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Resumo
A intimidade da clínica é relatada pelas entrevistas com os pais e as primeiras sessões de um menino de quase três anos, que se recusava a tirar as fraldas e a aprender o controle dos esfíncteres. No começo, quer o menino que a analista desenhe castelos – que o vento em seguida destrói. Numa rápida evolução, pede que a analista então desenhe um banheiro com privada e chuveiro. A autora privilegia no relato das sessões os conceitos de rupturas de campo e a construção de uma interpretação como um ato falho a dois. Discute, também, na clínica de criança, o que chama de gesto justo.


Palavras-chave
ruptura de campo; vórtice; ato falho a dois; gesto justo; intimidade da clínica.


Autor(es)
Sandra Regina Moreira de Souza Freitas
é psicanalista de criança, membro do CETEC (Centro de Estudos da Teoria dos Campos) e do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


Notas

1 Este título – efi ciente, que diagnostica a lógica emocional do caso e anuncia uma prototeoria no sentido da Teoria dos Campos – foi-me inspirado pelos comentários de Dra. Maria Cecília Pereira ao trabalho, por ocasião do IV Encontro da Teoria dos Campos (setembro de 2005).

2 F. Herrmann, Quarta meditação. A intimidade da clínica. Da clínica extensa à alta teoria. Meditações clínicas.

3 Ruptura de campo é uma descrição essencial do efeito das interpretações psicanalíticas na sessão e, por causa disso, é também a forma mesma de todo conhecimento psicanalítico legítimo (F.Herrmann, Introdução à Teoria dos Campos, p. 59).



Referências bibliográficas

Herrmann F. (2001). Introdução à Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo.

____ (2004). Quarta meditação. A intimidade da clínica. Da clínica extensa à alta teoria. Meditações clínicas. (Mimeo.)





Abstract
he intimacy of clinical practice is portrayed through the fi rst psychoanalytical sessions (and through interviews with the parents) of the analysis of a little boy nearly three years old who refused to stop wearing nappies and to accept toilet training. To begin with, the boy wants the analyst to draw castles – which the wind then destroys. In a quickly evolving process, he then asks the analyst to draw a bathroom with a toilet. In her account of the analysis, the author lays emphasis on the concept of fi eld rupture and on the construction of an interpretation as a shared “act manqué” (by patient and analyst). She also discusses, in the context of child analysis, what she means as the “precise gesture”.


Keywords
field rupture; vortex; shared act manqué; precise gesture; intimacy of clinical practice.

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 TEXTO

A intimidade da clínica

“um troninho para Ricardo” [1]


The intimacy of clinical practice
“A small throne for Ricardo”
Sandra Regina Moreira de Souza Freitas


O relato clínico que dá corpo a este artigo de Sandra Regina de Souza Freitas é comentado nos dois textos que o seguem, de Alice Paes de Barros Arruda e Maria Cecília Pereira, oferecendo assim aos leitores de Percurso a oportunidade de ver publicada a participação das três autoras no IV Encontro da Teoria dos Campos, realizado em setembro de 2005. A viva interlocução que se estabelece entre elas dá a perceber a fecundidade da extensão da Teoria dos Campos ao atendimento de crianças.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo […]
[Fernando Pessoa]


Um menino de quase três anos. Assim Ricardo me foi apresentado, num telefonema. Era prá ontem a consulta. A mãe não havia ligado antes porque seu pai (avô do menino), internado num hospital, havia sido operado.

Ela não sabia o que iria acontecer – melhor, então, conversar logo comigo. Estava muito preocupada com o filho, que não fazia cocô na privada, só na cueca. Também a psicóloga da escola queria conversar com os pais sobre ele, mas não arranjavam uma hora. (Imagine, a psicóloga da escola conseguia ser mais ocupada do que ela.) A mãe não queria que o pai fosse sozinho, pois queria ver o que essa psicóloga iria falar de seu filho.

Desse modo, essa mãe se apresentou. Ansiosa, tentava tirar o pai da forca, não sabendo quem era pai, quem era filho. Confundia morte com cocô. Muito assustada, com medo de ser, de todos os lados, acusada de qualquer coisa. Marquei uma entrevista para os pais, na qual – quase imediatamente – veio só a mãe.

Conta que começara a tirar as fraldas de Ricardo no início do ano. Parecia que tudo ia bem, até que ele, parecendo não se importar com a situação, continuou a fazer na cueca. Sem ligar, nem avisar. Às vezes até avisa, mas não quer ir ao banheiro de forma alguma. Faz na escola, na rua, em casa. Ricardo demorou pra falar, pra andar, ele é muito diferente da Alice.
Quem é Alice?
– Minha filha mais velha. Muito esperta, linda, nem parece que tem seis anos.
E o Ricardo?
– Ah, ele é um bebezão. Ele é fofo, é lindo. Super-forte, é o maior da classe. Nasceu com mais de quatro quilos. A senhora vai conhecê-lo. Acho que depois que eu perdi minha filhinha ele continuou sendo o meu bebezão.
Sua filhinha?

Confusamente, sem nenhuma organização temporal, ela conta que engravidou, pela terceira vez, por acaso e – quando já estava curtindo muito – aos seis meses de gravidez, abortou. Foi muita tristeza, só agora é que eu estou melhor. Fiquei muito deprimida, até voltei para conversar com a minha analista. A minha filha, Alice, chora e me pede sua irmãzinha.

Fala da filha mais velha como uma amiga e companheira, e do feto-criança como um filho crescido e perdido. Não consigo compreender os fatos e sua organização temporal.
E o Ricardo? – pergunto.
– Ele sempre foi uma criança boazinha. Eu acho que eu queria tanto um bebê, que ele continuou a ser um para mim. Às vezes eu agradecia a Deus de ter o Ricardo bebezão pra me consolar. Hoje eu vejo o mal que posso ter feito e quero ajudar meu fi lho a crescer.

Além de sua confusão e da falta de sintonia afetiva, percebo que ela também é desinformada sobre o fi lho. Não se lembra, não precisa datas, fala de acontecimentos que lhe contaram (a empregada, a sua própria mãe ou o marido).

Pesquisadora, acabou de fazer seu doutorado. Trabalha todas as manhãs; conta de muitas viagens e congressos. Viagens que demoraram 20, 40 dias. Acabo, enfi m, sabendo que quando Ricardo tinha um ano e meio a mãe engravidou, e, quando ele completou dois anos, ela abortou e entrou em depressão. Atualmente, Ricardo tem dois anos e dez meses e sua irmã mais velha, Alice, seis.

A mãe quer de mim um laudo. Quer saber se Ricardo tem um problema neurológico, psiquiátrico, se reversível ou não.

Vou me perguntando que luto é esse, que aborto tão sofrido faz essa mulher não ver seu fi lho vivo e ficar presa à imagem do morto, da criança perdida.

No final da entrevista, conta que, aos 20 anos, descobriu que tinha lupus eritomatoso sistêmico – o que acarreta riscos para uma gravidez.

Quer trazer logo Ricardo, quer aproveitar enquanto seu pai (o avô) …sabe, ele está na uti, a gente está aguardando. Não sabemos o que vai acontecer.

A entrevista com o pai de Ricardo acontece alguns dias depois. É uma pessoa mais atenta e sensível do que a mãe. Conta que se preocupa com o menino há algum tempo. Acha que Ricardo tem medo de deixar de ser nenê, não quer correr riscos. Tem medo de sentar na privada, tem medo de escorregador, de balanço, nunca ficou de pé no berço nem tentou pular as grades. Atualmente, já sem grade, fi ca sentado e não sai do berço. Mas, observa, ele é uma criança muito concentrada nos seus brinquedos, nos fi lmes.

Quando os pais viajaram pela última vez, Ricardo fi cou bonzinho, não chorou, não sentiu falta, e isso fez o pai se perguntar se o fi lho havia notado a ausência deles. Ricardo não requisita, não pede, não disputa os pais com a irmã, ou as coisas em geral. É, estranhamente, muito bom. Tanto que, na escola ou em casa, quando, em relação ao barulho das crianças ou à música do carro, berra silêncio!, os adultos fi cam impressionados com sua reação.

E assim também em outras situações, como o cocô: quando tudo parece que vai bem, ele emperra, só faz se quiser, não veste a roupa, grita e não sai do lugar. Foi dessa forma que encontrei Ricardo pela primeira vez. Aos berros, no saguão do elevador, sem querer entrar de forma alguma, ameaçando fugir pelas escadas.

A mãe, meio apatetada, ora corria atrás dele, ora me contava que Ricardo vinha muito bem – até que ela resolvera dizer, já no elevador, que a Dra. Sandra era amiga do Dr. Otávio, seu pediatra. O menino continuou a gritar, desesperado. Não deixava que eu falasse com ele. A mãe, sem saber o que fazer, acabou por deixá-lo para trás e foi entrando.

Mudei meu sistema de portas. Abri uma outra porta da sala de consulta de criança, que dava diretamente para o saguão do elevador, fi quei esperando que ele se acalmasse. Parecia uma aproximação de antropólogos com os índios, com muita calma e cautela, vendo o que ia acontecer: deixando que surgisse.

[…] o método é o que nos acontece, ele nos escolhe quando praticamos psicanálise, não o escolhemos. Técnica nós escolhemos [2].

Quando ele dava uma trégua no choro, eu dizia claramente: Vem, Ricardo, entra. Qualquer gesto injusto poria tudo a perder.

Vamos nos conhecer. A mãe, já dentro da sala, mostrava para ele uns brinquedinhos e, assim, Ricardo foi se chegando e entrou. Não me olhava muito (acho que não me olhava nada). Não parecia assustado nem curioso com a Sandra do Dr. Otávio. Era uma criança se acalmando. Aos poucos, foi pedindo algumas coisas, com uma fala chorosa de bebezão, difícil de compreender.

Desse jeito, fomos conseguindo brincar. Essa é hora mágica de uma análise e, especialmente, da análise com criança. Um gesto justo, mais do que uma palavra justa (le mot juste), garante o movimento seguinte e defi ne a intimidade da clínica com crianças.

Brincamos de dar banhos em cavalinhos sujos. Uma comovente brincadeira inaugural. Houve já uma ruptura de campo, agora ele me deu esse lugar esperançoso: alguém que pode banhar junto com ele e banhá-lo. Uma fantasia de sua doença e de sua cura? Penso que sim. Uma síntese de seu próprio diagnóstico (sujeira, abandono, não amado, analidade) e de sua possibilidade de ser curado (alguém que o receba sujinho e fedidinho, e, ao banhá-lo, o erotize, deixando a marca de sua humanidade).

Ricardo quis cortar com a tesoura uma folha de papel – para isso, precisei ajudá-lo. Com muita difi culdade, ele conseguia dar uns picos. Já pelo final da hora, passou a se dirigir a mim, pedindo coisas diretamente.

Antes, eu não conseguia saber com quem ele falava. Não era comigo, não era com a mãe.

Ricardo trouxera de casa uma máquina fotográfi ca de brinquedo, que fez questão de deixar junto com os outros brinquedos, quando soube que voltaria.

Na sessão seguinte, veio animado para continuar as brincadeiras. Pediu água para dar banho nos cavalos, lavava e os enxugava.

Ainda nessa sessão, mantive a porta diretamente aberta para o elevador. Achei importante manter o sistema, não mudar nada.

Ele queria ver os brinquedos, experimentando um e outro, logo parando e se desinteressando. Até que pediu folhas de papel e começou a me pedir desenhos.

– Desenha o castelo do Aladim.
– O Ricardo faz o vento.

Fazendo um barulho, meio zunido, ele desenhava o vento. Rabiscos que cobriam todo o desenho. Devo contar que só no segundo ou terceiro castelo entendi que era vento o que ele estava desenhando. Ricardo parecia fascinado com os desenhos, se agitava contente, ria e dizia repetidamente: o castelo do Aladim?

Pedia – pelo menos o que pude entender – a lâmpada, o gênio, Aladim no tapete voador, e a caverna dos tesouros. Ficou mais feliz quando parei de desenhar um castelo medieval (Ricardo Coração de Leão?) e passei para palácios orientais. Não queria bandeiras: isso ele deixava bem claro e eu conseguia entender (repetia inúmeras vezes: bandeira, não).

Eu ia conversando com ele, perguntava sobre o desenho, arriscava alguns comentários. Uns eram respondidos, parecia que colavam. Outros, ele parecia não ter ouvido e, por fim, alguns ele rejeitava veementemente.

Por exemplo, quando está desenhando o vento, diz que vai desenhar o pum. Pergunto: cocô? Ele diz cocô não, não! Ou, então, tento explorar as histórias da lâmpada. E os desejos? O que será que o Ricardo quer? Não fala nada. Eu também vou ensaiando com os desenhos, por exemplo, a geladeira. Consigo entender que Ricardo me pede que eu desenhe uma geladeira. Ponho o que dentro dela? Uns sorvetes? Sim. Ri alegre. E umas mamadeiras. Sim. Concorda, animado. Faz uma porta – ele me pede. Faço uma porta, que abre e fecha. Pra não perder nada e para o Ricardo pegar quando ele quiser… estiver com fome.

Ele fi ca muito atento, quer uma forma de fechar. Colocamos massinha, para que a porta possa assim abrir e fechar. Faz questão de levar para casa a geladeira cheia de alimentos.

Aqui, novamente um momento muito importante interpretativo, de ruptura de campo? Uma brecha em que sentidos são produzidos. Quem começou o quê? Foi o paciente quem disse ou foi o analista que entendeu como quis? Fica difícil responder com exatidão: um ato falho a dois, diria Fabio Herrmann.

E a questão da formulação de conteúdos da interpretação? Eu, então, deveria falar da sua oralidade, ou de suas carência orais, e da garantia que a geladeira cheia lhe traria, e de um peito bom, sempre presente? Ou, talvez, tenha faltado à analista falar, como se costuma dizer, de um ambiente que o garantisse em suas satisfações e não o expusesse a ausências e privações demais para sua pessoinha. Ou já estamos favorecendo, ao brincar, que todas essas possibilidades se presentifi quem? No silêncio do analista, também se dão interpretações nunca faladas, diz também Fabio Herrmann.

Outro momento importante da sessão, quando um nó é desmanchado: nos desenhos dos castelos. Ricardo me pede uma chave para a porta e, inspirada pela geladeira, além de desenhar a chave, recorto a porta do castelo – que agora pode abrir e fechar.

Ricardo olha a porta e parece decepcionado com o buraco. Olha atrás da folha: Ih, cadê o Aladim?

E todo mundo sumiu… Será que eles foram viajar?… – dou um pequeno toque.
Desenha todo mundo – pede Ricardo. Esse é um momento que levo em consideração.
Vou desenhando, perguntando e arriscando: Papai? Mamãe? Ricardo? Alice, o nenê da barriga?
Sim – ele vai respondendo. O cocô? – dou uma de gaiata. Não – ele grita –, o cocô, não.

Mais ou menos assim terminamos o semestre e tiramos férias. Quando nos vimos pela última vez, já tínhamos estabelecido um repertório comum, um pequeno estoque de provisões até a volta das férias e promessas de muita coisa a se fazer.

Volta depois de 15 dias de férias.
Ricardo está de novo gritando no hall do elevador: Aqui é o Ricardo, Sandra, do Dr. Otávio! É uma entrada triunfante. Vem de mala e cuia. Traz uma mochila, que me mostra, ainda na porta. Entra como um velho freqüentador – habitué.

Vai abrindo a mochila, falando do seu jeito – desafi nado e difícil de compreender – e vai me mostrando o que trouxe. Trouxe a foto! (refere-se à máquina fotográfi ca que já trouxera outras vezes).

Corre para o armário, eu vou junto e ajudo a tirar a caixa. Agitado, Ricardo pega alguns brinquedos. Carrinhos, cavalinhos (me mostra o cavalinho azul que num outro dia fora o cavalo da mãe). Vou acompanhando, falando coisas do tipo: é mesmo, esse era o cavalinho da mamãe, ou então, a máquina você trouxe aquele outro dia. Bem, vou dando provas de que eu o reconheço, lembro-me dele, e atendo ao seu pedido de não ser esquecido. Conto-lhe de alguma forma que, apesar da separação, podemos nos lembrar de muitas coisas. Muitas coisas nos unem.

Logo em seguida, senta-se na cadeira – e vamos aos desenhos.
Desenha o Castelo do Aladim, desenha o castelo do Aladim. Bandeira, não. Bandeira, não.
Desenho.

Agora, o Ricardo faz o vento.
Faz o vento, suspirando, agitado. Pede outro castelo. Enquanto vou desenhando, vou me dando conta e falo, quase pensando alto:
Sabe, Ricardo, eu me lembrei que o vento foi que levou o castelo do Aladim para muito longe, para outro país. Quando o Aladim voltou não encontrou nada. Nem a princesa nem ninguém. Todo mundo sumiu. Ainda bem que hoje o Ricardo encontrou a Sandra do Dr. Otávio. O vento não levou ninguém embora aqui.

Alívio geral. Ricardo me olha e diz:
Sim. Esse castelo não tem vento. E nunca mais teve vento.

Vai pedindo: Desenha o sol. Corta a porta.
Eu também (não me lembro se ele está falando eu, mas tenho certeza de que ele pede para fazer também, nesse momento e em outros).

Enquanto vou ajudando a cortar a porta e a abrir, vou conversando com ele desse horror que ele sentia de não encontrar, de sumir. Falo da mamãe, do vovô que morreu, do nenê na barriga.

Pede que eu desenhe o Aladim, a lâmpada e o tapete.

Pede também, tomado por uma agitação, uma lâmpada mágica. Enquanto desenho, me diz alguma coisa com gestos, que só depois entendo. Ele não quer que eu coloque a mão sobre a superfície da lâmpada.

Segura a folha com o maior cuidado, bem na pontinha. Olha enternecido e silencioso, vira a folha e olha atrás como se quisesse ver a dimensionalidade.

Se esfregar…? – pergunto. Não, não pode.
Fico quieta, é um momento muito importante para ele. De permanência? Nada deve ser tocado para não sair do lugar. Separa a folha com o maior cuidado (levou esse desenho para casa).

Desenha um castelo do Aladim. Bandeira, não. Bandeira, não.

Começa a dizer, pela primeira vez, alguma coisa como: o Ricardo também quer fazer. Ou então: deixa eu fazer.
Não faz o vento – me pede.

Pede, em seguida, para abrir a porta do castelo com a tesoura.

Cadê todo mundo? Comanda: Desenha, Sandra, o sol. As nuvens.

A chuva (me ajuda a fazer). As árvores. O carro. A neve (ajuda a fazer). A chave (manda). Agora, ele diz quem quer que eu desenhe dentro (a outra folha) do castelo.

Ricardo. Mamãe. Papai. Outro Ricardo. A Sandra do Dr. Otávio. Outra mamãe. Uma alegre e outra triste? – arrisco a pergunta.

É, sim. Põe lágrimas nela. Eu desenho. (Ou: O Ricardo desenha).
Agora, põe o cocô.
Pergunto: Onde?

Ele responde algo que eu não entendo, mas ponho perto do corpo. Ele ri, animado, e diz que vai colocar o xixi. Pede um banheiro, um chuveiro e uma privada. Põe o Ricardo na privada – me pede. Faz uma mochila. Por último, me pede que feche a porta.

Nesse pouco tempo, Ricardo reviveu sua história traumática em companhia. Vivemos juntos, como dois bons companheiros – “mas vivemos juntos e dois/ com um acordo íntimo/ como a mão direita e a esquerda”, dizem os versos de Fernando Pessoa.

Esse brincar junto (e dois) – em que não dá saber de quem foi a idéia inicial – é a própria relação objetal ou, quem sabe, o ato falho a dois.

Um dia, ao contar uma sessão com uma criança, Fabio Herrmann brincou: mas é análise ou é poesia? Se a arte, conforme afi rma Isaías Melsohn, “é a expressão da forma do sentir humano” – então – por que não? – é poesia.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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