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Resumo
Resenha de Renato Mezan, A sombra de Don Juan e outros ensaios, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2005, 310 p.


Autor(es)
Sérgio Telles Telles
é psicanalista do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e escritor.



Notas

1 J. Derrida, Estados da alma da Psicanálise, São Paulo, Escuta, 2001, p. 14.

2 Cf. P. Aulagnier – "Societés de psychanalyse et psychanalyste de Societé" – Topique, n. 1, Paris, 1969.



Abstract
Review of Renato Mezan, A sombra de Don Juan e outros ensaios. Renato Mezan’s essays about narcissism, elaboration of trauma, training analysis and other topics, now republished, present a considerable interest. His approach of the epistemological problems that emerge from Psychoanalysis, as well as his keen study of the relations between our discipline and broader culture, help the practitioner to sharpen his listening and open up broader horizons for applied Psychoanalysis.

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 LEITURA

Sombra e luz nos textos de Mezan

Shadows and light in Renato Mezan
Sérgio Telles Telles


Resenha de Renato Mezan, A sombra de Don Juan e outros ensaios, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2005, 310 p.

Num país iletrado como o nosso, a publicação da segunda edição de um bom livro é sempre um fato auspicioso. É o que ocorre agora com o relançamento, pela Casa do Psicólogo, de A sombra de Don Juan de Renato Mezan, previamente publicado pela Editora Brasiliense em 1992.

Trata-se de uma coletâ- nea de artigos e conferências que descerram um rico repert ório: considerações sobre o sedutor Don Juan; comentários a respeito de uma proposta de Habermas sobre a posição do analista quanto às lembranças do Holocausto; elaborações sobre epistemologia psicanalítica; reflexões sobre as vicissitudes da formação; ponderações sobre a pessoa e meio de Freud e as características próprias da Psicanálise.

Como constatei agora, já que não os lera quando de sua publicação anterior, são temas que mantêm por completo a atualidade e pertinência. A propriedade e domínio com que Mezan os aborda jamais resvalam para o pedantismo ou para o tom autoritário de um discurso de mestre. Pelo contrário, seu texto nada empolado expõe com clareza seu raciocínio e tem a fluência e a proximidade de uma conversa entre amigos, o que torna sua leitura muito agradável, estimulando o leitor a com ele dialogar, coisa que passo a fazer.

A tônica do conjunto é a plena convicção dos indissoci áveis e íntimos vínculos existentes entre a Psicanálise e a cultura, atitude que Mezan compartilha com Freud. Diz ele: “Um pesadelo assombrava as noites de Freud: que a Psicanálise acabasse por ficar restrita a uma especialidade terapêutica, nas mãos dos médicos, ou viesse a se converter naquilo que Phillip Rieff chamou ‘uma sutil ideologia de salvação pessoal’, nas mãos dos sacerdotes – fossem estes devidamente ordenados pelas religiões instituídas ou não. (...) E precisamente por que não se reduzia à sua dimensão clínica, a Psicanálise não devia, para o seu fundador, se limitar à esfera terapêutica: certa ou erradamente, Freud acreditava que o método psicanalítico era um instrumento valioso para compreender as formações culturais, e dedicou boa parte de sua obra a empregá-lo dessa maneira” (p. 187-8).

A interessante abordagem de Don Juan aponta um tema de permantente interesse teórico e clínico, que é o do narcisismo. O Don Juan abordado por Mezan é aquele da ópera de Mozart, do libreto de Da Ponte e estudado por Kierkegaard. Ao elaborar algumas idéias sobre a prática da sedução, seus engodos no jogo amoroso, Mezan aponta para os elementos narcísicos atuantes em ambos os lados do processo – por parte do sedutor, que se engrandece com a conquista, e por parte da seduzida, que se sente gratiÞ cada por ser objeto da sedução: “Há assim na sedução um jogo sutil entre o ‘prometido’ para depois – que serve como isca – e algo que se passa aqui e agora, na relação entre os dois e que é fonte de um prazer muito mais real e muito mais intenso do que o sedutor descreve com suas palavras” (...) “Seu desejo as enobrece, e daí nasce seu efeito sedutor, na precisa formulação de Kierkegaard, porque esse desejo as torna diferentes do que eram antes, até um momento atrás, a seus próprios olhos. O jogo da sedução enraíza-se assim numa reduplicação do narcisismo, tanto do agente como do objeto seduzido” (p.25-9). A leitura que Kierkegaard faz de Don Juan desloca a convencional ênfase na condenação moral do sedutor e enfatiza sua exuberância sensual, o que o faz ofensivo não mais a Deus e sim a todos os outros homens por ele humilhados frente a sua habilidade junto às mulheres. É esse enfoque de uma sensualidade vista sem moralismo que possibilita a Mezan estabelecer um elo com a abordagem freudiana da sedução, seguindo seus importantes desdobramentos na elaboração do corpo teórico freudiano e pós-freudiano, como nas formalizações mais recentes feitas por Laplanche. Além disso, discorre sobre sua atualização na situação analítica, como um dos avatares da transferência.

Em “Esquecer? Não: inquecer ”, Mezan responde a uma sugestão de Habermas a respeito do trabalho de luto a ser feito pela sociedade alem ã frente às atrocidades do Holocausto e o papel que os analistas poderiam ter nesse processo. É um assunto sempre atual, que evoca a questão da representabilidade do trauma e da catástrofe e a necessidade de sua elaboração, o que é bem diferente do mero esquecimento. Pensando junto com Mezan, eu acrescentaria as decisivas contribuições de Derrida, nas quais se vê que quando o trauma transcende o individual e alcança o social – como é o caso do Holocausto – a questão da memória e dos arquivos passa a ter uma conota ção política decisiva, que determinará a forma como a história será escrita; por isso mesmo, se postula a necessidade de sua permanente desconstrução, que revela os jogos de poder que ali se escondem. É ainda Derrida quem, ao criticar “uma psican álise que resiste a si própria” [1], conclama a participação pol ítica do analista no cenário social, tal como evocado por Habermas.

“Existem paradigmas na Psicanálise?” e “Que signiÞ ca ‘pesquisa’ em Psicanálise?” são preciosos nesse momento em que a Psicanálise sofre ataques do cientificismo advindos das neuro-ciências e do cognitivismo, que nos exigem critérios de validação semelhantes aos das hard sciences. Sem explicitá-lo, Mezan mostra que não devemos nos intimidar com tal terrorismo ideológico e sim defender as especiÞ cidades de nosso campo de saber. Ao comparar, por exemplo, a forma como Freud, Kohut e Green elaboram um trabalho, Mezan salienta como em todos eles é possível detectar procedimentos que são muito próximos das balizas que delimitam as formulações cientí- Þ cas – coesão interna, comunicabilidade, veriÞ cabilidade e cumulatividade. Entretanto, a essas há que se acrescentar o elemento que é próprio da Psican álise, a inclusão da dimens ão do inconsciente no próprio cerne da elaboração teórica, reconhecendo as enormes diÞ culdades epistemológicas daí decorrentes, inclusive a produção de distorções verdadeiramente sintomáticas, em função do narcisismo do pesquisador (cf. p. 130).

Em “Explosivos na sala de jantar” (onde discorre sobre Freud e a criação da Psicanálise) – e “Psicanálise na cultura” (texto no qual agrupa resenhas de livros), Mezan detém-se naquilo que é o pano de fundo de seu livro: a íntima ligação da cultura com a Psicanálise. Ao contrário daqueles que temem a funda penetração do saber psicanalítico no tecido social por considerá-la uma banaliza-ção do mesmo, Mezan muito a valoriza, como se vê no trecho abaixo, no qual grifei aspectos que considero de maior relev ância: “A influência exercida pelas idéias de Freud e de seus discípulos sobre nosso modo de pensar e de sentir di- Þ cilmente pode ser exagerada; ela se manifesta na maneira como educamos nossas crian- ças, na forma como nos relacionamos conosco mesmos, e com os que nos rodeiam, no que nos é oferecido pelas artes e pela literatura, na linguagem cotidiana. Disto resulta, segundo alguns, uma diluição da aspereza própria da Psicanálise; não penso assim. Creio que é confundir os níveis em que se desdobra um fato da cultura pretender que a maneira como a sociedade se serve dele o corrompe; ao contrário, parece-me que tal maneira faz parte do próprio fato, e que as implicações dessa situação devem ser pensadas e não caluniadas. A existência de representações ou de imagens da psicanálise, bem como do retrato que ela nos propõe da nossa vida interior, faz hoje parte das condições em que ela é praticada. Esse resultado foi intensamente desejado por Freud, e ele colocou boa parte de suas energias a serviço da divulgação de suas idéias, escrevendo com vigor e clareza, para públicos especializados e leigos, e sempre encontrando o tom justo para mobilizar seu leitor.” (p. 146).

A questão abordada em “O Bildungsroman do psicanalista ” parece-me mais aguda do que nunca. Entre nós, a perda da hegemonia das institui ções ligadas à IPA e a instala ção dos grupos lacanianos têm levado, como subproduto, à proliferação incontrolável de cursos e institutos que oferecem “formação analítica”, o que em muitos suscita grande apreensão. Parece que se saltou de uma rigidez obsessiva, esterilizante e burocrática para um laxo laissez-faire, tão problem ático quanto a situação anterior. Mezan discorre sobre a training analysis, a análise didática, a formação, a transmiss ão, apontando para os inúmeros percalços e escolhos no Bildungsroman do jovem psicanalista. Seu artigo me fez lembrar o texto de Piera Aulagnier [2], no qual ela põe a nu essas mesmas diÞ culdades, ao mostrar como o “candidato”, presa das inevitáveis idealiza- ções próprias de seu estado, especialmente aquelas dirigidas às Þ guras parentais do analista, dos supervisores e da própria instituição, não se dá conta de ser muitas vezes peão nos perigosos jogos de prestígios que se desenrolam dentro das instituições, nos quais aquelas Þ guras por ele tão idealizadas estão mergulhadas até a raiz dos cabelos. Frente a tantas diÞ culdades, o que esperar da tal formação? Diz Mezan: “Talvez o paradoxo da formação seja o de que quanto mais ela avança, mais distante se torne o seu perfazer- se. Um analista ‘formado’: o que signiÞ ca isso? Se indicar um estado de acabamento deÞ nitivo, sem virtualidades de evolução ulterior, a idéia é contraditória com a postura psicanalítica e deve ser recusada. Já a expressão um tanto melancólica ‘formação intermin ável’ se presta à demagogia e ao obscurecimento do fato de que em qualquer trajeto há etapas já vencidas e momentos que Þ caram para trás: no caso da formação psicanalítica, conß itos resolvidos consigo mesmo, com a teoria, com a técnica, com os mestres e com as instituições. É mais verdadeiro, segundo penso, falar na aquisição de condições suÞ cientes, como no caso do artista” (p. 185).

Em “Violinistas no telhado: clínica da identidade judaica ”, Mezan retoma e amplia largamente um tópico já presente em “Explosivos na sala de jantar”: a psicanálise é uma ciência judaica? Se antes, em épocas nazistas, essa era um aÞ rmação que se pretendia ultrajante e ofensiva, mais recentemente, ao ser reivindicada pelos próprios judeus, ela passa a ter a conotação oposta, idealizante – a Psicanálise seria uma demonstração do gênio dos judeus. Cuidadosamente Mezan mostra como a Psicanálise é inquestionavelmente uma aquisição humana de emprego universal, mas isso não o impede de propor aspectos que seriam próprios da comunidade judaica. Sem querer resumir sua complexa argumentação, salientaria aquelas que são, a seu ver, as duas marcas constitutivas da judeidade, duas “mutações” que a modiÞ caram. A primeira decorreria da queda do Segundo Templo pelos romanos, que teria provocado um deÞ nitivo abalo narcísico identitário e a segunda se deveria ao choque com a modernidade, que teria desencadeado o aparecimento do sentimento de vergonha. Ambos os elementos fariam com que, no momento, a identidade judaica informe mais que nunca.

Com A sombra de Don Juan, Mezan joga luz sobre importantes temas que nos concernem a todos.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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