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Resumo
Resenha de Adela Stoppel de Gueller e Audrey Setton Lopes de Souza (orgs.), Psicanálise com crianças – perspectivas teórico -clínicas, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2008, 283 p.


Autor(es)
Karina Codeço Barone


Notas

1 L. C. Figueiredo e N. E. Coelho Jr. propõem uma enriquecedora discussão a respeito do tema da ética na psicanálise (L. C. Figueiredo e N. E. Coelho, Ética e Técnica em Psicanálise, São Paulo, Escuta, 2000).

2 S. Ferenczi, “Análises de crianças com adultos”, in Obras Completas, vol. IV, São Paulo, Martins Fontes, 1992, p. 76.

3 S. Ferenczi, op. cit., p. 76.

4 S. Ferenczi, op. cit., p. 74.


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 LEITURA

A ética da análise com crianças

[Psicanálise com crianças - perspectivas teórico-clínicas]


Ethics of analysis with children
Karina Codeço Barone

O livro Psicanálise com crianças – perspectivas teórico -clínicas oferece uma leitura aprofundada e abrangente de aspectos históricos, teóricos e clínicos da prática psicanalítica com crianças. A riqueza do livro, organizado por Adela Stoppel de Gueller e Audrey Setton Lopes de Souza, deriva da ampla experiência acumulada pelos autores em mais de vinte anos no curso de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae – importante instituição no cenário psicanalítico de São Paulo, reconhecida por seu respeito à diversidade no campo da psicanálise e pela qualidade de seu ensino. O conjunto de capítulos reunidos permite explorar a diversidade, sem prejuízo da coerência do livro como um todo, perspectiva salutar no campo psicanalítico.

O livro é composto de seis partes: a primeira parte é dedicada aos aspectos históricos; a segunda dedica -se a três releituras do famoso “caso Hans”; a terceira aborda a especifi cidade da prática psicanalítica com crianças a partir de um olhar plural; a quarta discute o relevante tema do brincar sob diferentes perspectivas teóricas; a quinta debruça -se sobre o tema da transferência e a sexta parte examina o tema da interpretação.

A primeira parte é composta pelo capítulo “Psicanálise com crianças: histórias que confi guram um campo”, escrito por Maria Dias Soares e Mary Ono. Nele, as autoras traçam o histórico da construção do conceito de “infantil”, com base especialmente no trabalho de Philippe Ariès e Foucault. As ideias de Freud a respeito da sexualidade infantil e a análise do caso Hans são também discutidas, como raízes da prática psicanalítica com crianças. A seguir, Maria Dias Soares e Mary Ono tecem um panorama dos aspectos históricos da prática psicanalítica com crianças, com especial atenção ao trabalho pioneiro (e pouco reconhecido) de Hermine von Hug -Hellmuth. A pedagoga vienense foi uma das primeiras a aplicar o conhecimento da psicanálise para o atendimento de crianças, com especial ênfase em aspectos educativos. Ênfase que será retomada por Anna Freud no futuro, o que passaria a constituir seu principal diferencial em comparação ao trabalho de Melanie Klein, tema discutido em detalhe no capítulo. As autoras não deixam de examinar a contribuição de psicanalistas franceses, como Mannoni, Dolto e o próprio Lacan para essa prática. Ao final, Maria Dias Soares e Mary Ono apresentam uma discussão pertinente a respeito da análise de crianças no Brasil, leitura obrigatória para aqueles que desejam conhecer a fundo a implantação dessa prática no nosso país e, em especial, na cidade de São Paulo.

Como não poderia deixar de faltar em uma coletânea dedicada à psicanálise infantil, a análise do caso Hans é feita na parte dois do livro. Aqui é feito um exame rigoroso do texto freudiano por Maria José Porto Bugni no capítulo “Caso Hans: um encontro de Freud com a psicanálise da criança”. Trata -se de discussão relevante, que dialoga com conceitos fundamentais da psicanálise a fi m de demonstrar a riqueza do caso clínico apresentado por Freud. No capítulo “O pequeno Hans: um diálogo entre Freud e Klein”, Elsa Vera Kunze Post Susemihl investiga raízes de algumas concepções kleinianas em Freud, além de propor uma enriquecedora leitura de Freud a partir de Klein. Cita -se, como exemplo, a importância da fantasia infantil para a elaboração no caso Hans assinalada por Freud, conceito comparável ao de fantasia inconsciente desenvolvido por Klein. Adela Stoppel de Gueller, uma das organizadoras do livro, encerra a parte dois com o capítulo “Caso Hans: o passo de Freud a Lacan”, no qual propõe uma ligação de Freud a Lacan a partir do caso Hans. Aqui a autora apresenta alguns dos principais conceitos da obra de Lacan, com o objetivo de demonstrar a potencialidade das ideias de Lacan ao propor uma releitura da obra freudiana. A relevância dessa parte do livro sustenta -se em uma análise muito bem feita tanto do ponto de partida, Freud, quanto dos desdobramentos teórico -clínicos postulados posteriormente por Melanie Klein e Lacan. Tem -se, assim, uma contribuição que certamente enriquecerá o leitor.

A terceira parte do livro traz à tona aspectos específi cos da clínica psicanalítica com crianças no capítulo “Especifi cidade da clínica psicanalítica com crianças: uma diversidade de olhares”, escrito em conjunto por Ada Morgenstern, Afrânio de Matos Ferreira e Márcia Porto Ferreira. O cuidado com que a análise das diversas abordagens é realizada constitui um dos pontos fortes do capítulo, o que o torna referência para se conhecer a pluralidade de enfoques no campo em questão. Nele, Ada Morgenstern, Afrânio de Matos Ferreira e Márcia Porto Ferreira discutem os aspectos que tornam a psicanálise com crianças uma prática singular, com características e vicissitudes próprias que a diferenciam da prática com adultos. A singularidade dessa prática também abarca um conjunto variado de contribuições de diversos psicanalistas como Anna Freud, Melanie Klein, Winnicott, Lacan, Dolto e Mannoni. É essa pluralidade que é discutida em detalhe no capítulo, a fi m de salientar os diferentes aspectos enfatizados pelos psicanalistas acima citados, os quais acarretam repercussões teóricas e clínicas. Da análise das diversas contribuições, os autores concluem que a prática com crianças envolve certa especifi cidade, mas não especialidade, quer dizer, continua a ser “a própria psicanálise” (p. 118). Corrobora essa compreensão a constatação, destacada no capítulo, de que a prática com crianças contribui para repensar a clínica com adultos, especialmente as formulações das teorias a respeito de pacientes psicóticos e borderlines.

A quarta parte, constituída por três capítulos, dedica -se ao tema do brincar. Audrey Setton Lopes de Souza, também organizadora do livro, examina a contribuição de Melanie Klein como fundante desse campo clínico no capítulo “Melanie Klein e o brincar levado a sério: rumo à possibilidade de análise com crianças”. Para a autora, Klein resolveu muitos dos impasses da análise de crianças ao eleger o brincar como substituto da associação livre. Essa inovação técnica permitiu importantes avanços na prática psicanalítica com crianças. Depois de Klein, outros desenvolvimentos signifi cativos ocorreram a partir do trabalho de Winnicott e Bion, conforme exame feito no capítulo. A constatação da importância do “fenômeno lúdico” para a própria civilização é discutida pela autora a partir de uma interessante leitura do trabalho de Huizinga. Em seguida, Magaly Miranda Marconato Callia aborda a teoria dos objetos transicionais no capítulo “No caminho da transicionalidade: brincando criamos o mundo”. Aqui se encontra um exame preciso da obra de Donald Winnicott, a fi m de discutir a relevância do trabalho do psicanalista inglês para a teoria sobre o brincar. A autora apresenta um interessante caso clínico a fi m de ilustrar a importância do brincar para a subjetivação humana. Por fi m, Adela Stoppel de Gueller assina o instigante capítulo “O jogo do jogo”, no qual existe um questionamento relevante a respeito do que estaria “em jogo no brincar”. Tal questionamento apoia -se em um exame do famoso jogo do “fort da” a partir das ideias de Freud e Lacan. A autora apresenta com riqueza a importância da capacidade simbólica associada ao brincar e às possibilidades de metaforização daí decorrentes. A conclusão da autora é a de que “o jogo é o único lugar onde a verdade do sujeito pode ser enunciada” (p. 167), o que permite responder à pergunta postulada no início do capítulo. Constata -se que o tema do brincar é tratado com seriedade pelos autores, os quais oferecem ao leitor uma contribuição de grande valor teórico e clínico.

A transferência é discutida na quinta parte do livro em dois capítulos. Bernardo Tanis, no capítulo “Sobre a transferência”, apresenta uma rica discussão das vicissitudes enfrentadas pelo analista ao lidar com o fenômeno da transferência. Esse fenômeno, como salientado pelo autor, leva o analista a percorrer caminhos surpreendentes, os quais podem ser fascinantes ou difíceis, tanto para o analista como para o analisando. A sensibilidade clínica de Bernardo Tanis, ao discutir tema essencial da prática psicanalítica, torna o capítulo leitura instigante e necessária. No capítulo “Refl exões sobre a transferência na análise de crianças: o enfoque kleiniano”, Audrey Setton Lopes de Souza apresenta detalhado exame das ideias de Klein a respeito do fenômeno transferencial. A autora destaca o fato de esse conceito ter constituído ponto central da divergência entre Anna Freud e Melanie Klein. Klein considerava ser plenamente possível a instalação de uma neurose de transferência na análise de crianças, ao passo que Anna Freud duvidava que esse mecanismo estivesse em ação, dada a infl uência real dos pais na vida da criança. Sabe -se que a maneira como se compreende a transferência infantil repercute signifi cativamente na concepção tanto do lugar dos pais quanto do próprio analista no tratamento. Assim, a relevância dessa questão, somada à qualidade do exame feito pela autora, torna esse capítulo indispensável àqueles que desejam analisar crianças.

A parte final do livro é constituída por três capítulos a respeito da interpretação. Uma apresentação histórica da interpretação na análise de crianças é feita por Maria do Carmo Vidigal Meyer Dittmar no capítulo “Escuta e interpretação na análise de crianças: primeiras aproximações”. Nele a autora examina o trabalho pioneiro de Klein e Dolto, ao mesmo tempo que propõe um exame das ideias de psicanalistas contemporâneos como Antonino Ferro e Silvia Bleichmar. Dessa forma, alcança -se uma investigação das abordagens inglesa e francesa de psicanálise, tanto a partir de psicanalistas pioneiros, como a partir da contribuição de dois signifi cativos interlocutores contemporâneos. Elsa Vera Kunze Post Susemihl examina uma mudança crucial no tocante à interpretação no capítulo “A mudança paradigmática da interpretação na escola inglesa a partir de Klein”. Nele a autora reconhece a coragem e o pioneirismo de Klein ao insistir na manutenção de uma estrita postura analítica no tratamento de crianças, ou seja, sem fazer concessões nem sucumbir a interesses educativos. Essa postura de Klein constitui um novo paradigma, que marcará profundamente a psicanálise inglesa, principalmente no que se refere às formulações interpretativas. A autora lança luz ao complexo tema da fantasia inconsciente na obra kleiniana, com vistas a justifi car o material interpretativo apresentado por Klein em seus textos, os quais foram constantemente alvos de críticas. O leitor que busca uma rigorosa análise do tema da interpretação em Klein, bem como dos desdobramentos propostos por Bion, certamente apreciará o presente capítulo. Lia Pitliuk encerra o livro com o interessante capítulo “A interpretação psicanalítica: entre o sonhar, o brincar e o viajar”, no qual oferece uma leitura do tema da interpretação baseada na obra de Winnicott. Essa análise é feita a partir de uma discussão de aspectos ontológicos destacados por Winnicott, os quais modifi cam essencialmente a posição do analista. Destaca a autora que, para ajudar o paciente no seu percurso, o analista deve suspender demandas em relação a ele, a fi m de permitir ao paciente parar de reagir ao ambiente e obter a experiência de “ser”. Essa suspensão de demandas certamente infl uencia a produção interpretativa do analista, conforme se discute ao longo do capítulo, pois desafi a o entendimento clássico da interpretação como sendo a de atribuir sentido. Assinala a autora, ainda, o risco de que a interpretação, ao atribuir sentidos, venha a tolher aspectos criativos do ser. Propõe -se, portanto, um novo lugar para a interpretação, uma zona relativa à transicionalidade. Esse capítulo torna -se fundamental para se conhecer a relevante contribuição proposta por Winnicott para compreender o trabalho interpretativo.

Os temas escolhidos pelos autores constituem pontos cruciais para alcançar uma reflexão lúcida e aprofundada da prática psicanalítica com crianças. A variedade de temas apresentados e, principalmente, a escolha em contemplar diversas abordagens – Freud, Anna Freud, Klein, Lacan, Winnicott, Dolto, Mannoni, ente outros – destinam o presente livro a tornar -se referência obrigatória na formação de analistas de crianças. Destaca -se, ainda, o fato de se obter visão abrangente do tema, sem que se incorra em fragmentação da narrativa ou perda da coerência interna da obra.

Apesar de os capítulos trazerem um exame de uma variada gama de assuntos sob diferentes pontos de vistas, vê -se que um tema perpassa toda a obra. Trata -se do tema relativo ao imperativo ético [1] que fundamenta a psicanálise com crianças. Essa preocupação deriva do reconhecimento, anunciado por Maria Dias Soares e Mary Ono já no primeiro capítulo do livro, de que a “dependência real da criança à palavra do adulto e a sujeição à sua infl uência” (p. 21) constituem questão ética dessa prática.

Assim, é preciso considerar a postura do adulto face à dependência infantil, pois a constatação da dependência real da criança no adulto traz questões éticas ao campo da psicanálise com crianças. No campo psicanalítico, podemos reconhecer um marco no trabalho pioneiro de Freud (1909) no caso Hans, momento em que a fala da criança passa a ser considerada para a compreensão de suas difi culdades. Quando levamos em consideração esse imperativo ético, vemos também que o trabalho de Ferenczi constitui referência relevante para a construção de um novo olhar para o infantil. Apesar de não ter trabalhado com crianças, Ferenczi muito contribuiu para criar um campo capaz de acolher o funcionamento infantil. Ferenczi (1931) [2] considerava existir um “elemento de hipnose na relação entre crianças e adultos”. Reconhecer a natureza dessa relação parece ser imprescindível para evitar a violência contra a criança. Segundo Ferenczi, “esse grande poder que os adultos têm em face das crianças, em vez de utilizá -lo sempre, como geralmente se faz, para imprimir as nossas próprias regras rígidas no psiquismo maleável da criança, como algo outorgado do exterior, poderia ser organizado como meio de educá -las para maior independência e coragem” [3].

A proposta de Ferenczi deveria ser acolhida por todo analista de crianças, pois consagra uma proposta de companhia em direção à aquisição de maior autonomia. Acompanhar a criança nesse percurso exige do adulto uma posição que respeite a singularidade da criança, ou seja, uma postura fundamentalmente ética. Além da ética, Ferenczi salienta a importância do tato, ao enfatizar que: “[é] uma vantagem para a análise quando o analista consegue, graças a uma paciência, uma compreensão, uma benevolência e uma amabilidade quase ilimitadas, ir o quanto possível ao encontro do paciente” [3].

De certa forma, todos os analistas que se propuseram a trabalhar com crianças empreenderam caminho semelhante. Eles adotaram postura aberta à alteridade infantil e, munidos de tato e sensibilidade, se ofereceram a acompanhar as crianças nesse percurso analítico, como podemos acompanhar nas discussões ao longo do livro. A psicanálise com crianças fundamenta -se em um princípio ético, o de dar voz às crianças, com vistas a acolhê -las em sua singularidade. A prática psicanalítica com crianças é fascinante, justamente porque, como já afi rmava Ferenczi em 1931, temos muito a aprender com elas. O livro empreende com sucesso a tarefa de mostrar que o trabalho com crianças nasce da postura pioneira de alguns psicanalistas que se voltaram à escuta da criança e, nesse caminho, preocuparam -se em respeitar o imperativo ético de respeito à alteridade.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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