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Resumo
O autor revisita o texto publicado no primeiro número de Percurso à luz de suas reflexões mais recentes, analisando os contextos afetivos e teóricos que marcam os dois momentos.


Autor(es)
Renato Mezan
é psicanalista, membro Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP, e autor de vários livros, entre os quais O tronco e os ramos: estudos de história da Psicanálise (Companhia das Letras).


Notas

1. Hoje existem vários livros em português sobre este tema. Além do indispensável O Moisés de Freud, de Hayim Yeruhalmi (Imago), posso citar Um judeu sem Deus, de Peter Gay (também da Imago); Freud, leitor da Bíblia, de Theo Pfrimmer (idem); e, da safra nacional, os trabalhos de Daniel Delouya (Entre Moisés e Freud: Tratados de origens e de desilusão do destino, Via Lettera) e de Betty Fuks (Freud e a judeidade, Zahar). O de David Bakan, Freud et la traditon mystique juive (Payot) é ruim demais, e ignoro se foi traduzido. Melhor que não o tenha sido...

2. Cf. “Metapsicologia/fantasia”, conferência de 1989, publicada em Figuras da teoria psicanalítica, Escuta/EDUSP, 1995, e atualizada em 2005 para o Jornal de Psicanálise.

3. Alguns destes textos foram incluídos na coletânea de artigos de sua lavra que preparei em 1988 para a editora Escuta, O psicanalista e seu ofício.



Abstract
The interpretation of Freud’s slip seems to hold good when examined today, says the author. He situates his text in the French context from where it sprang, marked by an acute interest in Freud’s self-analysis and in his biography as a source for understanding both the birth of our discipline and its peculiar nature. Personal motivations and his indebtedness to his teacher, Conrad Stein, are also evoked.

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 TEXTO

“As filhas”, dezessete anos depois

“The daughters”, seventeen years later
Renato Mezan


Curiosa, a sensação de retomar tantos anos depois um trabalho escrito por mim mesmo, a fim de atender ao pedido da Comissão Editorial de Percurso: sensação próxima daquilo a que Freud chama unheimlich, não tanto na acepção de sinistro ou insólito, mas na de “estranhamente familiar”. Familiar, porque reconheço no texto certos temas, um estilo, referências, etc., que são os meus; estranheza, até certo ponto, pela posição um tanto esquerda de comentar algo que eu mesmo fiz. Posição talvez próxima da de um pintor a quem se encomendasse um auto-retrato...

Primeiras impressões: o artigo ainda me parece convincente. Se o tivesse de escrever hoje, creio que o faria igual – talvez não colocando esta ou aquela frase, mas no essencial diria a mesma coisa. Ele propõe uma hipótese acerca das condições emocionais em que Freud escreveu sua célebre carta 69 a Fliess, na qual renuncia à teoria da sedução: o sentimento de triunfo do qual se sente possuído não provém de uma negação do recuo teórico a que se vê obrigado, nem somente dos motivos explícitos que menciona – em suma, a sensação de ter correspondido às exigências do seu ideal do ego, que em sua vertente “científica” prescreve abandonar uma idéia, mesmo que cara ao nosso coração, em nome da disciplina da verdade. O lapsus calami na citação bíblica aponta para fatores inconscientes, e a reconstituição que proponho continua a me parecer razoável: identificação passageira com o rei David, figura heróica da história dos hebreus de cujos feitos Freud havia tomado conhecimento quando criança, ao ler a Bíblia na tradução comentada e ilustrada do rabino liberal Philippson.

Eu havia notado esse lapso dez anos antes, ao realizar a pesquisa para o que viria a ser o livro Freud, pensador da cultura, e colocara em nota uma observação a respeito dele. A familiaridade com a Bíblia, resultado de anos como professor de História Judaica e de um interesse pessoal no uso do livro sagrado como fonte histórica, me havia alertado para seguir a pista dada por James Strachey, e fornecido os instrumentos para segui-la: encontrei o versículo ao qual Freud estava se referindo – o que não era nenhuma façanha sherlockiana, já que bastava abrir o segundo livro de Samuel no lugar indicado pelo tradutor inglês – e, comparando o texto hebraico com o que Freud escrevera, percebi os enganos que haviam se infiltrado na sua reminiscência. Contudo, no momento em que redigia a tese, não pude ou não soube ir além desta constatação.

A atenção a esse detalhe aparentemente sem maior importância inscrevia-se no contexto de um problema mais amplo, a saber, a eventual influência do fato de Freud ser judeu sobre a criação da psicanálise. Levantada por Lacan nos anos 50, esta “lebre” havia se tornado um tema de pesquisa entre os “freudólogos”, como denominei os estudiosos que se interessavam pela biografia de Freud como fonte para compreender melhor a sua obra e, por extensão, a própria psicanálise. No ambiente francês no qual foi escrito Freud, pensador da cultura, a questão do judaísmo havia adquirido importância considerável, como parte de uma temática ainda mais ampla: a auto-análise de Freud, considerada por muitos um momento particularmente significativo no processo que levou à invenção da psicanálise.

Com o recuo de quase trinta anos, vejo hoje que a ênfase dada por esses autores aos processos psíquicos do indivíduo Freud – processos a serem inferidos da vastíssima documentação que ele nos deixou, tanto na obra publicada quanto na correspondência com seus íntimos – tinha por pressuposto o desejo de não reduzir a invenção da nossa disciplina a um caminho apenas lógico ou epistemológico, mas apresentá-la como fruto objetivamente valioso de um percurso subjetivo passível de ser reconstituído, e que portanto adquiria valor exemplar.

Esta intenção, por sua vez, era uma das conseqüências mais importantes do “retorno a Freud” promovido por Lacan: retorno não apenas à sua obra, valorizando-a como sempre atual – na contramão do mainstream anglo-americano, que tendia a ver no trabalho dos sucessores do fundador motivos para relegar Freud à condição de “bom, mas superado” – mas ainda retorno à forma como ele produzia seus conceitos e hipóteses. Para investigá-la, era consensual na época que se deveriam utilizar os dados biográficos disponíveis, e procurar mostrar de que modo determinadas circunstâncias haviam influído na criação de determinadas idéias freudianas.

O tema do judaísmo de Freud passou assim a ser um topos freqüente nas discussões francesas, e, por tabela, também entre certos autores americanos desejosos de escapar à monotonia da leitura então corrente em seu próprio meio. Livros como L’auto-analyse de Freud, de Didier Anzieu, D’Oedipe à Moïse: Freud et la conscience juive, de Marthe Robert, e outros que cito em Freud, pensador da cultura, mostravam como se podia trabalhar de modo inteligente com os dados disponíveis, iluminando de um ângulo propriamente psicanalítico o processo de criação conceptual na nossa disciplina [1]. Havia aqui a aplicação da psicanálise a um território que, em virtude da minha formação anterior em filosofia, me atraía muito: aquilo a que chamei, num texto posterior, de “camada de fantasias subjacente a um argumento teórico” [2].

Assim, quando pensei em como poderia contribuir para o II Encontro da Associação Internacional de História da Psicanálise, que se realizaria em Viena em julho de 1988, e cujo tema era “Freud”, ocorreu-me que o lapso da carta 69 podia ser uma boa escolha: era adequado ao Encontro, tanto quanto eu tinha conhecimento não havia sido esclarecido – portanto satisfazia ao quesito “originalidade” – e, se tivesse êxito em elucidá-lo, estaria colocando minha pequena azeitona na grande empada dos estudos a que me referi.

Também estava presente o desejo de impressionar meu professor Conrad Stein, cujos trabalhos sobre o modo de pensamento de Freud haviam sido fundamentais em meu próprio trajeto. Stein havia dedicado anos do seu seminário no Institut de Psychanalyse da Rue Saint Jacques a uma investigação detalhada da Interpretação dos sonhos, partes da qual chegaram a ser publicadas em seus livros. A delicadeza da análise, a erudição empregada para mostrar o caminho de pensamento do autor (e não exibida, arrogantemente, para humilhar o leitor), a finura do percurso, e o brilho das conclusões, fazem destes pequenos exercícios de psicanálise verdadeiras jóias. Elas facilitam a compreensão do percurso freudiano, enraizando-o nas vivências de quem o realizou, e ao mesmo tempo evitam o risco de psicologizar a invenção conceitual: não é porque Freud utiliza suas próprias lembranças de infância para construir o conceito de complexo de Édipo que este deixa de ter valor objetivo, independentemente da imaginação do pequeno Sigmund.

Deste modo, o desejo de explorar o lapso freudiano se inscrevia tanto em meu percurso pessoal – no qual a figura de Stein tem um papel eminente – quanto num contexto mais amplo, o destes debates sobre as condições da criação de Freud. Eu já havia investigado a temática do judaísmo em Freud no livro Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias, com o qual Manoel Berlinck inaugurou a Editora Escuta; estava familiarizado com a bibliografia então disponível, e espicaçado pelo desejo de descobrir alguma coisa valiosa neste terreno. Pus-me então em campo, e tive a sorte de encontrar no livro de Alexander Grinstein, Los Sueños de Sigmund Freud, a referência à imagem da Bíblia de Phillippson que motivou o sonho “Mãe querida”. Essa imagem – para minha total surpresa – não ilustra um texto do Êxodo (livro que narra a história dos judeus no Egito), onde seria natural encontrar personagens egípcios, mas... a passagem de Samuel II em que o narrador descreve a reação de David à morte do general Abner, o qual havia se oposto à ascensão dele ao trono hebraico e defendido seu oponente, o filho do falecido rei Saul.

Não é difícil imaginar a alegria do pesquisador diante de tal descoberta. A psicanálise aplicada é um terreno escorregadio, em que é fácil projetar nossas fantasias ou nossos preconceitos sobre o objeto estudado, porque – em seu silêncio obsequioso – ele não pode refutar o que dizemos. Daí a importância de que elementos extraídos de outro lugar venham em apoio da hipótese que sustentamos: eles cumprem um papel análogo ao que, nas ciências naturais, tem a reprodução de um experimento por investigadores independentes. No caso do lapso de Freud, era preciso encontrar provas documentais de que ele conhecia a história do rei David – o que é atestado pela passagem do Moisés e o Monoteísmo a que me refiro no artigo – e também que esta história era, ou tinha sido, relevante para ele, a ponto de a guardar na memória: o uso da figura retirada da Bíblia de Phillippson num sonho de infância tão importante como “Mãe querida” satisfazia esta condição. Assim ficava justificada a inferência de que a figura de David, de cujas palavras ele se apropria de modo truncado na carta 69, faz parte da galeria de heróis semitas da qual Aníbal é o personagem mais conhecido (a famosa história do chapéu de pele de Jakob Freud, relatada na Traumdeutung).

A partir daí, tratava-se de reconstituir – ainda que de modo conjectural – a identificação que eu supunha ter ocorrido no momento em que Freud escreve a Fliess sobre o abandono da sua neurotica. Não vou retomar aqui os passos desta reconstituição, que apresento no artigo; basta dizer que, a dezessete anos de distância, eles me parecem ainda plausíveis. Ela utilizava – numa homenagem implícita – a teoria de Stein sobre a identificação histérica, “a partir de uma pretensão etiológica comum”; com efeito, meu professor havia resgatado esta idéia da Interpretação dos sonhos, e a empregava para dar conta de uma série de aspectos do trabalho analítico, em particular no que se refere à construção da interpretação.

O plano do artigo delineava-se assim com clareza: primeiro, apresentar os elementos que justificavam considerar como um lapso a forma pela qual Freud faz a citação do texto bíblico; segundo, contar brevemente a história de David e de Saul, nela situando a ode fúnebre da qual Freud havia citado um verso; terceiro, reconstituir tanto quanto possível o movimento daquela específica e singular identificação; quarto, mostrar de que modo a censura havia interferido com a reminiscência, elucidando o motivo das transformações que o versículo sofre ao ser recuperado do inconsciente; quinto, ligar este momento da vida de Freud, em setembro de 1897, ao contexto a que pertence – a transferência amorosa com Fliess, de cunho nitidamente homossexual (a referência à amizade entre David e o jovem Jônatas, filho do rei Saul), e o início da auto-análise, na qual Freud irá inocentar seu pai da acusação de sedução. Este movimento de reparação tem uma face pessoal evidente (trata-se da sua rivalidade com “o Velho”), e uma face conceitual – a formulação da tese de que existem fantasias edipianas, primeiro passo para a constituição da noção de complexo de Édipo. Decidir se tive êxito nessa demonstração, ou não, é tarefa que já não compete a mim, mas ao leitor. Só posso dizer, como o noivo de quem Freud fala em outra carta a Fliess, e a quem se pede uma opinião sobre a moça que lhe haviam apresentado: “a mi me gusta”...

Em todo caso, o artigo enfatiza a significação fundamental que Freud atribuía à sua pertinência ao povo judeu, tanto no plano pessoal como na qualidade de motivo determinante para ter inventado a psicanálise. Esta segunda afirmação, tão estranha à primeira vista, se encontra entre outras passagens na carta com a qual agradece à Sociedade Bnei Brit as homenagens que lhe foram prestadas por ocasião de seu septuagésimo aniversário, e que discuto pormenorizadamente no primeiro capítulo de Ressonâncias. Anos depois, ao manusear na Biblioteca do Congresso os documentos do Arquivo Freud, tive a satisfação de encontrar uma lista manuscrita por ele das palestras que deu para esta associação: uma por ano, até 1916, o que não deixou de me surpreender.

Freud não era muito assíduo às reuniões da Bnei Brit – pois havia fundado a sua própria sociedade, seguindo talvez o exemplo do jovem judeu recrutado pelo Exército do Kaiser e cuja história conta em A piada e sua relação com o inconsciente: o sargento alemão, furioso por não conseguir fazer do rapaz um soldado germânico, um belo dia joga a toalha – “Herr Cohen, sabe o quê? Compre um canhão e se estabeleça por conta própria!” Não obstante, continuou por mais de vinte anos a fazer uma conferência anual para essa associação, que, como diz em seu agradecimento, o recebera amistosamente quando todos o execravam. Ou seja, foi na época em que escreveu a carta 69 que Freud decidiu afiliar-se a uma organização cultural e beneficente da comunidade judaica – o que, se não basta para confirmar que no momento em que escrevia a Fliess ocorreu a identificação com o rei David, pelo menos mostra que foi no âmbito de sua identificação com os judeus que ele buscou alívio num momento particularmente penoso em sua carreira e em sua vida. Assim caminha toda pesquisa: como um quebra-cabeças, uma peça vem daqui, outra se encaixa ali...

Uma última observação. O artigo que publiquei na primeira edição de Percurso faz parte de uma linha de investigação à qual, periodicamente, retorno em meus escritos: a que explora os mecanismos de constituição da teoria psicanalítica. Sob o ângulo “freudologia”, o problema de por que foi Freud e não outro que inventou a psicanálise continuou a ser trabalhado em artigos que se encontram em A vingança da esfinge, em A sombra de Don Juan, em Tempo de muda e em Interfaces da psicanálise. Já o estudei partindo da cultura vienense, da questão do judaísmo, da formação científica de Freud, e tenho certeza de que ainda há outros vértices para o abordar. Sob o ângulo “psicanálise de conceitos e teorias”, voltei de modo mais sistemático ao tema em “Metapsicologia/Fantasia”, e, posteriormente, em estudos sobre a epistemologia da nossa disciplina, que também se encontram nas coletâneas mencionadas. Não é possível deixar de me perguntar o que tanto me fascina nesta questão: e, como sempre no trabalho intelectual, há motivações pessoais, algumas das quais podem ser mencionadas em público, enquanto outras...

Uma das razões “inofensivas” é a seguinte: estou convicto de que desvendar o processo de criação de um sistema conceitual contribui poderosamente para evitar um escolho muito sério em nossa formação como psicanalistas – o de idealizar a teoria que abraçamos, e de acreditar que somente ela é verdadeira, com a conseqüente tendência ao fanatismo e à intolerância que caracteriza a crença cega na mensagem de um profeta. Nesse sentido, ter publicado este texto no primeiro número de uma revista que pretendia incentivar o diálogo, o pluralismo e o respeito pelas idéias dos outros assume para mim, retrospectivamente, um forte valor simbólico. Há dezessete anos, os que começamos esta extraordinária aventura editorial em que se transformou Percurso não podíamos prever o alcance que ela iria tomar – mas estávamos seguros de que “era preciso dizer em Gat, e anunciar nos arredores de Ashkelon”, que uma revista psicanalítica não precisa ser dogmática, que é possível e desejável o diálogo com colegas de outras associações e de outras tendências. Vade retro, filisteus!
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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