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Resumo
Neste artigo a autora busca interrogar o parricídio como núcleo da defi nição do que é um pai, por meio de uma leitura comentadada obra de Freud O homem Moisés e a religião monoteísta.


Autor(es)
Cristina M. Marcos
é psicanalista, Mestre em Literatura Brasileira, D.E.A. em Psicanálise – Estudos Clínicos pela Universidade de Paris 8, Doutora em Psicanálise e Psicopatologia Fundamental na Universidade de Paris 7 e Professora da PUCMINAS.


Notas

1 Este artigo foi extraído da dissertação da autora intitulada De l’Oedipe à Totem et tabou: le père, l’écriture et le mythe, defendida no Programa Diplôme d’études approfondies (D.E.A.) da Universidade de Paris 8, em 1999/2000, sob orientação do Prof. François Regnault.

2 Cf. M. Certeau. Histoire et psychanalyse entre science et fi ction. Paris, Gallimard, 1987.

3 Cf. B. Lemèrer. Les deux Moïse de Freud (1914- 1934). Freud et Moïse: écritures du père 1. Paris, érès, 1997.

4 Cf. M. Robert. D’OEdipe à Moïse. Freud et la conscience juive. Calmann-Lévy, 1974.

5 S. Freud. (1939 [1934-38]) L’homme Moïse et la religion monothéiste. Tr.fr. Paris: Folio essais Gallimard, 1996, p. 199.

6 S. Freud e A. Zweig. Correspondance 1927-1939, Paris, Gallimard, 1973, 30/09/34.

7 S. Freud e A. Zweig. op.cit., 16/12/34.

8 S. Freud. (1939 [1934-38]) op.cit., p. 131.

9 S. Freud e A. Zweig. op.cit., 05/03/34.

10 S. Freud. (1939 [1934-38]) op.cit., p. 127-128.

11 S. Freud. (1939 [1934-38]) op.cit., p. 115.

12 S. Freud. (1939 [1934-38]) op.cit., p. 63.

13 M. Moscovici. Préface à “L’homme Moïse et la religion monotheíste”. Tr.fr. Paris, Folio essais Gallimard, 1996, p. 34.

14 P. Julien. Le manteau de Noé - Essai sur la paternité. Paris, Desclée de Brouwer, 1991, p. 61.

15 J. Lacan. R.S.I., Seminário de 15 de abril de 1975. Inédito.

16 S. Freud. (1939 [1934-38]) op.cit., nota da p. 93.

17 S. Freud (1937) “Construções em análise”. Vol. XXIII, Edição Standart Brasileira, Rio de Janeiro, Imago, 1975, p. 289-304.

18 M. Certeau. L’écriture de l’histoire. Gallimard, Paris, 1975, p. 334.



Abstract
This paper examines the concept of father in Moses and Monotheism. The main point of Freud’s enigmatic last work, the author argues, is not to demonstrate the murder of the father, but to unveil the origins of myth and to establish hypothesis about how it can be written.

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 TEXTO

O homem Moisés e a religião monoteísta

da escrita do texto ao assassinato do pai [1]


The Man Moses and Monotheistic Religion
from writing to the murder of the father
Cristina M. Marcos


Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto…
Agora, vem, não carece mais…
O senhor vem, e eu, agora mesmo,
quando que seja, a ambas vontades,
eu tomo seu lugar, do senhor, na canoa!
GUIMARÃES ROSA. Primeiras estórias.

O pai é, em Freud, resultado de operações textuais que, tendo a dimensão do romance, da ficção, exibem uma relação próxima à escrita, entendida aqui como construção. A formulação da teoria freudiana do pai tem suas raízes no mito, desde a velha história do Édipo, o desejo pela mãe e o ódio em relação ao pai, passando pela fundação da cultura a partir do assassinato do pai em Totem e tabu, até o romance histórico concebido no O homem Moisés e a religião monoteísta. O mito é o discurso que torna possível os progressos da teoria confrontada a seus impasses; ele é a resposta de Freud aos limites encontrados na prática. Para dizer a palavra das histéricas, o discurso científi co não é sufi ciente; há que se dizê-lo através do mito e da fi cção, discursos recalcados da racionalidade científica. [2]

Do Édipo ao pai primevo, a utilização deste discurso particular, o mito, não se reduz a uma explicação ou a uma descrição dos fenômenos percebidos na cura; ao contrário, este recurso modifica-os, deslocando o que está em jogo na prática analítica. A introdução do Édipo na teoria permite a Freud abandonar a teoria do trauma e introduzir no campo psicanalítico a verdade como estrutura de fi cção. A partir daí, não se trata de perseguir o evento traumático, mas a fantasia, efetuando assim a passagem da exatidão do fato à verdade da construção. No complexo de Édipo, o lugar do sujeito, suas escolhas e suas conseqüências, são inelutavelmente marcados pelos determinantes inconscientes. Se a teoria da sedução situava a causalidade psíquica na falta cometida pelo pai, o Édipo a situa na responsabilidade e na culpabilidade do fi lho.

Totem e tabu, por sua vez, permite modifi car novamente os determinantes da cura, fornecendo os elementos necessários à elaboração da instância psíquica do supereu na segunda tópica freudiana. Além disso, o pai é entendido como aquele que introduz a rede simbólica, garantia do nome e da lei. Há que se mencionar a distância revelada, pela enunciação freudiana, entre a lei e o gozo, e ainda a falha inelutável entre o gozo desejado e o gozo obtido como o que constitui o desejo humano enquanto tal.

Em uma e outra versão do pai, o mito é o discurso que torna possível a teoria: no primeiro, por meio de uma narrativa que fala das determinações inconscientes do desejo e do que as histéricas contavam em suas curas; no segundo, através de uma narrativa que permite contar a história da origem da Lei simbólica, do nascimento do sujeito do inconsciente e do desejo. Os mitos, os romances, as ficções são a condição de possibilidade da produção de um saber que situa no lugar da realidade factual uma outra verdade.

Nessas duas versões freudianas, o pai não é senão o pai morto, ou seja, o sujeito só tem acesso a ele enquanto morto, enquanto símbolo. Além disso, é assassinado que ele surge como pai, assim como os fi lhos só se reconhecem enquanto tais pelo assassinato. À pergunta “o que é um pai?”, Freud responde: “é o pai morto”. Apesar de todas as modifi cações e alterações que a questão do pai sofre na teoria freudiana, sua articulação com o parricídio permanece inalterável.

A morte e o parricídio estão presentes na escrita freudiana, nos textos mesmos em que se fala do pai. Seja no Édipo, que faz sua aparição em um texto marcado pela morte de Jacob Freud, A interpretação dos sonhos, seja em Totem e tabu, no qual a hipótese da morte do pai como assassinato toma forma, o parricídio é o ponto central. Esta presença da morte é ainda mais marcante em O homem Moisés e a religião monoteísta, sem dúvida alguma um dos textos freudianos mais enigmáticos e controversos. A partir de uma leitura atenta aos deslocamentos e às deformações operados por Freud em relação à tradição e ao texto bíblico, é possível perceber como o pai freudiano é resultado de um trabalho de escrita e de uma fabricação textual, revelando a relação estreita entre o pai e a morte.

Interessa-me perguntar sobre a significação desta resposta freudiana: “o pai é o pai morto” em O homem Moisés e a religião monoteísta, texto em que se trata de uma escrita da morte. Marcado por dúvidas, por lacunas, pelo corpo doente de Freud, o Moisés permite perseguir melhor a relação entre o pai, a escrita e a morte. O parricídio é o núcleo da defi nição do que é um pai e de sua função no desejo do sujeito. Mais do que a simbolização de um assassinato, a escrita da morte do pai em Freud é uma teoria que coloca em seu centro o recalcamento, o saber inconsciente, um saber que não se sabe; uma escrita que exibe em sua forma o que ela diz.

Definido por Freud como um romance histórico, O homem Moisés e a religião monoteísta tem a intenção de responder às questões sobre a tradição e a transmissão, a origem do judaísmo e o ódio que o povo judeu provoca contra ele mesmo, em um momento difícil da história [3]. Tanto na sua forma, como no seu conteúdo, o texto de Freud é pleno de observações que marcam sua divisão e sua ambigüidade em relação à escrita. De fato, muitos são os psicanalistas que quiseram ler o romance familiar de Freud em seu Moisés, por meio das dúvidas e hesitações, das idas e vindas confessadas por ele quanto à execução e publicação do texto. [4]

Freud encontra-se na impossibilidade de não escrever este livro e pode tão somente retomá-lo, embora não possa concluí-lo jamais. Que ele seja impedido de fazê-lo pelas coerções externas, a ascensão do nazismo e do anti-semitismo, ou pelas dúvidas internas, a consciência da fragilidade de sua hipótese, a divisão de Freud em relação ao Moisés permanece até a sua publicação: o Moisés é construído com a dúvida em epígrafe.

A partir de detalhes negligenciados pelos historiadores e de interpretações das passagens bíblicas, Freud constrói a hipótese de que Moisés era egípcio e que teria transmitido sua religião ao povo judeu. Para cada obstáculo encontrado em seu trabalho, ele encontra uma saída. Trata-se de extrair todas as conseqüências possíveis de sua hipótese, de levá-la a seu extremo. A postulação da origem egípcia de Moisés é fundada sobre o nome e sobre a contradição entre a lenda em torno da adoção de Moisés e a estrutura do mito tal como ela é defi nida pela Psicanálise. Freud explica as incompatibilidades entre o politeísmo egípcio e o monoteísmo judaico pela hipótese de dois fundadores e de duas religiões. Os elementos da primeira, recalcados, reapareceriam algum tempo mais tarde na segunda.

O assassinato do pai retorna então sob a forma do assassinato de Moisés. A hipótese desse assassinato toma forma pouco a pouco e Freud afi rma que os esforços para apagar o crime levam ao esquecimento do Deus transmitido por Moisés. O Deus Javé, adotado pelo povo judeu, não possui nenhum elemento comum com o Deus de Moisés. Entretanto, com o tempo, o antigo Deus recalcado retorna e impõe suas características ao novo Deus.

No terceiro ensaio de O homem Moisés e a religião monoteísta, Freud tenta estabelecer uma relação entre as questões suscitadas pela construção do Moisés e as hipóteses elaboradas em Totem e tabu a propósito do pai primevo. Lida como uma encenação do ato do primeiro assassinato, a nova versão freudiana do pai é uma retomada de Totem e tabu? As formulações de Freud em seu livro não se limitam a uma repetição do mito da horda. O Moisés de Freud é menos uma aplicação da psicanálise à religião do que a retomada e o desenvolvimento de noções essenciais à teoria psicanalítica, como o recalcamento, o trauma, o parricídio, o saber inconsciente, entre outras.

Mas temos aí não somente uma retomada de toda a obra freudiana: o recalcamento, o trauma, a formação da neurose, mas também a fabricação textual, elemento fundamental nesse trabalho freudiano. A maneira como Freud procede, perseguindo o que é lacuna e silêncio na tradição para construir suas hipóteses, é a exibição da construção do saber tal como a Psicanálise o concebe.

Composto de três ensaios que diferem pelo tamanho, pelo intervalo de tempo entre a publicação de cada um, pelos dois prefácios no começo da terceira parte que se contradizem, pelos numerosos resumos, repetições e reescrituras, Moisés é o resultado de anos de dúvidas e inquietações. Este texto é intrigante não somente pelo seu conteúdo, mas por sua forma, sua construção e seu estilo, que Freud não pode apagar – o trabalho da escrita é absolutamente parte integrante do livro. Explicando-se sobre as repetições e as retomadas do texto, Freud escreve: “Por que não o evitei? Não me é difícil encontrar a resposta a essa questão, mas não é fácil de confessar. Descobri-me incapaz de apagar os traços da gênese da obra, o que foi, de qualquer modo, incomum.” [5]

Este fragmento do texto nos remete à Interpretação dos sonhos, na qual Freud confessa, pela primeira vez, a impossibilidade de apagar o lugar singular da produção do texto, a morte de seu pai. Nesta obra, bem como em Moisés, o caráter inovador das formulações de Freud é fruto da investigação de traços indeléveis, da impossibilidade de seu apagamento e das conseqüências que se seguem a este fato. Seja pelo deciframento dos traços da morte do pai na linguagem cifrada dos sonhos, seja pela busca dos traços do assassinato de Moisés denegado no texto bíblico, o saber da Psicanálise é construído com base no retorno do recalcado, fazendo da escrita e de sua fabricação um aspecto essencial da teoria.

Além da forma mesma do texto, a correspondência mantida por Freud entre 1934 e 1938 – principalmente as cartas trocadas com Arnold Zweig – e suas declarações publicadas no próprio texto sobre as difi culdades externas e internas à sua fabricação nos revelam o modo ambíguo como Freud se relaciona com este livro e testemunham o trabalho da escrita, marcado pela ruptura. Sem falar da duplicidade e da divisão presentes no conteúdo do texto: dois deuses contraditórios, Aton, Deus único caracterizado por suas exigências éticas, e Javé, Deus violento e cruel; dois Moisés, o Moisés egípcio e o Moisés midianista; duas religiões, uma fundada no Egito e transmitida por Moisés segundo os princípios da religião d’Akhenaten, a outra fundada em Méribá-Cades.

Desde a primeira referência a Moisés na correspondência trocada com Zweig, as dúvidas, as hesitações e os obstáculos à sua escrita são mencionados. O projeto do livro não deixará Freud, como um fantasma destinado a retornar, a ser incomunicável, ilegível, secreto. O livro vai pouco a pouco se impondo como algo que não cessa de não se escrever. “O Moisés não verá jamais a luz do dia”. Freud parece ser conduzido a escrever seu Moisés, apesar de si mesmo.

“Eu (…) escrevi qualquer coisa durante as minhas férias relativas, na falta de saber o que fazer do meu excesso de lazer e isto me ocupou de tal maneira e contra a minha intenção inicial, que todo o resto permaneceu em estado de projeto. Entretanto, não se regozije, pois eu acredito que o senhor não o receberá para leitura.” [6]

“Deixe-me em paz com Moisés. Que eu tenha fracassado nesta tentativa de criar algo – a última provavelmente – já me deprime o sufi ciente. Não que eu tenha me desligado. O homem, e o que eu queria fazer dele, me persegue continuamente (…) Mas o fato de que eu tenha sido obrigado a elevar uma estátua sobre uma base de argila, de tal modo que qualquer louco pode destruí-la.” [7]

Para além do contexto histórico que ameaça seu povo, sua obra e sua vida, a doença esgota seu corpo. O homem Moisés e a religião monoteísta, escrito com a certeza de ser sua última obra, texto fragmentado e dividido, exibe o corpo doente marcado pela morte e pela fi nitude. O romance secreto torna-se impossível, feito a partir da confi ssão das difi culdades e das lacunas, a partir do assassinato e da morte, a partir da perda; pois, visto que tudo está perdido, tudo se pode dizer.

“Com a audácia daquele que tem pouco ou nada a perder, proponho- me pela segunda vez romper uma resolução bem motivada e acrescentar a meus dois ensaios sobre Moisés publicados na Imago a conclusão que retive. Terminei o último ensaio assegurando não ignorar que minhas forças não seriam sufi cientes para isso. Quis signifi car, naturalmente, o debilitamento dos poderes criativos que acompanha a velhice, mas pensava também em outro obstáculo.” [8]

“Não mais espero além do Moisés, que deve aparecer em março ainda, e depois eu não precisarei me interessar por nenhum outro livro meu até meu próximo renascimento.” [9]

“Mais além disso, haveria muita coisa a discutir, explicar e afirmar. (…) Mas não mais sinto que possua força para fazê-lo.” [10]

Os deslocamentos operados no texto, as ambigüidades, as duplicidades e as lacunas podem ser lidas como a tradução da morte na escrita. Ora, o assassinato é aí cometido como uma operação textual, através dos deslocamentos e das modifi cações dos textos sagrados e da tradição. Freud modifi ca, mata, deforma a tradição, em um movimento de apropriação.

“Em suas implicações, a deformação de um texto assemelhase a um assassinato: a difi culdade não está em perpetrar o ato, mas em livrar-se de seus traços. Bem poderíamos emprestar à palavra Entstellung (deformação) o sentido duplo a que tem direito, mas do qual, hoje em dia, não se faz uso. Ela deveria signifi car não apenas ‘mudar a aparência de algo’, mas também ‘pôr algo em outro lugar, deslocar’. Por conseguinte, em muitos casos de d’Entstellung textual, podemos não obstante esperar descobrir, escondido aqui e ali, o elemento suprimido e renegado, embora modifi cado e despojado de seu contexto. Apenas, nem sempre será fácil reconhecê-lo.” [11]

Tal é o ato executado por Freud, a deformação, o deslocamento, em uma palavra, o assassinato. O assassinato de Moisés sustenta-se tão somente por uma operação textual, por uma deformação e um deslocamento dos textos sagrados, por uma leitura do que é camufl ado, deformado, pelo silêncio do texto. A operação efetuada por Freud é a dessacralização da tradição e do pai.

Logo no início do livro, Freud anuncia sua empreitada: “Privar um povo do homem de quem se orgulha como o maior de seus fi lhos não é algo a ser alegre ou descuidadamente empreendido, e muito menos por alguém que, ele próprio, pertence a este povo” [12]. Trata-se da transformação deste pai sacralizado em homem, em personagem histórico, mais impressionante ainda, em estrangeiro.

Entretanto, se o trajeto de Freud leva à origem humana de Deus, paradoxalmente, ao mesmo em tempo que dessacraliza o pai, ele o situa na origem da crença em Deus, vendo na religião a nostalgia do pai. A partir de sua escrita, ele dessacraliza o pai, mas, pelo seu assassinato e sua deformação, ele o eleva na fi gura de Deus, imagem sublimada do pai, possível na medida em que o pai já é uma sublimação.

Vemos o primeiro deslocamento em relação à questão da paternidade logo no início do texto freudiano: “não só Moisés não é judeu, mas ele é também fi lho e não pai” [13]. Subjacente às questões sobre a transmissão da tradição entre as gerações e a formação do povo judeu, a paternidade e a fi - liação são constantemente interrogadas neste livro. Nome a transmitir, nascido de uma distância entre o testemunho sensorial e a sublimação, o pai só pode ser designado a partir da crença na mãe e de uma operação do fi lho aceitando o nome transmitido.

Ora, Moisés é pai em quê? Ele é aquele chamado a transmitir a seus irmãos de Israel a palavra divina, a palavra do Deus de seus pais, Abraão, Isac e Jacob. O texto bíblico sobre a vocação de Moisés no “Livro do Êxodo” nos diz algo sobre essa transmissão. Moisés pergunta a Deus seu nome e ele responde: “Eu sou aquele que sou”. Philippe Jullien afi rma que Moisés recebe o que Freud chama de Versagung, não uma frustração, mas uma recusa, um dizer não [14]. Há, na transmissão das tábuas da lei, um ponto de não-saber, na medida em que Moisés é chamado a ordenar a obediência ao decálogo sem que lhe seja dado conhecer: “Eu sou aquele que sou”.

Lacan afirma que o Moisés seria a chave das três versões freudianas do pai – o Édipo, o pai da horda primeva de Totem e tabu e o próprio Moisés. Poderíamos entender esta indicação por meio desta passagem do seminário R.S.I.?

“O que se deve bem perceber é que é no buraco do Simbólico que consiste esse interdito. É preciso o Simbólico para que apareça, individualizada no nó, essa coisa que eu não chamo tanto de complexo de Édipo, não é tão complexo assim, chamo isso de o Nome do Pai. O que só quer dizer o Pai enquanto Nome, não quer dizer nada de início, não só o pai como nome, mas o pai como nomeador. Aí não se pode dizer que os judeus não foram legais, eles explicaram bem que era o Pai, eles chamam o Pai, o Pai que eles enfi am num ponto de buraco que nem se pode imaginar, eu sou o que sou, isso é, um buraco. Bom, é daí que, por um movimento inverso, se acreditarem nos meus esqueminhas, um buraco turbilhona, ou melhor, engole, mas há momentos em que cospe de volta. Cospe o quê? O Nome. É o Pai enquanto Nome.” [15]

“Eu sou aquele que sou” instaura o pai no ponto de furo, de buraco, um buraco que engole e que cospe o nome. Sem dúvida, este ponto de não saber da paternidade é o que insiste no texto freudiano sobre Moisés. Mas resta ainda a pergunta: será o pai aquele que dá nome às coisas? Podemos dizer que o pai que nomeia faz um certo efeito no Imagiestranheza: Moisés é o egípcio e o midianista, Javé é pouco a pouco recoberto pelo Deus de Moisés, ao fi nal o pai é um filho e um estrangeiro. Tal é seu destino; mesmo incorporado no supereu, o pai será o estrangeiro no interior de nós. Freud procede a uma verdadeira destruição do pai enquanto sacralizado: logo de início, Moisés é um homem, depois, um egípcio. Esta dessacralização já é anunciada em outro texto que pode ser.

Toda uma problemática da paternidade e da fi liação é colocada, em O homem Moisés e a religião monoteísta, sob a forma da separação e do pertencimento, do mesmo e do outro, do filho e do estrangeiro, do pai e do filho. nário, mas o que seria interrogar esse pai no nível do Real? Toda uma problemática da paternidade e da filiação é colocada, em O homem Moisés e a religião monoteísta, sob a forma da separação e do pertencimento, do mesmo e do outro, do filho e do estrangeiro, do pai e do filho. Os personagens desta obra não são nunca o que parecem ser, não são nunca eles mesmos, ao contrário, são sempre duplos, habitados por uma Moisés é o egípcio e o midianista, Javé é pouco a pouco recoberto pelo Deus de Moisés, ao fi nal o pai é um fi lho e um estrangeiro. Tal é seu destino; mesmo incorporado no supereu, o pai será o estrangeiro no interior de nós.

Freud procede a uma verdadeira destruição do pai enquanto sacralizado: logo de início, Moisés é um homem, depois, um egípcio. Esta dessacralização já é anunciada em outro texto que pode ser considerado como precursor do Moisés e o monoteísmo, o Moisés de Michelangelo. Se Michelangelo não respeita os textos sagrados fabricando seu próprio Moisés, mais humano que divino, segundo a interpretação freudiana que vê nos detalhes da estátua um outro Moisés diferente daquele da Bíblia; Freud procederá do mesmo modo vinte anos mais tarde, no momento da escrita do seu Moisés.

Freud apropria-se do texto bíblico, como de qualquer outro texto, efetuando aí deformações e deslocamentos, servindo-se das lacunas encontradas para a construção da sua hipótese.

“Dou-me muito bem conta de que, ao lidar tão autocrática e arbitrariamente com a tradição bíblica – trazendo-a para confi rmar minhas opiniões quando ela me serve e rejeitando- a sem hesitações quando me contradiz – estou expondo-me a uma séria crítica metodológica e debilitando a força convincente de meus argumentos. Mas essa é a única maneira pela qual se pode tratar um material de que se sabe defi nidamente que sua fi dedignidade foi gravemente prejudicada pela infl uência deformante de intuitos tendenciosos.” [16]

A operação efetuada pela escrita de Freud é o deslocamento do pai. Escrevendo seu assassinato, ele comete o ato criminoso – matar o pai. O ato assassino, núcleo do livro e de todas as elaborações freudianas sobre o pai, está condenado a se repetir, como o retorno do recalcado que se revela como parte da verdade. As lendas, os mitos, as formações do inconsciente são sempre portadores de uma verdade pela qual o saber da Psicanálise se constitui.

Sem o recurso das provas históricas, Freud busca uma outra via: tal como um arqueólogo, ele constrói o passado do texto, justamente onde este é silencioso e resistente [17]. A validade das hipóteses assim fabricadas é atestada pelos efeitos produzidos depois de sua construção; não é a exatitude que lhe interessa, mas a verdade como ficção. O valor da hipótese não é estabelecido por sua confi rmação na origem da pesquisa, mas pelas vias que ela permite abrir. A garantia e a resposta, longe de serem dadas antes do percurso, são intrinsecamente dependentes do caminho a percorrer e das ligações que elas permitem estabelecer. Daí a importância crucial das dúvidas e das hesitações freudianas, elas revelam o processo de construção do saber.

Este mecanismo de fabricação do saber está presente tanto no Édipo quanto em Totem e tabu, entretanto é no texto sobre Moisés que ele se dá a ler na superfície da escrita, na construção mesma do texto. Este saber assim construído não é correlato da verifi cação do fato, mas de sua própria elaboração. Assim o Édipo pode prescindir de uma aprovação dos helenistas, Totem e tabu, da validação de suas hipóteses antropológicas ou darwinianas e Moisés, da confi rmação dos exegetas da Bíblia. A descoberta freudiana está intimamente ligada à experiência da cura – é preciso percorrer o caminho do pesquisador perseguindo a gênese do saber em questão, pois é na sua elaboração e construção que ele se legitima.

Considerando a escrita como repetição do corte, a operação textual faz do corte o princípio mesmo do funcionamento do texto.

“Dito de outro modo, a lacuna não é em Freud a ausência de uma pedra no edifício construído, mas o traço e o retorno daquilo do qual o texto deve tomar o lugar. Em O homem Moisés e a religião monoteísta, duas expressões retornam constantemente, obsedantes, e signifi cam: de um lado, tomar o lugar do outro (die Stelle einnehmen) ou se estabelecer em seu lugar (an seine Stelle setzen), e, de outro lado, preencher as lacunas (die Lücken ausfüllen) ou apagar os traços (die Spuren verwischen). A dissimulação (Beseitigung) dos traços, relativa à perpetração de um crime (GW. 144), fornece a verdadeira força às lacunas da encenação textual que ocupa o lugar do morto.” [18]

Esta escrita do deslocamento dessacraliza o sagrado, deforma a tradição, mata o pai, dando origem a uma escrita do sacrilégio. O acontecimento que não teve lugar, a não ser nas lacunas e nos interstícios perdidos e esquecidos da Escrita Sagrada, condiciona a escrita fazendo da morte e do silêncio elementos em torno dos quais o texto se organiza; o que se repete no texto, o que não cessa de não se escrever.

A teoria do pai na Psicanálise pode ser lida como escrita do deslocamento e do apagamento, movimento de apropriação e construção que caracteriza a problemática da paternidade e da fi liação como um processo de repetição, de modificação e de assassinato, no qual se trata de Entstellung, mudar de lugar, vir no lugar de.

Do Édipo a Totem e tabu, este elemento se faz presente, mesmo se modifi cando a cada versão. No primeiro, o Édipo subjuga o pai ocupando seu lugar junto ao povo e a Jocasta; no segundo, mesmo se o lugar do pai permanece vazio, é sua eliminação e a instauração do lugar vazio que organizam a comunidade de irmãos.

O conceito psicanalítico do parricídio é o núcleo do pai e de seu papel no desejo do sujeito. Mais do que a simbolização da morte do pai, a escrita do seu assassinato em Freud deriva de uma teoria que situa em seu centro o recalcamento, o saber inconsciente. Por isso a escrita dessa teoria é indissociável de sua forma, construída a partir do mito, da fi cção e dos sonhos – discursos recalcados da racionalidade científi ca – e a partir dos deslocamentos, das deformações e das lacunas dos textos – elementos que traduzem a morte e o recalcamento. O Moisés exibe, na superfície mesma do texto, marcado pelos traços da sua produção, a estreita relação do pai com a escrita e com a morte. Há ainda que se dizer: o que se exibe é a relação do próprio Freud, pai da Psicanálise, com sua obra, ameaçada pela guerra, e com a fi nitude do seu corpo marcado pela doença.
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