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Resumo
Dezessete anos depois, celebrando os 20 anos do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, a autora rememora o percurso da revista, desde o seu início.


Autor(es)
Silvia Regina Tacchinardi
é psicóloga e psicanalista.


Notas

1. S. R. Tacchinardi, “Psicanálise e instituição psiquiátrica – o analista dentro do Juqueri?”, Revista Percurso, ano 1, nº 1, 2º semestre de 1988.

2. R. Schnaiderman, “Política de formação em psicanálise”, Revista Percurso, ano 1, nº 1, 2º semestre de 1988.

3. S. R. Tachinardi, Três ensaios sobre a transferência – um estudo em Freud. Dissertação de Mestrado apresentada no Departamento de Psicologia Clínica da UNB, 1993.

4. L. C. Figueiredo, “Psicanálise e universidade: perspectivas”, Pulsional Revista de Psicanálise, ano XIII, nº 137, setembro de 2000, 36-46.

5. Espaço Psicanalítico, em Brasília.

6. R. Mezan, “Klein, Lacan: para além dos monólogos cruzados”, in A vingança da esfinge, São Paulo, Brasiliense, 1988.

7. Essas idéias foram tratadas por Maria Nilza Campos, Regina Orth de Aragão e Sílvia Regina Tacchinardi: “Conversa entre analistas: dá para (se) entender?”, texto apresentado e discutido no Encontro Sul-Americano dos Estados Gerais da Psicanálise, realizado em São Paulo, de 13 a 15 de novembro de 1999, e publicado em Pulsional Revista de Psicanálise, ano XIII, nº 137, setembro de 2000.



Abstract
Reading her paper, the author reminisces about the path she has traveled since 1988. Psychiatric institutions have changed little, in spite of reforms begun in the 1990s. The experience at Juqueri has been seminal for her, because it showed the need for an interdisciplinary approach even in her ordinary psychoanalytic work.

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 TEXTO

Notas de um percurso

Notes on a trajectory
Silvia Regina Tacchinardi


Celebrar os vinte anos do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é uma maneira de reviver os movimentos de criação e de construção de possíveis. Tantos possíveis ali se apresentaram ao longo desses anos que, mesmo de longe, os sinais dessa construção sempre se fizeram presentes. A revista Percurso talvez seja uma de suas criações de maior visibilidade e alcance, dentre tantas outras. Nela, podemos acompanhar esses movimentos que contam a história, que fazem da história da psicanálise algo vivo, pulsante, em permanente processo de análise e abertura para novas – e antigas! – inquietações acerca do viver e suas dificuldades.

Foi assim, há quase vinte anos, que se deu o acolhimento de tantas questões... o lugar, o território, o ofício do psicanalista interrogado; as instituições interrogadas; a loucura, a angústia e o sofrimento interrogados...

Relendo “Psicanálise e instituição psiquiátrica – o analista dentro do Juqueri?” [1], reencontro alguns eixos da inquietação que o produziu. Um deles diz respeito à Instituição Psiquiátrica Asilar que, em vinte anos, arrastou- se em movimentos mais ou menos lentos para o que hoje se delineia como avanços da Reforma Psiquiátrica. A rede de serviços e de recursos terapêuticos, os dispositivos de tratamento da Saúde Mental se ampliaram, ainda que mais lenta e timidamente do que se esperava. O Movimento da Luta Antimanicomial avança, na figura dos trabalhadores de Saúde Mental (e, sem dúvida, aí também estão os sinais da fecundidade do Sedes e do Departamento de Psicanálise), dos usuários dos serviços, da sociedade organizada em ongs, dos movimentos político-sociais.

Um outro eixo que, me parece, funcionou como fio condutor de meu percurso na psicanálise é o que trata a pergunta fundamental acerca do que é ser psicanalista, ou ainda do que é feito o trabalho do analista, ou com que “material” ele escuta o sofrimento do outro para dali se configurar terapêutico.

Esses interrogantes da clínica psicanalítica, tão fundamentais quanto sempre atuais, encontraram naquele momento um espaço de pluralidades, em que as referências teórico-clínicas do saber psicanalítico não se encontravam engessadas num único discurso totalizador/totalizante. A circulação de idéias, de leituras e de experiências era mais um dos possíveis gerados pelo “projeto de desalienação”, como propunha Regina Schnaiderman [2] em seu texto sobre a formação em psicanálise.

A partir desse lugar de origem, estavam já, profundamente marcados, esses disparadores na busca de um saber teórico-clínico que jamais se deixasse prender nas amarras das escolas fechadas, das repetições dogmáticas. E, felizmente, ao longo do meu percurso de quase vinte anos, fui encontrando espaços que mantinham vivo esse “projeto de desalienação”.

O estudo de Freud, na universidade, num projeto formal de pesquisa e sistematização das idéias, numa dissertação de mestrado [3], levou-me a percorrer as origens e implicações do conceito de transferência na clínica psicanalítica inaugural. Buscava o que delimita, o que diferencia, enfim o que singulariza o campo psicanalítico, na teoria como na prática clínica. Encontrei-me pesquisando a história da produção de singularidades – do sujeito e da psicanálise – pela via da transferência, no inquietante espaço estrangeiro da universidade, na diversidade de disciplinas e saberes.

As perspectivas de interlocução ampliadas, as diferenças tomadas como novas aberturas e possibilidades, as instituições interrogadas... Tomando de empréstimo as palavras de Luís Cláudio Figueiredo, em um artigo em que discute as relações entre psicanálise e universidade: “eu diria que a psicanálise, por natureza e nascimento, tem um caráter transdisciplinar (...) a formação de psicanalistas de uma certa maneira exige esse trânsito e que o pensamento psicanalítico só pode existir, só pode viver, só pode se vitalizar na medida em que a gente se entregue a essa dimensão transdisciplinar” [4].

Ainda seguindo o eixo acerca do que singulariza o trabalho da psicanálise, experimentei na clínica com crianças as antigas inquietações sobre o lugar do analista, sobre a necessidade de buscar em meus estudos e supervisão as contribuições múltiplas dos diversos autores que tornaram possível a psicanálise de crianças. O espaço de trânsito, de circulação e de fluxos estava mais uma vez colocado nesse momento. A clínica com crianças e seus pais parece guardar, privilegiadamente, essa particularidade de que a teoria precisa ser constantemente reinventada e abrir-se para a transdisciplinaridade.

Um grupo de psicanalistas [5] reunidos em torno dessas e de tantas outras questões, animados por um “projeto de desalienação” em suas formações, permitiu-me dar continuidade a essa perspectiva de abertura às diversas escolas, em suas diferenças conceituais, geradas a partir de suas próprias “matrizes clínicas”, de que nos fala Renato Mezan [6]. Buscava, então, articular a experiência clínica cotidiana à pesquisa de questões sobre as origens e a constituição de tempos, traços, marcas que singularizam os processos psíquicos e o trabalho analítico, numa empreitada de desacomodação, de sustentação da própria inquietação, dos fluxos de vida... nômades e sempre à procura. Uma procura compartilhada, em espaços que possibilitam aos seus integrantes explorar o mundo e recriá-lo, apropriando-se dessa experiência [7].

Para voltar ao convite que deu origem a essas notas, agradeço ao incansável trabalho de detetive das colegas psicanalistas que foram me encontrar depois de tantos anos, bem como ao carinhoso tratamento que deram ao meu sumiço como um prazeroso jogo de esconde-esconde.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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