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Resumo
Resenha de Ana Cleide Guedes Moreira, Clínica da melancolia, São Paulo, Escuta/Edufpa, 2002, 168 p.


Autor(es)
Maria Silvia Bolguese
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do curso de Psicanálise - teoria e clínica - do Departamento de Psicanálise do ISS, Prof. Dra. em Psicologia Social pela PUC/SP, autora do livro Depressão & Doença Nervosa Moderna (Fapesp e Via Lettera, 2004).


Abstract
Review of Ana Cleide Guedes Moreira, Clínica da Melancolia. Aids and death, sexuality and danger, drive to live and yearning for death are some of the topics examined in this book, which was originally a PhD thesis. Depressive states and immunologic defi cits are often associated; psychoanalytic method, being a classical and effective way of looking into depression, should be more utilized to understand the confl icts involved with a diagnosis of AIDS, the author feels. A clinical story is presented to show how this can be done.

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 LEITURA

Hesitação e urgência diante da morte

Hesitation and urgency in the face of death
Maria Silvia Bolguese


Resenha de Ana Cleide Guedes Moreira, Clínica da melancolia, São Paulo, Escuta/Edufpa, 2002, 168 p.

Existem muitos caminhos para resenhar uma obra. Pode-se, por exemplo, seguir a trilha do próprio autor, buscando- se extrair da seqüência linear as pistas que possibilitem transmitir do que trata o livro, desde as suas intenções aos objetivos cumpridos, das etapas e passagens fundamentais escolhidas até a constru ção deÞ nitiva do texto. Contudo, penso que uma resenha deve apresentar mais do que isso, ela deve ser o resultado de uma interlocução peculiar estabelecida e, por isso, necessita falar também das elabora ções que o texto propicia ao leitor.

Ana Cleide Guedes Moreira em Clínica da melancolia consegue de fato convocar à interlocução e, por isso, escolhi não privilegiar a linearidade em detrimento dos movimentos que a leitura provoca. Escrever sobre a melancolia não é de longe uma tarefa fácil, como não é menos difícil escrever sobre a clínica psicanal ítica. O que dizer ainda da sistematiza ção do trabalho clínico realizado no campo institucional? E mais, o que a psicaná- lise teria a dizer (e a oferecer) a sujeitos portadores do vírus HIV e gravemente acometidos pela Aids? Pois bem, é essa a empreitada de Ana Cleide. Corajosa viagem.

Depois da leitura do livro, um trecho persistia em mim: "A transferência, na clínica psicanal ítica de um melancólico, é uma hesitação diante da urg ência, como quando se está diante de um abismo perigoso à frente e a sensação física é dada pela lei da gravidade mesma: um empuxo para baixo criando imediatamente a hesitação diante do perigo e a urgência de proteção. Estar com um melancólico é, assim, hesitação e urgência. Algo ali se precipita no vazio e a parceria entre paciente e analista, quando se faz, Þ ca premida pela busca de salvação, que é preciso reconhecer.” (p. 82). Acredito que aqui se encontra o umbigo do texto, já que a autora, em meio a uma verdadeira trama de Þ os a seguir, não se deixa seduzir pela simpliÞ cação ou redução das diÞ culdades: resolve enfrentar os temores que ela anuncia ter vivido, logo na introdução.

A clinica psicanalítica se vê atravessada e interrogada por fenômenos da contemporaneidade e ao psicanalista cabe, sobretudo, resistir e não deixar silenciar a sua especi Þ cidade, como nos alerta Joel Birman (2000). Este é a meu ver o principal mérito de Ana Cleide, pois consegue trabalhar com as diferentes vertentes, situações e contextos, sem perder de vista a mirada, a escuta psicanalítica diante da complexidade das questões que não abriu mão de abordar. Levando em conta suas preocupações de cidadã, como ela mesma confessa, acerca da epidemia de Aids, passa a reß etir sobre o binômio Aids e Morte.

Se é possível falarmos em fenômenos da contemporaneidade, a Aids certamente é o representante inquestion ável dos entrelaçamentos históricos e sociais presenti- Þ cados na história individual que constitui as subjetividades. A Aids “atravessa todas as classes, mas sempre em maior escala na classe trabalhadora ” (p. 10). De onde pode partir o psicanalista para pensar esta questão? A autora decide reß etir e sistematizar a clínica e se sustenta principalmente na obra freudiana para dar cabo desta tarefa. Sendo esta a sua tese de doutorado, é preciso dar destaque ao fato de que seu percurso se dá dentro da mais estrita tradição freudiana, para a qual “a clínica psicanalítica será sempre a via régia de investigação”. Em outras palavras, a prática clínica do psicanalista é fonte privilegiada de reß exão e de pesquisa, se colocando, portanto, como base de sustenta ção à teoria.

Ana Cleide se propõe a refletir sobre as questões que emergem da clínica. Aids e morte, sexualidade e morte, desejo de viver e desejo de morrer (pulsão de vida e pulsão de morte) são os bin ômios que levam a autora à investigação da melancolia, cuja associação à Aids é para ela inevitável, uma vez que estados depressivos e déÞ cits imunitários estão intimamente correlacionados. A hipótese é que o método psicanalítico, justamente por isso, teria grande valia e que a concepção freudiana acerca da melancolia e dos estados depressivos deveria ser retomada como instrumento fundamental na compreensão e conduta clínica de pacientes de Aids.

O livro segue duas dire ções que se entrecruzam e se sustentam. Por um lado, o relato clínico de um caso no qual a Aids se associa de maneira evidente à melancolia e, de outro, um exame cuidadoso (embora não se pretenda exaustivo) da literatura freudiana sobre o tema. Repito que a minha pretensão aqui não é a retomada linear daquilo que o leitor poderá obter facilmente da leitura direta do texto. Prefiro chamar a atenção para alguns aspectos que são para mim distintivos das opções que Ana Cleide vai fazendo ao longo do texto.

A fim de ilustrar suas escolhas, retomo o título do livro, pois, ao mesmo tempo, não revela exatamente o que será encontrado no texto, mas demarca a relação, inevitável para Ana Cleide, entre melancolia e Aids, entre sofrimento psíquico e corpo. Contudo, como bem destaca Daniel Delouya no posfácio, ao se propor a analisar esta relação, a autora oscila entre dizer que é a Aids que libera uma melancolia insidiosa e sugerir que é a propensão melancólica que acelera a demolição do organismo. Nesse sentido, seria muito mais apropriado aÞ rmar, como indica Delouya, que a autora quer muito mais transmitir e sustentar uma associa- ção entre os dois estados.

Certamente, é esta tentativa de associação que leva a autora a acompanhar a trajet ória de Freud no que se refere à melancolia partindo não da retomada da sistematização do conceito, mas, sobretudo, através das reß exões freudianas que inicialmente oscilam entre as doenças orgânicas, as neuroses atuais e os estados depressivos. A autora recupera o percurso de Freud buscando desvendar um mosaico que se estrutura, como ela diz, a partir dos vários encontros que ele veio a ter com a melancolia por meio da clínica, da arte, e 66 por situações nas quais precisou, em causa própria, lidar com diagnóstico diferencial entre uma doença orgânica e a melancolia. Sua vida (a de Freud) foi atravessada por enormes sofrimentos, especialmente por sintomas de ordens diversas, físicos e psíquicos, que, muitas vezes, incapacitaram-no para o trabalho e para o amor..." (p. 34).

É evidente que Ana Cleide não vai deixar de acompanhar as principais formulações teóricas de Freud acerca da melancolia. Contudo, como seu principal interesse é investigar a associação entre melancolia e quadros orgâ- nicos, seu percurso resulta extremamente original, pois vem a encontrar na biograÞ a de Freud os elementos que lhe possibilitassem alcançar seus objetivos. Exatamente por isso, o livro promove um encontro com as considerações de Freud descobertas em sua vasta correspondência principalmente com Fliess, cujo eixo é sua auto-análise, sem contudo perder de vista que esse caminho contribui mais para uma abordagem propriamente psicanalítica do tema do que para uma apreensão essencialmente teórica. A autora vai acompanhando a gestação do conceito, fazendo o leitor acompanhar a evolução das idéias de Freud muito antes que ele viesse a retomá-las com vista à sistematização.

Claro está que, em se tratando de um texto psicanal ítico, o resultado é bastante interessante, pois Ana Cleide não pretende contar histórias sobre Freud, mas acompanhá-lo em seu percurso investigativo, pró- prio do método psicanalítico.

Apenas posteriormente e tendo como pano de fundo as desventuras de Freud que se agravavam progressivamente pela evolução do câncer que o acometia, é que o leitor vai poder se embrenhar no processo de construção do conceito de melancolia. É preciso dizer que o livro nunca se rende a uma revisão exaustiva e assepticamente teórica da noção da melancolia. A preocupação, o foco de Ana Cleide é a dimensão clí- nica, no sentido propriamente psicanalítico do termo.

Compreendendo que a Psicanálise tem pela frente um longo caminho a percorrer a Þ m de identiÞ car e teorizar as novas Þ guras que a Aids vem constituindo, na direção da nova forma de exclusão operada pelo avanço da epidemia (p. 19), a autora confere à clínica o estatuto de campo fértil à investiga ção, sem, em momento algum, dissociar pesquisa e clínica. Em Marcos: relato clínico, o leitor certamente se impressiona ao segui-la no relato do caso, ao mesmo tempo desnudando o doloroso embate travado na transferência – transferência, sim – pois Ana Cleide, ao se indagar ininterruptamente a respeito do lugar que ocupa na cena, não deixa de nos brindar com a revelação das fantasias em geral secretas de um psicanalista. Deixar de almoçar para acompanhar a refeição de Marcos e assim ajudá-lo a sobreviver é um dos exemplos das diÞ culdades que encontrou para permanecer sendo sua psicanalista ainda assim. O que a psicanálise teria a oferecer?

Não se trata, então, de uma simples associação entre melancolia e Aids, trata-se da escuta desta associação. Deixando claro que a doença orgânica está ali encravada, dizimando o sujeito, que a perspectiva não é a cura da Aids pela psicanálise ou uma discussão acerca das causas psicológicas da doença – que a autora certamente não sup õe – Ana Cleide visa essencialmente à aproximação da questão pelo ângulo propriamente clínico, permitindo que Marcos fale e fale para uma psicanalista. O seu relato é breve, mas as questões levantadas são extremamente importantes, pois apesar das adversidades da situação institucional e do agravamento do quadro de saúde do paciente, o fundamental é a possibilidade de acompanhar a seqüência dolorosa da transferência (Násio, 1989). O sujeito se encontra atravessado pela preval ência da morte sobre a vida, que o reduz em suas potencialidades e a transferência não permite que o analista escape de uma contradição vivida pela polarização dos lugares que pode vir a ocupar: do onipotente salvador à mera testemunha impotente da ß agelação.

Debruçando-se Þ nalmente sobre a concepção freudiana da melancolia sustentada principalmente em Luto e Melancolia (1915), Ana Cleide destaca a importância do diferencial proposto por Freud neste texto, segundo o qual a melancolia é apresentada como reação à perda do objeto, mas à perda imaginária do objeto de amor, que se torna mais poderoso do que o pró- prio ego, na medida em que a libido retirada para o ego pode conduzir até a morte do sujeito. Ressalvando diversas vezes que sua recuperação teórica é bastante sintética, o que vai Þ cando clara é a intenção de destacar a presença na melancolia do superego agindo como agente da pulsão de morte.

Interessante destacar que a autora continua entremeando os textos teóricos de Freud com as suas correspond ências, o que leva o leitor a acompanhar a trama conceitual sendo tecida a partir de um movimento, de uma dança na qual os elementos que a compõem aludem à clínica, à auto-análise e aos desenvolvimentos propriamente teóricos. Isto signiÞ ca dizer que se os capítulos teóricos do livro, sobretudo o 4 e o 5, não apresentam o desenvolvimento cabal do tema, por outro lado, trazem como contribuição relevante o modo propriamente psicanalí- tico de construir teoria.

Um exemplo aparentemente singelo disso, mas bastante signiÞ cativo, é a alusão de Ana Cleide ao fato de que, embora Freud não suponha diferença psíquica entre os termos melancolia e depressão, sua escolha da melancolia revela sua preferência explícita pela tradição romântica. Sua intenção é sempre destacar a inextricável relação (analí- tica, se quisermos) entre os processos internos de Freud e aquilo que ele buscava certamente objetivar. Entretanto, a tradição romântica não é apenas uma preferência freudiana, uma vez que pode se articular e até lançar luz a uma discussão contemporânea. A psiquiatria, é bom que se diga, abandonou esta mesma tradi- ção em prol de uma pretensa positividade, afastando-se de certo modo da relação clínica e dinâmica que estabelecia com o seu objeto e priorizando a concepção organicista, para a qual a designação depressão adquiriu assim destaque.

Ainda do ponto de vista da revisão do conceito, Ana Cleide avança examinando a relação entre melancolia e culpa chegando à inquestionável participação do superego e para isso prossegue destacando o percurso de Freud na evolução de sua concepção que vai se tornando mais complexa, sobretudo, em Neurose e Psicose (1924{1923}), texto no qual deixa claro que a melancolia pode ser tomada como uma neurose narcísica, resultado de um conß ito entre o ego e o superego (em sua máxima severidade). No cap ítulo 6, no qual estas noções são desenvolvidas, Ana Cleide opta por fazer, ao contrário dos capítulos teóricos anteriores, uma aproximação bem mais meticulosa, o que acarreta um certo distanciamento do seu objetivo principal que será retomado apenas no Þ nal.

Será só neste momento e, a meu ver, de um modo até certo ponto tímido e limitado que a autora volta a se debru çar sobre o tema principal sustentada em uma aÞ rmação de Freud na qual postula que “um neurótico pode, sob o comando de um superego ainda em diÞ culdades de ordem edí- pica, utilizar sua doença como instrumento de autopunição, a Þ m de satisfazer um sentimento de culpa” (p. 124). Aqui está, depois de todo o caminho te- órico percorrido, não por acaso extraído do texto freudiano Uma Questão da Análise Leiga (1926), o passe que a autora necessitava para retornar às suas interrogações acerca da associação entre melancolia e Aids e as considerações que vem a fazer no capítulo que encerra o livro: Marcos, Þ nalmente.

Ana Cleide volta, então, a aÞ rmar as possibilidades da Psicanálise como recurso terap êutico, como um instrumento valioso para pacientes que demandam uma ampliação da compreensão do seu processo de adoecimento a Þ m de mobilizar recursos próprios de enfrentamento da síndrome (p. 124). Contudo, as articula- ções que vem a fazer com a noção de InsuÞ ciência Imunol ógica Psíquica, proposta por Berlinck (1997), não encontram espaço para um maior aprofundamento. Voltando a se perguntar sobre a possibilidade de o elo de ligação entre melancolia e Aids ser uma perda narcísica irreparável, a autora responde que para o caso de Marcos a resposta é aÞ rmativa.

E o que se encontra ao Þ nal da jornada empreendida por Ana Cleide? Cabe destacar suas palavras: “essa análise feita a posteriori tem o sabor especulativo que não poderia deixar de ter, considerando que é uma tentativa de teorização alicerçada, de um lado na psicoterapia realizada e, portanto, no discurso associativo do paciente e, de outro, na longa revisão da literatura pertinente ao problema...” (p. 128). É preciso dizer, portanto, que Ana Cleide deixa ao leitor e a si mesma a tarefa de seguir aprofundando a sistematização no que diz respeito à associação defendida, sobretudo porque, como bem destaca Delouya, a relação entre melancolia, doen ça orgânica e imunidade é surpreendentemente tão clássica quanto cotidiana.

Inquestionavelmente o livro de Ana Cleide não deixa dúvidas quanto a isso e, sem jamais cair em atribuições superficiais ou precipitadas acerca de causas e efeitos, a autora demonstra que é poss ível à psicanálise – teoria e clínica – lançar luz aos meandros escuros dos porões psíquicos, pelos quais os pacientes acometidos pela Aids ainda seguem permanecendo sujeitos. Como bem ressalta a autora, aceitar o doloroso fato de que não se é onipotente, de que não se pode salvar física e psiquicamente o paciente, é encontrar, ao mesmo tempo, o limite da cura e do desejo de curar.

A meu ver, escutar os embates melancólicos que Marcos travava consigo mesmo enquanto a doença o dizimava signiÞ cava continuar garantindo ao sujeito a possibilidade de se dizer, de se subjetivar e é nessa medida que a melancolia vai adquirir importância fundamental na escuta da psicanalista e não a Aids isoladamente. Sendo assim, termino lembrando que o título do livro, Clínica da Melancolia, já desvela a perspectiva psicanalítica da qual a autora não abriu mão em momento algum.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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