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Resumo
Utilizando idéias de Fabio Herrmann, este artigo busca na obra de Freud as raízes da Teoria dos Campos. Clínica e teoria são as fontes desta perspectiva, tanto num autor como no outro.


Autor(es)
Sandra Lorenzon Schaffa
é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


Notas

1 Trabalho apresentado na Abertura do IV Encontro da Teoria dos Campos.

2 Andaimes do Real, O Método da Psicanálise, Brasiliense, 1991, p.9.

3 Andaimes do Real, op. cit. p.11

4 L’Arc ,34

5 Da Clínica Extensa à Alta Teoria. Meditações Clínicas. (texto inédito, sem paginação).

6 Blanchot, L’Entretien Infi ni, Paris, Éditions Gallimard, 1969, p.343.

7 cit. Laplanche, “Intrepréter [avec] Freud”, L’Arc, 34 p. 22.

8 A expressão é de Laplanche.

9 Laplanche, op. cit. 46.

10 Laplanche, op. cit.

11 Meditações.

12 Laplanche, op. cit.

13 Meditações.

14 Totem e Tabu, Éditions Gallimard, Paris, 1993, p.218.

15 Meditações.

16 Segunda meditação. “Quem? Hoje, Joyce”.

17 Pierre Fédida, “Technique Psychanalitique et Metapsychologie”, op. cit.

18 Segunda Meditação: “O pensamento de Freud e a Psicanálise. O atrito do papel”.

19 Primeira Meditação: “A história da Psicanálise como Resistência à Psicanálise. Os dados da circunstância”.

20 Segunda Meditação: “O pensamento de Freud e a Psicanálise. O atrito do papel”.

21 Segunda Meditação: “O pensamento de Freud e a Psicanálise. O atrito do papel”.

22 Segunda Meditação: “O pensamento de Freud e a Psicanálise. O atrito do papel”.

23 Meditações.

24 Quarta Meditação. Três Modelos Técnicos.

25 Segunda Meditação: “O pensamento de Freud e a Psicanálise. O atrito do papel”.

26 Blanchot, op. cit. p.348.

27 Blanchot, op. cit. p.348.

28 Meditações

29 Meditações.

30 Quarta Meditação: “Três modelos técnicos”.

31 Blanchot, op. cit. 343.

32 Pierre Fédida, “Le neutre et la négation” in Le négatif, L’ Esprit du Temps, 1995.

33 “A infância de Adão” in A Psique e o Eu. Ed. Casa do Psicólogo.

34 Quarta Meditação: “Três modelos técnicos”.”Método é o que nos acontece, ele nos escolhe quando praticamos a psicanálise, não o escolhemos.”



Abstract
Fábio Herrmann’s Theory of Fields is here shown to be rooted in Freud’s work, both from a clinical and a theoretical point of view. The notion of “disruption of a fi eld” is employed to probe how and where interpretation acts and makes insight possible. Maurice Blanchot, Jean Laplanche and Pierre Fédida contribute to refi ning this sophisticated description of the analytic process.

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 TEXTO

Freud e o pensamento por ruptura de campo

Freud and “thinking through disruption of fields”
Sandra Lorenzon Schaffa


Pensamento sem mistura.
A intimidade é um ato falho a dois.
O lugar do Método é entre.
Inconsciente e Método:
As entranhas do pensar.


Abordar o tema proposto pelos coordenadores deste Encontro [1], “Freud e o pensamento por ruptura de campo”, levou-me de início a buscar as formulações de Fabio Herrmann presentes nos seus primeiros textos que viriam a compor os Andaimes do Real. Ei-nos diante do autor entregue à “tentativa de recuperar o método da psicanálise para o uso amplo que sua vocação de ciência da psique humana prevê e exige” [2]. Das formulações dos Andaimes, remontar ao pensamento freudiano procurando aí reconhecer a essência que Herrmann defi niu como ruptura de campo. “Este ensaio é sobretudo simples; sua difi culdade é a do pensamento sem mistura” [3], escreveu na abertura de seu livro sobre o Método. “O método de uma disciplina exprime a forma geral de seu saber e efi cácia; em nosso caso, muito especialmente, da efi cácia clínica” [4]. Exige, portanto, um esforço de purifi cação do pensamento, exige a rigorosa sustentação de um pensamento sem mistura.

Tomo, nesta exposição, a idéia de ruptura de campo, como resultado desse esforço de depuração do pensamento freudiano, desviando-me inicialmente, contudo, em meu percurso, dessa difi culdade, que o autor de O Método da Psicanálise confessa na sentença inaugural de seu primeiro livro. Partindo de seus mais recentes escritos, constato que o problema a ser tratado, entretanto, não fora abandonado: o de um pensamento sem mistura. Todavia, no lugar da expressão “dificuldade”, encontro outra, de que se serve o autor para designar a natureza do legado que recebemos de Freud. Esta última, que encontro no centro de suas Meditações [5], defi ne o esforço pelo qual Fabio Herrmann procura penetrar a descoberta freudiana, caracterizá-la pelo seu traço mais puro: em uma única palavra: “intimidade”.

Como entender que o pensamento da intimidade da clínica possa defi nir a essência da descoberta freudiana? Para tanto, teremos de nos colocar diante desse pensamento sem mistura indagando se teria mesmo ele animado o sonho freudiano. Essa questão, presente nas Meditações, devo desdobrá-la: como considerar o pensamento freudiano em sua essencial pureza? Mas antes: o que signifi ca pensamento depois de Freud?

Como foi que, da relação mais simples da qual partiu Freud – um homem fala e o outro o escuta, chegamos à exigência de um pensamento sem mistura? Como assinala Blanchot em seu belo ensaio “A palavra analítica”, “para evitar toda grosseira interpretação mágica desse fenômeno maravilhoso, foi preciso a Freud um esforço de elucidação obstinado, tanto mais necessário quanto tinha seu método uma origem impura, tendo começado próximo do magnetismo, da hipnose e da sugestão”. [6]

Freud tomara como instrumento a interpretação, expurgando-a de sua origem sagrada, sem deixar de reconhecer nela o poder de jogo com a ambigüidade e a potência de seu movimento em ultrapassar o sentido manifesto e a aparência natural da realidade humana. Foucault, em As palavras e as coisas, analisou esta ordem de saber que se colocava no Renascimento lado a lado com a promissora ciência. “Não existe comentário, a menos que sob a linguagem que se lê e se decodifi ca, fl ui a soberania de um texto primitivo”, escreve Foucault. [7]

Laplanche, no conhecido ensaio “Interpretar (com) Freud”, parte dessa estrutura em dois níveis, texto manifesto e texto latente, própria à interpretação, para analisar o sentido essencial, demarcador da originalidade da interpretação freudiana. Reconhece que “o próprio Freud nos confundiu com algumas de suas declarações, por exemplo quando dizia que ‘a Psicanálise descobriu um sentido oculto nos sonhos’ ”, sentença dúbia que, observa Laplanche, quando assimilada rapidamente ao sentido de sobredeterminação como aceitação de uma pluralidade de sentidos possíveis com níveis maiores ou menores de profundidade, conduz à perda da especifi cidade da idéia freudiana. Vemos aí Laplanche às voltas com a mesma preocupação de preservar a pureza da descoberta psicanalítica. No ensaio mencionado, procura elucidar o que caracteriza a interpretação psicanalítica, distinguindo-a “de toda hermenêutica não freudiana, cabalística ou paranóica”. O empenho na depuração é bastante compreensível se tivermos em conta o quanto o seu sentido não se deixou de misturar entre os próprios discípulos de Freud com concepções as mais díspares (que variavam segundo os pendores mais delirantes de alguns, como Fliess, ou até do genial Grodeck, até os que, no extremo oposto, esvaziaram a interpretação de sua própria natureza, substituindo- a por sistemas teóricos explicativos, como fez rigorosamente Hartmann). Laplanche contudo relembra- nos, o que já é sufi ciente, a exaustiva luta de Freud com Jung quando este derivara pela via da interpretação anagógica. Interpretar, no sentido destacado por Laplanche, é interpretar com Freud. Com seu método. É afastar-se da ambição de uma leitura que se pretenda apropriar da disposição arquitetônica da obra [8] (dirige-se, no caso, a Paul Ricoeur) (...) E ironiza: “A arquitetônica? Esse termo implica por demais as idéias de sistema, de bela ordenação, de harmonia, para que o analista não a considere com desconfi ança” [9].

Interpretar com Freud é aceitar a disposição metodológica do pensamento freudiano: “o desmantelamento do pensamento e da expressão, a colocação no mesmo plano do ‘insignifi cante’ e da declaração de princípio sem cessar reafi rmada, da parte pelo todo, etc., constitui uma regra metodológica salutar nisso que ela toma ao reverso as elaborações secundárias e as camufl agens do entendimento, permitindo a outras redes de signifi cação liberarem-se.” [10]

A direção de Laplanche não é estranha à de Herrmann e o conselho que nos dá o autor das Meditações para descobrirmos o sentido do método é: “Investigue com afi nco os textos que tratam da demonstração do inconsciente, como a Interpretação dos Sonhos. Mas é prudente nunca perder de vista que a noção de inconsciente pode rapidamente se transformar num pretenso saber positivo sobre aquilo que há no inconsciente (...)” [11]. Esta recomendação parece concordar com a prudência na leitura que Laplanche faz de Freud: “Isso que Freud chamou de deslocamento de intensidade psíquica ou ainda reversão de todos os valores psíquicos no sonho não é outra coisa que a justifi cativa teórica dessa regra da fragmentação da unidade signifi cante segundo todas as linhas de divisão imagináveis, segundo as fronteiras aparentemente menos naturais que sejam. Escandalosa para o pudor ou senso moral, a regra de nada omitir no curso da sessão e de tratar todo pensamento do mesmo modo é tão chocante para o entendimento quanto para o ‘eu’.” [12]

O desprezo pelo edifício teórico acabado e o reconhecimento da residência do pensamento freudiano no caráter disruptivo de seu movimento aproximam a posição de Laplanche à de Herrmann. Este último afi rma: “Freud mostrou que a psique é inexoravelmente lógica, porém que a lógica não é razão.” [13] Vejamos como Freud atesta-o para retomar a partir de sua formulação a dupla questão que antes introduzi: “como considerar o pensamento freudiano em sua essencial pureza?” e “o que signifi ca pensamento depois de Freud?”

“Uma função intelectual nos é inerente, que exige, de todos os materiais que se apresentam à nossa percepção ou ao nosso pensamento, unifi cação, coerência e inteligibilidade; e ela não teme estabelecer relações inexatas uma vez que, em conseqüência de certas circunstâncias, ela é incapaz de discernir as relações corretas. Nós conhecemos certos sistemas que caracterizam não somente o sonho mas também as fobias, o pensamento obsessivo e as diferentes formas de delírio. Nas afecções delirantes (a paranóia), o sistema é o que há de mais manifesto, ele domina o quadro mórbido, mas não deve ser negligenciado também nas outras formas de psiconeuroses. Em todos os casos, podemos mostrar que é efetuado um remanejamento do material psíquico em função de um novo fi m, remanejamento que é fundamentalmente forçado, mesmo que compreensível se nos colocamos do ponto de vista do sistema.” [14]

O que significa pensamento para Freud? Significa, antes de mais nada, análise. Investigação do que está em jogo nessa “função intelectual que nos é inerente”, produzindo incessantemente “o remanejamento do material psíquico”, na mesma função (intelectual) que conduz os esforços mais brilhantes de nossa “bem sucedida” razão tanto quanto os de sua atividade delirante. Não esqueçamos que em textos como “O Mal-estar na Cultura” e “O Futuro de uma Ilusão”, assim como na análise da superstição que encontramos na “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, essa mesma “função intelectual que nos é inerente” é a responsável pelas concepções mitológicas e religiosas do mundo. “Uma psicologia projetada no mundo externo”, escreve Freud. Ao que acrescenta: “poderíamos atribuir- nos a tarefa de decompor, colocando- nos nesse ponto de vista, os mitos relativos ao paraíso e ao pecado original, ao mal e ao bem, à imortalidade (...) E de traduzir a metafísica em metapsicologia.”

Pensar freudianamente é entregar- se à tarefa de decomposição (análise).

Freud fez sofrer à palavra pensamento uma mutação ao reconhecêlo por sua condição de apresentação: a condição de um desvio (Umweg) do desejo. Assim são os pensamentos do sonho (Traumgedanken), a transferência de pensamentos (Ubertragungsgedanken). E não são eles intimamente senão operações de transformação, essencialmente, movimento? E é esse movimento do pensamento, tal como Freud o concebeu, que determina o sentido de nossa teoria e de nossa técnica. Freud, com sua Sexualtheorie, assim como com sua Traumtheorie, postulou que o sentido da teoria e da técnica psicanalíticas só se desvelaria sob a condição de sua investigação clínica. A teoria, em sentido freudiano, é o desvelar-se em suas operações de transformação (transferência) nos sonhos, nos sintomas, nas quais o que está em jogo é o método psicanalítico, movimento produtor no íntimo do sujeito.

“O que os filósofos sonharam conseguir com seus sistemas, expor as entranhas do pensar, Freud obteve com seu método interpretativo”, afirma Herrmann, acrescentando a seguir: “claro, depois também criou um sistema...” [15]. Mas, a inspiração mallarmeana que dá fundo a essa primeira Meditação nos leva a suspender o fôlego diante da oração principal: “O que os fi lósofos sonharam conseguir com seus sistemas, expor as entranhas do pensar, Freud obteve com seu método interpretativo”. O autor aí situa o pensamento freudiano em um plano fora do alcance das filosofias, plano onde se afeta o pensamento de uma potência que conduz à exposição de suas próprias entranhas. Uma tal potência resulta da capacidade de vencer sua maior força de resistência, sua tendência a objetivar-se. Vimos como essa função intelectual, em Freud, está ligada à projeção: “Uma psicologia projetada no mundo exterior”. A objetivação do pensamento como expressão de resistência exige trabalho constante de decomposição (expor as entranhas do pensar), de análise. Sustentar o pensamento como trabalho de decomposição de nossa psicologia projetada no mundo exterior é enfrentar não só a difi - culdade do pensamento sem mistura como abrigar o sonho de aceder ao íntimo. A Psicanálise como lugar da transmissão essencial do pensamento freudiano exige assim o desapego do estatuto de saber constituído, objetivado.

Cito Herrmann: “Nalgum momento do século XIX, o imperativo da utilização do conhecimento começou a suplantar as demais funções, recorda. Hoje, talvez nos pareça um pouco ridículo imaginar que nos outros tempos o conhecimento fosse outra coisa, senão uma utilidade, mas já foi assim e, creio, não estamos distantes de nova virada, quando o conhecimento pessoal deixará de ser utilizável. Para que se dê a apropriação e utilização do conhecimento, porém, é preciso primeiro objetivá-lo: isto é o que signifi ca tal texto, agora sou dono dele, posso combiná-lo com este outro a meu gosto, sou seu senhor, sendo seu escravo, por conseqüência. E aí está o começo da guerra com a obra: entender é objetivar. Este mandato de devoração das obras, a propósito, pode haver sido uma das alavancas consideradas por James Joyce. Ele escreveu livros impossíveis de objetivar e incorporar como propriedade, de usar e recombinar com alguma garantia.” [16]

“O que chamamos pensamento?”, pergunta Herrmann, aludindo à questão heideggeriana: “O que signifi ca pensar?”. Seguindo o rumo traçado pelas Meditações encontraremos, senão um encaminhamento suscitado pelo fi lósofo, uma estonteante demonstração na análise que o autor faz da obra de James Joyce, ou caberia melhor dizer, da análise a que nos submete diante de Joyce intérprete.

Para o psicanalista, “ocupar a posição de sustentar custe o que custe suas exigências doutrinais, sem rigidifi cá-las e sobretudo sem transformá- las em formações de caráter (teórico) ou em sistema de pensamento, é a aposta maior do ofício impossível de analista”, escreveu Pierre Fédida. Também este autor reconhece que “a acepção moderna da noção e técnica como poder de domínio graças à possessão de um saber regula os efeitos esperados sobre a palavra do outro. Uma tal acepção é ideologicamente dependente do acontecimento sociológico e político do indivíduo, do conceito de relação inter-individual e a noção de discurso comporta nela a anulação do que é uma palavra humana, da memória que a faz se falar e da língua na qual ela se fala no seio de uma comunidade de homens. Freud adivinhou que essa palavra humana, no seu uso de falar (Sprachgebrauch), era o grande saber do poeta e se sustentava junto do sonho, do mito e do povo de sua língua” [17]

“O que os fi lósofos sonharam conseguir com seus sistemas, expor as entranhas do pensar, Freud obteve com seu método interpretativo, mas, claro, depois também criou um sistema...” Consideremos agora a sentença adversativa do pensamento de Herrmann. A criação de sistemas, tendência tão demasiadamente humana, não nos cumpre lamentá-la, mas reconhecê-la. E este autor não poupa esforços em fazê-lo. Nas Meditações é o problema da resistência à Psicanálise, ou melhor, de “nossa visceral resistência ao método psicanalítico”, que quer atacar. “Consiste o pensamento em ser aquilo que faz pensar, que transmite heideggerianamente o dom de pensar, sendo por conseguinte o que há de grave numa obra” (...) e “todo autor luta a vida inteira contra a incompreensão de seus leitores – na realidade, contra sua compreensão, eivada de resistências – mas luta também com a própria obra tentando transmitir sua capacidade de pensar (...) sua forma ativa.” [18]

A primeira das Meditações trata efetivamente da “História da psicanálise como resistência à Psicanálise”. Aliando-se ao mais rigoroso dos poetas, afi rma que, “ao criar a Psicanálise, Freud, (...) era o mestre então jogando seus dados. Sua teoria vale, então, como lance de dados, ou em nossa expressão como ruptura de campo. Nós a transformamos em doutrina. Em cada ruptura uma doutrina, eis o lema dos náufragos alegres.”, aludindo ironicamente ao poema de Mallarmé, “O jogo de dados” [19]. “Rigor mais absoluto, levado ao extremo inimaginável, é tão somente a condição necessária para um lance de dados, para uma interpretação cuja verdade está no vórtice que sobrevém à ruptura (...) O problema do poeta é semelhante ao do psicanalista, embora bem anterior: se desconstruímos, uma a uma, as propriedades acessórias do poema, como saber que ainda se trata de poesia, ou, mais grave, que nem tudo é poesia?” [20]. O mesmo vale para a interpretação. Retirados os parâmetros secundários, temos de nos haver com o essencial, que é precisamente aquilo de que foge cada um: ser obrigado a declarar o que vem a ser uma interpretação psicanalítica.

Como reconhecer a Psicanálise discernindo-a do produto objetivado do pensamento freudiano? Pergunta o autor que um dia se desculpou pela difi culdade que nos impunha o seu projeto de restituição da idéia freudiana sem mistura. “Chamamos aí pensamento não à máquina produtora, mas ao conjunto dos seus produtos (...) certos precipitados consagram-se e já não podemos dele escapar.” [21] (...) “O autor objetiva, a leitura objetiva, desse duplo atrito do papel – que ler é mais ou menos como escrever sob este aspecto – cria-se um simulacro, o mais nobre dos simulacros, o mais terrível dos simulacros: a doutrina.” A doutrina freudiana é a psicanálise (mas não é a Psicanálise). (...) Freud, o intérprete dos sonhos, está à margem da psicanálise estabelecida, onde só fi cou o produto objetivado.” [22]

Para Herrmann, sua força, a Psicanálise retira-a de seu método que, “mesmo não sendo uma filosofia, ou talvez exatamente por isso lhe permita vencer momentaneamente a poderosa resistência contra experimentar o universo dos possíveis, a quase ilimitada variedade das possibilidades de experiência de que é dotada a proteica alma humana. Nisso consiste, digase de passagem, a verdade última do psiquismo, do ponto de vista da clínica: a verdade dos possíveis. Este é o caminho da cura analítica, a ruptura de cada campo aprisionador da experiência de ser. (...)” [23]

Podemos assim compreender esse aforisma de Herrmann: “A doutrina freudiana é a psicanálise (mas não é a Psicanálise)”: A doutrina freudiana é a psicanálise, a psicanálise tida por afi rmação de um saber cientifi camente certo, enquanto uma realidade objetivamente determinada (mas não é a Psicanálise, pensamento que nos põe em questão no lugar que ocupamos como falantes). Sobretudo, para que não percamos a essencial pureza do pensamento que se formula aqui, cumpriria destacar a seguinte idéia, tão facilmente confundida: “Método é o que nos acontece, ele nos escolhe quando praticamos a psicanálise, não o escolhemos. Técnica, nós escolhemos. Freud quase nunca falou de método, só de método terapêutico, que é precisamente a técnica.” [24]

Herrmann define a posição do analista como dimensão técnica de “eixo para os movimentos concretos da análise” (...) ou como “suporte transferencial ao trânsito do paciente por sua própria história” e, até certo ponto, o dirige (nesse sentido o rigor coloca-se do lado da técnica). “O método psicanalítico determina uma espécie de neutralidade, de isenção, de anterioridade posicional em relação aos acontecimentos, que tem sido confundida com formalidade ou intangibilidade.” (...) “O ponto técnico sustenta: De nada vale pensar que não é comigo (...), sendo eu a intersecção de inúmeras fi guras. Não é comigo é impreciso. É com este que eu sou, mas ainda não sei que é.” O exercício técnico dessa posição materializa- se num objeto que não deveria ser confundido com uma pessoa: “Este não é o analista em pessoa nem é a sua posição, mas a encarnação, na pessoa da posição.” [25]

Em outros termos, dá-se essa encarnação quando, entre o divã e a poltrona, como com felicidade formulou Blanchot, “duas pessoas invisíveis uma a outra são pouco a pouco chamadas a confundirse com o poder de falar e o poder de ouvir, a não ter outra relação que a intimidade de duas faces do discurso, essa liberdade para dizer não importa o que, para o outro de escutar sem atenção, como à sua revelia e como se ele não estivesse lá, – e essa liberdade que torna-se a mais cruel das obrigações, essa ausência de relação que se torna, nisso mesmo, a relação mais obscura, a mais aberta e a mais fechada. Aquele que, de algum modo, não pode parar de falar, dando expressão ao incessante, não dizendo somente aquilo que não se pode dizer, mas pouco a pouco falando como que a partir da impossibilidade de falar, impossibilidade que está já nas palavras, não menos que aquém delas, vazio e ranço que não é um segredo, nem uma coisa morta, mas coisa sempre já dita, morta pelas palavras mesmas que a dizem e nelas – e assim tudo é sempre dito, e nada é dito; e aquele que parece o mais negligente, o mais ausente dos auditores, um homem sem rosto, apenas qualquer um, espécie de não importa quem dando equilíbrio a não importa que do discurso, como um oco no espaço, um vazio silencioso que no entanto é verdadeira razão de falar, rompendo sem cessar o equilíbrio, fazendo variar a tensão das trocas, respondendo ao não responder, e transformando insensivelmente o monólogo sem saída em um diálogo onde cada um falou.” [26]

Ao reconhecer o lugar da palavra analítica naquilo que “libera a psicanálise de tudo que faz dela tanto um saber objetivo”, prossegue, Blanchot coloca-se uma questão de grande pertinência, mas freqüentemente negligenciada: “Que um psicanalista deva ser analisado, é uma exigência à qual ele está sempre pronto a se submeter tradicionalmente, mas menos prontamente a submeter aquilo que ele sabe e a forma segundo sabe: como se analisar de seu saber e dentro desse mesmo saber? No entanto, se a Psicanálise tornou-se uma ‘ciência objetiva’ como as outras, que pretende descrever e determinar a realidade interior do sujeito, manobrá- lo com receitas aprovadas e reconciliá-lo consigo mesmo fazendo-o cúmplice de fórmulas satisfatórias, isso não vem somente do peso natural das coisas, da necessidade de certeza, desejo de imobilizar a verdade a fi m de dela dispor comodamente, necessidade enfi m de ter mais que uma ciência de segunda classe; é também que a palavra errante que ela suscita responde a uma profunda ansiedade do médico que tenta se preencher pelo apelo a um saber feito, pela crença no valor explicativo de alguns mitos, pela ilusão também que no além da linguagem entramos em relação com a vida íntima do sujeito.” [27]

A doutrina freudiana como produto consagrado atenderia ao imperativo da utilização do conhecimento cujo correlato é essa condição de objetivação do pensar que “responde a uma profunda ansiedade do médico que tenta se preencher pelo apelo a um saber feito”. Nessa condição, escreve Fabio, Freud e a sua descoberta (a interpretação) fi cam à margem. A obra de Fabio Herrmann volta-se inteiramente ao enfrentamento do problema agudamente denunciado por Blanchot: de que, além de cumprir com a exigência da própria análise ao analista caiba pôr em crise aquilo que ele sabe e a forma segundo sabe. O método freudiano apurado é esse contínuo lançar dos dados, como viu Mallarmé, onde ao analista cabe submeter constantemente aquilo que sabe e a forma segundo sabe ao próprio processo disruptivo da análise.

A objetivação do pensamento expurga o “equívoco que é próprio da essência da palavra humana concreta” [28] (sobre o qual Freud insistiu em: “O sentido antitético das palavras primitivas”) e abole a intimidade de que a palavra necessita para ser ouvida. Intimidade que não é jamais garantida por quatro paredes, mas por esse vazio produtor que a posição do analista favorece. A intimidade constrói-se “entre”, é o lugar onde se dá “esta abertura para a equivocidade dos sentidos, que é a origem da Psicanálise, renova-se em cada um de nós, que estamos sempre a adormecer no leito seco do rio do costume, aceitando a palavra morta pela rotina.” [29]

A essa altura é preciso considerar que avançamos além da questão colocada até aqui: “O que caracteriza a interpretação psicanalítica?” para esta outra, que se desenvolve ao longo das Meditações: “Quem interpreta?”.

Um espaço, que se poderia demarcar grafi camente pelas // interpreta, propõe Herrmann. Entre o analisando e o analista, em uníssono, mas discrepantes, constrói-se um vazio. Não são as pessoas, a dupla que o constrói, mas o método constituindo o vazio como nascedouro da interpretação. O método é, pois, vazio produtor: “um nada organizado e um vazio organizador, pura estruturação da clínica (...) Tal como o inconsciente. Tal como o método. Duas faces da mesma moeda que se popularizou sob o esdrúxulo nome de espessura ontológica do método.” [30]

Esdrúxulo nome para caracterizar a excentricidade de nosso devir humano: “Nascer é, depois de ter todas as coisas, estar privado subitamente de todas as coisas, e logo do ser, – se a criança não existe nem como corpo constituído, nem como mundo. Tudo lhe é exterior, e ela não é quase nada desse exterior: o fora, a exterioridade radical sem unidade, a dispersão sem nada que se disperse; a ausência que não é ausência de nada é antes de tudo a presença exclusiva da criança. E a cada vez que ela crê ter conquistado com o meio uma certa relação de equilíbrio, cada vez que encontra um pouco de vida imediata, é preciso que se prive de novo (o desmame, por exemplo). É sempre junto da falta e pela exigência dessa falta que se forma o pressentimento disso que será sua história. Mas essa falta é o ‘inconsciente’: a negação que não é somente falta – mas relação com isso que faz falta – desejo. Desejo cuja essência é de ser eternamente desejo, desejo disso que é impossível de atingir e mesmo de desejar.” [31]

Inconsciente e Método em sua condição reversível de uma espessura ontológica exigindo a extravagância de um pensamento sem mistura, rigor e, até mesmo, a completa abstinência de conteúdos representativos para se defi nir. “Seria certamente bem mais cômodo tomar essa negatividade por conteúdos representativos de experiências vividas”, escreve Fédida, o nascimento, o desmame, as separações, as situações de carência e por que não: a castração. Esses conceitos são, com efeito, indicativos de experiências ‘negativas’ de modo que há lugar para crer que eles se puderam produzir realmente ou sob ameaça, adverte Fédida. “A palavra, prossegue, traz a marca da falta corporal. Ela nunca mais parou de sofrê-la. É bem assim – por essa falta que não é outra que a falta no espelho de um outro corpo e de um outro rosto – que alguém demanda um dia uma “ajuda” ao analista. É pela falta que se procura escavar o lugar: o analista é posto no lugar de um reconhecimento” [32]. Com a mesma gravidade, porém divertidamente, a questão nos é apresentada em “A infância de Adão”. [33]

Numa outra fórmula, mais concisa, a excentricidade radical desse pensamento de espessura ontológica poder-se-ia dizer como: Um ato falho a dois. “Uma falha, um entre, dando margem à interpretação: a discordância interior de uma simples palavra exige, nada mais, nada menos, um ato falho, que só a dois pode ser cometido.” Um ato falho a dois é abertura da possibilidade de que um sentido venha à luz na falha de dois signifi cados. “O que é inteiramente apropriado, pois só onde falha a signifi cação pode nascer o sentido.” Um ato falho a dois é ato prenhe de sua condição ontológica e metodológica.

A posição do analista nas Meditações defi ne-se por um estatuto técnico renovado – a técnica, tomada no sentido de techne, que se recupera “das desventuras sofridas pelo conceito de técnica no movimento psicanalítico. Tecnologia: princípios gerais metodológicos, fórmulas para a identidade do analista, conselhos práticos, receitas de interpretação.” A intrínseca ligação da técnica com o método empresta-lhe uma acepção de quase negatividade: “o analista tem de trabalhar com arte prática, para desimpedir o caminho da descoberta, mas seu objetivo só estará cumprido quando, dos fatos, puder chegar ao seu sentido íntimo, proeza que a literatura tem realizado há milênios (...)”. Em seu trabalho “Campo psicanalítico e livre associação”, este ponto de vista técnico radicaliza-se: “Claro está que o analista não deve atrapalhar a livre associação, impondo sentidos antes que surjam, mas é provável que a possa induzir a pedido. (...) A livre associação é manifestação do vórtice basal de longa duração que acompanha o processo analítico. Não é uma condição para a análise, mas um dos seus efeitos.” A arte do analista é pura intimidade com o seu fazer, desimpedindo o caminho da descoberta, “é deixar que o método aconteça, que ele nos escolha”. [34]
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