EDIÇÃO

 

TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
  
 

voltar
voltar à lista de autores

Resumo
Resenha de Fernando Frochtengarten, Memórias de vida, memórias de guerra, São Paulo, Perspectiva, 2005, 223 p.


Autor(es)
Susan Markusszower
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas
1 C. Petzenbaum, So that your generations shall know, 2006, no prelo (p. 95).

voltar à lista de autores
 LEITURA

“Que você só tenha pra contar coisas melhores do que eu te contei”

Susan Markusszower


Resenha de Fernando Frochtengarten, Memórias de vida, memórias de guerra, São Paulo, Perspectiva, 2005, 223 p.

Fernando Frochtengarten convida o leitor a uma viagem ao passado, onde bifurcam suas próprias origens. A viagem é guiada pelas memórias ou, como o autor prefere chamá-las, as reminiscências dos seus avós, sobreviventes da Shoa. Acompanhamos a trajetória do neto que, desde sua infância, se familiarizou com as tragédias que no passado afl igiram sua família, para na idade adulta transformar sua herança num estudo a respeito de memória e desenraizamento.

A viagem junto com o avô e a tia para as cidades de origem na Polônia serve como pano de fundo das refl exões do autor a respeito do fenômeno psicossocial do desenraizamento e sua dimensão psicológica, a ruptura biográfi ca. Por meio da análise das matrizes de participação social reconstruídas pelas lembranças dos sobreviventes de guerra e a maneira como são elaboradas suas reminiscências traumáticas, o autor pretende contribuir para uma discussão aprofundada sobre esses temas (p. xv).

Na tentativa de capturar algo do passado perdido, o autor observa, na visita à cidade da infância do avô, o estranhamento daquele que um dia pertenceu ao lugar visitado, mas que hoje defi nitivamente lhe era estranho (p. 9). O estranhamento agravou-se à medida que não restou qualquer traço material ou idiomático que indicasse a presença da comunidade judaica ou seu extermínio nem qualquer documento na prefeitura da cidade que atestasse sua história familiar (p.14).

Nessa viagem no tempo, Fernando vive na pele aquilo que, citado por ele, Simone Weil afi rma a respeito da importância do passado:

Seria vão voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurdo. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado (p.12).

A ausência absoluta de resquícios do passado nos lugares visitados, apesar de sua intensa presença nas reminiscências do avô, confronta o autor com a impossibilidade de abraçar o presente – este presente – como contíguo aos quadros espaço-temporais em que viveram os avós e que lhe eram conhecidos por meio das lembranças contadas (p.14). E o autor acrescenta:

As pessoas e o solo pareciam esconder, como algozes ou testemunhas, alguma participação na biografi a dos meus ancestrais. Tinham todos o que dizer sobre sua destruição. Faziam pensar nos pinheiros que hoje cobrem o antigo campo Sobibor: plantados pelos nazistas para sombrear seus crimes, circulam em sua seiva resquícios da gente exterminada
(p.14).

O sentimento de estranheza suscitado pela falta absoluta de referências ao passado assume, para o autor, algum parentesco com a dor que acomete os homens desenraizados (p.14).

Conforme citado pelo autor, Simone Weil Susan Markuschower é psicanalista, membro do Departamento de Psi- considera o enraizamento uma das necessidades mais importantes e mais desconhecidas do homem. Ainda de acordo com essa autora, o ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro (p.12). As formulações de José Moura Gonçalves Filho, conforme lembrado pelo autor, a respeito do desenraizamento, referem-se à humilhação gerada pelo desaparecimento das condições intersubjetivas demonstrando a natureza política do sofrimento gerado pelo desenraizamento (p.14).

Na investigação que deu origem ao livro, confrontamos-nos com reminiscências do passado; entre o vilarejo do passado, a casa do passado, as guloseimas do passado, a vida familiar do passado, os pais, irmãos, irmãs, avós, tios, tias etc. que foram deixados para trás e a vida nova encontrada num lugar distante e desconhecido, encontramos o horror, o inominável e irrepresentável que pode ser de alguma forma recuperado em reminiscências dizíveis após 60 anos do ocorrido.

O trabalho de campo deste estudo se apóia nas extensas entrevistas do autor com cinco sobreviventes da Shoa: Cesia, D. Elka, Mendel, D. Rosa e D. Sara. Cada um deles dá testemunho do seu escape do aniquilamento. Histórias de verdadeiros heróis e heroínas que se ergueram dos destroços do inferno, sem que eles próprios entendessem como conseguiram. São relatos comoventes, reminiscências de fato, que obscurecem o passado anterior ao horror e contaminam o que se seguiu. Paradoxalmente, são relatos de muita afetividade e amor à vida, amor ao passado dizimado e à vida reerguida. Nas palavras de Cesia, encontramos uma tentativa de elaborar a dor sofrida com a vida reencontrada e suas conquistas: “E eu agüentei tudo isso, Fezinho. Eu ia saber que um neto vai me entrevistar e gravar essa história? Eu sonhava com isso? […] Só que as feridas da minha família fi caram. E não querem se fechar. Não vão cicatrizar nunca. E nessas entrevistas eu também não queria deixar tanta tristeza, tanta angústia. A vida continua” (p. 210).

Ao acompanhar o autor nessa sua trajetória dolorosa e difícil, nos sentimos cúmplices desse neto que escuta com pasmo e admiração as reminiscências a ele confi adas. É uma herança, sim, mas é uma herança que nenhum ancestral gostaria de poder oferecer para seu fi lho ou neto, como afi rma a avó: “Te desejo, de todo coração, que um dia um fi lho ou um neto teu façam também uma entrevista. E que você só tenha pra contar coisas melhores do que eu te contei” (p. 211). Ou seja, nesse caso os tesouros da herança são constituídos por um abismo, marca deixada pela ruptura biográfi ca, uma vez que os objetos biográfi cos dos sobreviventes foram postos em cacos (p. 187).

A pesquisa do autor focaliza as memórias dos sobreviventes de eventos extremamente traumáticos. A abordagem psicossocial apresentada pretende incidir sobre esse fenômeno na sua forma intermediária, na fronteira entre a pessoa e a situação, interrogando-se acerca do que a guerra tem feito de suas vítimas e o que essas vítimas têm feito da guerra (p. 23). E nesse sentido a escolha dos participantes é bastante feliz, tanto por estes terem sobrevivido a um dos eventos mais traumáticos do século xx – e nesse caso vale salientar que os campos de concentração representam um acontecimento de choque único na história (p. 33) –, como pelo fato de ter conduzido as entrevistas mais ou menos 60 anos após o ocorrido. Parece que nesse lapso de tempo o sobrevivente começa a permitir-se olhar para trás e narrar algo de sua história, como afi rma D. Rosa: “Olha, esses dias que nós conversamos me fi zeram voltar todo o passado. E se durante tantos anos eu não quis lembrar nada, agora parece que foi gratifi - cante” (p.166).

A necessidade de lembrar se torna um legado de sua vida, já que o trauma vivido se sobrepõe a esta e a necessidade de lutar para retomar a vida deixou de ser prioridade. Nessas circunstâncias, o autor observa que, sob condições bastante determinadas, a narração de uma autobiografi a pode favorecer o trabalho de elaboração da experiência de guerra (p. 29). A elaboração psicológica de uma experiência traumática envolve sua inscrição e reinscrição na subjetividade. É por sua reprodução e recriação que o sujeito pode organizar as idéias, nomear as experiências e integrá-las a outras representações (p. 28). A narrativa confere ao memorialista a possibilidade de estranhar-se e de comunicar-se com a alteridade da experiência lembrada. Não é outro o motivo do espanto do narrador com aquilo que lembra e com a maneira como toma para si o trabalho de contar sua história (p. 212). Essa relação com o estranhamento do vivido encontramos expressa por um de outros muitos memorialistas, Chanoch Petzenbaum, quando afi rma em seu livro Para que as futuras gerações saibam:

Se você pensa que escrevi tudo sobre o que vivi, você está totalmente enganado. Eu apenas escrevi sobre coisas que são difi cilmente acreditáveis. Eu não escrevi nada sobre aquilo que é totalmente inacreditável. Nem eu mesmo acredito às vezes no que passamos [1].

O livro Memórias de vida, memórias de guerra mostra que se por meio do recolhimento dos fragmentos de sua vida o narrador doa aos seus herdeiros sua experiência no mundo, e se a história de vida dos ancestrais é uma necessidade fundamental para a construção do futuro da nova geração, a narração também toma parte na resistência política de um sobrevivente de guerra (p. 213). Foram justamente eventos traumáticos como as guerras, a Shoa e a bomba nuclear que transformaram a narrativa e o testemunho em modalidades decisivas de relacionamento do homem com os acontecimentos (p. 28). O autor demonstra em seu estudo que as narrativas dos sobreviventes, além de servirem como reelaboração das questões relacionadas com o desenraizamento e a ruptura biográfi ca, são uma contribuição valiosa para o não-esquecimento e para a investigação constante dos tesouros monstruosos da humanidade. Assim a essência desse legado, denúncia da força poderosa da natureza destrutiva do homem, poderá alertar e contribuir para um mundo futuro quiçá menos cruel.
topovoltar ao topovoltar à lista de autorestopo
 
 

     
Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
Sociedade Civil Percurso
Tel: (11) 3081-4851
assinepercurso@uol.com.br
© Copyright 2011
Todos os direitos reservados