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Resumo
Tomando alguns aspectos de uma análise, a autora demonstra que as rupturas provocadas pelas mudanças de ciclo de vida, que põem em evidência o envelhecimento, podem provocar um abalo no edifício identitário, pela perda de suas auto-representações e pela dissonância com as novas leis mediadas pela sociedade contemporânea. A especifi cidade da análise, que se dá à luz da Teoria dos Campos de Fabio Herrmann – que usa o método da psicanálise para o estudo de todas as manifestações do psiquismo – propiciou a essa paciente pôr em palavras um passado que precisava ser lembrado e reeditado para promover seus lutos. Em especial, ela pode transformar a experiência de análise num meio de re-signifi - car e resgatar a essência de seu universo afetivo, tomar maior consciência de si mesma, no sentido de valorizar o momento e conferir um novo sentido à sua vida.


Palavras-chave
Psicanálise; Teoria dos Campos; processo de envelhecimento; transições; identidade; representações.


Autor(es)
Sylvia Salles Godoy de Souza Soares
é psicanalista, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


Notas

1 F. Herrmann, Introdução à Teoria dos Campos, p. 122.

2 F. Herrmann, O divã a passeio, p. 169.

3 F. Herrmann, 1992, op. cit., p. 175.

4 F. Herrmann, Andaimes do real, p. 222.

5 Caso clínico objeto de estudo de minha tese de doutorado: Psicanálise na maturidade: um resgate possível, São Paulo, PUCSP, 2006.

6 J. G. Rosa, Grande sertão: veredas, p. 9.

7 Lembrança de infância. Transmissão oral feita por meu pai.

8 I. Loyola Brandão, “O homem que perdeu a sombra”.

9 F. Herrmann, “Tempo e entrelaçamento dos campos”, p. 118.

10 F. Herrmann, comunicação verbal feita no curso de pós-graduação no Programa de Psicologia na PUCSP, em 26/08/04.

11 F. Herrmann, comunicação verbal no curso de pós-graduação no Programa de Psicologia na PUCSP, em 13/05/04.

12 A. Green (1983), “A mãe morta”, p. 148-177.

13 Todo ano, as Escolas de Samba promovem um concurso para escolher a composição musical que servirá como samba-enredo para o desfi le.

14 Citação da paciente cuja fonte me é desconhecida.

15 Tragédia, no sentido fi gurado pela paciente: sinistro.

16 F. Herrmann, 1991, op. cit., p. 72.

17 J. Chasseguet-Smirguel, La sexualité féminine, Paris, Payot, 1991.



Referências bibliográficas

Brandão I. L. (1999). O homem que perdeu a sombra. In: O homem que odiava a segunda-feira. São Paulo: Global.

Chasseguet-Smirguel J. (1991). La sexualité féminine. Paris: Payot.

Green A. (1983/1988). A mãe morta. In: Sobre a loucura pessoal. Trad. Carlos Alberto Pavanelli. Rio de Janeiro: Imago.

Guimarães Rosa J. (1984). Grande sertão: veredas. 16. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Herrmann F. (1991). Tempo e entrelaçamento dos campos . In: Clínica psicanalítica: a arte da interpretação. São Paulo: Brasiliense.

____ (1992). O divã a passeio. São Paulo: Brasiliense.

____ (2001). Introdução a Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo.

____ (2001). Andaimes do real. São Paulo, Casa do Psicólogo.

Soares S.S.G.S. (2006). Psicanálise na maturidade: um resgate possível. São Paulo: pucsp. (Tese de doutoramento.)





Abstract
By means of some aspects of an analysis, the author demonstrated that the ruptures originated by changes in the lifecycle, which highlight the aging process, weakened their long-established identities, as they lost their auto-representations, and were shaken by what was perceived as the dissonant social laws imposed by contemporary society. The specifi city of this analysis is given by the fact that it is based on Fabio Herrmann’s Multiple Field Theory, which uses the Psychoanalytic Method in all studies of mental processes. It prompted that something be put in words – a past that needed to be remembered and re-edited – as well as permitting the patient mourning. In special, she could transform the experience of psychoanalysis into a means of re- signifi cation and of rescuing the essence of the affective universe, become more aware of herself in order to value this moment and give new meaning to her life.


Keywords
Psychoanalysis; Multiple Fields Theory; aging-process; identity; transitions; representations.

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 TEXTO

As sombras que assombram

o método psicanalítico da Teoria dos Campos na clínica do envelhecente


Haunting shadows
Clinical method of the Theory of Fields as applied to ageing
Sylvia Salles Godoy de Souza Soares


O instrumental psicanalítico que se tem voltado para a criança, para o adulto, e para a criança no adulto, deixa lacunas em relação a uma categoria de pacientes, cada vez mais extensa – talvez produto da nossa época –, que apresenta uma modalidade de sofrimento peculiar. Trata-se de pessoas que nos procuram com fortes angústias de separação e inibições frente às mudanças, que surgem quando se encerram ciclos de vida em diferentes faixas etárias. Suas queixas são de desinteresse pela vida e desalento em decorrência de sucessivas perdas e falta de perspectivas para o futuro. E foi na Teoria dos Campos, “que considera que cada conjunto de relações é determinado por regras que lhes dão sentido, inconscientes […] que formam o campo das relações […] e constituem seu inconsciente relativo porque pertinente às relações que determina e pelas quais se descobriu” [1], que encontrei esteio para meu trabalho.

O encontro com Fabio, artífi ce de uma teoria que oferece subsídios abrangentes e possuidor de extrema sensibilidade clínica, foi o ponto de chegada para inúmeras questões a respeito de crises de idade com abalos no edifício identitário. A começar com a forma pela qual incidem as transformações sobre a vivência do processo de envelhecimento – desde as mudanças corporais na interface de uma dada cultura num tempo e espaço – até sua intensidade, devido à complexidade de fatores que concorrem para provocar mudanças no cenário das representações mentais.

Meu propósito neste artigo é assinalar a relevância do método da ruptura de campo, como instrumento de investigação, para alargar as possibilidades de desenvolvimento da função mental, promover mudanças psíquicas e pensar novos caminhos em etapas tardias da vida.

Na literatura encontrei um consenso de que a identidade vai sendo continuamente construída e desconstruída ao longo da existência – calcada nas estacas da trama sociocultural – e que tem suas bases fundadas num psiquismo que é próprio de cada pessoa. Herrmann (1992) vai além da concepção de um amálgama, decorrente da apreensão peculiar que cada um tem de mundo e de como o representa. De seu ponto de vista, a psique não é individual, nem social nem cultural exclusivamente. Para ele, o sentido humano instaura-se a partir do momento em que, ao romper-se o cerco das coisas – da materialidade, onde não há intervalo entre a necessidade e a satisfação desta – abre-se espaço no jogo entre o bebê e sua mãe para a mentira original. Neste salto cria-se o real humano, o desejo: o reino do sentido, do sonho, do ato falho. Cria-se o mundo e o eu. Inaugura-se, assim, o universo de representações.

Herrmann sustenta que “a superfície representacional representa sempre um papel defensivo. Reveste em primeiro lugar a subjetividade com a película demarcadora de limites que representa a identidade; em segundo lugar, é o representante da desmedida inter-relação entre os homens […]. Está investida por uma forte carga pulsional, furtada à desejada fusão no real” [2]. Ora, se os componentes do sujeito têm a mesma origem no real e no mundo objetivo, há uma representação de mundo que se cola à superfície identitária e sobrepõem-se estados de confl ito entre desejo e real porque “o mergulho nos grandes temas da vida e da morte, sobretudo a convivência íntima e desprotegida com a lógica de concepção do real humano – as regras produtoras de sentido, imersas e ocultas no estofo da cultura, ativas na sociedade e no indivíduo, como campos organizadores – desfazem a diferenciação cuidadosa entre o eu e o mundo, ao mesmo tempo que impossibilitam nossa razão comum e cotidiana de funcionar satisfatoriamente” [3].

Por esse prisma, a travessia de distintas passagens na vida pode ocasionar agudos confl itos entre o desejo de permanência – onde florescia certa estabilidade emocional – e o confronto com uma realidade outra à sua volta. Entre a representação de um eu e sua imagem refl etida em outrem, há que se distanciar para safar-se do contágio e buscar novas referências para tecer confi gurações frente às quais possa reconhecer-se.

Observa-se na prática analítica, segundo Herrmann, que “os pacientes relutam em deixar- se perder de suas auto-representações […] e, se isso ocorre por efeito da luta de um instinto de vida contra um instinto de morte que os ameaça com aniquilamento psíquico em situações de irrepresentabilidade, nada nos garante” [4]. Ao passar pelo crivo da análise, o paciente vai experimentar abalos identitários pelo efeito interpretativo da ruptura de campo, e descobrir coisas às quais não tinha acesso, provindas do entrechoque de auto-representações.

Para expor o methodo, entendido em seu sentido investigativo como um caminho que conduz ao conhecimento, proponho um traçado, que delineie fronteiras imaginárias, convencionado como um meridiano, entre a história do paciente, que até então foi vivida em sua singularidade, num solilóquio talvez, e a história que vai se construir a partir da análise. O indivíduo presume-se um, mas, na investigação analítica, muitos eus se apresentam; alguns já existiam e passam a se revelar.

A história que passo a narrar é um fragmento do processo analítico de uma paciente [5] no qual destaco as mudanças de ciclos, com suas crises mais ou menos agudas na identidade pessoal e social, e as mudanças possíveis que ocorreram. Herrmann nos propõe uma imersão no material do paciente para deixar que surja. Tomando seu próprio modelo de nado de peito, cuja prática impõe um movimento combinado de mergulho e tomada de ar, fui acompanhando Sofia, em análise comigo há aproximadamente quatro anos. Trata-se de uma mulher vivendo a década dos quarenta e, aparentemente, abrindo-se para uma nova etapa de vida. Esse processo parecialhe natural – do momento em que uma página de sua história fora virada. Casara-se jovem e a construção de uma família, de um patrimônio, o educar fi lhos já faziam parte do passado, ainda que recente. Esvaziada sua função, perdido seu sentido, ela volta-se para o mundo intelectual, no propósito de profi ssionalizar-se. Contudo, depara-se com uma dupla tarefa pela frente: fazer o luto do projeto princeps de vida e arrojar-se em um novo intento. Para isso, tem procurado desenvolver um trabalho intenso consigo mesma, que, aliás, é inerente à sua profi ssão.

A análise de Sofia chamou-me a atenção para o aglomerado de sensações, que a priori aludiriam à velhice, emergindo na narrativa de uma jovem senhora. A história sobre sua vida falava de tempos idos, como se patinasse na superfície de um lago gelado; à parte, vislumbravase uma profundidade onírica, por seu apreço à arte, à prosa e, em especial, à poesia, que no decorrer do processo foi revelando a riqueza de seu mundo mental.

Alguns fragmentos de sessões, entremeados de associações minhas, são ilustrativos. Era o dia de seu aniversário e sua comemoração provocava uma oscilação de emoções.

P – Ontem fui festejar meu aniversário e, vendo meu sogro, velhinho, lembrei-me de um fi lme de V.H.K., em que um personagem se internou num asilo para lá morrer. Estou meio fúnebre!

A – A presença da morte passou pela sua mesa…

P – Não sei quantas mortes passaram por lá. Eu estou viva. Mas tem um outro lado da coisa, a ala jovem, a conversa fl uindo. A vizinha vai ser avó!

A – São três gerações: os jovens, os velhos assustados com a morte, e você que está no meio.

P – O meio traz dúvidas, se me identifi co com o avô, sogro, ou com os jovens; acho que estou mesmo numa transição.

A – Em um extremo a morte; em outro, a vida. Mas não é nesse impasse que estamos o tempo todo?

P – Ficar velhinha dá impressão de despedida e, se o caminho é esse, o jeito é ir, porque para voltar para trás não dá. A equivalência da idade é a depressão… Ontem falei para meu marido: como é estar casado com uma mulher por 25 anos? Ele respondeu: você parece ter vinte e cinco anos. Eu estou velho.

Sofia oscila entre a euforia da juventude e o esmorecimento da velhice. Espelha-se no marido, companheiro de tantos anos, e vai-se dando conta do drama que vive nesse descompasso. Uma das mortes parece ter sido esta: a de um marido jovem. Ou a morte de algo que existia entre eles.

P – Acho que nunca pensei no casamento de verdade. Estava ali com os fi lhos, não precisava pensar. Não tem mais jeito; eles indo embora, tenho que me haver comigo. A relação foi bem vivida, não faltou nada. Se tivesse que passar tudo de novo não gostaria. Fica uma saudade… Filhos são um grande projeto de vida! Só que era a sustentação do casamento. Quero agora recuperar um pouco de mim mesma. Casei jovem; não dá, nem poderia voltar, nada tenho dos 20 anos. A relação da mãe é tão intensa, que fi ca um vazio sem preenchimento. Morre o fi lho criança, morre a mãe jovem.

Sua narrativa lembrou-me Guimarães Rosa: “De primeiro eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro não fantasêia. Mas agora, feita a folga que me vem e sem pequenos desassossegos estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia” [6].

O vai-e-vem da rede, mote propulsor da memória, embala suas recordações. O tempo de lembrar, típico da velhice, aparece representado por movimentos pendulares que marcam as idas e voltas ao passado. A história contada por trechos impregna a estatura de vida e morte. Menopausa. Angústia de separação, de perda, e a implacável passagem do tempo!

Assim era a pessoa dela: projetando-se no futuro, mas compassiva à nostalgia de um tempo encantado na sombra. Ocorreu-me, a um só tempo, duas lembranças: uma composição de Chiquinha Gonzaga, mulher adiante de seu tempo: “Oh, abre alas que eu quero passar”. E uma passagem de Eça de Queiroz que menciono:

A – “o amor é como a sombra: quando fugimos, ela nos persegue, quando mudamos de direção e corremos atrás dela, ela foge de nós” [7].

P – Você já leu O homem que perdeu a sombra do Ignácio Loyola? [8] Se você quiser posso te emprestar… Eu me vejo descaradamente na minha mãe: é assustador demais, sempre às voltas com a idéia de doença, de morte… Agora ocorre infi nitamente menos como me vejo nessa mulher. Coisa de bruxaria; é uma teia. Outra história é que havia uma sintonia com meu marido e foi isso que morreu…; vem vindo num ocaso, crepúsculo, escurecendo, indo para as trevas. Sinto ser mais um estado de alma, do que da idade.

A passagem do tempo, em sua pressa, deixa à mostra a sensação de vacuidade e gera uma nova fonte de inquietação. Herrmann, ao teorizar clinicando, nos instiga com questões:

Como trabalhar com um paciente fértil em operações metafóricas? […] Como facilitar o trânsito de um cliente cuja difi culdade maior seja a de admitir a travessia de campos analíticos, com a conseqüente turbulência identitária? […] Como privilegiar o trabalho de um campo sobre os demais, como penetrar numa trama cerrada de campos, como servir-se de um campo para elucidar outro […]? [9]

Seguindo os passos de Sofi a, aceito a oferta do livro, fonte inspiradora que originou um idioma entre nós duas. O desembrulhar da história revelou uma certa abstenção de afetos em seu dia-a-dia. Sua vida mental habitava um espaço reduzido abafado pela ação da rotina; ou, vice-versa, seu pragmatismo se encarregava de ocultar a fonte de suas emoções.

Um exemplo: uma fuga de marginais da penitenciária, ocorrido nas vizinhanças em que mora, é contada por ela como um conto. A notícia divulgada pela imprensa, de que as pessoas na cidade estavam assustadas pela periculosidade dos bandidos, não abalara Sofi a. Conservarase inalterada, embora observasse que achava estranha sua reação. Outro: um prédio que estava sendo construído em frente à sua casa, ela só chega a notar quando retiram o tapume. Essa representação, por muito retornar, transformouse em um protótipo para outras defesas: havia sempre uma explicação de bom senso para o brotar de sentimentos menos suportáveis. À semelhança de uma venda, ou bandagem – que servia como uma faixa de isolamento entre nós duas – me induzia a formular uma compreensão metafórica quando eu percebia no tom de sua voz uma vibração mais acentuada. Emergiam então lembranças em meio a fantasias infantis: Não sei por que não posso fi car alegre; mas sei que toda vez que algo me acontece de bom, de extraordinário, lembro-me de minha mãe dizer: menos, menos euforia. Quem caminha é a sombra que me acompanha, que me leva, que é mais forte que eu…

Mas, afinal, qual a efígie da sombra? Na acepção grega nos relata Herrmann: “Os deuses são; o homem é uma sombra! – Skiá – uma réplica. O homem é o sonho de uma sombra. O homem é nada e ao mesmo tempo a medida de todas as coisas. Isso quer dizer que ele é mortal. A mulher é pensada como um ser diferente do ser humano. Essa idéia nos remete à questão do narcisismo: confunde o homem com a sombra” [10].

Por momentos Sofia mira-se em seu próprio espelho: vê a si mesma, seu trabalho, suas idéias; na outra face, apenas o refl exo de uma fi gura poderosa – da mãe ou do marido, o homem que representa a voz do pensamento – que faz sombra e reduz a fi gura feminina a um nada. Em certos momentos, em sua constelação representacional, ela assemelha-se à lua: não tem luz própria… Mas sua identidade, que emergia apenas refl etida pela luz das identifi cações, começa a se delinear na análise: Minha mãe nunca se interessou por mim e me senti lisonjeada, que falei coisas interessantes, com seu pedido para usar o material das minhas sessões… Tenho clientes, mas meu marido diz que eu preciso aprender a ganhar dinheiro; sei que posso investir no meu trabalho porque sou mantida por ele, o que, de um jeito ou outro, me mantém sujeita a ele que é uma pessoa tão concreta, prepotente…

Vale lembrar que, por ser ele quem proporcionava sua análise, de certa forma, ambas – ela e eu – estávamos sujeitas à sua anuência.

Para perceber-se como pessoa, Sofi a teria de se ir despregando das imagens que lhe faziam sombra, dos espectros que obscureciam sua própria fi gura. Na análise, ao começar a se distinguir, fala de uma espécie de orfandade, produto da descompressão da imago materna que aos poucos se distancia: Vejo que a depressão é uma coisa da minha mãe. Percebe a ambivalência em relação ao marido, misturada que estava com a fi gura paterna que a um só tempo a protegia e amarrava. O trabalho de luto pelas perdas naturais e de suas representações internas, em especial das imagos infantis, começa a processar-se. Vislumbra um ressurgir das cinzas, em meio à presença de sombras que ainda turvam seus horizontes. Pois, como nenhum arbusto viceja a sombra de uma árvore frondosa, as sombras que nos acolhem são as mesmas que nos encolhem, ou ainda, nos assombram com seus vultos avantajados. Mas de que sombra se fala? Herrmann faz uma indagação importante: “para aonde vai a sombra durante a noite? A sombra é o avesso da consciência, lugar onde se opera a lógica geradora do pensar, dos sentidos psíquicos, (fantasias) que Freud denominou inconsciente” [11].

P – Fico triste no Natal, porque a gente festeja o nascimento de Cristo já sabendo que ele vai morrer…

Fantasias de morte – da mãe depressiva, que devem tê-la assombrado desde muito cedo – recrudescem no medo de vir a ser nada. Diz Green, “a característica essencial dessa depressão é que ela tem lugar na presença do objeto, ela própria absorvida por uma privação ou abandono” [12].

Aos poucos as imagos infantis dissipam-se: Sonhei com F., uma professora, estabanada, numa alegoria de escola de samba. Achei estranho que fui a vencedora no concurso de samba-enredo [13], com uma idéia brilhante: um Cristo desfi lando com a cruz na passarela e as diversas alas desenvolvendo temas litúrgicos. Minha única dúvida era se colocaria um único Cristo atravessando toda a avenida ou um em cada ala da escola?

Meu silêncio imediato provocou uma reação inopinada: Você está como a F!

Com medo de não ser ouvida – ou de eu ter desaparecido –, ela me cutuca com uma provocação, para exorcizar a sombra da mãe morta, debruçada sobre a situação analítica. O sonho, sob a forma de alegoria, traz à luz a ânsia de decifrar mistérios e a antinomia do desejo: de se destacar, mas desfi lando sua dor. E também de ter um público, ou, ao menos, sua analista para escutá-la.

P – O olhar do crepúsculo chama mais minha atenção do que o sol nascer; isso me confi sca. (Chora.) Não sei defi nir: se eu disser que é espelho da minha própria velhice, não é verdade, não é um sentimento legítimo – melancolia –, não é meu. O tempo é mais uma história da minha mãe… Existe a alegria, mas logo passa, se esvanece… Tenho uma nostalgia de algo que não entendo, de algum tempo… De tempo nenhum; é uma nostalgia que dá medo. Não tenho medo da morte, mas de viver eternamente. Fantasia de morte não me assombra, nem a antecâmara (velhice) porque parece que tem uma coisa de acolhimento, a pessoa vai retraindo-se. Mas, pensar sobre essas coisas é estar vivo. Como disse Clarice Lispector: “Quando tenho fome sinto que estou viva” [14].

Antes de deitar-se, com freqüência Sofi a olha-me de alto a baixo, examina meu semblante, arrisca uma espiada no nome de algum livro que eu esteja lendo. Quando aponto as minhas percepções, ela replica: é como quando vou falar com minha mãe. Preciso saber como está seu humor para poder falar certas coisas… Li no jornal sobre uma mãe que presenciara a fi lha despencar do parapeito da janela sem conseguir segurá-la. Imagine que uma psicóloga queria saber se podia processar a mãe. Numa hora dessa! Ela se identifi cou com a criança e eu com a mãe, com aquela dor. Que condições teria essa psicóloga se tivesse que atender aquela mãe? Lembro-lhe cenas por ela referidas: do colega de seu fi lho que morreu, do pai de outro que foi executado e ressalto a freqüência com que ela se coloca no lugar da heroína, usando sua mente como palco da tragédia [15].

Sofia começa a pôr em dúvida o porquê de viver a tragédia, já que tinha uma vida corriqueira, com um marido que dorme, que fi ca de pijama… Um sonho ilumina:

P – Meu marido estava desarmado, quando eis que veio vindo a top model Gisele Bünchen, maravilhosa, andando languidamente, com uma porção de negros fortes, os seguranças, e os ladrões foram embora.

A incógnita da charada se traduziria pela disfunção erétil do marido? Mas, esse destronar o soberano de suas funções, além de sugerir uma competição com ele, deixa entrever a onda de sexualidade, anseios de ser modelo, de brilhar, de ser invadida, penetrada, mas, sobretudo, de anular o marido, para sobressair-se e sair de sua sombra. Sofi a caminha no sentido de desenvelhecer:

P – Minha identidade foi toda calcada em ser mãe. Agora é como se eu tivesse que resgatar essa identidade que foi posta de lado por tanto tempo. Não é só a questão da sexualidade, mas é tudo. É como os fi os com que sonho, que alguém está roubando. Não sei onde vai dar isso, mas é desesperador perder o controle. Parece que separei a afetividade e agora tudo é pensamento.

Por pressentir que algo estava por se romper, reporto-me à imagem de um filme:

A – Ao menor sinal da natureza, um pássaro escuta e avisa os outros para se evadirem antes da precipitação de blocos de gelo ao solo. A transição prenuncia a chegada de uma nova estação: a primavera que ressurge.

P – Que lindo! Você deveria escrever isso…

Perceber-se separada do marido abre um hiato na representação de si: por não se saber jovem, nem velha, ela sabe de onde veio, mas não sabe para onde vai. Em uma palavra, teme ser capturada pelo ar rarefeito do vazio representacional. Experiência indizível, conceituada por Herrmann (1991) como vórtice, o qual pode ser apreendido por seu efeito vertiginoso, “acompanhado de sentimentos vagos de perder o pé e afundar-se em si mesmo, de despersonalização, de auto-desconhecimento, de estranheza” [16]. Em meio à angústia, afl ora o campo transferencial. Os entreatos de fala – a respeito do sonho – e silêncio na sessão mostram a tensão, que num dado momento se rompe, insinuando sua sexualidade e pondo à mostra uma agressividade em vigência: a competição com o marido e, veladamente, comigo. Bonito seu vestido – fala com ar de admiração –, tem um ar feminino; e eu sempre de calças, acho que é o costume! Emerge a expressão do desejo: recuperar um tempo perdido, de uma mulher à qual não foi permitido, entre outras coisas, transparecer sua feminilidade. Ao me dizer o que pensa e o que sente, ela transpõe o tapume. A aparência do ramerrão começa a se desfazer, regras que não podiam ser tocadas se esgarçam por seu uso excessivo; e, como que por um efeito cumulativo numa aguda percepção, vislumbra a possibilidade de que campos sucessivos venham a se romper em sua vida, o que lhe parece um absurdo pela estranheza de acordar em campos de representações fugazes e nebulosas. Tudo o que sabe é que aqueles são os derradeiros momentos de uma etapa em que as representações que deram a ela a medida de ser ela mesma não dão mais conta e cujo passo seguinte é o desconhecido. Mas ela deixa em aberto algumas frestas com anseios de uma mulher madura.

O fim de ano se aproximava e de volta antigos temores. Os lutos bem ou mal elaborados enviavam seus fantasmas para sombrear seus íntimos.

P – A alegria do nascimento não vem só: tem um Cristo nascendo que vai morrer; fica implícito. Tem uma inscrição pelo menos no mundo ocidental. Não sou religiosa, não sei se precisa, está meio na humanidade. (I.N.R.I.) Não sei se você é católica… Na igreja católica, não é permitida a alegria, sem um sentimento melancólico; é a melancolia por excelência. A comunidade de jovens é uma tragédia; dá um toque do falso, do hipócrita.

Sofia parece me designar como seu confessor para que eu ouça suas mágoas que desnudam a ambivalência: o alegre e o triste, o paradoxo da vida e da morte. Nesse Natal ela me presenteia com uma caixinha de jóias, de prata. Sabia o que realmente queria te dar, mas custou muito para achar. Ela queria me presentear com algo onde eu guardasse as minhas ou as suas coisas de valor.

Como afirma Smirguel: “um mistério obscuro e de difícil resolução reveste o sexo feminino, o qual não é passível de se revelar através de uma sondagem científi ca, mas sim na experiência afetiva e instintual profunda, por toda luxuriante e complexa mitologia que o envolve” [17].

No começo de ano que se seguiu, ela pergunta se vou aumentar o valor da sessão e me comunica que dali em diante gostaria, na medida do possível, de arcar com suas despesas. Passados poucos meses, Sofi a relata uma conversa com o marido: a questão é que eu estou absurdamente desinteressada dele, mas não sei o que fazer com isso…

Por fim, ela se dá conta de que, se, por um lado, seu casamento chegou a um termo irreversível, por outro, ela não quer despertar de um sono letárgico que a dispensa de ter que tomar uma decisão. Seu sofrimento é agudo: quer deixar de viver sob suas asas, quer liberdade; mas pondera, porque há uma história dos dois que não pode ser jogada fora. Afi nal, todo esse cabedal constituiu- se no investimento de uma existência. Na prática de sua vida, Sofi a ainda vai ter que fazer uma escolha. Mas em seu mundo mental, ao desembaraçar- se dos fantasmas de uma existência simbiótica, Sofia, por fi m, sai da sombra, ou melhor, encontra sua sombra perdida. No dizer de Loyola, seu duplo, isto é, refl exo de si mesma.

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