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Autor(es)
Susan Markusszower
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas
1 Quem deve vigiar os próprios vigilantes?

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 ENTREVISTA

Pavel Katchalov

Quem deve vigiar os próprios vigilantes?


Susan Markusszower

Realização e tradução Susan Markuszower

Por ter iniciado seus estudos de medicina durante os anos 1970 em Moscou, o percurso do Dr. Pavel Katchalov – tanto na psiquiatria como na psicanálise – é marcado pelas intensas mudanças ocorridas nas últimas décadas na Rússia. Seu espírito crítico nos oferece uma visão das marcas deixadas pelos 70 anos de regime comunista confrontadas com a abertura ideológica e estrutural dos últimos 20 anos.

Durante sua estadia em Paris, encontrou na Societé Psychanalytique de Paris (SPP) um ambiente favorável para sua formação e tornou-se membro associado dessa sociedade. Fez sua análise com Pierre Bourdier, e supervisões com Paulette Letarte e André Green.

Em julho de 2006, entrevistei Pavel Katchalov, em inglês, no seu consultório em Moscou, cidade surpreendente por sua enorme dimensão, com construções baixas, muitas áreas verdes e avenidas extremamente largas, construídas dessa forma para evitar que bombas nucleares atingissem grandes áreas urbanizadas, conforme ele me explicou.

A entrevista com o Dr. Pavel Katchalov se revela interessante para o público brasileiro na medida em que expõe um relato pessoal de eventos históricos extremamente intensos e atuais, entremeados por um eixo da história da psicanálise marcado pela ameaça que o saber psicanalítico pode representar para um sistema totalitário, assim como pelas questões ideológicas e mercadológicas em seu reaparecimento.

PERCURSO Gostaria de saber como o senhor se aproximou da psicanálise.
KATCHALOV Comecei meus estudos universitários na faculdade durante o regime soviético. Inicialmente me interessei pelas ciências humanas. Mas, pelo excesso de marxismo nessa área, resolvi fazer medicina. A faculdade de medicina não atraía em especial minha atenção, ao contrário do que acontecia com as várias revistas do American Journal of Psychiatry que encontrei em sua biblioteca. Grande parte de seus artigos tinha um enfoque psicanalítico. Tudo isso se passou nos anos 1970, quando a psiquiatria americana ainda estava muito infl uenciada pela psicanálise. Meu interesse foi tão grande que ganhei o apelido de “Mr. American Journal”. Por não se darem ao trabalho de ler os artigos dessas revistas, os burocratas não percebiam seu conteúdo. Já as obras de Freud eram inacessíveis. Elas fi cavam numa área reservada da biblioteca e o acesso a elas só era autorizado por meio de um pedido especial, que automaticamente suscitava suspeita.

Durante o regime soviético era inimaginável alguém praticar a psicanálise. Ao saber do exercício dessa prática, as autoridades “gentilmente” pediam sua interrupção. A repressão era intensa. Além disso, qualquer tipo de empreendimento comercial particular era considerado um crime. Conseqüentemente era impossível atender num consultório particular. E, assim, a formação do psicanalista, que implica uma atividade privada − análise e supervisão −, também estava impedida. Não acredito que alguém tenha exercido a psicanálise durante esse período.

PERCURSO Quando a psicanálise reaparece na Rússia?
KATCHALOV A psicanálise foi reintroduzida na urss em 1987, nos últimos anos do governo Gorbatchev, época da “Perestroika”. Psicanalistas franceses, do Campo Freudiano, começaram a vir para Moscou, fi nanciados pelo então ministro do exterior Roland Dumas, analisando de Lacan.

Esses psicanalistas davam palestras num auditório enorme, que sempre lotava. Não nos conhecíamos e não entendíamos do que se falava, mas gostávamos de estar com verdadeiros psicanalistas.

Em seguida, vieram os psicanalistas da American Association of Psychoanalysis, que, de acordo com o esboço imaginado pela ipa, se “responsabilizariam” pela Rússia, enquanto as outras sociedades da Europa Ocidental se “responsabilizariam” pelos outros países do bloco soviético. Nessa primeira época, as autoridades da ipa, violando seus próprios estatutos, concederam o status especial, até então inexistente, de Guest Study Group ao grupo do professor Aron Belkin, neuroendocrinologista e psicanalista sem nenhuma formação, e apoiaram sua nomeação como presidente da Soviet Psychoanalytic Association. Ao tomar essas liberdades em relação aos seus estatutos, facilitaram o aparecimento da “psicanálise selvagem”, pois uma idéia terrível surgiu na cabeça de muitas pessoas: “Se isso foi concedido a Belkin, por que não a mim?”. Atualmente, proliferam inúmeras instituições de Psicanálise por toda a Rússia, todas dirigidas por pessoas sem formação alguma, que distribuem centenas de diplomas de psicanalistas.

Resolvi fazer minha formação na França, onde morei durante vários anos.

PERCURSO Como foram esses anos em Paris?
KATCHALOV
Cheguei a Paris no outono de 1992, convidado pela École Européenne de Psychanalyse. Sou eternamente grato à Sra. Colette Soler, pela recepção que me deu e por seu esforço em conseguir uma bolsa do governo francês. A concessão ofi cial dessa bolsa para estudantes de estudos de pós-gradução em Psicanálise na Universidade Paris viii (Vincennes) era assinada por Jacques-Alain Miller, que não me conhecia pessoalmente. Acredito que ele assinou a liberação da bolsa por intermédio da senhora Soler, confi ando na sua escolha ou sucumbindo à sua pressão. Durante os primeiros três meses em Paris, fui um aluno muito assíduo, circulando entre os centros do Campo Freudiano: os cursos do Campo Freudiano de Paris viii, a biblioteca na Rue Huysman e as atividades no Hospital St. Anne. Fui elogiado e apresentado como exemplo para meus outros colegas russos. Mas cada vez mais era tomado por um horror e uma aversão: não podia imaginar entregar minha alma − começar minha análise − a essas pessoas, que me chocavam com um discurso cínico e repugnante em relação a seus pacientes. Perguntava-me: que discussões científi cas são essas? Sou um idiota, ou essa gente, ao meu redor, é sectária e intolerante, encantada por suas fórmulas de devoção, que não fazem muito sentido para mim? Dirigi-me, praticamente aos prantos, a um psiquiatra francês, o Sr. Christian Kottler, que eu já conhecia do Instituto Serbsky em Moscou. Ele me ajudou a entrar em contato com a spp e em dezembro de 1992 o Sr. Paul Israel, então presidente da spp, me convidou para um colóquio. Senti-me muito aliviado por fi nalmente ter encontrado meu lugar. Fui fazer minha análise com o Sr. Pierre Bourdier. Desde o momento em que entrei no consultório desse analista de crianças, repleto de brinquedos, imediatamente senti que aquilo combinava comigo. Minha primeira supervisora foi Paulette Letarte, uma mulher de Quebec que vivia na França. Gostei e continuo gostando muito dela com seu jeito franco e aberto, tão próximo do meu espírito russo. Meu segundo supervisor foi André Green e serei eternamente grato pela possibilidade que o destino me outorgou de ter passado algum tempo com esse gênio.

PERCURSO Qual foi sua atividade profi ssional em Paris?
KATCHALOV
Tive bastante sorte porque Dr. Herve Benhamou, junto com Dr. Christian Kottler, membros da delegação da World Psychiatric Association, tinham estado na Rússia, no fi nal dos anos 1980, para investigar os abusos da psiquiatria soviética. Dr. Herve Benhamou era analista da spp e trabalhava no hospital psiquiátrico mais antigo de Paris, Hospital Esquirol, anteriormente chamado Charenton Asylum. Ele se tornou meu amigo pessoal e me ajudou a encontrar uma posição de psiquiatra dentro da estrutura da prestigiosa psiquiatria francesa. Assim, trabalhei durante 5 anos como residente de psiquiatria no ambulatório do 12o Arrondissement de Paris. Exerci as funções de psiquiatra no setor de psiquiatria, no hospital-dia e na ala de internação.

No trabalho institucional, inicialmente, me surpreendi com o fato de que minha autoridade não resultava diretamente da minha posição de médico, como acontecia na Rússia, mas apenas de minha competência em gerir a psicoterapia institucional. Após um ano me adaptei e agora percebo que o estilo do trabalho psiquiátrico baseado em atendimento médico isolado − sem qualquer tipo de comunicação entre os psiquiatras que prescrevem medicamentos, os psicólogos clínicos e os enfermeiros, tão comum ainda hoje nos hospitais psiquiátricos russos − de fato merece ser chamado de esquizofrênico.

Ainda não é possível reproduzir na Rússia o trabalho institucional comum na França porque os funcionários – desde os psiquiatras até os enfermeiros – não são capazes de assumir a psicanálise como sua ideologia de trabalho, como acontece no hospital-dia onde trabalhei até o dia de minha partida.

PERCURSO Por que o senhor decidiu voltar para a Rússia?
KATCHALOV Meu retorno pareceu estranho até para os agentes da polícia federal do aeroporto Charles de Gaulle, cuja principal tarefa consiste em prevenir imigração ilegal na França: tentaram me convencer a não devolver minha carteira de trabalho − um sonho de conquista para tantos estrangeiros na França.

Acredito que não posso ser compreendido. O patriotismo dos outros sempre parece ridículo. Só posso dizer que, durante os tempos da urss, não sentia que vivia no meu país e por isso decidi emigrar. Devido às mudanças que foram ocorrendo, vi-me inesperadamente querendo voltar para meu país de origem.

PERCURSO E sua atividade profissional em Moscou?
KATCHALOV
Trabalho como psicanalista, praticamente em tempo integral, em meu consultório particular em Moscou.

Também trabalho na divisão de pós-graduação e treinamento psicológico da instituição psiquiátrica mais antiga de Moscou, o Instituto Serbsky, ganhando US$150,00 por mês. Esse curso é freqüentado por psiquiatras e psicólogos clínicos de toda a Rússia, que cumprem o aperfeiçoamento obrigatório por um período de cinco anos. Para a maioria desses profi ssionais, o curso proporciona uma oportunidade única de assistir a conferências e seminários clínicos psicanalíticos.

PERCURSO Qual seria a importância da Instituição Serbsky dentro da estrutura psiquiátrica russa? KATCHALOV A Instituição Serbsky foi designada como a mais importante instituição para a avaliação psiquiátrica, especifi camente forense, e durante os anos 1970 foi usada pelo partido comunista, já enfraquecido, para a internação de seus adversários políticos, transformando-os em pacientes psiquiátricos. Esse procedimento foi possível porque alguns psiquiatras desta instituição foram coniventes com o sistema, carimbando falsos “diagnósticos”. Deixo registrado que jamais participei em nenhuma avaliação no campo da psiquiatria forense, nem na época soviética (trabalho lá desde 1984) e nem posteriormente. Serbsky é uma instituição de pesquisa amplamente diversifi cada e, na época soviética, eu estudava os problemas mentais decorrentes de queimaduras ou de intervenções cirúrgicas na instituição de cirurgia Vishnevsky, separada da Instituição Serbsky.

Estou preparando, em cooperação com alguns dos meus colegas da Instituição Serbsky, inclusive a atual diretora, Tatiana Dmitrieva, o número da revista Perspectives Psy. dedicado ao tema “Psiquiatria russa: 15 anos depois”, com publicação prevista para março de 2007. Essa edição trará a história em todos os seus detalhes. Mas, resumindo, posso afi rmar que, como a urss foi – e, até certo ponto, a Rússia moderna continua sendo – um país semifeudal, a única maneira de evitar abusos de autoridades locais é a intensa centralização e vigilância de procedimentos de avaliação. A instituição Serbsky cumpre esse papel razoavelmente bem na maioria dos casos. A questão que inevitavelmente surge é quis custodiet ipsos custodes [1], quando o poder central é suspeito de ser a parte interessada. Mas isso é uma questão de tempo, de amadurecimento dos sentimentos cívicos e da sociedade civil, que ainda continua atomizada após o desastre comunista. Ao longo desse processo, a avaliação forense encontrará uma outra estrutura independente, sob controle civil de autoridades jurídicas e de especialistas psiquiátricos.

PERCURSO O que o senhor pode dizer a respeito da história da psicanálise na Rússia?
KATCHALOV A história da psicanálise iniciase a partir da volta de Nicolas E. Ossipov para Moscou, no inverno de 1905/06, após seu estágio com C. G. Jung, em Zurich, e a volta de Moshe Wulff para Odessa, após seu estágio com K. Abraham, em Berlim.

Ossipov logo se tornou professor de psiquiatria da Universidade de Moscou, por intermédio do então professor titular de psiquiatria Vladimir Serbsky. Mas em 1917, Ossipov fugiu do Exército Vermelho e se estabeleceu em Praga. Moshe Wulff , seduzido pelo entusiasmo manifestado por Trotsky em relação à psicanálise (após 1917), continuou trabalhando até 1927 quando, profundamente decepcionado, fugiu para Berlim e, posteriormente, para Jerusalém. Essa primeira fase terminou em 1929-30, quando o Instituto de Psicanálise de Moscou foi fechado e a comunidade psicanalítica se dispersou. O regime totalitarista comunista não permitiu e não deixou nenhuma possibilidade para a prática psicanalítica.

De acordo com Moshe Wulff , o motivo pelo qual o regime soviético proibiu a psicanálise se deve ao fato de que não suportava nada que pudesse escapar à sua compreensão e ao seu controle. Pelo mesmo motivo, a genética, ao se tornar mais complexa, também foi proibida, porque a intenção do regime soviético era criar um “novo homem”. A psicanálise, pela força do inconsciente, e a genética, pela sua complexidade, limitam o controle do estado sobre o ser humano. De acordo com Conrad Lawrence, o cachorro pavloviano seria o cidadão ideal para aquele que quer manipular a sociedade.

PERCURSO Como foi o tratamento das doenças mentais durante o regime soviético?
KATCHALOV
Durante o regime soviético, a publicação de qualquer referência a respeito de doenças psiquiátricas era proibida. Não se falava nem se escrevia a respeito das doenças mentais. O lugar do psiquiatra era marginalizado. Mas para servir à ideologia do Estado e manter os pacientes fortemente medicados e em silêncio, o psiquiatra era compensado em seu salário, mais alto do que das outras especialidades.

PERCURSO
No site da Sociedade de Moscou de Psicanálise encontramos a seguinte afi rmação: “Enquanto na França a evolução da psicanálise era acompanhada pelo surrealismo artístico, em nosso país sua evolução é seguida por um surrealismo administrativo”.
O surrealismo administrativo se refere a que tipo de prática?
KATCHALOV O surrealismo administrativo refere- se ao decreto presidencial de 1996, que declara o renascimento da psicanálise.

Ao mesmo tempo que grande parte da indústria soviética foi privatizada, Boris Yeltsin, durante seu governo, decretou o renascimento e desenvolvimento da psicanálise, em termos fi losófi cos e clínicos.

Nessa ocasião, o Dr. Mikhaïl Rechetnikov, de São Petersburgo, obteve, por decreto presidencial, vários privilégios fi scais e tornou-se proprietário de um prédio maravilhoso na margem do rio Neva, onde ele criou um instituto de formação em psicanálise. Este instituto forma, atualmente, trezentos alunos por ano. Apesar de oferecer análise e supervisão para seus alunos, o Dr. Rechetnikov não se benefi ciou de uma formação que lhe autorizaria ocupar essa posição. Entretanto, é honrado com visitas ofi ciais de todos os presidentes da ipa. Seu discurso duplo é típico: de um lado seduz os seus visitantes da ipa e, por outro, manipula seus alunos com demagogia a respeito do renascimento da Escola Russa de Psicanálise.

PERCURSO Como situar o interesse da psicanálise na sociedade russa, seja como opção profi ssional, seja como demanda para tratamento?
KATCHALOV Paradoxalmente, o marxismo contribuiu para a divulgação da psicanálise. Durante o regime soviético, todo aluno universitário era obrigado a assistir a um curso de ideologia marxista. Isso era condição para a obtenção do diploma.

Dessa forma, todos eles entraram em contato com a psicanálise através das críticas marxistas. Profi ssionais com formação universitária têm noções básicas de psicanálise. Meus pacientes fazem parte dessa intelligentsia.

PERCURSO A partir da sua prática clínica, seria possível indicar certos confl itos específi cos decorrentes das experiências traumáticas e das intensas mudanças pelas quais a Rússia passou durante as últimas décadas?
KATCHALOV
Existe algo muito forte a respeito dos segredos familiares. De alguma forma, toda família sofre de algum segredo que gira em torno da questão de que lado do arame farpado o sujeito se encontrava. Se durante o regime soviético o peso da vergonha e a ameaça se referiam àqueles que tinham sido presos, a partir dos anos 1980 o peso da vergonha passa para aqueles que tinham fi cado do lado de fora do arame farpado. Os herdeiros dos torturadores de outrora sofrem hoje com essa marca familiar.

O caso da chamada “Síndrome da Avenida Kutubovski” é muito conhecido. Nessa avenida, Stalin construiu um prédio muito luxuoso e os apartamentos foram oferecidos para os altos agentes da kgb. Encontramos, hoje, vários casos graves de esquizofrenia nos moradores desse prédio. É uma herança forte e percebe-se que a sua eclosão na terceira geração é extremamente intensa. É muito difícil elaborar o sadismo do ancestral, muitos enlouquecem, tornando-se miseráveis, e acabam vendendo os apartamentos, ainda valiosos, completamente arruinados. Durante o regime soviético, a história familiar era sempre investigada − “os crimes estavam em qualquer lugar”.

Como exemplo, posso citar o caso de um menino que atendi, cuja avó esteve num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e conseguiu escapar e se salvar, devido a um caso amoroso com um ofi cial alemão, fato totalmente vergonhoso e escondido pela família. Ou o caso de um rapaz, cuja mãe também teve uma relação amorosa com um ofi cial alemão durante a Segunda Guerra. Quando os alemães se retiraram, ela foi deixada grávida. Para sua sorte, um ofi cial russo se encantou com ela e assumiu a gravidez desse fi lho meio alemão, fato totalmente escondido pelo casal porque podia ser motivo de intensas perseguições. O fi lho legítimo desse casal, que nasceu posteriormente, e que teria como “missão familiar” apagar os traços obscuros da constituição dessa família e incorporar o verdadeiro espírito russo, sofre de esquizofrenia.

PERCURSO Quais seriam seus comentários a respeito da seguinte afi rmação de Elizabeth Roudinesco, em sua entrevista à revista Percurso no 37 e como o senhor percebe o papel da psicanálise russa nesse sentido?

“Não há nenhuma dúvida de que a renovação do freudismo no mundo só pode ser feita através de uma aliança entre a Europa, incluindo os antigos países comunistas, e o continente latino-americano, isso porque essa aliança é a única que pode opor uma força política ao imperialismo norte-americano habitado pelo ódio a Freud, pelo cientifi cismo e pelo puritanismo”.
KATCHALOV Minhas idéias a respeito dessa questão são algo diferentes, mais específi cas e menos generalizantes. Acredito que tanto a história da França como a de alguns países latino- americanos marcados pelo anticlericalismo tornaram essas culturas menos resistentes às infl uências freudianas. Entretanto, o obscurantismo religioso surgido nos Estados Unidos é o motor oculto da resistência. O anticlericalismo e o conseqüente ateísmo da população russa é provavelmente um dos poucos benefícios dos 70 anos de comunismo, tornando a Rússia mais permeável à versão francesa da psicanálise, com seu escândalo de pulsões e sexualidade. Já num outro país da Europa oriental, a Polônia, − conheço sua língua e cultura −, o clericalismo sobreviveu ao regime comunista e talvez seja isso que contribuiu para sua insensibilidade para a psicanálise francesa, e sua evidente permeabilidade às concepções inglesas (“anglicanas”) – Melanie Klein, teóricos da relação de objeto – que são uma versão laica da procura da união com Deus ou com uma outra alma cristã.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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