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Resumo
Uma história de partilhamento de experiência e sonhos entre duas gerações diferentes de analistas. De forma condensada como em um sonho, e diante de um sonho, são discutidas teorias humanas sobre o sonhar, e algo novo chega a ser pensado.


Autor(es)
Tales A. M. Ab´Saber
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise, professor do curso de Psicopatologia e Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública (USP). É autor de O sonhar restaurado – formas do sonhar em Bion, Winnicott e Freud (Prêmio Jabuti 2006).


Notas
1. Lembro que Flávio Carvalho Ferraz, meu irmão de Isaías, num relance, numa troca de olhares, também pegou este momento no ar...


Abstract
Isaías Mehlson, a noted São Paulo analyst, was among the founders of the Curso de Psicanálise in 1977. Many years later, after a clinical seminar in which the author of this paper was a member, Mr. Mehlson told him a dream he had recently dreamed. Mr. Ab’Saber relates the experience of hearing his teacher’s dream to the creation of a brotherhood among analysts of different generations and to the constitution of a tradition in the sense that Winnicott gives to this term. The dream had to do with death, but also illuminates the work Mr. Mehlson accomplished and the battles he had to fight: it is a dream of restoration, he interprets.

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 TEXTO

Um sonho de Isaías

A dream of Isaías
Tales A. M. Ab´Saber


Este texto foi escrito nos dias que seguiram ao relato do sonho. Na semana seguinte ao que se passou entre nós, que apresentarei a seguir, Isaías Melsohn contou o sonho para o grupo do seminário clínico, do qual eu também participava. Dois meses depois, na sessão de homenagem a ele na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em seu discurso, ele novamente contou o sonho para todos os amigos e analistas presentes. Neste momento, já sabendo que eu havia escrito sobre o sonho, me cobrou publicamente o texto. Quando lhe perguntei, mais tarde, se eu poderia publicá-lo, ele disse que sim. Deste modo a contenção e o partilhamento de seu sonho se amplia cada vez mais, incluindo uma grande parte do movimento psicanalítico de hoje como parte de seu continente elaborativo.

Um ano e meio antes de Isaías me contar seu sonho, em um de nossos animados seminários clínicos, em algum momento eu falei algo assim, a respeito da experiência de algum paciente trazido à cena: “As pessoas, quando se aproximam da morte, precisam poder elaborá-la como uma experiência pessoal. As pessoas precisam poder morrer, e fazer da morte uma experiência de quem viveu.”

Evidentemente, era uma profunda concepção de Winnicott que estava por trás daquela contribuição. Também, eu sabia, havia me chamado a atenção uma passagem da correspondência pessoal de Freud: “A partir de uma certa idade passa-se a pensar na morte todos os dias”. Tudo isto vinha de meu preferido estudo da morte, na vida da cultura – meu mestrado sobre a presença da morte no cinema brasileiro –, a morte em vida – Adorno –, da famosa pulsão negativa da psicanálise, e em vários outros lugares...

Então eu realmente me surpreendi, e creio que ele também, com a viva reação de Isaías:

“– Como assim?
– Sim... a nossa cultura tendeu a retirar a morte de uma esfera possível de significação, de simbolização... no entanto, preparar-se para a morte pode ser uma grande realização humana... que torna tanto a vida restante, quanto a própria morte, algo significativo para aquele ser... São importantes, verdadeiramente sublimes, as últimas obras dos grandes artistas que refletem sobre a morte, temos isso no Beethoven e os seus quartetos, no Machado de Assis, ou em um cineasta como o John Huston... Os críticos chamam essas experiências da forma diante da morte de estilo tardio. Claro, isso tem a ver com quem já viveu, é uma elaboração que só pode vir da vida, de quem, de alguma forma, pode fazer a recolha da vida para a experiência da morte...”

Então Isaías falou, para mim e para todos os presentes no encontro:

“– Porra, eu não quero nem saber da morte, eu, que estou próximo de morrer, não quero nem saber dela...”

E me olhou espantado, como se aquilo fosse uma descoberta de si mesmo, que, por um lado, podia significar a invalidação daquelas idéias longínquas, talvez abstratas, e por outro significaria um limite pessoal, uma impossibilidade apanhada no saber do encontro e de si mesmo... E assim ficou a nossa conversa, no ar de uma matéria ambígua [1].

Então, mais de um ano após aquele encontro, em uma tarde de fevereiro de 2002, após sairmos de um seminário clínico bastante feliz, em que ficara claro como a água a proposição psicanalítica do Isaías para todos os presentes – diante dos muitos obstáculos que se impuseram ao encontro significativo de analista e paciente, e então, do súbito descongelamento da poesia humana, que encontrou um caminho através da analista, para poder advir em possibilidades de vida –, ao final do trabalho, quando íamos, por acaso desta vez só nós dois, para o nosso cafezinho, onde costumávamos trocar algumas questões de maior intimidade, sobre a história da psicanálise, as possibilidades de criação em psicanálise, e a vida... então quando caminhávamos para a padaria da esquina do bairro de Pinheiros, Isaías refletindo, com uma certa gravidade, de algum modo rara nele próprio, me falou mais ou menos o seguinte:

“– Eu estava pensando... eu tive um sonho... eu estava pensando se eu poderia trazer um sonho meu para o nosso seminário... eu não sei... é que aí eu teria que apresentar coisas íntimas...

Então eu lhe disse, interessado:
– Você pode apresentar apenas a região do sonho que seja útil para o que você quer pensar, Isaías, aquilo que você quer nos mostrar, como o Freud fazia...

– Sim... mas aí se perderia... veja o sonho foi assim...”

Então percebi que estávamos diante de um momento importante. Para mim aquilo era o horizonte possível da irmandade entre gerações diferentes de psicanalistas, vivendo juntos a experiência viva do inconsciente – embora Isaías não gostasse nada nada do que foi colocado concreta e epistemologicamente no interior de tal termo – tratava- se de algo com que eu mesmo, em minha forma de conceber a psicanálise, sempre sonhei.

Por um segundo pensei nos riscos que eu também poderia correr, quando me lembrei, num flash, que um dos pontos encarnados da ruptura de Freud e Jung foi exatamente a recusa de Freud em contar um sonho para o discípulo, sob o risco – no modo de ver do primeiro psicanalista – de se configurar ali uma análise, e Freud se sentir à mercê, amorosamente, daquela relação tão intensa... Em nome de sua autoridade, Freud se recusou a contar um sonho, que, em algum momento, ele teve mesmo o desejo de contar para Jung. Mas, felizmente, Isaías não era Freud, e eu, definitivamente, não sou Jung. Agora, ao escrever, me lembrei também das análises em caminhadas, tendo a vida como setting, durante as férias, de Ferenczi com Freud... Fiquei feliz por estar presente neste sonho.

Curiosamente, naquele mesmo dia, eu havia me lembrado dos sonhos que eu tivera com meus mestres psicanalistas, Gilberto Safra e Renato Mezan, cada um elaborativo de aspectos importantes do meu ser analista, e que eu também sonhara com o meu terceiro mestre, este Isaías, que me recebera com mais afeto do que eu jamais fora recebido em alguma região da vida psicanalítica, e me lembrara, exatamente naquele mesmo dia, que o sonho com o Isaías eu não conseguia lembrar, eu apenas sabia que sonhara com ele, mas este sonho, até segunda ordem, deveria permanecer para além da minha capacidade de nomeá-lo...

Agora eu adentrava, com o Isaías, um dos mais belos sonhos, que eu já sonhara. Ainda caminhando pela rua, para chegarmos à esquina onde o cafezinho aguardava, ele me contou:

Eu estava descendo uma montanha, era uma montanha cheia de árvores, longa, e eu descia, vários patamares... havia uma clareira, meio circular onde se podia parar por um instante... nesta clareira, havia pessoas, colocadas à distância umas das outras, uma aqui, outra ali, outra lá, entre elas havia espaços... elas estavam imóveis, paradas... eram os meus colegas de turma...

E eu: “– Da faculdade?”
Ele: “– Sim, da faculdade...”
Eu: “ – ... Eles estavam parados como estátuas?”
Ele: -“Imóveis... como... peças de xadrez... agora me ocorreu uma outra conexão do sonho, depois te conto.” E prosseguiu:

Eu parei diante deles... havia uma estrada que vinha por trás de mim, por onde vinha um outro colega de turma, o Bicudo, ele passava... depois eu estava em outro lugar, uma casa, meio rural, meio sítio, onde eu encontrava um homem, e ele me mostrava a casa, uma casa cheia de objetos que ele guardava, e ele me dizia que queria ir para a cidade, sair daquela vida meio parada do interior, então ele queria comer chocolate, e havia dúvida se ele devia ou não, se faria bem para ele ou não... aí eu estou numa condução, parece meio faroeste, ela vai me levar, e a condução pára num ponto e tem quatro mulheres jovens, meio vestidas de faroeste, e elas querem entrar, e eu penso que não vai haver lugar para elas ali... então eu encontro uma pessoa, e peço amendoim, e ele me dá frutas...”

Agora já estamos tomando o café. Isaías me pergunta: “

– O que você achou?”
Quase ao mesmo tempo, os dois falamos: “– É um sonho de elaboração da morte!...”

Então ele me conta as várias associações que já havia feito sobre o sonho. E em meio a elas, uma que seria importante em nossa conversa, uma piada (uma comunicação importante do Isaías tinha necessariamente que envolver uma piada), a piada do “mas que caralho você quer?”.

“– A ninfomaníaca americana vai viajar para Pompéia. Dizem para ela, lá tem muitos homens, você vai escolher à vontade. De fato, chegando lá, ela vai subindo uma ladeira, e ao lado de cada porta tem o desenho do pênis, do tamanho do homem que ela pode encontrar dentro da casa... e ela vai subindo e avaliando, este não, quero um maior, e vai subindo, e subindo, até que chega no final e ela não está satisfeita, aí um italiano que acompanhava fala: Ma che cazzo tu vuoi? Que caralho você quer, porra!”

Isaías fala também dos aspectos mais evidentes do sonho. “Os amigos dispostos como num Xadrez são amigos mortos, muitos já morreram, poucos ficaram, como eu e o Bicudo... ele foi pediatra dos meus filhos, hoje é dos filhos dos meus filhos... ele participou de um evento que me deu muita raiva, na faculdade, e de uma briga com um professor muito forte, intenso, quase violento... também quando eu entrei na faculdade eu não sabia ter a agressividade e brigar, eu ia no time de basquete da faculdade e olhava os colegas com aquela agressividade, aquela ira, e pensava, meu deus como vou participar disso, eu não tenho isto, eu não sou assim, eu queria participar como numa irmandade... Também o jogo de xadrez em que estão as peças, que são os colegas mortos, me lembrou, agora, o filme do Bergman, profundo, em que a morte vem jogar xadrez, como era o nome?”

“– O sétimo selo... curioso, Isaías, que ao longo da sua vida você se tornou um brigão, na psicanálise, você briga pelo seu pensamento...

– Sim, eu brigo contra a instituição psicanalítica...

– É como se, ao longo da sua vida, você pudesse adquirir aquela agressividade necessária, aquela que vale a pena lutar, pelo próprio pensamento, a própria forma... Até culminar recentemente no artigo do Bento Prado Jr. que posiciona você, como uma peça de xadrez, entre grandes nomes do pensamento e da psicanálise, e termina comentando a sua briga com o International Journal of Psycho-Analysis.

– Sim, ele me dá um lugar de destaque na história! Como se eu resolvesse um velho problema, intuído e trabalhado por muitos, mas que ganharia uma solução boa no meu trabalho... e eu tenho um pai e uma mãe, que são a Susan Langer e o Cassirer... e ele termina comentando, sobre o artigo recusado na International Journal, que o belo livro de agora traz simultaneamente a censura e o censurado...

– É como se você tivesse dado um xeque-mate na briga que moveu a sua vida, e no xeque que a instituição te deu, na visão do Bento o livro superava isso tudo... Eu acho, Isaías, que os amigos de geração são também o estrato humano e histórico que te acompanhou, sem o qual você não seria quem é, e que quando estamos próximos à morte sonhamos também a presença de nossa geração humana, nossa passagem histórica em nós... Um sonho do Winnicott, sonhado muito próximo da própria morte, que estudei no doutorado, lembrava também os amigos da juventude, que já haviam morrido, e era também um sonho de elaboração da morte...

– Os antigos diziam que o sono era como uma morte, e Freud chega a tocar nisso... eles estavam errados, o sono é vida... agora, um sonho pode ser a morte... O Binswanger escreveu um livro Rêve et Existence, onde o sonho elaborava amplamente a vida, aí o Foucault veio e disse sobre ele, o sonho não deve falar da existência, ele é a existência...

– O sonho é uma experiência profunda, que se vive...

– É isto que devemos lembrar sempre...”

Isaías continuou o percurso do sonho:

“– O homem da casa do sítio, que sou eu, quer voltar para a cidade, quer viver a vida intensa, não quer ir naquele percurso... eu fui ao médico recentemente, ao acupunturista, queria curar uma dor ciática que eu tenho, mas houve um desgaste do osso, e não tem jeito... noutras palavras, eu tenho 82 anos, porra! Ma che catso tu vuole? Caralho, tem 82 anos e quer voltar para a vida!... então as quatro meninas são isto, o amor, trepar, o desejo de uma vida sexual, que na minha idade já está esmaecida, mas eu quero... então, peço amendoim... e me dão frutas: toma o fruto da sua vida, se enriqueça do que você fez e do que você tem... É um sonho de restauração.”

Agora percebo que, de fato, em parte o sonho foi também, um pouco, sonhado para mim, do mesmo modo que sonhamos sonhos para nossos pacientes ou pessoas queridas. Como sua comunicação profunda faz efeito em mim, também a minha tese, que Isaías por vezes comentava elogiosamente, embora eu saiba que ele não a leu, embora pareça tê-la mesmo sonhado, e conhecer bem, conhecimento que talvez tenha adquirido no dia da defesa, em que ele me deu a honra de estar presente – momento mágico de minha vida em que presenteei com meu trabalho, o Gilberto, o Renato e o Isaías e ainda meu pai, meus quatro meninos... enfim, minha tese se chama O sonhar restaurado!

Além disso, me parece impressionante o comentário sobre “os antigos diziam que o sono era como uma morte, e Freud chega a tocar nisso...”, esta passagem de Freud, muito sutil, apresentada em O futuro de uma ilusão, foi um dos momentos freudianos mais estudados por mim em meu trabalho, aquele em que Freud diz que “aquele que dorme pode ser tomado por um pressentimento de morte, que ameaça colocá-lo num túmulo”, e em seguida transforma tal imagem da morte na imagem rica de um sonho. A esta passagem freudiana dediquei alguns anos de minha vida, e agora, em nossa conversa de sonho, Isaías a evoca espontaneamente, sem dificuldade alguma, em meio a gigantesca obra freudiana ele se recorda exatamente daquilo que é o meu sonho mais íntimo de Freud.

Neste ponto, a meu ver, a conversa anuncia um saber novo, e que agora habita o self psicanalítico de Isaías... Trata-se do sentido do sonho de elaboração da morte, origem de toda esta conversa de sonhos, e da refinada observação de Isaías, desde quem já pôde sonhar a própria morte: pode-se morrer em sonho...

Fiz ainda um comentário: “A ninfomaníaca de Pompéia, da piada, sobe, sobe e sobe, e que catso ela quer... no seu sonho você, desce, desce e desce, passa pelas quatro mulheres, ainda quer vida amorosa, aos 82 anos... mas que catso você quer, Isaías!”

De repente Isaías se percebeu atrasado, precisava encontrar dona Hinda... A vida é assim. Ainda agora, antes de descermos, no elevador, ele me dizia, com a música do afeto que ele sabe comunicar tão bem: “– Eu disse a ela que ela é mais importante do que as coisas que tenho que abrir mão...”

Enfim, voltamos para o prédio, onde o motorista o esperava. Falei-lhe, ainda rapidamente, do sonho que Sócrates descrevera no Fédon, de compor uma música antes de morrer, e do próprio diálogo platônico como a elaboração dos discípulos, da morte do mestre. Ele lembrou-se da República, onde Platão fala dos sonhos atormentados, com excesso de sensorialidade mundana, e do sonho apaziguado e profundo que, então sim, é uma revelação do sentido verdadeiro de algo...

Lembrou ainda, por um segundo, o modelo de sonho de Heráclito, das sucessivas ondas de uma pedra que é jogada na água... e de um outro grego: o sonho como a matéria viva e impalpável de um fogo.

Então nos despedimos, e ele fez um último gesto. Com seu rosto feliz e plácido, de quem havia vivido e conhecido a vida, falou, para mim, e para além de mim, sonhando: “Tchau, meu filho.” Desde então, passei a meditar mais profundamente sobre o sentido da comunicação de Winnicott, que está por tudo nesta minha historinha com Isaías, de que é muito difícil para um homem morrer, sem que tenha tido um filho para sonhar a sua morte.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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