10 F. Herrmann, op. cit., p. 116.



Referências bibliográficas

Fédida P. (1988). Amor e morte na transferência. In: Clínica psicanalítica: estudos. São Paulo: Escuta.

Herrmann F. (1991). Tempo e entrelaçamento dos campos. In: Clínica psicanalítica – a arte da interpretação. São Paulo: Brasiliense.

____ (1992). O escudo de Aquiles. In: O divã a passeio. São Paulo: Brasiliense.

Saramago J. (1996). O tempo e a paciência. In: A bagagem do viajante. São Paulo: Companhia das Letras.





Abstract
Metaphors of time emerge spontaneously from Fabio Herrmann´s thought, sustaining what is in itself essential – the vitality of the method. Through images such as “the time of the calendar” and “the time of the rain”, this paper highlights the metaphoric and temporal dimensions present in his writings and in psychoanalytical practice.


Keywords
metaphors; time; method; technique; psychoanalytical clinic.

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 TEXTO

Metáforas do tempo

um ensaio, en hommage


Metaphors of time
an essay, en hommage
Osmar Luvison Pinto


– Tá vendo aquele quadro? – Fabio aponta para a tela do
artista francês, um fauvista do século passado, no qual
repousa seus olhos por alguns segundos e prossegue.
– Ele desenha um pássaro e a essência do pássaro está ali…
Essa é uma característica dos grandes pintores: atrair nosso
olhar para a essência das coisas.

Se a palavra essência nos transporta à natureza íntima das coisas, ela se torna indispensável neste ensaio em torno da obra de Fabio Herrmann. Dos vários recortes possíveis, a escolha recairá sobre um aspecto que, em visada particular, transmite-lhe o espírito. É assim que surge a temática do tempo, freqüente habitante de sua escrita, um tempo metaforizado, interlocutor e interpretante.

A homenagem prestada por este número especial da revista Percurso nos envolve num campo que abarca tanto a obra de Fabio quanto sua ausência recente e é do tempo do luto que nos tomam de assalto passagens vividas, origem desse fragmento que nos serve como epígrafe. A lembrança aponta para um traço essencial de sua produção, que toma psicanálise e arte como reinos indissociáveis. Apreciando a pintura, sugeria que o analista deveria inspirar-se no gesto artístico: por situar-se no centro das forças de atração que se movem no campo transferencial, a ele caberia imantar o olhar de cada paciente para o que lhe é essência, na trajetória de exposições e recuos às marcas de seu desejo.

Costumeiramente, as noções de tempo que percorrem a Teoria dos Campos são apresentadas por meio de metáforas. Ainda que ao tempo não se tenha concedido um estatuto preciso e não ocupe um lugar destacado na obra – como nos habituamos a reconhecer quando tratamos de interpretação, de ruptura de campo, de inconscientes relativos etc. –, a dimensão temporal ali está, evanescente, como veremos, cumprindo alguma sorte de função indicativa: ora sinaliza uma temporalidade para o sintoma, ora orienta o analista na apreensão do campo transferencial ou, o que é mais relevante, recupera-lhe o vigor metodológico, sugerindo recato diante do analisando para que se possa deixar surgir o campo que será objeto da interpretação. O pensamento de Fabio parece forjar-se num diálogo permanente com o tempo – tempo da interpretação, da patologia, da cura, do sonho. É um diálogo que põe em alto relevo a atitude parcimoniosa do analista se ele pretende se aproximar do que é essencial.

Sempre tendo em mente a preservação da capacidade heurística da psicanálise, nosso autor construiu um sistema crítico, uma matriz de inclusão, um veículo de comunicação conceitual. É que a Teoria dos Campos percorre a tensão existente entre dois aspectos do campo psicanalítico que, com freqüência se confundem: o método, sua essência; o dogma, seu desvio, a resistência à própria psicanálise.

Mas voltemos ao tempo e a seu lugar na teoria. Embora sua presença na obra seja constante, ela se dá por metáforas e parece atender ao propósito maior de auxiliar na comunicação daquilo que poderia ser nomeado por confi ança no método. Esta sim, essência em nosso ofício e oportuna recomendação aos analistas que exercem a psicanálise, signifi ca entregar-se à aventura da clínica, mas de modo sensível e informado, como Freud o fez em 1912 por meio de dois indicadores essenciais: a associação livre e a atenção flutuante.

As metáforas do tempo criam o ambiente que concebe um analista entregue ao método e que por ele se deixa envolver, sem voluntarismos. Este é um dos pontos mais inquietantes da produção campista, isto é, o perfil técnico do analista que emerge de uma teoria sobre a clínica psicanalítica – tomada freudianamente como cenário sem limites pré-estabelecidos, onde grassa a receptividade ao sentido humano e se consubstancia a arte do psicanalista.

Desde a criação da psicanálise, por caminhos bem distintos, muitos analistas se ocuparam do tema que queremos destacar na Teoria dos Campos. Fédida, por exemplo, em seu “Amor e morte na transferência”, nos surpreende com a observação de que “A temporalidade no tratamento é certamente o que Freud não examinou”, referindo-se às relações entre “o tempo para escutar, o tempo para entender, o tempo para compreender e o tempo para interpretar”, no seio de uma temporalidade ambígua na qual, “no atual, o analista ouve o inatual.” [1] Dentro de um outro recorte, o literário, Saramago nos apresenta o tempo como algo irredutível, que escapa às definições:

Se alguém me perguntar o que é o tempo, declaro logo minha ignorância: não sei. Agora mesmo ouço bater o relógio de pêndula, e a resposta parece estar ali. Mas não é verdade. Quando a corda se lhe acabar o maquinismo fi ca no tempo e não o mede: sofre-o. E se o espelho me mostra que não sou já quem era há um ano, nem isso me dirá o que o tempo é. Só o que o tempo faz. [2]

Não se pode dizer o que o tempo é, só sendo tangível o que o tempo faz. Na obra de Fabio, por orientação metodológica estabeleceu-se um pacto que une método e tempo, e para isso estão as imagens. Se não há um lugar em que se examine especifi camente a questão do tempo, ele é a bússola que aponta para o norte do método e semeia a clínica. Metáforas, em mãos cuidadosas, fazem com que resultem originais as incursões metapsicológicas, precisas as descrições nosográfi cas, inspiradas as refl exões em torno da técnica.

O que segue é a recordação comentada de duas metáforas do tempo, colhidas em Tempo e entrelaçamento dos campos [3]. Pelo viés temporal, o leitor recebe uma indicação que o remete ao texto originário, insubstituível. Paralelamente, destaca-se o pendor metafórico do psicanalista e escritor, artesão das palavras, que soube atrair nosso olhar para a essência das coisas. Da psicanálise, o seu método.

O calendário e o tempo da neurose

De Freud aos nossos dias, a neurose tem ampliado seu espectro sintomático, processo que está em sintonia com as transformações culturais vividas desde então. O homem freudiano – em relação inelutável com a cultura, como criador e criatura – sempre trará em seu universo psíquico as marcas de seu tempo.

A história da psicanálise, inicialmente apoiada no tratamento da histeria e estendida a outros quadros neuróticos, atesta uma relação estreita entre o recalcamento que tem lugar na psique individual e os parâmetros disciplinadores que o sustentam no plano cultural: no fi nal do século XIX, resquício da mentalidade predominante nos séculos anteriores, o desejo estava atrelado a um profundo senso de perturbação da ordem. Não que não o seja de fato, mas as coisas estão longe de se reduzirem tiranicamente a isso. O que importa é que conhecemos, por centenas de anos, a hegemonia de uma moral repressora da sexualidade que serviu de ambiente ao recalcamento.

Atualmente, como tudo que toca o universo sexual se tornou mais complexo, referências disciplinares se movimentaram, viraram do avesso, mas não deixaram de exercer seu papel complementar no recalcamento do viver neurótico. Ao contrário, tornaram-se mais insidiosas, confundindo-se com a normalidade. É à sombra da normalidade que se abriga a neurose em nosso tempo.

Um curioso calendário foi imaginado por Fabio para ilustrar o tempo bipartido do neurótico: nele, os dias em vermelho marcariam os momentos de celebração, sobretudo histérica, nos quais, em suposta fruição, erotiza-se algum objeto do mundo; já os dias em preto, em franca maioria como estamos habituados culturalmente a reconhecer, representariam os dias comuns, dedicados à falta e à insatisfação, desprovidos de sentido histórico, esvaziados de afeto.

O analista leitor é convidado por Fabio a acompanhar a metáfora da qual emerge o tempo binário da neurose como recurso a ser utilizado na prática clínica. Uma representação gráfi ca do tempo, o calendário e seus dias, alerta o clínico para a constituição de um campo transferencial típico das análises e que pode capturá-lo. Por uma espécie de divisão particular da experiência no sistema representacional do paciente, sob o manto do esvaziamento de sentido dos dias, o analista esperançoso se depara, de quando em quando, com um dia em vermelho, data em que se conta com a presença de algum sentido a dois (comemoração), momentos de certa porosidade na formação sintomática que permite o encontro, na presença de sentido e afetos diversos. Ocorre, porém, que brevemente o tempo neurótico trará a posterior recaída aos pontos negros do cotidiano, em forma de repetição.

A celebração, ato solitário que produz sinais de vida muito pontualmente, transforma-se em episódios de comemoração, em regime intermitente. Seria preciso reconhecer a temporalidade do ciclo neurótico para nele atuar. É aqui que entraria a possibilidade de atração que cabe ao analista, propondo comemorações, isto é, iluminando os dias comuns, realçando-lhes os sentidos habitualmente desqualifi cados psiquicamente. Note-se que este modo de funcionamento temporal da neurose se encontra muito próximo de uma representação cultural da rotina, signo da normalidade proposta pelo calendário, aquele que fi ca acomodado em nossas agendas e paredes; com dias especiais e dias sem cor, realiza-se o tempo binário: de dias triviais só se pode esperar o viver um tanto desalmado, até que dias coloridos tragam alguma esperança de conforto e satisfação.

O calendário é metáfora do tempo que assim caracteriza um sintoma, oferecendo-lhe contornos, mas também se presta como forma para que se esboce uma recomendação que realça a essencialidade do método:

Para fugir a isso, é preciso recusar a celebração como momento especial. Consiste o trabalho analítico no campo da neurose em realçar os pequeninos momentos afetivos que mal se deixam ver e cuja quase supressão acumula a tensão necessária para uma explosão de afetos sintomática, essa que amputa a seqüência histórica e repete a fantasia…
[…] não é dó nem carinho vulgar, é ruptura do campo desse tempo binário, que, uma vez cumprida, conduz à continuidade histórica indesejável para o sujeito da neurose porque expõe o corpo do desejo, escondido sob as vestes dos sintomas. O carinho que se pode ter com a neurose, em essência, consiste em acariciar-lhe a cabeça do tempo. [4]

Percorrendo o mesmo Tempo e entrelaçamento dos campos encontraremos um tempo analítico para a psicose, um tempo quebrado, mas ininterrupto, como o martelar de uma linha de montagem, dissonante, porém rítmico.

[…] No fundo de todo trabalho analítico, o tempo psicótico pode ser reconhecido como o martelar da recusa às possibilidades abertas pela interpretação. É uma forma de resistência inespecífi ca, não se opõe a um certo conteúdo, não o julga e o repele como perigoso, ataca por igual toda possibilidade de diferença. [5]

No centro de seu texto, deste cenário metafórico do tempo – de que são feitas as análises –, Fabio trata de um conceito tão discreto quanto central na Teoria dos Campos: o sentido de imanência. Em poucas palavras, é um senso inerente ao Eu, e por ele cultivado, que sustenta a crença nas representações que o defi nem como identidade – mantém viva a segurança de que o que faço, sinto ou penso me confere uma certeza identitária. Um sentido de imanência mais forte ou mais fraco determina a receptividade do sujeito aos movimentos da vida e das análises e, por conseguinte, estaria a determinar também o espaço psíquico que o Eu pode conceder às experiências que divergem da rotina interior pela qual se reconhece. O processo analítico desafi a o sentido de imanência do analisando, tocando na ameaça de desestruturá-lo ao desestabilizar sua identidade realizada, o que é, paradoxalmente, a condição para a cura – e aí já estaríamos no campo da interpretação. Vale dizer que o analista tem igualmente seu sentido de imanência sob tensão em seu trabalho, assim estando exposto a várias formas de resistência.

Sentido de imanência é um conceito que aparece articulado com vários outros – resistência, cura, identidade etc. – e, por sua delicada mediação, observamos que o pensar de nosso autor não abandona sua referência temporal:

O manejo efi caz desse tempo reiterativo da “identidade realizada”, tal como o tempo da neurose, envolve a transformação de celebração em comemoração. Aqui, contudo, não é propriamente a história que deve ser re-introduzida, mas a capacidade fi ccional, a criação de histórias fantásticas, justa e paradoxalmente o que resulta impossível para um delirante. [6]

É provável que a representação de uma realidade material e passível de verifi cação – há séculos proposta pela física newtoniana e pelo conjunto de leis oriundas das ciências naturais – tenha levado nossa cultura a uma relação controversa com a fi cção. Definida pelo negativo, tomada como universo oposto àquele da realidade, encontra seu refúgio na literatura, o reino análogo ao da psicanálise segundo nosso autor, espaços nos quais o enredo ficcional pode grassar com desenvoltura e naturalidade. Surpreendentemente, no meio psicanalítico, a convivência com a ficção ainda se mostra instável, talvez em função do enrijecimento com que os modelos de investigação e de transmissão psicanalíticas tenham tratado a noção supostamente antípoda, a de realidade. Fabio Herrmann se ocupa desta tensão, num pensamento que ultrapassa o modo biunívoco de conceber os confl itos humanos para, em perspectiva, em ambiente tridimensional, teorizar a lógica que opera na concepção do realismo.

Aqui o conceito de sentido de imanência é de grande utilidade. É que na Teoria dos Campos identidade e realidade surgem como noções profundamente ligadas. Sendo ambas representações criadas e cultivadas pelo Eu e que se definem em contigüidade, encontram-se em instável equilíbrio: inerentes ao viver humano, são representações asseguradoras de uma proteção necessária ao indivíduo e à cultura contra as moções caóticas do universo pulsional; por outro lado, o culto à segurança e à proteção pode representar o engessamento da dinâmica psíquica com custos nada desprezíveis para o sujeito. É que a realidade, quando se instala como princípio regente ao qual o sujeito deve permanecer sintônico, acaba por embalá-lo num berço totalitário e resulta em recrudescimento de seu mundo psíquico. O esforço adaptativo do sujeito, se o é em demasia, resulta nos quadros patológicos que conhecemos.

A resistência à psicanálise, na pessoa do analista ou em sua dimensão institucional, também pode, em nome da própria psicanálise, rejeitar o universo ficcional de que somos feitos e, por estrita fidelidade à realidade, colar-se aos parâmetros de realidade histórica ou de dados de realidade, alinhando-se ao teor adaptativo da própria doença por ele engendrada.

A que coisas, em aparente ingenuidade, uma metáfora do tempo pode nos levar pela pena do escritor! Sem nos desviarmos mais, sem adentrarmos este campo temático apaixonante que examina identidade e realidade, caberia apenas indicar ao leitor uma das pérolas da obra onde esta refl exão se desenvolve, por essencial que é: “O escudo de Aquiles”, trabalho no qual a representação nos é apresentada em sua função defensiva, como proteção inerente ao humano diante do real, o universo formado por toda sorte de paixão humana, “magma borbulhando sob a organização do quotidiano” [7].

A chuva e o tempo do sonho

O sonho foi objeto de um dos últimos trabalhos de Fabio, pertencentes a uma fase mais recente – Da clínica extensa à alta teoria – meditações clínicas –, ainda não publicado. Com o mundo onírico manteve uma íntima interlocução, e a ele conferiu absoluta relevância ao pensar no processo de formação do analista.

Genericamente, a metáfora na escrita literária de Fabio parece atender a dois propósitos que, simultânea e mutuamente, se alimentam no percurso analítico. Um deles sustenta a idéia essencial, fi lha do método, na qual a interpretação psicanalítica é instrumento de abertura a sentidos possíveis, área de movimentos divergentes, do ponto de vista do analisando. Portanto, abordagem que está na contra mão de uma visão naturalizada das coisas, a do desvio metodológico, que associa interpretação ao encontro do “sentido verdadeiro” que deve ser comunicado ao paciente. O outro propósito a que se destina a metáfora é o de provocar a sensibilização radical do analista, operando na abertura de seus próprios sentidos, sintonizando-o ao método.

Seguindo a tradição freudiana, Fabio escrevia como quem conversa com o leitor. Dialogou com o analista desafi ado pelos poderes paralisantes da transferência – que podem se manifestar pelo tédio, sono ou, simplesmente, pelo passivo assistir da repetição de forma e conteúdo por sessões a fi o – para oferecer-lhe possibilidades de retorno à água corrente da escuta. Como resistência é algo que também está na órbita representacional do analista, alguma sorte de inspiração seria necessária para que se rompesse o circuito. Pelo poder sensível da palavra do escritor, o analista pode encontrar seu quinhão de abertura sensorial. Na qualidade de fertilização que tonifi ca a atenção fl utuante, a imagem reconduz o clínico à fl uência do método. A metáfora estimula os sentidos do analista.

O sonho, na perspectiva metafórica do tempo, mostra-se tão cíclico como são as estações do ano:

O tempo do sonho pode ser comparado ao da chuva. Vem por estações durante uma análise, fertiliza- a, e segue um movimento ternário mas contínuo de concentração, precipitação, disseminação. O momento do sonho e seu relato na sessão não são o sonho inteiro para o analista. Como a concentração de água que se evapora e forma nuvens, temas psíquicos, dotados de tensão emocional, vão-se acumulando e começam a ser sonhados silenciosamente, na vigília… [8]

O sonho, tratado metaforicamente e cotejado ao tempo, impõe uma noção de cuidado. Assim nos é dado conhecer uma condensada amostra da concepção de cura que atravessa a teoria: lastreia-se o analista na observação do tempo que rege a natureza de cada processo. Dessa espécie de intimidade engendra-se o manejo da clínica, em forma de interpretação.

Com o sonhador, o analista sonha simpaticamente, deixando-se levar pela iluminação que o sonho propicia, sem pressa, esperando que a precipitação insemine- lhe as idéias, para poder operar no mesmo ritmo do campo onírico. [9]

O tempo do sonho, na forma como é apresentado, propicia o surgimento de um tempo no qual, pelo infl uxo onírico, o analista se deixa sensibilizar. Estabelecida a sintonia temporal, estabelece-se também, conjuntamente, uma orientação para a técnica:

[…] a função do analista é aqui também comemorativa ou de recordação; ele pugna por manter o sonho à tona por um tempo mais largo do que espontaneamente se daria e por acompanhar seu movimento de disseminação e nova concentração; pôr-se em fase com o campo do sonho é nossa tarefa principal e nada fácil, pois em nós também operam resistências. [10]

Sonho e tempo estão a sugerir uma idéia importante, a existência de uma intimidade da clínica. Postula-se assim um objeto um tanto inusitado que fi gura como alvo da resistência do analista: a intimidade como conjunto dos fenômenos que se expressam no interior das análises. O trabalho com o tempo do sonho – e, de maneira mais ampla, com a metáfora – presta- se à representação viçosa do método, sempre destacado em contraste com a atmosfera passional que o descaminha.

As metáforas do tempo criadas por Fabio nos transportam à essência de sua obra e podem ser comparadas ao traço do artista: na condição de imagens criadas pela palavra, abrigam a natureza íntima do método psicanalítico, aquela que guarda os espaços para o devir.

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