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Resumo
Neste artigo apresenta-se um comentário ao material clínico de um menino de três anos que buscava um lugar psíquico: um rei em busca de seu trono.


Palavras-chave
análise de criança; historicidade; subjetividade; fenômenos intergeracionais e transgeracionais.


Autor(es)
Maria Cecília Pereira da Silva
é membro efetivo, Analista de criança e adolescente e docente da SBPSP, com pós-doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise de Criança, professora do curso de Introdução à Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê do Instituto Sedes Sapientiae, participante do Setor de Saúde Mental do Depto. de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Autora dos livros A paixão de formar (Artes Médicas) e A herança psíquica na clínica psicanalítica (Casa do Psicólogo).


Notas

* Este comentário foi apresentado em setembro de 2005 no IV Encontro psicanalítico da Teoria dos Campos: Ruptura de campo: crítica e clínica.

1 Refiro-me ao que é transmitido de uma outra geração, fenômenos inter e transgeracionais presentes na constituição do psiquismo. In M. C. P. Silva, A herança psíquica na clínica psicanalítica.

2 “Fabio Herrmann considera o vórtice como um análogo ao desmoronamento de um sistema de identidade por preconceito: as representações que nele ocorrem freqüentemente são híbridas de identidade e realidade e marcadas por um sentido de não-eu, embora inegavelmente do sujeito. O vórtice é insustentável pela crença, mas é ele que permite reconhecer a amplitude potencial de representações de um setor da personalidade. É passageiro, isto é, de duração limitada, e se desfaz quando a crença passa a sustentar a nova autorepresentação. No vórtice não há lugar para a crença.” In: Leda A. F. Herrmann, Andaimes do real: a construção de um pensamento, tese de doutoramento apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Fabio Herrmann, 300 p., p. 257 (grifos da autora).

3 F. Herrmann, Clínica psicanalítica: a arte da interpretação.

4 “Campo transferencial numa aproximação é o que revela um homem diverso daquele quotidiano que entrou no consultório, um homem desconhecido de si mesmo, todavia profundamente verdadeiro. Nossa clínica é algo semelhante aos brinquedos infantis onde se cria uma situação de ‘mentira’ para que a criança possa experimentar verdades de outra forma inatingíveis ainda: ser mãe, ser bandido, ser morto, nascer de novo etc.” In: F. Herrmann, op. cit,, p. 23.

5 F. Herrmann, op. cit.

6 Essa intervenção provocou uma primeira ruptura de campo. Como aponta Herrmann: “É o choque de duas ou mais representações que produz o desastre controlado…”. In: F. Herrmann, Psicanálise da crença, p. 108. Dentro dessa perspectiva, as rupturas de campo somente são apreensíveis pelo que é conceituado como vórtice. Vórtice signifi ca o efeito geral vertiginoso, acompanhado de “sentimentos vagos de perder o pé e afundar-se em si mesmo, de despersonalização e auto-desconhecimento, de estranheza.” In: F. Herrmann, Clínica psicanalítica: a arte da interpretação, p. 72. “Esse efeito da seqüência de rupturas corresponde ao reconhecido teoricamente como regressão”. “Diremos então que vórtice é a matriz operacional da regressão analítica, dá conta da tendência regressiva do processo.” In: F. Herrmann, Andaimes do real. Livro primeiro. O método da psicanálise, p. 30.

7 F. Herrmann, Introdução a Teoria dos Campos, p. 38.

8 F. Herrmann, (1991) op. cit., p. 103.

9 Como assinalou Fabio Herrmann: “Trabalhar a relação em direção ao campo (à ruptura de campo) signifi ca começar com a proximidade e caminhar para a estruturação, onde não há proximidade ou distância, mas constituição de sentido. Nesse exato ponto entra a teoria, em seu uso próprio de eixo para a interpretação, ou ‘interpretante’. Consiste o conjunto interpretante, num momento dado de trânsito entre relação e campo, no fundo de teorias que o analista detém, mas principalmente nas proto-teorias que se vão formando no trato com o paciente, e inclui até os elementos circunstantes sociais, da cultura como tal aos eventos ou idéias dominantes na ocasião. Tudo isso funciona como teoria.” In: F. Herrmann, Clínica psicanalítica: a arte da interpretação, p. 169.



Referências bibliográficas

Herrmann F. (1991). Andaimes do real. Livro primeiro. O método da psicanálise. São Paulo: Brasiliense.

____ (1991). Clínica psicanalítica: a arte da interpretação. São Paulo: Brasiliense.

____ (1998). Psicanálise da crença. Porto Alegre: Artes Médicas.

____ (2001). Introdução à Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo. Herrmann L. (2005). Andaimes do real: a construção de um pensamento. São Paulo: pucsp. (Tese de doutoramento.)

Silva M.C.P. (2003). A herança psíquica na clínica psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo/fapesp.





Abstract
This paper discusses a clinical material on a three years old boy who searched a psychic place: a king looking for his throne.


Keywords
child analysis; historicity; subjectivity; intertransgenerational and transgenerational phenomenons.

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 TEXTO

Um rei em busca do seu trono *

A king in search of his throne
Maria Cecília Pereira da Silva


Inicio este comentário retomando a história de Ricardo, pois, em minha escuta analítica e em meu raciocínio clínico, não posso deixar de tomar em consideração a historicidade do sujeito, atribuindo um estatuto à infl uência dos objetos parentais e do meio ambiente na constituição do psiquismo [1].

O relato de Sandra faz o leitor viver os mesmos sentimentos de desorientação que a analista experimentou ao ouvir a queixa trazida pela mãe. Pai? Avô? Morrendo? Cocô? Alice? Ricardo? Filhinha? Mãe viaja? Quem? Quando? Essa confusão já anunciava um pouco do ambiente emocional em que Ricardo vivia.

O atendimento de criança tem disso, implica um campo que envolve o inconsciente da mãe, do pai e da criança. Já na primeira entrevista a analista ofereceu o acolhimento necessário para os aspectos infantis da mãe de Ricardo, que chegou desamparada, com o próprio pai doente, com o luto mal elaborado da perda de um bebê e todos os seus aspectos infantis espalhados pela sala de análise.

A mãe apresentou a queixa. Contou que Ricardo não queria crescer. Ele tinha medo de se sentar na privada. Podemos pensar que assim ele expressava seu medo de cair e ser abortado, e de aniquilamento (fantasia auto-representativa) diante de toda a angústia da mãe pela perda do bebê não elaborada e projetada maciçamente sobre Ricardo. Ao mesmo tempo, ela disse que, às vezes, ele emperrava e queria que as coisas fossem do seu jeito, ele queria existir à sua maneira. E, ainda, o pai contou que Ricardo é muito bonzinho e não gosta de barulho, pede silêncio, o que nos sugere uma turbulência interna, uma angústia infi nita.

Quando sua mãe o traz para conhecer a analista, acredito que ela toca no ponto central da angústia desse menino:

Será que, ao designar que ele iria conhecer a Sandra do Dr. Otávio, a mãe não levou Ricardo a se deparar com sua inexistência e ele gritou, chorou, emperrou… e chegou para análise já em vórtice [2]?

Isso porque, do meu ponto de vista, Sandra estava diante de um menino que não tinha um lugar próprio na família, um meninorei que perdeu seu castelo e chegou buscando um trono seguro: até então, ora ocupava um lugar de substituição, remplacement, de um bebê que não chegara ao término da gravidez, uma fi lhinha desejada, ora de cocô fora de lugar. Enquanto Sandra era a do Dr. Otávio, Ricardo era de quem?

Assim, acredito que ele expressou a questão central de sua análise ao encontrar-se com a Sandra do Dr. Otávio. Eu sou quem? De quem? Ricardo chegou em busca de suas origens, de um lugar psíquico no coração dessa família.

Nesse momento de um encontro tão desesperado e, ao mesmo tempo, inesperado, foi Ricardo quem provocou uma espécie de ruptura no setting da analista, levando Sandra a mudar seu sistema de portas e a transitar do corredor do elevador para a sala de análise e vice-versa, num manejo que possibilitasse a existência de Ricardo a sua maneira [3].

Mas Sandra, ao contrário de Ricardo, não se desorganizou, não perdeu sua identidade de analista. Mostrou-se uma analista que trabalha com liberdade, não se abalou com a gritaria e foi construindo um campo transferencial [4].

Como viveu, a analista, essa ruptura vinda do paciente? Coisa tão presente na análise de crianças.

Com Ricardo, Sandra foi se debruçando sobre suas brincadeiras com uma linguagem ainda incipiente, deixando que surgissem os sentidos, determinantes de diferentes profundidades, buscando o que era mais premente, utilizando a palavra justa, fazendo pequenos toques – “cutucações na alma” [5]. Foi colocando em palavras os aspectos amputados de sua consciência: o banho, a máquina fotográfi ca registrando a história de um novo vínculo, o alimento emocional, o cocô, o bebê…

Numa primeira leitura, pensei que o maior vórtice vivido por esse menino, na segunda sessão relatada, tivesse sido ao construir a geladeira, com porta e tudo. Foi, sem dúvida, mas ao rever o caso acredito que, para um Ricardo que era só vento, feito de ar, a construção do castelo em si foi inaugural desse processo de subjetivação ao qual me referi. Outro momento de ruptura de campo se dá quando a analista corta a porta do castelo [6] e Ricardo a abre e se depara com o buraco, o vazio, o desamparo, a mãe que não estava lá, o bebê que se foi, o trono que se desfez. Nesse contexto já havia um clima de inquietação, que deu lugar a uma nova percepção e surpresa, com a porta que abre e fecha, para depois vir um castelo com chave, gente e tudo o mais, indicando a efi cácia terapêutica.

É, Ricardo reclamava por seu reinado… Ricardo queria ser o rei, sua majestade o bebê, com seu castelo. Delimitou-se um campo, “uma zona de produção psíquica bem defi nida, responsável pela imposição das regras que organizam todas as relações que aí se dão” [7], que, ao se dissolver, por ruptura, “mostrou as forças emocionais que estavam em jogo e qual era sua lógica” [8]. E foi nascendo uma proto-teoria como parte da observação do campo estabelecido nessa dupla analítica singular [9].

Então, nessas sessões, Sandra brincou, entendeu, reconheceu e nomeou suas necessidades, reconstruiu o castelo para sua majestade o bebê. Ricardo recuperou seu trono roubado pela irmãzinha que não chegou a nascer e, ao mesmo tempo, retraumatizado pela morte do avô… E descobriu que ele podia exercer seu reinado e constituir sua subjetividade.

No retorno das férias, Ricardo se manteve vivo na mente da analista, reencontrou sua história com Sandra, com foto e repertório, ganhou uma identidade na relação com a analista. Agora ele já podia ser o Ricardo da Sandra e não mais o bebê de substituição da mãe. E, então, ele pôde construir uma lâmpada mágica e constituir-se num sujeito que podia desejar. Assim, de meu ponto de vista, instalou-se uma terceira ruptura de campo, e ele pôde fazer outro castelo com chuva, carro, árvore, neve, porta e chave. Ele desejou e mandou, criou o objeto e, ao se ver no olhar de Sandra, passou a existir. Dessa forma, encontrou um objeto continente, um ambiente acolhedor e sentiu que o mundo não iria mais desabar. Houve uma ruptura de campo com efi cácia terapêutica, da qual nasceu um sujeito: o Ricardo da Sandra.

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