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Resumo
Sugere-se uma interpretação para crimes contemporâneos (“fi lhos” que matam “pais” e vice-versa), relacionando-os com a desnaturação de certos sistemas simbólicos no tecido social. A ausência da matriz simbólica que poderia fazer, de um “corpo que me pôs no mundo”, a “minha mãe”, parece ser decisiva. Relacionam-se essas idéias com a produção artística de um setor da body art. São artistas que parecem fazer a crítica da desnaturação dos sistemas simbólicos apresentando uma arte que é, ao mesmo tempo, representação e a própria coisa representada.


Palavras-chave
crimes contemporâneos; inumano; matriz simbólica; body art; formas de subjetividade; borderline.


Autor(es)
Marion Minerbo
é psicanalista, analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora pela UNIFESP.


Notas

1 Agradeço a Luís Claudio Figueiredo pelo companheirismo e pela discussão, estimulante e generosa, das idéias e do texto. Agradeço também a Anna Verônica Mautner pelo incentivo e pelas várias sugestões que ajudaram a tornar o texto mais leve.

2 B. Adams et alii, Sensation: young British artists from the Saatchi Collection.

3 M. Quinn, Incarnate.

4 Orlan, Carnal art.

5 M. Minerbo, “Que vantagem Maria leva? – um olhar psicanalítico sobre a corrupção”.

6 Essa expressão é de Castoriadis.

7 M. Gueydan (citando S. Marinopoulos) neste mesmo texto: “O pensamento (da mãe) é um suporte de vida, uma outra placenta não de carne e sangue, mas como um ninho invisível feito de imagens que nossas técnicas médicas modernas, tais como as ecografi as, não podem captar. Esta placenta imaginária formada pelo pensamento da mãe pode, por vezes, ser atacada, privando a criança de uma alimentação psíquica, com efeitos dramáticos sobre a relação mãe-criança”.

8 Fabio Herrmann, “O escudo de Aquiles”, p. 167.

9 M. Gueydan: “Fragilité féminine, fragilité maternelle au XXI siècle, infl uence sur les jeunes enfants”. Trabalho apresentado no Congresso de Psicopatologia Fundamental, em Belém do Pará, set. 2006.

10 Fabio Herrmann fala em “abrir clareiras de humanização em meio ao cerco das coisas” no capítulo 9, “Origens do psiquismo”, do livro Introdução à Teoria dos Campos.

11 Produção franco-belga de 2004, dirigida por Jean-Pierre e Luc Dardenne.



Referências bibliográficas

Adams B. et alii (1997). Sensation: young British artists from the Saatchi Collection. London: Royal Academy of Arts.

Herrmann F. (1992). O escudo de Aquiles. In: O divã a passeio. São Paulo: Brasiliense.

____ (2001). Introdução à Teoria dos Campos. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Minerbo M. (2000). Que vantagem Maria leva? – um olhar psicanalítico sobre a corrupção. Percurso n. 24, São Paulo.

Orlan (2004). Carnal art. Paris: Flammarion.

Quinn M. (1998). Incarnate. London: Booth-Clibborn.





Abstract
The author tries an interpretation for contemporary crimes (parents who kill their children, or vice-versa) by relating them to the fading of certain symbolic systems. The absence of a symbolic matrix that could transform a “body that delivered me to this world” into “my mother” seems to be decisive. This idea is also present in body art: these artists seem to be criticizing the fading of symbolic systems by making an art that is both representation and the represented thing. The author fi nalizes by showing that those crimes cannot be considered parricide or infanticide, not even a simple homicide. Actually they do not have a name and are rather in the realm of the inhuman.


Keywords
contemporary crimes; inhuman; symbolic matrix; body art; subjectivity’s shape; borderline.

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 TEXTO

Crimes contemporâneos: uma interpretação

ou, o inumano.


Contemporary crimes: an interpretation
Or, the ihumane.
Marion Minerbo


Homenagem a Fabio Herrmann

Meu texto em homenagem a Fabio Herrmann respeita o espírito da Teoria dos Campos, embora não a tematize [1]. Conheci Fabio o suficiente para saber que ele não se interessava em ter sua obra transformada em doutrina. Ao contrário, desejava que fosse usada como instrumento para produções as mais diversas (nesse sentido, falava em clínica extensa e em psicanálises possíveis), e para promover o diálogo e o trânsito entre autores e teorias relativizadas. Neste trabalho faço, à minha maneira, uma Psicanálise do Quotidiano, título de um de seus livros. O espírito da Teoria dos Campos comparece, por exemplo, no pressuposto de que a psique não é individual nem social: é lógica produtiva, tanto de fenômenos sociais quanto individuais. Comparece, ainda, no método de desvelar, por ruptura de campo, essa lógica de um campo tal como a literatura (Sade e Diderot), reencontrando-o em outro setor da realidade (os “crimes contemporâneos” e a body art) e da psique individual (o funcionamento borderline). Ou seja, a Teoria dos Campos enseja uma produção que pode ser psicanalítica e trans-disciplinar porque não vacila acerca de seu método e de seu objeto. E, acima de tudo, o espírito da Teoria dos Campos comparece em minha autonomia com relação a seu léxico, que não precisa estar explicitado, podendo permanecer silenciosamente como pano de fundo de meu pensamento.

Introdução

Temos assistido à incidência crescente de crimes que vou denominar, por falta de outro nome, de “contemporâneos”. Refi ro-me, por exemplo, a “pais” que matam “fi lhos” e vice-versa. (As aspas serão compreendidas ao fi nal do texto). São crimes diferentes dos assassinatos em família descritos nas tragédias, em que o desfecho fatal se devia a uma lógica simbólica que não deixava alternativa às personagens em confl ito. Parricídio e matricídio são crimes que visam a eliminar uma pessoa visada precisamente pela carga afetiva passional que marca aquela relação. Compreendemos e até nos identifi camos com as motivações do assassino: lealdades e traições, vergonha e culpa, ressentimento e vingança, paixões incontroláveis. Aqui, fi camos estarrecidos diante do que nos parece inconcebível. Os “crimes contemporâneos” parecem determinados por uma lógica utilitária: “pessoas” passaram a ser vistas como “coisas” que podem ser usadas das mais variadas maneiras, ou então descartadas quando estorvam. Em minha interpretação desse fenômeno social, essa lógica se relaciona com a desnaturação de certos sistemas simbólicos. Pretendo analisar essa desnaturação por dois caminhos diferentes: a body art e a literatura, relacionando-a com os “buracos simbólicos” do psiquismo borderline.

Uma arte sem mediação simbólica?

No ano de 1997 houve em Londres uma exposição de arte bastante polêmica, chamada Sensations [2]. Nela, Damien Hirst apresentava, entre outras obras, um carneiro de verdade, morto, de pé num tanque de formol, como se estivesse pastando. Esta obra se chama Away from the fl ock (1994), o que signifi ca “apartado do rebanho”. Marc Quinn [3] apresentou um busto de si mesmo em tamanho natural, feito com seu próprio sangue coagulado. Chama-se Self (1991), e leva 4 ou 5 litros de sangue, volume que representa a totalidade do sangue que corre no sistema circulatório de uma pessoa. A obra deve ser mantida dentro de uma caixa de vidro refrigerada para não se liquefazer, o que lhe dá um aspecto algo macabro. Self, afi nal, está vivo ou está morto? Este mesmo artista fez uma série de quadros usando suas fezes no lugar de tinta (Shit painting, 1997), bem como outro busto de si mesmo em tamanho natural com o mesmo material, obra que denominou Shit head (1997).

Apresentar um objeto do mundo real como obra de arte não é novidade. Duchamp foi o primeiro a fazer esse gesto disruptivo, modifi cando o panorama da arte contemporânea ao apresentar um urinol numa exposição, batizando-o de A fonte. Há, no ready made, um tanto de ironia, seu gesto tem um quê de divertido. Sensations apresenta um ready made orgânico. Diante dele sentimos o horror de ver o vivo, ou o que foi vivo, tratado como coisa e não com o respeito que devemos ao morto, ou a partes mortas do corpo: um pudor de exibi-lo, o dever de enterrá-lo.

Self é uma obra paradoxal. A escultura feita com o sangue do artista representa o artista, pois é uma escultura. Mas ao mesmo tempo é o próprio artista, pois é um pedaço dele, é seu sangue, é a totalidade de seu sangue. A que distância estamos das esculturas clássicas, em que o mármore era usado para representar a “carne” do modelo a ser reproduzido, de preferência o mais próximo possível da realidade? Depois, a subjetividade do artista ganhou direito de cidadania e passou a estar totalmente presente na obra. O “self ” de Cézanne pintava sua versão transformada da realidade. Na arte conceitual, bastava que o artista concebesse a obra. Sua execução podia ser feita por outra pessoa.

Agora o artista não entra apenas com habilidade e talento, ou com sua subjetividade, mas com o próprio corpo. Há artistas que fazem da própria pele uma obra de arte. Outros, ainda, fazem performances em que seus corpos são parte de uma “instalação” viva e dinâmica. Cindy Sherman problematiza a noção de self recriando-se múltipla (roupas, maquiagem, perucas, expressão do rosto, contexto etc.) e fotografando- se. Sua obra aponta para a dimensão de fragmentação do self, para os múltiplos selves que somos, que podemos ser, que desejamos ser. Orlan vai mais longe, porque se submete a intervenções cirúrgicas para modifi car o próprio rosto: faz implantes de chifres, muda a implantação de seu couro cabeludo para o meio da cabeça, altera o formato dos olhos e do nariz, enfi m, vai recriando-se como selves diferentes ao longo da vida. Denomina sua arte de carnal art [4]. Diz que o recurso à cirurgia plástica torna possível a fantasia de podermos ser vários. A artista é a própria obra, denominada por ela Self-hibridação (1999 e 2002).

Podemos criar uma escala no que diz respeito à distância que há nesses trabalhos entre a coisa e sua representação, não esquecendo que a “coisa”, aqui, é o corpo do artista. Cindy Sherman respeita essa distância, pois, embora a foto seja sempre dela, transformada em personas, fotografi a é representação. Mesmo Quinn respeita a distância, embora reduzida ao mínimo, entre representação e coisa, uma vez que seu Self ainda é uma escultura exposta numa geladeira. Mas no caso de Orlan essa distinção já não existe. Ela está mais próxima da ovelha de Away from the flock, que é mesmo uma ovelha, do que do busto de Quinn, que pelo menos não é o próprio busto de Quinn. O último resquício de representação em Self-hibridação consiste em sua presença ambulante na Bienal. O espaço da Bienal é a única mediação simbólica admitida por Orlan.

A violência que essa arte expressa se relaciona, a meu ver, com o tratamento utilitário dispensado ao corpo que já foi vivo, mesmo o do carneiro apartado do rebanho, quanto mais o corpo humano ou partes dele. O vivo, o exvivo, ou, de todo modo, o orgânico, está sendo tratado como coisa, sem a mediação simbólica habitual que nos leva a recorrer a materiais tais como a tinta ou o mármore, que o representem. A obra denuncia a falta de confi ança do artista na capacidade de materiais “não-eu” representarem o eu.

Mudando de plano, e voltando-nos para a clínica, sabemos que o borderline não tolera a separação eu-outro porque não conta com o símbolo, com a inscrição simbólica do outroprotetor em seu psiquismo. Como veremos mais adiante, ele não tem a matriz simbólica mediante a qual poderia conceber um objeto externo, dito transicional, portador de qualidades tais como calor, aconchego e proteção. Em outras palavras, se não há, na origem, uma mãe confi ável. Nada poderá representá-la, exceto, talvez, um pedaço dela mesma – pelo menos, é o que parece sugerir a body art. No limite da ausência de mediação simbólica, podemos imaginar o famoso ursinho de pelúcia, representação da mãe boa e calorosa, sendo substituído por um pedaço dela, por exemplo, o seu braço. Usar o braço da mãe no lugar de seu abraço aponta para a mesma lógica da body art, em que o artista representa seu eu com partes reais de seu corpo.

Enfim, em minha interpretação, esses artistas fazem a crítica da desnaturação dos sistemas simbólicos apresentando uma arte que é, ao mesmo tempo, representação e a própria coisa representada. Essa arte expressa, de alguma forma, a mesma violência e crueza que encontramos nos crimes contemporâneos, porém submetendo-a a uma torção, na medida em que é obra, e não atuação.

A desnaturação dos sistemas simbólicos


Em um texto anterior [5] procurei fazer uma análise da corrupção, não como fenômeno individual, mas social, trazendo à luz a lógica produtora desse modo de ser. Meu objetivo era compreender o que, exatamente, a corrupção corrompe, de que maneira, com que conseqüências. As conclusões que pude tirar naquela ocasião me ajudam a interpretar o fenômeno que estou denominando “crimes contemporâneos”. Estes vêm se tornando cada vez mais freqüentes no noticiário, a ponto de, recentemente, o assassinato de um casal de idosos na Rua Caiowaa ter tido, como primeiro suspeito, seu fi lho. Só depois se descobriu que era um vizinho.

Retomarei o argumento para situar o leitor. Uma das diferenças entre dois usos comuns do termo – corromper a juventude e corromper um juiz – me pareceu digna de atenção: um juiz, diferentemente da juventude, representa uma instituição. A análise desse fato mostrou que não se tratava do mesmo fenômeno aplicado a pessoas diferentes, mas de processos diferentes, determinados por lógicas diversas.

A filosofia da alcova (Sade) parecia ilustrar exemplarmente a corrupção da juventude. Eugênia é retirada do convento por dois libertinos, e passa a ser educada na alcova. Seus ideais passam, da pureza sexual e castidade, para o exato oposto: a depravação sexual, chegando ao extremo de assassinar a própria mãe. “A virtude é um mal a ser combatido, ser prostituta é uma honra”. Contudo, para o psicanalista, a inversão de valores não faz parte da lógica da corrupção, mas da perversão. Nesta, nega-se a castração e se exalta o fetiche, criando-se uma neo-realidade que será defendida até o fi m. Trata-se, portanto, de perversão da juventude, e não de corrupção. Eugênia, aliás, parece ser uma moça incorruptível quando afi rma: “Oh, como acolho o mal em meu coração! Agora vejo como isto é verdade, sei que não há retorno possível para mim!” Ou seja, ela se converteu à libertinagem de maneira tão íntegra que não se deixaria corromper. Mas há corrupção em A fi losofi a da alcova. O pai de Eugênia se deixou subornar pela libertina. Diz ela: “Seduzi seu pai, entreguei-me a ele para que fechasse os olhos, ignora meus propósitos e nem ousaria penetrá-los”. Já sua mãe, com medo da violência do marido, acabou por ser conivente, deixando-a partir.

Já Susanne, de A religiosa (Diderot), é uma personagem que não se perverte nem se corrompe. A madre superiora do convento pede a Susanne que seja sua amante, mas esta se recusa. “Mas eu não sou sua madre querida?” “Sim, mas o que a senhora me pede é proibido.” “Querida amiga, sou eu que o proíbo às outras, e que o permito e o peço a ti”. A representante máxima da instituição renega a lei que supostamente deveria encarnar. É também o caso da corrupção do juiz. As conseqüências disso são de máxima importância para nós.

É evidente que a prática cotidiana da justiça é importante na medida em que nossos direitos e deveres são preservados. Mas essa prática tem outra conseqüência que reputo ainda mais importante, e esta se dá no nível simbólico: quanto mais praticamos a justiça, mais o conceito de justiça se reproduz, se fortalece, e continua a constituir aspectos essenciais de nossa subjetividade. E isto garante a sobrevivência da Justiça como instituição.

Ora, isto só é possível quando o juiz aceita encarnar a lei e julgar de acordo com ela; e quando sua sentença é acatada e cumprida. Mas ele pode se recusar a fazê-lo. Pode destituir a si mesmo do lugar que lhe foi atribuído pela instituição colocando seus interesses acima dos dela, isto é, aceitando suborno. A conseqüência é que o vínculo, até então naturalizado, entre o signifi cante “juiz” e o signifi cado “justiça”, vai se enfraquecendo, até que, no limite, se dissolve e se desnatura. O juiz deixa de simbolizar Justiça.

Mas não é só. Os afetos ligados a essa representação simbólica também desaparecem. Já não sentimos diante do juiz um certo temor respeitoso. A toga e a beca tornam-se engraçadas, sem sentido. As palavras “réu”, “culpa”, “transgressão”, “punição”, “lei”, “justiça”, ainda existem, mas já não signifi cam. Em outras palavras, não são mais signifi cações operantes [6]. Uma signifi cação é operante quando tem o poder de produzir subjetividade. A signifi cação “castidade”, diferentemente da época em que as personagens Eugênia e Susanne foram criadas por Sade e Diderot, já não é operante para boa parte das mulheres e dos homens de certos meios sociais. Já não é um valor praticado nem esperado. Voltando à questão da justiça, quando o sistema simbólico que garantia o lastro afetivo dessa palavra se desnatura, as subjetividades aí constituídas – o modo de ser, de pensar, de agir e de sentir das pessoas – já não serão determinadas pelas signifi cações ligadas a esse sistema simbólico. Repetindo, ele perdeu a força, esvaziou- se, desnaturou-se: em suma, foi corrompido. Percebe-se que o processo se inicia com a corrupção do juiz, mas acaba por corromper todo o sistema que ele sustentava e encarnava. Agora, o juiz não tem mais, por trás dele, o poder conferido pela Justiça. Seu lugar de juiz não existe mais. Sua sentença não será mais acatada. Ao aceitar suborno ele comete, sem o saber, um suicídio simbólico.

O mesmo acontece quando os pais de Eugênia se deixam corromper. É importante ressalvar que os genitores podem exercer sua paternidade e maternidade dos mais variados modos, dos mais adequados aos mais cruéis, passando pelos mais loucos, mas em todos esses casos se reconhecem ocupando o lugar de pais. Aqui, contudo, eles lavaram as mãos, destituindo- se do lugar simbólico que ocupavam, e, no mesmo ato, destruindo o sistema que os instituiu como tais. Isso signifi ca que os lugares de pai, mãe e filho já não existem e, portanto, não podem ser ocupados com efi cácia. A palavra do pai já não surtirá efeito sobre o filho. Mas não é só: valores e afetos lastreados por esse sistema tais como respeito, gratidão, preocupação, amor, proteção, ódio, rivalidade, castração, são reduzidos a pó. E ainda: a relação entre pais e filhos não será mais mediada pelo simbólico, pelo menos, não por meio deste sistema simbólico que levava o nome de Família. Em outras palavras, não há mais esta mediação simbólica entre pais e filhos.

E Eugênia, personagem de Sade, sabe disso muito bem. Antes de matar sua mãe, quando esta, já idosa, se torna um estorvo, diz: “Que laços me prendem à mulher que me pôs no mundo?”. Ela tem toda razão. Quando seu pai e sua mãe se omitiram com relação a seu destino, romperam os laços simbólicos que os uniam. Já não há nada que a impeça de matar aquela mulher. A pessoa que a pôs no mundo não é mais sua mãe. É um corpo que pariu outro corpo.

Concluindo meu argumento, a corrupção corrompe os sistemas simbólicos e as subjetividades aí constituídas não mais se relacionam com o real através dessa mediação. Os corpos se tornam simples objetos, isto é, puro real, a serem usados, descartados ou destruídos, conforme a necessidade.

Os “buracos” de simbolização no borderline

As metáforas e os modelos que usamos para falar da constituição da subjetividade guardam alguma relação com o espírito da época. Nesse sentido, o processo de constituição e instituição de matrizes simbólicas de apreensão do mundo poderia ser comparado ao processo de instalar softwares num computador. Enquanto não houver aquele software, certo tipo de informação simplesmente não fará sentido algum. A informação sequer chega a ser reconhecida como informação – é puro barulho, um estímulo que irrita, perturba, incomoda. O computador não tem uma matriz simbólica para processar tais estímulos, transformando-os em signifi cado. Se, ainda assim, exigirmos que o computador processe aquilo, teremos, como resposta, a tela cheia de caracteres estranhos. Podemos pensar que são caracteres ininteligíveis, mas que poderiam se tornar inteligíveis; caracteres que não signifi cam rigorosamente nada; ou, que não signifi cam mas ainda assim são expressivos da perplexidade do computador – algo como a evacuação gráfi ca de informações indigestas. A análise é o processo mediante o qual novos softwares são instalados, tornando o paciente capaz de processar novos setores da realidade e de sua experiência emocional.

Na neurose os laços entre signifi cante e signifi cado são sufi cientemente frouxos para permitir a mobilidade e o deslizamento entre eles. O trabalho analítico faz com que uma mesma palavra, cena, objeto, venha a signifi car várias coisas, desfazendo uma certa rigidez inicial. Na psicose esse laço é tenaz: cada coisa tem um e apenas um sentido. Desaparece a distância entre coisa e representação. Esta apresenta a concretude da própria coisa. Mas quando o laço simbólico não chega a se constituir, ou se desfaz, estamos em outro domínio psicopatológico: o borderline.

De fato, verifica-se uma ausência de certas mediações simbólicas em determinadas áreas do psiquismo borderline. Formulando a mesma idéia com mais rigor: a forma de subjetividade a que denominamos borderline é aquela em que não foi inscrita a signifi cação “alteridade”. Sua maneira de apreender o mundo não passa por essa signifi cação, pois ela não foi instituída. Todas as experiências emocionais que dependem dela não serão possíveis para este psiquismo. Por exemplo, o objeto não é vivido como um outro com desejos próprios, sofrimentos, angústias, necessidades etc. Já a forma de subjetividade denominada perversão resulta da ausência de inscrição da matriz simbólica produtora de estruturas afetivo-representacionais ligadas à castração.

Mas pode acontecer de outras estruturas signifi cativo-emocionais não serem possíveis, além das mais conhecidas, acima citadas. Por exemplo, as que são produzidas pela matriz que faz, de um grupo de pessoas, uma família. Nesse caso, os lugares psíquicos, as funções, as representações e afetos que lhes correspondem não farão sentido algum. Em seu lugar, podemos ter, por exemplo, um grupo de pessoas que moram sob o mesmo teto. Um grau a menos de simbolização, as pessoas se transformam em corpos, o teto se transforma em espaço, e temos simplesmente um conjunto de corpos que disputam um mesmo espaço.

O psiquismo materno deveria funcionar como uma placenta simbolizante e imaginária [7] que vai gestando outro psiquismo. É ele que, inicialmente, poderia unir os signifi cantes a certos signifi cados, recobrindo o mundo de sentido, tornando-o humano. Alguns serão signifi cados particulares, ou mesmo completamente arbitrários (como na psicose), enquanto outros são consensuais, universais. A função materna terá continuidade por meio dos vários sistemas que exercem a função paterna – o psiquismo do próprio pai, do grupo familiar, da escola –, a cultura em sua dimensão simbólica. Assim, vão sendo instaladas as diversas matrizes de apreensão do mundo. Assim vai sendo humanizada a criança.

O processo de subjetivação é, pois, aquele mediante o qual o mundo dos objetos e das experiências emocionais deixa de ser um aglomerado de coisas, corpos, matéria, pura sensorialidade, e passa a ser um mundo de objetos que signifi cam, representam, relacionam-se entre si. Entre sujeito e objeto passa a haver uma mediação simbólica, um terceiro que faz a ponte entre ambos, protegendo-os da violência da relação dual especular.

Por exemplo, no boxe a violência dos esportistas é contida por uma rede de representações. Os dois contendores sabem que se trata de um esporte, estão de acordo em respeitar suas regras e há um juiz para interromper a luta antes que um mate o outro. Mesmo a guerra tem suas regras. Fabio Herrmann [8], em O escudo de Aquiles: sobre a função defensiva da representação, conta que o escudo que Aquiles usou na guerra de Tróia tinha, como decoração, cenas da vida doméstica e representações da família do guerreiro. Na interpretação do autor, as representações serviam para que, no calor da batalha, Aquiles se lembrasse de que era um homem e não um animal sedento de sangue; e que a guerra tinha um sentido, o objetivo de defender a honra de Menelau, sua terra e sua família. A Ilíada e, nela, a descrição minuciosa da decoração do escudo de Aquiles, representam a mediação simbólica na sua função defensiva, necessária para conter a violência pulsional.

Assim, a mediação une e separa os dois corpos em relação, de modo que a presença do outro não seja intrusiva, nem sua ausência seja um abandono traumático. Ao mesmo tempo, institui os lugares psíquicos que cada um vai ocupar. Quando está ausente, não se cria a relativa assimetria de uma relação. O bebê que chora pode se tornar um monstro ameaçador de quem a mãe precisa se livrar.

Dito de outra forma, aquilo que nos constitui humanos é o simbólico [9]. Áreas de nãosimbolização são áreas não-constituídas do psiquismo, isto é, áreas de inumano. O processo de humanização [10] é sempre incompleto, sempre haverá áreas não constituídas; a análise, inclusive, visa a dar continuidade a ele. Assim, em um extremo temos micro-áreas cotidianas de não-humanização. No outro, as áreas de nãohumanização podem ser vitais, e levar a atos como os assassinatos em família. Penso que há um continuum entre as micro-áreas de inumano, quase imperceptíveis no cotidiano, e os crimes contemporâneos: varia a importância e a extensão da matriz simbólica não instituída nesses psiquismos.

Gostaria que a expressão “o inumano” fosse entendida metapsicologicamente, e não do ponto de vista moral. Desse ponto de vista, ela signifi ca que tais crimes não possuem um sentido, como na tragédia grega: a mãe traída, humilhada e desesperada mata os filhos para se vingar do marido; o pai, que também é o soberano, sacrifi ca a filha aos deuses para salvar a cidade-estado; um soberano mata seu fi lho para não ser destronado. Nos crimes familiares contemporâneos esses elementos não parecem estar presentes. Uma mãe pode afogar a criança a que deu à luz porque era um estorvo. Um pai pode vender a criança que concebeu porque está sem dinheiro, como no filme L’Enfant [11]. Aqui, os personagens são dois adolescentes “soltos no mundo”, sem casa, comida, emprego ou dinheiro. Vivem de vender o produto de pequenos furtos. O casal dá à luz uma criança, mas tratam-na como se fosse uma mochila. Nós, identifi cados com o bebê, fi camos chocados quando, em lugar de protegê- lo e tentar lhe oferecer o melhor ambiente possível, andam de motocicleta com o recémnascido. Eles parecem não ter idéia do que seja um bebê. Em certo momento, o pai sai para dar uma volta com ele e de repente percebe que pode vender o bebê como costuma fazer com os relógios roubados. A diferença é que o bebê vale mais dinheiro, e sempre se pode fazer mais um, garantindo a sobrevivência do casal por muitos anos.

Esses crimes são inconcebíveis e intoleráveis porque, no lugar da solução trágica, temos uma solução utilitária. Já não cabe o nome parricídio ou matricídio, porque lhes falta a carga emocional que os caracteriza. Por isso as aspas no início do texto, em que “pais” matam “fi lhos”. Por isso a denominação “crimes contemporâneos”. Aliás, não cabe nem mesmo chamá-los de homicídios, em que se mata para roubar, por defesa, por vingança, por preconceito etc. O homicídio ainda é um ato humano. Ora, a lógica utilitária é aquela que faz, de qualquer objeto, um utensílio. Quando o corpo de um ser humano é tratado assim, podendo ser usado quando é útil, ou descartado quando não é mais, temos uma das condições de possibilidade de vender um bebê. Aliás, enquanto escrevo este texto há uma notícia na internet, no dia 20 de novembro de 2006: uma mãe vende seu bebê em Minas Gerais em troca de cestas básicas. Mas, o que torna possível o funcionamento segundo a lógica utilitária? A falta da inscrição simbólica “alteridade”. O signifi cante “corpo do outro” não está ligado ao signifi cado “ser humano como eu”. A relação sujeito-objeto não é mediada por esse símbolo.

Retomando a idéia de inumano, este tende a se expressar por meio do afeto em estado bruto, do ato ou mesmo de somatizações, em suma, por meio do processo primário. A marca do inumano é, pois, a violência, sendo que violência, aqui, signifi ca “força sem mediação simbólica”, o que não implica haver, necessariamente, uma agressividade explícita.

Observem-se as falhas maiores ou menores no que diz respeito à matriz simbólica que permite à criança apreender a própria idéia de família. Não estamos nos referindo a mães que apresentam falhas, maiores ou menores, na função materna. Nem a mães que embaralham e confundem lugares e funções dentro da estrutura familiar – por exemplo, usando o bebê como mãe, ou como prótese psíquica. Todas estas mulheres têm alguma idéia do que é ser mãe e tentam praticá-la. Pensamos em “mães” que não conseguem relacionar aquele signifi cante, corpo do bebê, ao signifi cado fi lho, com todo o cortejo de signifi cações simbólicas e imaginárias envolvidas nesta situação. Em lugar disso há um branco, nada. Nesse caso, em lugar de uma família – mais ou menos estruturada –, a dupla poderá ter a experiência de um conjunto de corpos que disputam um mesmo espaço, ou um mesmo dinheiro, ou qualquer coisa que seja vivido no registro da autoconservação. Estão dadas as condições para que a experiência emocional do sujeito com relação a seus familiares seja mediada apenas por uma lógica utilitária.

É hora de reunir os fios da meada.
O primeiro diz respeito às idéias apresentadas logo no início do texto, sobre a body art. O corpo tanto é o suporte, como a matéria, de que é feita esta arte. Um corpo-coisa, mas transformado em obra. Esses artistas estão representando a ausência de mediação simbólica, e, ao mesmo tempo, fazendo a crítica desse estado de coisas no mundo contemporâneo.

O segundo se refere às palavras de Eugênia (em A fi losofi a da alcova), pouco antes de matar sua mãe quando esta, já velha, se transformou num incômodo: “que laços me prendem à mulher que me pôs no mundo?” Aquela “mulher” é apenas um corpo que colocou no mundo outro corpo: um ruído sem qualquer significado.

Reunindo-os, podemos, finalmente, formular nossa interpretação: Marc Quinn representa, plástica e paradoxalmente, a ausência (em seu caso, intencional) dessa mediação no mundo contemporâneo quando recusa a seu próprio sangue o estatuto de “meu corpo” – o que o obrigaria a tratá-lo como tal, e não como um material escultórico qualquer. Uma mãe pode atuar neste mesmo estado de coisas e, na ausência das outras mediações, tratar o corpo de fi lho como mercadoria. E vendê-lo. Se na obra de Quinn há uma ironia macabra, aqui já não há ironia alguma.
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