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Resumo
A obra de Fabio Herrmann convida o leitor a um reexame constante de suas teorias, colocando em xeque verdades estabelecidas, arremessandonos num vórtice. Tomando O método da Psicanálise e as meditações clínicas de Herrmann, é inevitável a comparação com Descartes e seus Discurso sobre o método e Meditações metafísicas. A comparação dos papéis desempenhados por Descartes na Filosofi a e Herrmann na Psicanálise possibilita elucidar a contribuição epistemológica trazida por Herrmann.


Palavras-chave
método psicanalítico; vórtice; Fabio Herrmann; Renée Descartes.


Autor(es)
José Carlos Mohallem
é psicólogo, mestrando em Psicologia Clínica pela PUCSP, membro do CETEC (Centro de Estudos da Teoria dos Campos).

Fernanda Sofio
é psicoterapeuta, mestranda em Psicologia Clínica pela PUCSP, membro do CETEC.


Notas

1 F. Herrmann, A infância de Adão e outras fi cções freudianas.

2 F. Herrmann, Da clínica extensa à alta teoria: meditações clínicas.

3 O termo é dos autores deste artigo. A idéia consiste em nomear o vórtice causado pela obra de Herrmann na história da Psicanálise – um vórtice invertido, pois a cada texto do autor, a cada idéia, seu pensamento torna-se mais convincente. Trata-se do efeito de vórtice que tem a obra de Fabio no leitor.

4 R. Descartes (1637), Discours et la méthode.

5 R. Descartes (1641), “Meditações concernentes à primeira fi losofi a”.

6 Este artigo não almeja, nem de longe, uma exposição da fi losofi a cartesiana ou de suas críticas ao pensamento tomista, utilizando apenas o autor para nos aproximarmos da inversão epistemológica no âmbito da psicanálise efetuada por Fabio Herrmann. No entanto, cabe dizer das críticas ao tomismo efetuadas por Descartes, que vão muito além, incidindo na própria antropologia cartesiana e o estatuto tripartite do corpo e sua relação com a alma, distintos do aristotelismo escolástico preconizado por Tomás de Aquino. Ver: M. Gueroult (1953) Descartes selon l´ordre des raisons.

7 R. Descartes (1641), op. cit.

8 R. Descartes (1641), op. cit., p. 93.

9 J. Frayze-Pereira, “Psicanálise, Teoria dos Campos e Filosofi a: a questão do Método”, p. 103 (grifos do autor).

10 Carmen Lúcia de Oliveira, em livro publicado em 2005, contesta a tese desta palestra. Não há registro algum em ata ou memória de alguém que a tenha escutado, nem em arquivos do próprio Juliano Moreira. Apesar disso, é do próprio Juliano a primeira referência brasileira documentada da obra de Freud, mas apenas em 1914. Ver: M. Perestrello, Encontros: Psicanálise &…; J. Chemouni, História do movimento psicanalítico.

11 M. Perestrello, op. cit.

12 R. Sagawa, Redescobrir as psicanálises; M. Perestrello, op. cit.; C. Oliveira, História da Psicanálise no Brasil; S. Figueira, Cultura da Psicanálise.

13 R. Mezan, A vingança da esfi nge.

14 F. Herrmann (2002-2004) op. cit., p. 16.

15 F. Herrmann, O divã a passeio, p. 16.

16 F. Herrmann, Introdução à Teoria dos Campos, p. 52-3.

17 F. Herrmann, “Como conclusão: daqui p’ra frente”, in L. Barone, op. cit., p. 282.

18 Aqui há uma citação a um livro de Fabio, cuja referência é F. Herrmann, Psicanálise do quotidiano.

19 F. Herrmann (1992) op. cit.

20 F. Herrmann, A psique e o eu.

21 F. Herrmann (2002-2004) op. cit., p. 2-8.

22 F. Herrmann (2002-2004) op. cit., p. 20-40.

23 F. Leopoldo e Silva, Descartes: a metafísica da modernidade, p. 25.

24 F. Herrmann, Andaimes do real: um ensaio de Psicanálise Crítica, p. 2.

25 A expressão é de Renato Mezan, op. cit.



Referências bibliográficas

Chemouni J. (1991). História do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Zahar.

Descartes R. (1637/1997). Discours et la méthode, Paris, Gallimard.

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Figueira S. (1985) Cultura da Psicanálise. São Paulo: Brasiliense.

Frayze-Pereira J. (2002). Psicanálise, Teoria dos Campos e Filosofi a: a questão do Método. In: Barone L. (org.). O psicanalista: hoje e amanhã – O ii Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos por escrito. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Gueroult M. (1953/1991). Descartes selon l´ordre des raisons. Paris: Aubier.

Herrmann F. (1976). Andaimes do real: um ensaio de Psicanálise Crítica. (Mimeo.)

____ (1992). O divã a passeio. São Paulo: Brasiliense.

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____ (2001). Introdução à Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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____ (2002). A infância de Adão e outras fi cções freudianas. São Paulo: Casa do Psicólogo.

____ (2002). Como conclusão: daqui p’ra frente. In Barone L. (org.). O psicanalista: hoje e amanhã – O II Encontro Psicanalítico da Teoria dos Campos por escrito. São Paulo: Casa do Psicólogo.

____ (2002–2004). Da clínica extensa à alta teoria: meditações clínicas. (Mimeo.) Leopoldo e Silva F. (1993). Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna.

Mezan R. (1986). A vingança da esfi nge. São Paulo: Brasiliense.

Oliveira C. (2005). História da Psicanálise no Brasil. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Perestrello M. (1986). Encontros: Psicanálise &… . Rio de Janeiro: Escuta/fapes.

Sagawa R. (1992). Redescobrir as psicanálises. São Paulo: Lemos.





Abstract
Fabio Herrmann’s work invites the reader to constantly reexamine theories, putting in check pre-established truths, tossing the reader in a vortex. Taking Herrmann’s book Scaffolds of the real – the method of Psychoanalysis and his clinical meditations, a comparison is inevitable with Descartes’ Discourse on method and Metaphysical meditations. By comparing the roles of Descartes in Philosophy and Herrmann in Psychoanalysis, it becomes possible to elucidate Fabio Herrmann’s epistemological contribution.


Keywords
psychoanalytic method; vortex; Fabio Herrmann; Renée Descartes.

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 TEXTO

Fabio Herrmann – dos Andaimes às Meditações

uma investigação metodológica


Fabio Herrmann – from the Scaffolds to the Meditations
A methodological investigation
José Carlos Mohallem
Fernanda Sofio


A leitura da obra de Fabio Herrmann convida o leitor a um reexame constante de suas teorias, colocando em xeque – amante do xadrez que sempre foi – nossas verdades estabelecidas sobre a psicanálise, a clínica, arremessandonos num vórtice, nesse turbilhão que arrasta nossas representações dominantes, tornando impossível permanecer imune. Na obra de Herrmann, nada é gratuito ou supérfl uo. Seu estilo elegante, de uma erudição sem barroquismos, foi se tornando ao longo dos anos mais poético. A densidade dos primeiros escritos foi cedendo lugar ao fi ccional, como em A infância de Adão [1], culminando no diálogo franco com um interlocutor imaginário – bem ao estilo freudiano – do qual as meditações clínicas [2] constituem um exemplo bem acabado. Do primeiro livro, Andaimes do real – o método da Psicanálise, publicado em 1979, e elaborado ao longo dos dez anos anteriores, ao último grande trabalho Da clínica extensa à alta teoria: meditações clínicas, escrito entre 2002 e 2004, foi se articulando um pensamento coeso, que já nasce maduro, mas que vai como num vórtice invertido [3] crescendo e, em cada volta desta espiral, encorpando-se e ficando mais poderoso.

O fio condutor do presente trabalho parte desta não gratuidade do autor. Tomando os títulos dos trabalhos mencionados, é inevitável a comparação com Descartes e seus Discurso sobre o método [4] e Meditações concernentes à primeira filosofia [5]. O que pode haver em comum entre Herrmann e Descartes? A aparentemente esdrúxula comparação talvez encoberte algumas similitudes. A hipótese que lançamos é a da existência de uma afi nidade eletiva entre os dois projetos, da qual Herrmann estava ciente. A comparação do papel desempenhado por Descartes na Filosofi a e Herrmann na Psicanálise, feita de forma muito sumária, nos conduzirá ao objetivo deste artigo: elucidar a contribuição epistemológica trazida por Herrmann.

Descartes e a inauguração da filosofia moderna

É consenso na história da filosofia considerar Descartes como o autor que inaugura a modernidade. O combate à filosofia anterior de cunho aristotélico-tomista [6] é um de seus pontos de partida. Diferentemente desta fi losofi a, Descartes não considera as representações como sendo primeiramente de cunho sensível, sendo posteriormente captadas pelo intelecto; ao contrário, Descartes promove uma inversão epistemológica: o que possuímos primeiramente são as representações das quais devemos testar a realidade. A suspensão do sensível faz com que o autor busque nas próprias representações os critérios que atestem sua validade. A primazia do sujeito, que solitariamente investiga as bases do conhecimento possível, é construída paulatinamente nas Meditações metafísicas [7], em que o autor questiona, através da dúvida sistemática, todas as opiniões preconcebidas, todo o conhecimento erigido pelos filósofos e transmitido pela tradição, desfazendo-se “de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de fi rme e de constante nas ciências” [8], almejando assim construir um conhecimento claro e distinto sobre as coisas. O empreendimento cartesiano consubstanciado nas Meditações é o corolário de seu método que buscava assentar o que era verdadeiro nas ciências. O método cartesiano deriva-se diretamente da geometria, passando dos axiomas simples e evidentes aos mais complexos, dividindo as difi - culdades encontradas em tantas partes quando for possível e necessário para resolvê-las.

A simplicidade do procedimento metódico encobre uma verdadeira revolução que inaugura a filosofia moderna: ao criticar o conhecimento herdado pela tradição e validado pelo discurso de autoridade, Descartes coloca o próprio sujeito como autônomo em relação ao conhecimento: é ele, o sujeito – entendido exclusivamente como pensamento – que garante a certeza, é a partir do que se encontra no sujeito que se constitui o conhecimento. O conhecimento fundante não é mais o homem, mas a consciência, “enquanto consciência-de-si-refl exiva, isto é, a consciência que tem consciência de si porque refl ete sobre si mesma. […]. E tal consciência-de-si-refl exiva, sendo a sede do conhecimento, recebe um nome determinado: Sujeito” [9]. O sujeito se serve do método como condição básica, como instrumento para o conhecimento verdadeiro. O conhecimento verdadeiro, para Descartes, subjaz a um método que lhe antecede.

A busca pelo conhecimento psicanalítico possível é a bússola que orientou toda a produção de Fabio Herrmann, iniciada no fi nal dos anos 1960. Antes de analisarmos a obra de Herrmann propriamente, vejamos, sumariamente, contra que realidade o autor construiu sua teoria, traçando um panorama da Psicanálise pensada no Brasil.

Uma reflexão original na psicanálise brasileira

O Brasil foi um dos primeiros países a divulgar a obra de Freud. Já em 1899, Juliano Moreira proferia palestra em que comentava as idéias do criador da psicanálise [10]. Genérico de Souza Pinto, médico cearense, escreverá em 1914 a tese de doutorado Psicanálise: a sexualidade nas neuroses, constituindo-se o primeiro trabalho psicanalítico em língua portuguesa [11].

Os primórdios da psicanálise brasileira já foram analisados por diversas vezes em ensaios e teses altamente relevantes, como os trabalhos desenvolvidos por Roberto Sagawa, Marialzira Perestrello, Luis de Almeida Prado Galvão, Renato Mezan, Manoel Berlinck, Carmem Lúcia de Oliveira, Sérvulo Figueira, entre outros [12]. No entanto, como salienta Mezan, apesar de sua longevidade escrita e institucional, só no início dos anos 1980, ela começa a sair da fase de latência – sobretudo com a obra de Herrmann – e a falar em nome próprio com uma refl exão original [13].

O “falar em nome próprio”, salientado por Mezan, enquadra-se precisamente pelo cunho diverso das pesquisas realizadas: lendo os historiadores da psicanálise brasileira, percebe-se que toda ela girou sob o signo do pioneirismo desbravador de autores como Juliano Moreira, Durval Marcondes, Porto Carreiro. Em condições inóspitas de uma psicanálise não institucionalizada – décadas de 20 e 30 do século passado – traduziam os trabalhos do alemão, correspondiam-se com Freud, e tentavam inserir a psicanálise nos ambientes psiquiátricos locais ou pós-institucionalização, passando a mimetizar autores estrangeiros – sobretudo advindos da Sociedade Britânica – sem se autorizarem a pensar por si mesmos.

Foi este o quadro da psicanálise encontrado por Herrmann quando iniciou sua teorização, estado este que

não oferecia um panorama muito distinto do atual. Era formada por um conjunto de teorias, distribuídas em níveis bastante heterogêneos – mais rigorosamente escolásticas então que hoje –, porém versando no geral sobre o mesmo tema, uma prática clínica standard, ou padrão, e um movimento organizado que formava analistas. O ensino determinava tanto a prática, quanto o tipo de teoria que se podiam considerar psicanalíticos. Parecia-me uma oportunidade desperdiçada de criar algo maior [14].

A partir da crítica à reprodução mimetizante protagonizada pelos analistas encalacrados nas teorias de seus autores prediletos, a quem apenas copiavam, Fabio construiu, ao estilo kantiano, uma espécie de tribunal da razão psicanalítica, perguntando-se quais os limites do conhecimento psicanalítico possível. A idéia de método como ruptura de campo deriva desse posicionamento.

Esta conceituação do método como ruptura de campo é o corolário de um questionamento que se inicia com uma investigação sui generis pela aparente simplicidade. A questão essencial para Fabio Herrmann era: o que faz um analista no consultório? O que faz com que autores com teorias tão distintas quanto Lacan, Bion ou Kohut ainda assim pertençam ao panteão dos psicanalistas? Ao analisar as fontes clínicas do que faz um analista em essência, Herrmann chegou à concepção de que todos os psicanalistas, independentemente de suas filiações teóricas, participam de uma “assimetria irremediável” [15] com seu paciente. “Há um desencontro de campos, o analisando tratando de algum assunto, mas seu analista desrespeitando completamente os limites de tal assunto como nunca se faria na vida comum” [16]. Este desrespeito ao assunto proposto pelo paciente propicia que as auto-representações que o paciente possui entrem em crise, possibilitando a emergência de sentidos novos, advindos da ruptura do campo das representações dominantes. O efeito da ruptura de campo é o abalo das sustentações identitárias do paciente, produzindo um vazio representacional a que Fabio Herrmann chamou de expectativa de trânsito, até que uma nova estruturação num novo campo origine novas auto-representações. A ruptura de campo é o próprio método da Psicanálise. O método não se confunde com a teoria ou com a técnica, mas as antecede. Sempre que se fi zer psicanálise, dar-se-á o método, independentemente da teoria ou da técnica, isto é, fazer psicanálise é estar constantemente possibilitando rupturas de campo. As teorias psicanalíticas acabam tendo seu valor como interpretantes, isto é, dentro de um campo muito específi co de validade. As teorias psicanalíticas, ao almejarem transformar-se numa ontologia, excedem seu campo específi co de ação, transformando-se facilmente em mitologias. Ao se transformarem em mitologia, não deixam de ser psicanálise, pois participam ainda em parte do método psicanalítico. No entanto, seu âmbito de ação se reduz drasticamente. Este, para Fabio, acaba sendo o grande paradoxo das teorias psicanalíticas que advogamos com fervor: possuem certa efi cácia clínica; no entanto perderam sua capacidade heurística, repetindo os cânones cultuados por seus autores.

Além disso, historicamente a Psicanálise foi se restringindo ao consultório, numa prática terapêutica, fi cando muito aquém do projeto freudiano. Depois de Mal-estar na civilização, Totem e tabu, Futuro de ilusão, Moisés e o monoteísmo, qual o grande trabalho de investigação do homem e da cultura produzido pela psicanálise? A psicanálise reduzida a uma prática clínica consiste numa redução drástica de seu campo de ação, principalmente quando se torna sinônimo de rituais clínicos, como número de sessões, uso do divã. Esse campo da psicanálise está ameaçado; já a ciência iniciada por Freud, esta “grande ciência da psique, ainda se acha em criação e nada a ameaça, a não ser a nossa falta de valor, dos analistas que não a temos feito avançar no ritmo proposto por Freud, nem temos ampliado o conjunto de temas que nos legou. Parece que não nos agrada que Freud haja criado uma ciência que progride em direções que ele não poderia prever. Curioso paradoxo, pois essa era justamente a previsão de Freud: a de iniciar uma ciência” [17].

Ao longo de sua teorização, Fabio foi buscando ampliar o campo de ação da Psicanálise, seja investigando o quotidiano [18] do ser humano, do qual emerge uma importante teoria do real, ou fazendo experimentos híbridos de ciência e literatura como consubstanciados em O divã a passeio [19] ou em A psique e o eu [20].

As Meditações clínicas constituem um dos últimos trabalhos do autor, que nelas faz um recenseamento dos temas que o acompanharam por toda sua trajetória. Isto desde A história da psicanálise como resistência a Psicanálise [21] – em que aponta para o estreitamento do horizonte de vocação da Psicanálise de tornar-se a ciência geral da Psique –, até exercícios brilhantes em O análogo – que desvelam a ficção [22] como análogo da psicanálise –, bem como na lição técnica de Gusmaniov e na refi nada leitura que apresenta do Ulisses de Joyce.

Um pensamento construído como um vórtice invertido

Nada pode estar mais nas antípodas do pensamento cartesiano que a perspectiva psicanalítica. É fato notório que o descentramento do sujeito efetuado pela psicanálise ocorre em combate a três séculos de cartesianismo. Descartes funda o pensamento filosófico moderno ao combater o conhecimento que fosse unicamente advogado em nome da tradição, produzindo uma ruptura de campo com a filosofia medieval contra os “procedimentos filosóficos da Escolástica” [23], barroca, inaugurando uma filosofia hegemônica, pelo menos até o advento de Kant. Fabio Herrmann, como Descartes, instaura sua refl exão contra o que chamou de “período barroco na psicanálise” [24]. Isto é, o momento psicanalítico em que a exacerbação do detalhe, o rococó, exemplifi cados na pormenorização excessiva dos mecanismos de defesa, das subdivisões da projeção, entre outros, esvaziam progressivamente a capacidade heurística da psicanálise. Uma aparente riqueza recobrindo uma pobreza de fato. É contra esta alienação interna da Psicanálise, em que esta vai se reifi cando em doutrina, que Fabio erigiu seu pensamento produzindo uma ruptura de campo com o saber psicanalítico vigente. Dos Andaimes às Meditações, observamos um pensamento que se constrói sempre em torno de si mesmo, neste vórtice invertido, em que em cada nova volta da espiral tornao mais abrangente, insaturado, como o estilo que surge da abstração dos Andaimes e que se desenvolve para a poiesis das Meditações, constituindo-se como um verdadeiro convite ao pensamento, uma “reinvenção da psicanálise” [25], uma boa alternativa às querelas entre as diversas escolas psicanalíticas. O rigor metodológico que o acompanha, desde os Andaimes do real, permanece inalterado. No entanto, as Meditações se apresentam com um caráter mais aberto, em que rigor, ironia e ficção se combinam abrindo várias possibilidades interpretativas. O caráter não-saturado da obra é próprio do espírito que presidiu toda investigação psicanalítica de Fabio Herrmann. Um verdadeiro work in progress, tal como ele admirava em Joyce.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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