EDIÇÃO

 

TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
  
 

voltar
voltar à lista de autores

Autor(es)
Alan Victor Meyer
é psicanalista, membro da SBPSP, fi lósofo pela USP e psicólogo clínico pela PUCSP.

Noemi Moritz Kon
(Noni) é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora em Psicologia pela UPS, e autora de Freud e seu Duplo, Reflexões entre Arte e Psicanálise, São Paulo, Edusp/Fapesp, 1996.

Sandra Lorenzon Schaffa
é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


Notas

1 M. Foucault, As palavras e as coisas. Uma arqueologia das ciências humanas, São Paulo/Lisboa, Livraria Martins Fontes/Portugália, 1966, p. 485.

2 Curso ministrado na SBPSP e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUCUSP, segundo semestre de 2002, 2003 e 2004.

3 “O jogo de dados” mallarmeano serve como interpretante ao psicanalista no sentido de que não cabe a este senão a entrega ao processo de interpretação instaurado pela palavra em estado clínico. A mesma condição encontra Herrmann em Joyce. Seu ensaio “Quem? Hoje, Joyce” parte da Segunda meditação, O análogo; dá mostra do trabalho analítico da interpretação que rompe defi nitivamente com as categorias da objetivação do texto, é um pleno mergulho no vórtice instaurado pela escrita joyceana. “Joyce escreveu livros impossíveis de objetivar e incorporar como propriedade, e usar e recombinar com alguma garantia.”

4 F. Herrmann, Primeira Meditação: A história da Psicanálise como resistência à Psicanálise.

5 F. Herrmann, Quarta Meditação: A intimidade da clínica.

6 Sublinhado por mim.

7 S. L. Schaffa, “Freud e o pensamento por ruptura de campo”, Percurso n. 36, 2006.

8 F. Herrmann, Quarta Meditação, op. cit.

9 F. Herrmann, op. cit.

10 Pronunciado na abertura do IV Encontro da Teoria dos Campos (2005).

11 F. Herrmann, A psique e o eu, São Paulo, HePsyqué, 1999, p. 18-19.

12 R. Barthes, “A Aula”. Aula inaugural da cadeira de semiologia literária do Colégio de França (pronunciada em 7 de janeiro de 1977), São Paulo, Cultrix, p. 16-19.

13 S. Freud, Estudos sobre a histeria (1893-1895), Obras Completas, Vol. I.

14 F. Herrmann, Da Clínica extensa à alta teoria. Meditações clínicas – Segunda Meditação: O análogo – 2 Quem? Hoje, Joyce, p. 10. Como o texto é inédito, citarei a numeração das páginas conforme a cópia que me foi cedida pelo autor.

15 F. Herrmann, op. cit.

16 F. Herrmann, op. cit., p. 7.

17 F. Herrmann, op. cit., p. 7.

18 F. Herrmann, op. cit. p. 8.

19 F. Herrmann, op. cit. p. 8.

20 F. Herrmann, op. cit. p. 9.

21 F. Herrmann, A psique e o eu, HePsyché, 1999, p. 24.

22 F. Herrmann, op. cit.

23 F. Herrmann, op. cit., p. 26.

24 F. Herrmann, op. cit.


voltar à lista de autores
 DEBATE

O homem psicanalítico é um ser da estranheza

Alan Victor Meyer
Noemi Moritz Kon
Sandra Lorenzon Schaffa

Encontrar uma forma de homenagear Fabio Herrmann a partir de sua vasta obra não é uma tarefa fácil. Convidamos três psicanalistas para dar sua contribuição com base em um pequeno trecho extraído de seu livro A psique e o eu (HePsyché, 1999, p. 17):

[…] o objeto da psicanálise, a psique, o homem da psique, não é o homem inteiro, concreto, total. É verdade que não há ciência que abarque o homem total, nem mesmo a Antropologia – onde se pensa apanhálo inteiro, ele escapa por uma das portas de vai-e-vem da epistemologia das ciências humanas: natureza e cultura, sujeito e objeto, corpo e alma, infra ou superestrutura etc. De qualquer modo, nosso objeto é que não poderia ser o homem total. Primeiro por ser este somente o psiquismo humano, o reino dos sentidos e signifi cados; segundo porque ele é estudado através de um método interpretativo muito especial, que só é confi ável quando põe seu objeto em movimento dialogal; terceiro, por ser constituído de campos a psique assim exposta, vale dizer, apreensível apenas em subconjuntos particulares, circunstanciais, histórica e socialmente determinados. O Homem Psicanalítico é o ser do método da Psicanálise, transferencial e descentrado internamente, dividido e múltiplo no íntimo de suas operações, este que aparece na sessão por efeito da ruptura de campo: o Homem Psicanalítico é um ser da estranheza.

Os textos de Sandra Lorenzon Schaffa, de Noemi Moritz Kon e de Alan Victor Meyer mostram ao leitor a riqueza de idéias que um pequeno trecho da obra de Fabio Herrmann pode suscitar.



SANDRA LORENZON SCHAFFA Na conclusão de As palavras e as coisas, Michel Foucault reconheceu a posição excêntrica da psicanálise em relação às ciências humanas.

A Psicanálise (diversamente das ciências humanas) encaminha-se para o momento – inacessível, por definição, a todo o conhecimento teórico do homem, a toda apreensão contínua em termos de signifi cação, de confl ito e de função – em que os conteúdos da consciência se articulam com a fi nitude do homem, ou antes fi - cam abertos a ela
[1].

Sustentar a perspectiva de que a psicanálise não é um humanismo tem sido um esforço que traça a própria história do movimento psicanalítico marcado por suas resistências. Mas não só de resistências se constitui o movimento iniciado por Freud; rupturas profundamente originais, como as realizadas por Klein ou por Lacan, ao desencadearem verdadeiras crises teóricas, recuperaram a potência criativa original da idéia freudiana.

Da clínica extensa à elta teoria. Meditações clínicas [2], obra inédita de Fabio Herrmann, parte desta idéia: a história da psicanálise é a história da resistência à Psicanálise. O poema de Mallarmé Un coup de dès jamais n’abolirá l’hasard serve ao autor como interpretante [3] da situação analítica contemporânea em busca do estado clínico da palavra, que não se deixa alcançar senão pelo trabalho constante de decomposição (análise) das formações discursivas.

A primeira das Meditações clínicas encontra no poeta o guia (Mestre, Capitão). Guia, “aquele que conduz a travessia da incerteza, sem dispor de maiores garantias do destino, senão da forçosa ousadia de lançar os dados.” […] “O Mestre mallarmeano alça-se impossivelmente ao oceano, em sua intolerável lucidez, mas reconhece que toda e qualquer escolha valerá tão somente como oportunidade aberta ao acaso.” E nesta mesma Meditação Fabio Herrmann prossegue: “ao criar a Psicanálise, Freud […] era o mestre então jogando seus dados. Sua teoria vale, então, como lance de dados, ou em nossa expressão como ruptura de campo. Nós a transformamos em doutrina. Em cada ruptura uma doutrina, eis o lema dos náufragos alegres.”, aludindo ironicamente ao célebre poema de Mallarmé. “Rigor mais absoluto, levado ao extremo inimaginável, é tão somente a condição necessária para um lance de dados, para uma interpretação cuja verdade está no vórtice que sobrevém à ruptura” [4].

Alcançar o estado clínico da palavra implica para Fabio “vencer momentaneamente a poderosa resistência contra experimentar o universo dos possíveis, a quase ilimitada variedade das possibilidades de experiência de que é dotada a proteica alma humana” [5]. Para tanto, cumpre discernir o estatuto essencialmente clínico da teoria analítica – a que Fabio chamará de Alta Teoria – do produto objetivado da elaboração teórica.

No texto que ora examinamos, extraído de A psique e o eu: lemos: “o homem da psique não é o homem inteiro, concreto, total, uma vez que nenhuma ciência o pode abarcar […] Onde se pensa apanhá-lo inteiro, ele escapa por uma das portas de vai-e-vem da epistemologia das ciências humanas: natureza e cultura, sujeito e objeto, corpo e alma, infra ou superestutura, etc.” “[…] O Homem Psicanalítico é o ser do método da Psicanálise [6], transferencial e descentrado internamente, dividido e múltiplo no íntimo de suas operações, este que aparece na sessão por efeito da ruptura de campo: o Homem Psicanalítico é um ser da estranheza”. O que está aqui em questão, penso, nos obriga a insistir no estatuto epistemológico do Método Psicanalítico tal como foi defi nido cuidadosamente pelo autor, evitando o fácil equívoco que a palavra método suscita ao despertar sentidos válidos no âmbito das ciências humanas, incompatíveis com o ofício de investigação do analista. Volto aqui à insistência na situação do Método, tal como a vejo se desenvolver ao longo da obra de Fabio Herrmann para ganhar sua plena defi nição em suas Meditações. Parto de um ponto de vista que desenvolvi num artigo anterior [7] onde me apoiei num aforisma de Herrmann, tantas vezes repetido: “A doutrina freudiana é a psicanálise (mas não é a Psicanálise).” Essa formulação leva-nos a deixar em segundo o plano o saber cientifi camente constituído como uma realidade objetivamente determinada, e enfrentar radicalmente a condição de ruptura epistemológica que sustenta a Psicanálise (grafada pelo autor em maiúscula). Somos levados a abandonar os resquícios humanizadores que têm suporte nas (o)posições de sujeito e objeto do conhecimento. A Psicanálise como Método nos põe em questão no lugar que ocupamos como falantes. “Método é o que nos acontece, ele nos escolhe quando praticamos a psicanálise, não o escolhemos. Técnica, nós escolhemos. Freud quase nunca falou de método, só de método terapêutico, que é precisamente a técnica” [8].

Liberto da visada humanizadora das ciências humanas, Fabio Herrmann reconhece o objeto da psicanálise circunscrito ao movimento dialogal onde “o homem psicanalítico é o ser do método, ser da estranheza, este que aparece na sessão por efeito da ruptura de campo”. Cabe ao método psicanalítico a verdade última do psiquismo, do ponto de vista da clínica: a verdade dos possíveis. Este é o caminho da cura analítica, a ruptura de cada campo aprisionador da experiência de ser” [9].

Em sua apresentação no IV Encontro da Teoria dos Campos (2005), Fabio, com a plena força pictórica de suas palavras em estado clínico, colocou-nos diante desse retrato do homem psicanalítico, ser da estranheza, no qual relutamos em reconhecer nosso próprio rosto:

Tomemos um exemplo em que a psicopatologia se assenta sobre o próprio objeto estético. Ligado ao sublime Pavilhão Dourado do século XV em Kioto, contase uma história, aparentemente verdadeira, quase tão harmoniosa e tremenda quanto o próprio edifício. Um homem, visitando o templo, apaixona-se de tal maneira por sua beleza que já não consegue pensar noutra coisa. Torna-se monge. Ainda assim, sua obsessão pelo Pavilhão Dourado não é mitigada. Segundo antiga crença oriental, porém, este gênero de encanto de um objeto só pode ser quebrado com a própria destruição do objeto em causa. E é assim que nosso homem incendeia o Pavilhão Dourado até os alicerces. Só em 1955 é reconstruído, com a aparência original, e em 1987 coberto de folhas de ouro, o Grande Sedutor. [10]

Penetrar os enigmas do humano sustentando a condição de trânsito do sujeito em análise, eis o destino do homem psicanalítico entregue ao processo que conduz o desvelamento de sua história: a tremenda história da destruição de seu adorado templo. Uma clínica extensa distinguese pela dimensão da estranheza denunciadora de nossa condição de seres de passagem, marcados pela abertura à fi nitude na qual se formam, em seu inacabamento fundamental, nossas teorias. “Un coup de dès jamais n’abolira l’hasard”: só a ousadia do lance pode reeditar o movimento vivo da psicanálise. Aí onde se alça impossivelmente a coragem ao oceano, em sua intolerável lucidez, mas reconhece que toda e qualquer escolha valerá tão somente como oportunidade aberta ao acaso. Aí onde um dia assim se escreveu: “No lugar da passagem que procuramos, descobriremos talvez os oceanos de que nossos sucessores deverão levar mais longe a exploração…” Carta de Freud a Fliess, 1893.


NOEMI MORITZ KON O trecho escolhido por Percurso como disparador para sua seção de debates oferece uma excelente ocasião para que os pressupostos epistemológicos que sustentam a construção da obra de Fabio Herrmann sejam desentranhados de seu texto.

Colocar, estrategicamente, em segundo plano o objeto (o homem psicanalítico) e o método (o rompimento de campo) da psicanálise, ou melhor, a forma específi ca do fazer psicanalítico na perspectiva de Herrmann – o que foi realçado enfaticamente por ele em todo o desenvolvimento de seu trabalho –, permite que sua concepção particular do solo epistêmico da psicanálise, sua visão daquilo que escora o modo peculiar da criação de conhecimento na disciplina psicanalítica afl ore a céu aberto e que, nesse mesmo gesto, sejam evidenciadas as raízes profundas que estruturam a invenção e a fundação dos próprios andaimes conceituais da teoria dos campos e de seus rompimentos.

Dessa maneira, ao criticar, ainda que de passagem, a ambição descabida de compreensão do homem em sua totalidade, Fabio Herrmann abre mão do confortável abrigo oferecido pela presunção ingênua do sobrevôo conceitual que rege certas vertentes filosófi co-científicas e, portanto, da crença que subjaz a elas – crença de que seria possível abarcar num só olhar a multiplicidade da experiência –, mas indica, em contrapartida, um outro horizonte – este realmente fecundo – para a nidação do homem e do saber psicanalíticos: o território da ficção.

Poucos parágrafos depois daquele selecionado por Percurso, encontramos a seguinte afi rmação:

Vamos deixar clara a idéia: fi ccional não signifi ca falso, nem mesmo cientifi camente menor, mas inserido num tipo de verdade peculiar à literatura, que é em geral mais apropriada para a compreensão do homem que a própria ciência regular. Ficção é uma hipótese que se deixou frutifi car até as últimas conseqüências, antes de decidir sobre sua validade, é um instrumento poderoso de descoberta […]. A estreita vinculação entre nosso conhecimento e a fi cção constitui uma parte do preço a pagar – nada exorbitante, a meu ver – pela generalização da Psicanálise como ciência completa: seu objeto de conhecimento, o Homem Psicanalítico, não pode ser o homem inteiro e concreto, mas uma ficção verdadeira [11].

Apartando-se, assim, da hegemônica “ciência regular” e se aproximando da “verdade peculiar à literatura”, Herrmann encontra-se em pleno diálogo com importantes refl exões e experiências do campo da estética.

É justamente o crítico literário Roland Barthes que já no ano de 1977, em A Aula [12], nos situa em relação a essa força geradora de saber da literatura exaltada por Herrmann na seqüência do texto, força capaz de fazer frente ao fascismo da língua do poder, fascismo que não nos impede de dizer, mas – ainda mais hábil – nos obriga a dizer:

Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífi co que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. […] A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa. Por outro lado, o saber que ela mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor: que ela sabe algo das coisas – que sabe muito sobre os homens.

Admitir, então, que nosso saber jamais será nem inteiro, nem concreto, nem tampouco derradeiro não signifi ca abandonar a aspiração pela verdade, como se poderia pensar num primeiro momento. Bem ao contrário: ao trapacear a língua do poder, a psicanálise, assim como a literatura e outras linguagens artísticas, assume desejosamente outra via de criação de conhecimento, à diferença daquela buscada pela rude ciência.

E é essa outra concepção de saber que pode nos levar não a “pagar um preço”, mas, sim, a ampliar o alcance da psicanálise, quando, então, compreendemos o fazer psicanalítico em sua radicalidade: como trabalho instituinte, ou seja, como busca ativa de construção de ficções verdadeiras.

Assim, “saber de alguma coisa” sobre o homem não é pouca coisa: signifi ca reconhecer e assumir que estamos historicamente entranhados na linguagem e que nossa realidade é feita de “sentidos e signifi cados” construídos criativamente em nossa imersão na alteridade. É esta a sutileza da vida: a liberdade, e, também, o desamparo da experiência humana.

O que movimentaria, então, o psicanalista nessa outra forma de compreensão de seu fazer? O desassossego quanto ao bridão asséptico da “severa chancela da ciência” [13] e o desejo de se abrir para a oportunidade de rompimento dos campos instituídos, ou seja, para o rompimento dos campos confi gurados pelo poder. Abrir-se, portanto, para o instituinte, para a inauguração, para o descentramento, para a alteridade, para a multiplicidade das percepções e interpretações possíveis de si, do outro e do mundo, para a multivocidade da linguagem, para o insuperável inacabamento da experiência, em suma, para o ser da estranheza.


ALAN VICTOR MEYER Nada melhor que o belíssimo texto de Fabio sobre Joyce para apreender o que ele tinha em mente ao nomear o objeto da psicanálise de Homem Psicanalítico, esse ser da estranheza. Diz ele, após narrar um trecho de Ulisses: “O delírio às avessas de Joyce, seu método de escrita, o delírio lúcido, restabelece a forma concreta da experiência humana, uma composição de possíveis, dispostas em camadas, uma torta mil-folhas da alma” [14]. E termina esse texto, ainda inédito, com a seguinte ponderação “Como poderia Joyce apreciar a interpretação redutora da psicanálise que lhe foi apresentada, se estava criando outra muito melhor?” [15].

Como diz nosso autor, não teria cabimento querer resumir o Ulisses. Toma, então, o “momento crucial do Ulisses, em que se dá o encontro, no bordel, entre Bloom e Stephen, seu fi lho no espírito, uma vez que o de carne está morto” [16] (p. 7). Aqui também não teria cabimento reproduzir o texto de Fabio, mesmo que seja isso mesmo o que eu gostaria de fazer, pois revela na carne o alcance de suas teorizações em constante movimento, infelizmente interrompido. É bom que se lembre desse texto para não reifi car seu pensamento. Fabio era um psicanalista que trabalhava, como escritor, no reino do análogo e sabia do horror de ser transformado em doutrina.

O exemplo de Ulisses é paradigmático, especialmente na cena delirante desse trecho que ele apresenta com maestria. Vejamos apenas um parágrafo:

Surge o espectro da mãe de Stephen, em trajes nupciais carcomidos, como Ofélia, ao som da ladainha: Jubilantium te virginum… No topo de uma torre, Buck Mulligan, o amigo médico, vestido de bufão shakespeareano, comenta: está animalmente morta. Num momento, Stephen dirige vitupérios à mãe morta (Que farsa de espectro…). Logo depois, sufocado de terror e remorso, defende-se: Dizem que te matei. Ele (Mulligan) ofendeu a tua memória. O câncer foi que o fez não eu. Destino. Buck Mulligan, o bufão, põe lenha na fogueira, referindo-se ao fato de Stephen haver-lhe recusado o último desejo, ajoelhar-se e rezar por ela, e termina recordando Homero: Nossa grande mãe! Epi oinopa ponton. A mãe exige arrependimento, submissão a Deus, quarenta dias de penitência e que peça à irmã para preparar-lhe aquele arroz cozido toda noite. As prostitutas comentam: Olha! Ele está branco. O espectro aproxima-se, triste e vingativo, ameaça-o com o fogo do inferno, até que Stephen lança o brado de anjo rebelde: Non seviam! Apostrofa a mãe, Necrófoga! Hiena!, empunha sua bengala e quebra a manga do lustre a gás, clamando: Nothung! (O jato de gás comenta: Pfunge). Bloom tenta contê-lo, enquanto as putas se agitam apavoradas, mas Stephen escapa para a rua. A dona do bordel exige de Bloom dez xelins para pagar o prejuízo: Sem conversa. Isto não é um bordel. É uma casa de dez xelins. Bloom, apressado, ainda regateia, deixa um xelim, e corre ao encalço de Stephen, antes que cometa outros desatinos. Nesse momento, o livro inteiro sai atrás dele, todas as personagens marginais e os fi gurantes dublinenenses, como num fi lme de Carlitos, aos gritos de: É o Bloom!! Pega o Bloom! Pegaladrão! [17].

Após esse trecho, Fabio mostra que é uma cena edipiana – Bloom, um novo pai, ambivalente em relação à mãe – e além de tudo é uma cena hamletiana e acrescenta ironicamente: “Nosso Jones poderia fi car satisfeito” [18], para logo acrescentar no parágrafo seguinte: “Stephen é Telêmaco, O que combate de longe. Bloom é Ulisses, estando eles na ilha de Circe. Logo o interpretante deveria ser a Odisséia, sobre o mar cor de vinho nossa grande mãe. Uma poção faz com que o caráter dos homens se manifeste em forma carnal e os companheiros de Ulisses viram porcos. O porco de Gadarene, no qual Jesus exorcizou os demônios dos dois possessos, é um dos fi gurantes dessa cena. Ora, da poção, Guiness, the sacred pint, Stephen, Mulligan e todos os demais , salvo Bloom, se haviam enchido o dia todo” [19]. E na seqüência vão surgindo Hamlet, Goethe, Sigfried de Wagner etc. Assim conclui nosso autor: Joyce, como outros, faz referência às obras-mãe, “só que todas ao mesmo tempo, toda a literatura. Com isso, a credibilidade do processo literário convencional entra em crise, mostrando que todas as histórias são uma história só, dependendo como se opera, e, por sinal, não a de Édipo, mas a história da criação literária e, mais amplamente, a do pensamento humano”. E, mais adiante: “Ulisses é o interpretante de todas as obras, não o contrário. O que ele produz na obra literária? Uma ruptura de campo. Uma tentativa de cura. Para nós, uma introdução à estética da interpretação” [20]. Eis aí a “torta de mil folhas”, o Homem Psicanalítico em toda a sua estranheza.

A análise do texto de Ulisses elaborada por Fabio aponta para o Homem Psicanalítico como um ser em trânsito, dando a necessária e complexa dimensão temporal à “torta de mil folhas”. É no aparente mas complexo processo de ruptura de campo e vórtice que outras possibilidades vão surgindo, de modo evanescente, num processo contínuo de ruptura e recomposição dos modos de representação. A interpretação, cuja dimensão estética o texto acima nos permite vislumbrar, tem para nosso autor uma função essencialmente provocativa, permitindo que surja o que está em questão a cada momento da análise. Nessa perspectiva, a interpretação não visa enunciar uma verdade objetiva, mas despertar reações, constituindo a dimensão veritativa do processo. É esse o caminho pelo qual vão se estabelecendo as teorias psicanalíticas, cuja operatividade está em funcionar como interpretante.

A teoria analítica, para nosso autor, vai constituir-se num lugar análogo que é justamente a fi cção, dentro do espírito freudiano quando este se refere à bruxa metapsicológica e à fi cção teórica do aparelho psíquico (eine theoretische Fiktion). Esse modo de conceber a teoria é um antídoto à reifi cação da teoria em doutrina e às atitudes escolásticas que rondam nosso campo de atuação, restituindo a mais ampla liberdade criativa dentro da psicanálise. É esse circuito pelo análogo fi ccional que estabelece o parentesco entre a teoria psicanalítica e a literatura de fi cção, mas não sua completa identidade, como salienta Fabio. A essa passagem pelo análogo é o que ele denominou de alta teoria.

Por outro lado, a fi cção teórica surgida na clínica padrão (junto ao analisando) está determinada pela transferência, cujas considerações clássicas são aceitas pelo nosso autor, contanto que tomemos em “cuidadosa consideração a força de criação fi ccional da transferência na análise” [21]. O que signifi ca que cada análise é uma “história singular, um campo bem determinado pela história psíquica, capaz de organizar os demais campos que nele ocorrem. Assim sendo, cada análise tem um enredo que é a vida do analisando, sob espécie transferencial” [22]. Já na clínica extensa, o que Freud denominou “psicanálise fora dos muros”, existe o campo transferencial, mas não o fenômeno transferencial. O campo transferencial, descrito por Fabio como “uma rede de indução de sentidos, sem indutores concretos, causais” [23], permite grosso modo a operação do método psicanalítico para uma “clínica generalizada para as condições concretas do homem” [24].

A referência a Joyce no texto de Fabio tem para mim um duplo sentido. Primeiro, um sentido paradigmático, ao apontar a dimensão estética da interpretação analítica, sua dimensão intratransferencial ao nível dos próprios personagens do Ulisses e essa dimensão múltipla e fugidia do ser-do-homem. Por outro lado, como não se trata de análise de consultório, pode também ser considerada no âmbito da clínica extensa.

Procurei nessas breves considerações trazer um pouco do espírito de Fabio, como ele me tocou, especialmente ao lembrar o texto de Joyce que tanto me entusiasmou ao escutá-lo num sábado à tarde na sede da sbpsp na rua Sergipe, junto com mais cinco ou seis colegas. A escrita para Fabio era o lugar do análogo, e seus textos tinham uma capacidade fi ccional desveladora, sem jamais sair do âmbito psicanalítico. Como somos seres da linguagem e só através dela podemos romper “o cerco das coisas”, ele lutou pela sua liberdade criativa, lembrando sempre, como gostava de repetir: “quem não cria, crê”.
topovoltar ao topovoltar à lista de autorestopo
 
 

     
Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
Sociedade Civil Percurso
Tel: (11) 3081-4851
assinepercurso@uol.com.br
© Copyright 2011
Todos os direitos reservados