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Resumo
Este artigo examina de modo crítico a posição de I. Grubrich-Simitis sobre a hipótese fi logenética de Freud, apresentada por ela como uma via de reconciliação entre teoria das pulsões e teoria do trauma, na gênese da pulsão sexual. O artigo demonstra como, ao contrário, a teoria da sedução generalizada elaborada por Jean Laplanche permite situar o trauma na origem da pulsão sexual, sem negligenciar nenhum traço fundamental do inconsciente dinâmico, nem se referir à hipótese fi logenética, a qual apresenta numerosos escolhos sobre os planos epistemológico e axiológico.


Palavras-chave
teoria das pulsões; teoria fi logenética; origem do inconsciente sexual; teoria da sedução generalizada; hipótese tradutiva do recalque; ancoragem social do mito.


Autor(es)
Hélène Tessier


Notas

1 “Trauma ou pulsão – pulsão e trauma: reexame da questão”.

2 J. Laplanche, Entre séduction et inspiration: l’homme, p. 69.

3 Traduzido como Neuroses de transferência: uma síntese e sobre o qual Grubrich-Simitis já tinha escrito um outro artigo em 1987.

4 Grubrich-Simitis, op. cit., p. 641, 643.

5 J. Laplanche e J.-B. Pontalis, Vocabulaire de la psychanalyse, p. 412.

6 Grubrich-Simitis, op. cit., p. 647-8.

7 Sobre essa questão, ver também o texto de Friedl Fruh, “Die Wiederkehr des Hereditären”, 2007, traduzido pela autora como “Le retour de l’héréditaire”.

8 Le fourvoiement biologisant de la sexualité chez Freud; Le primat de l’autre en psychanalyse; Entre séduction et inspiration: l’homme; Biologisme et biologie, Problématiques VII; Trois acceptions du mot inconscient, Psychiatrie Française.

9 J. Laplanche, Le primat de l’autre… p. XXXII; Biologisme et biologie, Problématiques VII, p. 143.

10 J. Laplanche, Entre séduction et inspiration…, p. 231.

11 J. Laplanche, Le primat de l’autre…, p. 333.

12 J. Laplanche, Entre séduction et inspiration…, p. 286, nota 40.

13 J. Laplanche, op. cit., p. 178.

14 J. Laplanche, Sexual. La sexualité élargie au sens freudien, p. 153- 83. Em referência ao termo alemão, de Freud, para distinguir do francês, “sexuel” (Nota do Tradutor).

15 J. Laplanche, Entre séduction et inspiration…, p. 104.

16 J. Laplanche, op. cit., p. 181, 287-9.

17 J. Laplanche, Le fourvoiement biologisant…, p. 11.

18 H. Tessier, La psychanalyse américaine, p. 114.

19 Laplanche, op. cit., p. 117.

20 H. Tessier, Pulsion et subjectivité. La pulsion et le destin.

21 C. Dejours, Pour une théorie psychanalytique de la différence des sexes, p. 59.

22 J. Lacan, Écrits, p. 849.

23 J. Lacan, op. cit., p. 849.

24 J. Laplanche, Problématiques IV. L’inconscient et le ça, p. 80.

25 J. Laplanche, Le primat de l’autre… p. 141.

26 G. Lukács, Histoire et conscience de classe, p. 143.

27 J. Laplanche, op. cit., p. 8.

28 J. Laplanche, op. cit., p. 213.

29 G. Lukács, op. cit., p. 153.

30 T. Mann, Freud dans l’histoire de la pensée moderne, p. 131.



Referências bibliográficas
Dejours C. (). Pour une théorie psychanalytique de la diff érence des sexes, Libres cahiers pour la psychanalyse "Sur la théorie de la séduction". Paris: In Press, p. -. Fruh F. (/). Die Wiederkehr des Hereditären, Journées Internationales Jean Laplanche – "La phylogénèse", Lanzarote. Grubrich-Simitis I. (). Neuroses de transferência: uma síntese. Rio de Janeiro: Imago. _____. (). Zun Verhältnis von Trauma und Trieb, Psyche, , Stuttgart, p. - . _____. (). Trauma oder Trieb – Trieb und Trauma: Wiederbetrachtet, Psyche : , Stuttgart, , p. -. Lacan J. (/). Écrits. Paris: Édition du Seuil [Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar]. Laplanche J. (/). Le fourvoiement biologisant de la sexualité chez Freud. Paris: Synthelabo [Freud e a sexualidade – o desvio biologizante, Rio de Janeiro: Jorge Zahar]. _____. (). Le primat de l’autre en psychanalyse. Paris: Flammarion. _____. (/). Problématiques iv. L’inconscient et le ça. Paris: puf [Problemáticas iv. O Inconsciente e o Id, São Paulo: Martins Fontes]. _____. (). Entre séduction et inspiration: l’homme. Paris: puf. _____. (). Biologisme et biologie. In: Problématiques vii. Paris: puf, p. -. _____. (). Trois acceptions du mot inconscient, Psychiatrie Française, Le concept d’inconscient selon Laplanche, vol. xxxvii, Paris, nov., p. -. _____. (). Sexual: la sexualité élargie au sens freudien. Paris: puf. _____; Pontalis J.-B. (/). Vocabulaire de la psychanalyse, Paris, puf, e éd. (Vocabulário da Psicanálise. ª ed. São Paulo: Martins Fontes.Lukács G. (). Histoire et conscience de classe. Trad. K. Axelos et T. Bois. Paris: Minuit. Mann T. (). Freud dans l’histoire de la pensée moderne. In: Sur le mariage, Lessing, Freud et la pensée moderne. Trad. L. Servicen, edition bilingue. Paris: Aubier Flammarion, p. -. Tessier H. (). La psychanalyse américaine. Paris: puf. _____. (). Pulsion et subjectivité, Libres cahiers pour la psychanalyse, La pulsion et le destin, n. . Paris: In Press.




Abstract
This paper critically reviews the position of I. Grubrich-Simitis on Freud’s phylogenetic hypothesis, presented as a way to reconcile drive theory and trauma theory in accounting for of the source of the sexual drive. The paper argues that Jean Laplanche’s theory of generalized seduction allows for a much better understanding of the position of trauma at the source of the sexual drive, without leaving aside any fundamental aspects of the dynamic unconscious and without referring to the phylogenetic hypothesis, which shows numerous fl aws at the epistemological and axiological levels.


Keywords
drive theory; phylogenetic hypothesis; origin of the sexual unconscious; theory of generalized seduction; process of translation- repression; social anchoring of myths.

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 TEXTO

O retorno do hereditário em Psicanálise

dimensões axiológicas das escolhas epistemológicas


The return of heredity in Psychoanalysis
axiological aspects of epistemological choices
Hélène Tessier

Tradução: Luís Maia e Fernando de Andrade.
Luís Maia é professor titular aposentado do Departamento de Psicologia da UFPb e sócio fundador da Sociedade Psicanalítica da Paraíba. Autor de numerosos artigos. Nas últimas Journées Jean Laplanche, em Lanzarote, nas quais Hélène Tessier apresentou o presente texto, apresentou “O recurso à fi logênese em Freud”.
Fernando de Andrade é professor doutor do Centro de Educação da UFPb; sócio da Sociedade Psicanalítica da Paraíba; também se fez presente às últimas Journées Jean Laplanche. Percurso agradece aos professores Luís Maia e Fernando de Andrade a cuidadosa tradução e revisão do presente texto.

No artigo intitulado Trauma oder Trieb – Trieb und Trauma: Wiederbetrachtet [1], Grubrich-Simitis expõe de maneira notável as ligações, na obra de Freud, entre a teoria das pulsões e a teoria fi logenética. Desse ponto de vista, seu artigo constitui uma importante contribuição para a compreensão das relações entre as diferentes concepções do inconsciente sexual no pensamento freudiano. Essas diferentes concepções – testemunhando, aliás, de infl uências distintas – confl uíram todas, no entanto, para a concepção genética, tornada eventualmente preponderante na teoria de Freud.

Como demonstrou Laplanche [2], a concepção genética defi - ne o inconsciente como um fenômeno primário, pré-existente ao recalcado individual. Ela encontra-se sob três formas principais, que se situam respectivamente no fundamento das principais correntes pós-freudianas: a linhagem psicológica, segundo a qual tudo o que é consciente foi inicialmente inconsciente; a linhagem biológica, segundo a qual o isso, parte não recalcada do inconsciente, é o reservatório das pulsões; e a linhagem fi logenética, que postula a existência de conteúdos originários do inconsciente. Qualquer que seja a forma adotada, a concepção genética conduziu a psicanálise, segundo Laplanche, por caminhos que a afastaram consideravelmente de sua descoberta fundamental. Guiou-a, com efeito, no sentido da recentração do sujeito e incitou-a a abandonar o que constituía sua especifi cidade: a afi rmação da alteridade do inconsciente, a violência confl ituosa de suas relações com o eu e a resistência que opõe a toda a lógica do sentido e da comunicação.

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O artigo de Grubrich-Simitis trata das relações entre teoria da pulsão e teoria do trauma e explica por que não se constituem em teorias opostas. Apoiando-se sobre o manuscrito não publicado de um ensaio metapsicológico de Freud, redigido em 1915, Ubersicht der Ubertragungneurose [3], dá conta das primeiras tentativas de Freud de unifi car suas duas teorias pelo recurso ao conceito de “fantasia fi logenética”. Assim, com grande clareza e uma rigorosa precisão, o artigo de Grubrich- Simitis expõe como Freud, além de buscar a etiologia das neuroses no recalque, nos contrainvestimentos defensivos e na parada do desenvolvimento psicossexual, atribuía uma parte importante a uma outra disposição que, entre outras coisas, devia, segundo ele, ser igualmente levada em consideração para dar conta das afecções narcísicas. Tratava-se do fator fi logenético. Esse fator, tal como o desenvolve no ensaio inédito de 1915, consistia precisamente numa disposição hereditária ligada à inscrição corporal de uma fantasia, tendo por fonte acontecimentos realmente ocorridos numa época originária.

As mudanças climáticas da era glacial teriam provocado modifi cações radicais nas condições de vida dos homens desse tempo e os teriam constrangido a modifi car suas reações afetivas e seus hábitos sexuais, alterando, assim, as capacidades do seu eu. Nesse contexto, teria sobrevindo uma série de acontecimentos violentos na forma arcaica de organização social: para se assegurar do comando do grupo e do direito de dispor das mulheres, o pai da horda primitiva castrava os filhos que, organizados em clã homossexual, teriam matado o pai originário. A lembrança desses acontecimentos reais, retransmitidos por diversas mediações, terse- ia constituído em engrama, hereditariamente transmitido aos homens modernos, o que explicaria tanto a constância do conteúdo das fantasias pulsionais quanto seu caráter fortemente enraizado e sua força de convicção [4].

O artigo de Grubrich-Simitis tem o grande mérito de inserir a hipótese fi logenética de Freud no seu contexto e de restabelecer a ligação que essa hipótese mantém com a teoria das pulsões. Com efeito, é preciso sublinhar que a imprecisão teórica que envolve hoje os conceitos de pulsões e de inconsciente sexual favorece um uso difuso de noções como o Édipo, a castração, o assassinato do pai, sem que sua relação com a teoria das pulsões seja sempre assimilada. Convém lembrar, em consequência, que a teoria das pulsões implica a da fantasia: segundo Freud, a pulsão é uma entidade que age na fronteira do corpo e da alma, uma quantidade de trabalho imposta à alma pelo corpo. No entanto, para que a pulsão aja sobre a alma, deve passar por um representante psíquico, o representante-representação [5] que, na teoria freudiana, ora é defi nido como um grupo de representações sobre o qual a pulsão se fi xa na história do sujeito, ora como fantasias ditas originárias, de alcance universal, que pré-existem à história individual. É pelo conceito de representante-representação que a hipótese fi logenética vem inscrever-se na teoria das pulsões, na medida em que a disposição hereditária postulada por Freud daria conta do conteúdo das fantasias originárias. A teoria das pulsões atribui, assim, dois tipos de ancoragem interna à pulsão: uma ancoragem somática, sob a forma das zonas erógenas e dos estágios de desenvolvimento psicossexual, e uma ancoragem genética, sob a forma dos conteúdos originários dos representantes-representação da pulsão.

Ainda que Freud não tenha publicado seu ensaio metapsicológico de 1915 sobre o fator fi logenético, ele ocupa, todavia, um lugar signifi cativo no conjunto de sua obra. Grubrich-Simitis identifi ca as quatro principais etapas de seu desenvolvimento: a “lição 23” da Introdução à psicanálise, O homem dos lobos, Além do princípio de prazer e, enfi m, sob uma forma mais direta, O homem Moisés e Totem e tabu. Nesses textos Freud coloca em evidência a importância do fator interno na etiologia da neurose, sublinhando que esse fator também pode ser atribuído a fontes hereditárias, tendo sua origem nas experiências traumáticas vividas pela humanidade num estágio originário. Segundo ele, as fantasias de ameaças de castração ou de sedução corresponderiam a acontecimentos vividos por ancestrais longínquos, fantasias cuja perenidade teria sido assegurada pela transmissão transgeracional. A importância da cena primitiva, por exemplo, decorreria do eco que ela encontra numa rede de esquemas representacionais reunidos fi logeneticamente. Paralelamente, elaborando a hipótese metabiológica da pulsão de morte, Freud reforça a importância do fator interno nas afecções tanto neuróticas quanto psicóticas. Nessa perspectiva, o transbordamento pulsional torna-se ele mesmo traumático e a pulsão é, em si, um trauma. Enfi m, n’O homem Moisés e em Totem e tabu, a parte da disposição fi logenética e das fantasias originárias hereditárias torna-se preponderante. Freud desenvolve aí a ideia segundo a qual as religiões e as fantasias patogênicas podem ser reduzidas a seus conteúdos pré-históricos, tais como a castração e o assassinato do pai. Nesse momento, Freud não mais considera a transmissão transgeracional unicamente como produto de uma inscrição no corpo, mas também como resultado da mediação simbólica da linguagem, que assegura a transmissão de uma geração à outra [6].

No seu artigo, Grubrich-Simitis sublinha, igualmente, um outro aspecto do pensamento freudiano que acompanha o desenvolvimento da hipótese fi logenética. No plano da ontogênese, a hipótese permite-lhe ampliar a noção de trauma e incluir aí não somente os ataques de origem sexual, como concebia na sua teoria da sedução, mas igualmente os acontecimentos de ordem agressiva e as feridas narcísicas precoces, inclusive as modifi - cações que provocam no eu. Ela lembra igualmente que, mesmo que Freud nunca tenha ocultado os fatores externos na etiologia da neurose, considerava- os evidentes e temia que uma ênfase demasiada sobre eles fi zesse perder de vista as complexidades da metapsicologia e o papel primordial que a psicanálise atribuía à fantasia e ao ataque pulsional interno.

Segundo Grubrich-Simitis, o interesse de lembrar a importância da fantasia fi logenética em psicanálise consiste em ultrapassar a oposição entre teoria da pulsão e teoria do trauma, para dar conta da etiologia das perturbações psíquicas, quiçá, da constituição da psiqué humana. A origem traumática que Freud atribui às fantasias originárias hereditariamente transmitidas permitiria, a seu ver, unifi car essas duas teorias e reafi rmar a importância da fantasia em psicanálise. Lembra que, nesta disciplina, o fator externo não deve nunca ser encarado independentemente do tratamento que lhe impõe o sujeito por meio da fantasia. Por isso, inquieta-se com o desinteresse que encontra, na psicanálise contemporânea, a metapsicologia freudiana, assim como o abandono, mais ou menos confessado, do fator endógeno para dar conta das afecções psíquicas, e deplora a atenção quase exclusiva doravante prestada à técnica terapêutica e, em particular, aos avatares da relação, dita real, entre analista e analisando.

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Ainda que as inquietações de Grubrich- Simitis – para quem a psicanálise contemporânea acentuaria, de modo mais ou menos unidimensional, os acontecimentos traumáticos – pareçam legítimas, é surpreendente que, por um lado, seu artigo faça total abstração da teoria de Laplanche [7], que constitui, atualmente, a teoria mais radical sobre a origem traumática da pulsão [8], e que, por outro lado, silencie sobre a dimensão axiológica da hipótese fi logenética. Ele também não aborda os problemas que colocam, em psicanálise, as concepções de pulsão que acentuam o fator inato, tanto hereditário quanto constitucional, inclusive em Freud.

Laplanche examinou a questão da especifi cidade da psicanálise e de sua contribuição cultural na perspectiva da revolução copernicana. Retomando as três feridas narcísicas que, segundo Freud, a história das ideias teria infl igido à humanidade – feridas das quais a psicanálise representaria a terceira – sublinha a ambiguidade dos dois primeiros exemplos escolhidos por Freud, no caso, as teorias de Copérnico e de Darwin. Essas duas teorias prefi guram, segundo Laplanche, a tentação constante da psicanálise de reunifi - car, sob seus atributos psicológicos e biológicos, um sujeito que, no entanto, ela tinha contribuído para dividir. Com efeito, Freud afi rmava que a psicanálise confrontava o homem ao fato, penoso de admitir, que o eu não era o dono da própria casa. Nessas condições, o elemento consciente, o livre arbítrio, a racionalidade, não ocupavam o lugar central que lhes tinham, até então, reservado: o homem era, talvez, um animal menos razoável do que se havia acreditado e talvez não fosse simplesmente o coração que tivesse razões que a razão ignorava. A psicanálise inscrevia-se, consequentemente, na linhagem dos grandes avanços científi cos que tinham desalojado o homem do centro do universo: a cosmologia de Copérnico e o evolucionismo de Darwin.

Todavia, como Laplanche o faz notar, o fato de associar a psicanálise ao darwinismo e à cosmologia copernicana, no intuito de ilustrar o movimento de descentração do sujeito que ela presumidamente teria operado, comporta um aspecto, no mínimo, equívoco. A teoria copernicana, com efeito, também inspirou a revolução kantiana na metafísica. Mesmo que não traduza o conjunto do pensamento de Kant, esta última está na origem do conceito de subjetividade psicológica, que ela concorreu para consagrar no papel central das teorias do conhecimento, das quais se conhece a importância na psicanálise de hoje em dia. Por outro lado, o darwinismo, ainda que também se possa admitir que procede de uma forma de descentração biológica, teve, no entanto, por principal efeito, reafi rmar o lugar do homem no interior da “ordem do vivente” [9], tendência que, também ela, está fortemente representada na psicanálise contemporânea. A inscrição da Psicanálise nas linhagens copernicana e darwinista anunciava assim a difi - culdade, se não a incapacidade, que a Psicanálise conheceria de sustentar seu próprio projeto de descentração do sujeito, de permanecer uma verdadeira metapsicologia e de manter a distinção entre realidade psíquica e realidade psicológica. Como demonstra, de modo eloquente, o artigo de Grubrich-Simitis, o próprio Freud cedeu grandemente à sua atração pelo fator genético, tanto sob a forma somática da origem endógena das pulsões quanto sob a forma fi logenética dos conteúdos originários do inconsciente.

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Segundo Laplanche, o verdadeiro movimento copernicano da psicanálise consiste na afi rmação de que, do ponto de vista sexual, o ser humano está desde o início centrado sobre o outro, que “gravita em torno do outro” [10]. Noutros termos, a sexualidade infantil, no que concerne à psicanálise, não pode provir de uma fonte endógena, mas tem origem no outro, no caso, nos adultos concretos e históricos que cuidam da criança. A teoria da sedução generalizada e a hipótese tradutiva do recalque, de Laplanche, situam-se, assim, na linhagem do trauma e da teoria da sedução de Freud. Além disso, como o sexual infantil constitui, segundo Laplanche, o objeto de estudo específi co, se não exclusivo, da psicanálise, a teoria da pulsão não procede, para ele, de uma concepção relacional. Está, ao contrário, estreitamente ligada às noções de mensagem, de fantasia e de recalque. Segundo Laplanche, o inconsciente, como categoria específi ca da sexualidade humana, constitui-se no quadro da situação antropológica fundamental, a qual implica a presença simultânea de um adulto, dotado de um inconsciente sexual, e de uma criança que, na origem, não o tem [11]. Este primeiro motor imóvel da transmissão da sexualidade – imóvel porque necessita de um momento fi xado no tempo e no espaço – defi ne-se pelo caráter assimétrico da relação adulto/criança, assimetria resultante da presença de um inconsciente no adulto, enquanto a criança ainda não o tem. Nessa situação, as mensagens de ternura, de cuidado ou de qualquer outra ordem, endereçadas consciente ou pré-conscientemente pelo adulto à criança, são necessariamente comprometidas pelo inconsciente sexual do adulto.

Tais mensagens, de essência traumática, são eventualmente objeto de uma tentativa de tradução pela criança. Essa tentativa sobrevém quando o traumatismo de partida transformase em autotraumatismo e provoca o recalque. A teoria de Laplanche insiste na etapa do recalque originário como resultado desse primeiro processo de tradução. O recalque originário estabelece a divisão da alma entre o pré-consciente e o inconsciente, entre o eu – que engloba o que, a partir da mensagem enigmática do outro, pode ser traduzido – e o isso, constituído dos restos de mensagens não traduzidos. O isso, com efeito, é formado pela parte comprometida da mensagem do adulto, a que escapa à tradução pela criança e se encontra na alma sob a forma de signifi cantes dessignifi cados que se fazem conhecer à alma fi xando-se a fantasias, já numa forma mais ligada. Essas fantasias tornam-se, então, os representantes da pulsão que, doravante, ataca o eu do interior.

Constata-se, pois, que a teoria de Laplanche, mesmo postulando a origem traumática da pulsão, não atenua em nada o papel da fantasia e do tratamento interno do que provém do outro. Ao contrário, reforça, de uma dupla maneira, a especifi cidade da perspectiva de abordagem da psicanálise. Por um lado, situa os fatos que marcam a vida da criança e, eventualmente, do analisado, na categoria essencialmente humana da mensagem, mais do que na do acontecimento. Lembra, assim, que os acontecimentos do mundo exterior não se apresentam à consciência de maneira imediata, mas se dão a conhecer de modo histórico, pela mediação de um outro. Dando ênfase à mensagem, Laplanche colocou em evidência os perigos, em psicanálise, da referência à representação, no sentido psicológico do termo.

Uma tal referência, com efeito, reenvia à problemática sujeito/objeto e implica necessariamente a psicanálise no campo das teses cognitivistas e das teorias do conhecimento [12] que, atualmente, como já foi mencionado, aí desempenham um papel preponderante. Diferentemente da representação, a mensagem supõe, de saída, a participação do outro. Por outro lado, insistindo sobre a proveniência interna do ataque pulsional, Laplanche dá ênfase à transformação qualitativa sofrida pelo resíduo da mensagem. De resto não traduzido e intraduzível de uma atividade comunicativa, o resíduo ganha a forma reifi cada da coisa inconsciente, cujas relações com o eu escapam à lógica do sentido e da comunicação. Laplanche, assim, dá conta dos aspectos demoníacos do inconsciente sexual e do frenesi de desligamento que caracteriza suas manifestações. Por seu aspecto de coisas, elas resistem ao tempo e à historização. A teoria de Laplanche é, por essa razão, uma teoria do método psicanalítico: segundo ele, o acesso ao inconsciente sexual é indissociável do método que torna esse acesso possível, a saber, o método baseado na associação/ dissociação, na situação analítica e na transferência, como método de destradução [13].

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A posição de Laplanche comporta, igualmente, uma vantagem epistemológica, tratandose da defi nição da sexualidade em psicanálise. Estabelece uma nítida distinção entre a sexualidade, no sentido sociológico, psicobiológico ou antropológico do termo, e a sexualidade infantil – que, para evitar qualquer confusão, Laplanche denomina sexual [14] – mais precisamente, a sexualidade perversa, polimorfa, na qual o masoquismo ocupa a posição originária. A ênfase sobre a sexualidade infantil, como verdadeiro objeto da psicanálise, permite a Laplanche distinguir, de forma nítida, sexualização e sexuação e escapar, assim, às armadilhas da cegueira cultural sobre essas questões, das quais a psicanálise, tradicionalmente, tem dado provas. Assim fazendo, ele em nada cedeu no que se refere à afi rmação do caráter primordial da sexualidade em psicanálise. Seu campo coincide aí com o do não adaptativo, da fantasia a realizar, da busca da tensão, com o que resiste às técnicas reeducativas, às injunções normativas e às boas intenções. Na teoria de Laplanche, a alteridade do inconsciente não se sustenta na diferença de sexos, nem no efeito pretensamente estruturante dessa diferença sobre o funcionamento psíquico. Tampouco se sustenta num suposto conteúdo fi logenético, que retornaria sob a forma de fantasias originárias e imutáveis, cegas às ligações que mantêm com a estrutura familiar tradicional e com os papéis parentais mais estereotipados. Ao contrário, ela se explica, por um lado, pela origem da pulsão, que se encontra no outro e, por outro, pelo caráter reifi cado de suas manifestações, verdadeira quintessência da alteridade [15], na medida em que não têm mais nada da comunicação inter-humana. Segundo Laplanche, a pulsão, uma vez implantada, fixa-se a representações, cenários, eventualmente, a fantasias, pelas quais ela age na alma e cujos conteúdos, determinados pela história individual, são também tributários, num mais alto grau de ligação, dos códigos de tradução oferecidos ao eu pela anatomia, pela cultura ou pelas duas [16]. As construções mitossimbólicas seriam, pois, instrumentos destinados a ligar a angústia gerada pela intensidade anárquica das manifestações pulsionais, recorrendo a uma forma que se faz aceitável por suas intermediações sociais e culturais. A psicanálise, no século xx, contribui, aliás, para reforçar essas intermediações, de uma maneira que, muitas vezes, pouco tem a invejar às versões mais edulcoradas da pop-psychology.

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É surpreendente constatar o quanto o termo sexualidade, em psicanálise, serve, ao mesmo tempo, de ponto de encontro, de calcanhar de Aquiles, de profi ssão de fé e de argumento de contestação, tanto no interior quanto no exterior da psicanálise. É prática corrente nos círculos psicanalíticos lembrar que, ao longo de sua história, a psicanálise suscitou reações de rejeição, na medida em que enfatizava a etiologia sexual das neuroses e a importância da sexualidade na formação da psiqué humana. No entanto, raramente se trata da redução do conceito de sexualidade no próprio Freud e de sua assimilação às formas mais tradicionais desse conceito: a partir de uma concepção que acentuava o caráter irredutível, mesmo no adulto, da sexualidade infantil perversa e polimorfa, ele colocou gradualmente em primeiro plano uma sexualidade que se confunde com as categorias vulgares do erotismo das relações homo ou heterossexuais. Nesse contexto, o rochedo biológico e os esquemas fi - logenéticos que, nos fatos, não fazem senão refl etir as relações sociais entre os sexos, tomam, então, valor de ultima ratio do psiquismo humano. É preciso, com efeito, sublinhar a distância que separa o inconsciente do modelo do sonho, no caso, o inconsciente recalcado, e o que é descrito em O eu e o isso. O caráter dinâmico deste último se apaga, consideravelmente, na afi rmação segundo a qual “tudo o que é consciente foi, inicialmente, inconsciente”.

Assim, a ideia de que o “escândalo” do inconsciente sexual seria responsável pela resistência, quiçá, pela hostilidade à psicanálise, deve ser inserida em seu contexto concreto. Se uma tal afi rmação é verdadeira, ela se verifi ca, em primeiro lugar, em Freud e nos próprios pós-freudianos, na medida em que contribuíram para domesticar o campo do sexual em psicanálise, reduzindo-o à sua dimensão biológica, psicológica ou mitossimbólica. Por isso, seria incorreto atribuir as críticas dirigidas à psicanálise clássica, tanto americana quanto europeia, unicamente à resistência ao suposto escândalo do sexual, uma vez que este foi rapidamente atenuado em psicanálise: o que a psicanálise qualifi cava como sexual já, propriamente, não o era. As correntes socioconstrutivistas que, notadamente na psicanálise norte-americana, se insurgiram contra o lugar central atribuído à diferença de sexos, ao Édipo, à castração e à inveja do pênis, pelas orientações então dominantes em psicanálise, não atacavam, pois, contrariamente ao que elas próprias acreditavam, a ideia original da sexualidade infantil, mas sim os extravios [17] biologizantes e fi logenéticos em função dos quais esta ideia se tinha pouco a pouco modifi cado. Denunciavam, no entanto, por um lado, o caráter falocêntrico da defi nição da sexualidade que lhes propunha a psicanálise de seu tempo, do mesmo modo que sua enfeudação a uma estrutura social desigual e, por outro, a fraqueza do fundamento epistemológico da vida psíquica que ela sustentava [18].

No entanto, é lamentável que os psicanalistas que contestaram o sexismo inerente às descrições do inconsciente originário – não confundir com o inconsciente sexual – se tenham julgado obrigados, pelo mesmo movimento, a contestar a importância da referência à sexualidade em psicanálise. Várias orientações pós-freudianas já tinham, aliás, por razões que não estavam necessariamente ligadas ao falocentrismo da teoria freudiana das pulsões, atenuado o papel do fator sexual na etiologia das neuroses, tanto na versão biologizante e mitossimbólica desse conceito quanto na acepção de sexual infantil. As teorias kleinianas, por exemplo, consideram as pulsões como inatas e acentuam sobretudo a pulsão de morte (death instinct), num sentido muito diferente do que lhe atribuía Freud [19]. Nessas teorias, o recalque, praticamente, cedeu lugar à clivagem do objeto.

As teorias winnicottianas e neowinnicottianas também contribuíram para o desinteresse pelos fatores ditos sexuais e têm-se desembaraçado, progressivamente, de qualquer referência à pulsão. As orientações intersubjetivistas contemporâneas, fortemente infl uenciadas por essas teorias, têm, por sua vez, colocado o acento sobre os aspectos relacionais e interpessoais, para dar conta da etiologia das perturbações das quais se ocupam, hoje em dia, os psicanalistas. Enfi m, as teorias do apego, que sob certos aspectos se situam muito perto das orientações relacionais, insistem, todavia, na dimensão psicológica do trauma, assim como sobre suas consequências neurobiológicas, considerando a pulsão uma noção que se tornou obsoleta. No entanto, certos representantes dessas correntes, sensíveis às censuras de dessexualização da psicanálise que lhes foram endereçadas, desejam reatar com o campo do sexual. Afi rmam que o ponto de vista da intersubjetividade não tem por efeito evacuar a perspectiva intrapsíquica sobre o confl ito e insistem na importância que convém atribuir às identifi cações resultantes da cena primitiva, da confi guração edipiana, do mesmo modo que a certas funções, ditas pré-edipianas, de triangulação. É desolador constatar, no entanto, que, tentando reatar com o confl ito intrapsíquico, portanto, com o “pulsional”, os intersubjetivistas assimilem a sexualidade a elementos ligados à cena primitiva, ao Édipo e aos estágios psicossexuais, testemunhando, assim, a infl uência que as representações sociais ligadas ao simbolismo fi logenético continuam a exercer sobre suas concepções [20].

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Tudo se passa como se os psicanalistas fossem confrontados a uma única alternativa, em se tratando do papel da sexualidade na sua disciplina: ou aceitam a defi nição tradicional da sexualidade, tal como ela decorre, ao mesmo tempo, da teoria freudiana e pós-freudiana, assim como de suas respectivas referências ao endógeno, à biologia e ao mitossimbólico, ou se desinteressam por ela ou, no mínimo, contestam-lhe a legitimidade para a compreensão da etiologia das perturbações emocionais ou da formação psíquica. Nem uma nem outra dessas alternativas é aceitável. O objeto da psicanálise, na medida em que esta deseja contribuir, de modo específi co, para a compreensão da alma, deve permanecer o sexual infantil. É, com efeito, por ele que o humano, inclusive no seu corpo e nas suas funções autoconservadoras, emancipa-se da “ordem do biológico” [21]. Renunciar a esse aspecto é renunciar à perspectiva particular pela qual a psicanálise dá conta da passagem da consciência à consciência de si.

A hipótese tradutiva do recalque, elaborada por Laplanche, permite, precisamente, dar conta dessa passagem, no âmbito particular da história singular e das circunstâncias individuais. A hipótese fi logenética de Freud também tinha por objetivo inscrever o inconsciente numa linhagem humana, mais do que puramente biológica, mesmo se, para Freud, a transmissão hereditária das fantasias originárias passasse pela sua inscrição no corpo. A tentativa de Freud, todavia, falhou em seu objetivo posto que, na hipótese fi logenética, o inconsciente tornou-se uma entidade transcendental. Lacan que, entre os pós-freudianos, mais plenamente se inscreveu na fi liação fi logenética, recorreu a essa hipótese para dar conta do papel do inconsciente na constituição da subjetividade. “Como, interrogava-se ele, o organismo se deixa apanhar na dialética do sujeito” [22]? A resposta que propõe é decepcionante, na medida em que se apoia, precisamente, sobre as ligações entre pulsão, diferença de sexos e castração, sem referência, precisava ele, todavia, à bipolaridade do sexo biológico, mas em relação com o que a representa, quer dizer a dialética passividade/atividade [23]. Uma tal resposta ilustra bem a tendência inerente às defi - nições da sexualidade provenientes das teses mitossimbólicas, de aprisionar a questão do gênero num essencialismo eminentemente contestável. A equação entre atividade/passividade e masculino/ feminino não propõe, com efeito, nada além de uma associação culturalmente sobredeterminada, que pretende apresentar como origem do pensamento simbólico o que, na verdade, representa o resultado histórico de relações de dominação bem reais. Esta conformação da sexualidade a afi rmações cegas à sua ancoragem social e às injustiças que contribuem para reproduzir constitui uma fraqueza maior da psicanálise e confere-lhe um estatuto cultural, no mínimo, ambíguo.

Na sua teoria da sedução generalizada, Laplanche afi rma a posição primeira do masoquismo e defi ne essencialmente a sexualidade infantil pelo par masoquismo/sadismo. O masoquismo constitui assim o resultado do contato – do qual Laplanche dá conta em termos de implantação – entre o inconsciente sexual do adulto e a criança ainda desprovida de inconsciente, contato que se efetua por intermédio da parte comprometida da mensagem adulta. Esse encontro traumatizante – que acaba por tornar-se autotraumatismo, provocar o recalque e transformar-se, assim, em autoerotismo – marca a passagem de uma consciência não-tética [24], aberta ao mundo, mas pré-psicanalítica, pré-objetal e pré-subjetiva, ao estatuto de alma humana, não somente dotada de um inconsciente sexual, mas também de uma parte suscetível de objetalidade, de refl exividade e de um vir a ser subjetivo. Desse ponto de vista, a sexualidade infantil não tem que se defi nir em função da anatomia ou da fi siologia. A pulsão não encontra mais sua origem no interior do organismo. Ela torna-se, na teoria de Laplanche, exigência de trabalho imposta pela alma ao corpo [25].

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Laplanche descreveu o movimento ptolemaico que leva a psicanálise a fechar o sujeito sobre si mesmo e a assimilar, sem o querer, seu objeto ao da psicologia, da antropologia, da fi - losofi a, quiçá da neurobiologia. A hipótese fi logenética de Freud inscreve-se nessa tendência. Mas, que necessidade haveria, então, de permanecer copernicano? Em que uma tal afi rmação do primado do outro é essencial em psicanálise?

O copernicismo de Laplanche afi rma-se na defi nição do inconsciente: este provém do outro, mas não de um Outro simbólico, transcendental, se não teológico, mas dos adultos humanos, históricos e concretos, que cuidam da criança. O inconsciente tampouco provém de uma fonte endógena, seja ela biológica, genética ou fi logenética, que preexistiria à história singular e cujo conteúdo poderia ser universalizado. A concepção de Laplanche é uma concepção histórica. Inscreve-se na tradição de Vico, para quem “a história humana distingue-se da história da natureza pelo fato de que nós fi zemos uma e não fi zemos a outra” [26]. Desse ponto de vista, ela apresenta-se como uma teoria da transformação que, segundo Laplanche, é, em psicanálise, “indissociável de uma confi ança inabalável nos poderes da verdade” [27].

A “coisa inconsciente”, postulada por Laplanche, é um fenômeno humano, cuja origem é também essencialmente humana. Formada a partir dos resíduos de mensagens cuja destinação primeira era comunicacional, ela adquire uma natureza não humana e imprime seu modo de funcionamento reifi cado aos resíduos recalcados de mensagens subsequentes, cuja violência traumática varia segundo a história de cada um. Desse ponto de vista, a psicanálise contribui para fazer aparecer o humano por trás do demoníaco, o adversário concreto por trás da fantasia: affl avit et dissipati sunt [28]. O fator fi logenético de Freud, o uso do pensamento mitossimbólico e, de modo geral, o retorno do hereditário em psicanálise distanciam-se da inspiração original de Freud que, herdeiro do racionalismo das Luzes, acreditava na importância de examinar os fenômenos irracionais, notadamente, o poder do sexual, à luz da razão. O recurso às hipóteses fi - logenéticas sobre a formação da pulsão implica a substituição do método associativo por uma grade de leitura da qual não se tem mais que dar conta da origem, posto que dela se aceita, de saída, o caráter originário e universal. Como explicação para as fontes somáticas ou biológicas, ela supõe, como, aliás, as teorias de inspiração teológica, um salto no irracional, uma projectio per hiatum irrationalem [29].

Thomas Mann, que, no momento da ascensão do fascismo, contava com a psicanálise para contrapor-se à glorifi cação do irracionalismo e à hostilidade que a época exibia contra o espírito, inquietava-se, no entanto, com tendências que lhe pareciam inerentes a esta disciplina. Parecia-lhe, com efeito, que a psicanálise continha o que era preciso para “oferecer às forças regressivas e restauradoras do passado uma possibilidade de abusar dela, com ela concluindo uma aliança ousada e falaciosa, sem a isso serem autorizadas” [30]. Essa inquietude revelou-se em parte fundamentada. O apego normativo da psicanálise à família tradicional e à distribuição sexuada dos papéis parentais, do mesmo modo que seu uso aterrorizado do conceito de desdiferenciação, demasiadas vezes confundido com as reivindicações igualitárias, não são estranhos à importância que aí tomaram as referências mitossimbólicas e a tradição fi logenética. Seria lamentável que, pela preocupação de reafi rmar a importância fundamental do sexual infantil no conjunto das condutas humanas, ela se julgasse obrigada a prestar juramento de fi delidade a essas teorias e a conceder-lhes, inclusive na forma canônica dos grandes complexos da psicanálise, um estatuto que elas não devem ter.

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