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Resumo
Neste número, em que resgatamos a história da nossa instituição e da nossa revista, a Comissão Editorial decidiu incluir este texto, que examina alguns mecanismos ideacionais e afetivos do processo criativo.


Autor(es)
Anne Denis
é psicanalista, licenciada em Filosofia e Psicologia. Publicou, entre outros artigos: “Les actes parlent plus haut que les paroles” (Paris, 1987 e Genebra,1997); “Les vacances de Hegel” (Bruxelas, 1992); “Temporality and modes of languages” (Londres, 1995 e Roma 1999); “Géométrie de l’antipsychique” (Paris 1999); “La condition temporelle” (Paris, 2000); “Construct” (Paris 2002); “Pulsion et sonorité” (Paris 2005).


Notas

1. S. Freud (1923), p. 230

2. Dalal al-Din Rumi, poeta místico persa traduzido por Ruckert.

3. S. Freud, Carta a Fliess de 9 de junho de 1898.

4. A. Green (1993), pp. 289-345.

5. A Green. (1993), p. 110

6. T. S. Kuhn (1983), p. 114

7. R. Thom (1984), p. 118

8. A. Berman (1984), p. 1930

9. M. Serres (1969), pp. 28-30

10. P. Fedida (1995), p. 31

11. Goethe, citado por Hugo von Hofmannsthal no Livro dos amigos, “Maren Sell”, 1990, p. 41

12. F. Pasche (1988), p. 218 ∗ Nota do Revisor: utilizamos aqui a tradução proposta por Luis Cláudio Figueiredo para a Verleugnung (désaveu).

13. P. Fédida (1995), p. 44

14. Loc. Cit. capítulo III

15. A. Denis, Geometria do antipsíquico, spp@ssp.asso.fr, propostas teóricas

16. S. Freud (1923), p. 205. A distinção entre o ideal do ego e o superego não é feita neste momento por Freud.

17. Loc. cit., p. 207

18. Op. cit., p. 207

19. O superego, neste caso, desempenha um papel similar àquele que Freud lhe atribuía no final de sua vida no Resumo. Ele é então considerado o regulador das relações entre o id e a realidade, tendo tomado a função atribuída anteriormente ao ego. Na sublimação, o superego dita a submissão à atração de uma verdade que se situa em um ponto de fuga que deve ser atingido renunciando às formulações prematuras que se apresentam.

20. Loc.cit., p. 319

21. S. Freud (1938), p. 288.

22. S. Freud, Carta a Fliess de 5 de maio de 1900, p. 283.

23. S. Freud, Carta a Fliess de 18 de fevereiro de 1989 O trecho citado por M. Schur (1975), p. 236, não é retomado em O nascimento da psicanálise.

24. Groupo μ (1982), p. 16.

25. M. Merleau-Ponty (1960), p. 71 (grifo nosso).

26. G. Dumur, Stael, Flammarion, 1975, p. 37.

27. R. Char (1985), p. 758. Não se sabe se se trata da rã de pia de água benta ou daquela que quer parecer tão grande quanto um boi. [No sentido de fazer-se passar por alguém ou algo maior do que se realmente é.]

28. St. John Perse, Oeuvres complètes, Gallimard, p. 1072.

29. Schiller, O mergulhador. “Que ele se regozije / Aquele que respira na luz rosada / Pois lá, no seio das águas, reina o terror. / E o homem não deve tentar os deuses, / Nem jamais desejar ver / O que sua clemência nos esconde na noite e no terror.”

30. S. Freud (1925), p. 125

31. Ver Rosenkavalier, Catalogue de la Monnaie, S.W.I.F.T., 1986.



Abstract
What are the intellectual and affective mechanisms at work in the process of creation? Anne Denis suggests here that they have something to do with the action of the death instinct, because it operates in a counter-narcissistic direction both in relation to the ego and to internal objects. Creation necessitates some desidentification from prevailing imagoes. The theory that all psychoanalysts inherit from and accept must be made one’s own, customized as it were, in order not to block original thought – and sublimation depends, in part, of this process of separation, which can attain the level where drives disintricate from each other.

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 TEXTO

A sublimação e a reconquista da herança

Sublimation and the claim of an heritage
Anne Denis


Tradução:
Nora Habert
Revisão Técnica: Ana Helena de Staal e Renato Mezan

De nobis ipsis silemus: De re autem, quae agitur,
petimus:
ut homines omnes eam non Opinionem, sed Opus
cogitent;
ac pro certo habeant, non Sectae nos alicujus, aut
Placiti, sed
utilitatis et amplitudinis humanae fundamenta moliri.


O texto de Francis Bacon, extraído da Instauratio magna, figura na primeira página da Crítica da razão pura, antes da carta de Kant endereçada ao ministro de Estado do Rei. Este texto começa com uma frase de quatro palavras: “De nobis ipsis silemus”. “Sobre nós mesmos, nos calaremos” ou, “não falaremos de nós” (em todo o caso, não do nosso ego, “servil, oportunista, falso” [1], este “obscuro tirano” [2] ). Em contrapartida, pedimos que o objeto (De re) que nos conduz (forma passiva: agitur), o objeto dos nossos pensamentos ou o pensamento que é nosso “objeto”, possam ser reconhecidos (cogitent) pelos homens como uma obra (Opus), isto é, nem ideologia (Sectae), nem fantasia (Placiti), mas esforço (moliri: movimento e esforço penoso) para colocar os fundamentos de uma contribuição útil, que faria crescer a humanidade (utilitaris et amplitudinis humanae fundamenta).

Toda obra nasce da fé (diz Bion); ou do instinto (diz Peirce). O imenso trabalho, lento, obscuro e doloroso que ela exige (“a tensão devida à incerteza provoca um medonho estado de desconforto, que se sente quase fisicamente” [3]) é contrabalançado pela força libidinal graças à qual toma forma. No entanto, seja qual for o domínio ou a disciplina a que se dirija o olhar, somos obrigados a constatar que as descobertas do ser humano sofrem o mais arcaico destino pulsional: a transformação no contrário. A obra feita a favor da civilização torna-se ameaça de destruição da civilização. Qualifica-se geralmente este fenômeno de efeito perverso, subentendendo que a descoberta é boa, mas que sua utilização foi errônea: o que é relativamente tranqüilizador. No entanto, diante do tamanho do fenômeno, do seu caráter geral, podemos pensar que é no próprio coração da teoria, na sua construção mesma, que se esconde a pulsão de morte.

Em primeiro lugar, convém levar em conta que a pulsão de morte está presente (para aqueles que não a negam) na entidade teórica do psiquismo estabelecida por Freud, mas igualmente na ação particular deste mesmo psiquismo no processo de sublimação, por meio do qual as descobertas científicas e todas as obras humanas podem surgir [4]. Se considerarmos que a pulsão de morte faz necessariamente parte dos elementos psíquicos de uma descoberta (a pulsão de vida, evidente, não constitui problema), deve-se admitir que toda e qualquer teoria traz em si os germes destruidores da civilização.

Uma epistemologia transgeracional

A pulsão de morte, moção pulsional da descoberta ou da obra, age de duas formas ao mesmo tempo: como movimento antinarcísico dirigido contra o ego, que se torna “instrumento” de sua obra (Valéry), e contra os objetos intrapsíquicos: “deserção”, diz Saint John Perse, ou desidentificação em relação às imagos. A regressão do pensamento em direção às profundezas informes do id acarreta uma disjunção pulsional seguida de uma religação (em outro lugar, e de outro modo) num novo objeto psíquico, que é a própria obra. No entanto, neste meio tempo a psique deverá sofrer e conter toda a energia desprendida da desfusão pulsional – e tudo isto, esta desestruturação da psique no seu mergulho em direção ao id, ocorre com um “pobre” ser humano, epíteto utilizado por Freud, e também por Nicolas de Staël.

Ora, o que é objeto psíquico para quem o cria, com a carga pulsional antagonista e em seguida agonista, com a abertura formal de caminhos (figurativo e representativo) realizada por ele, torna-se, para as gerações seguintes, um objeto real: objeto de conhecimento, externo a si, e cuja apropriação se faz por identificação, em medida variável, mas sempre inevitável. Se a teoria atual afirma que “a identificação se opõe à representação” [5], a identificação seria também um obstáculo epistêmico. A teoria como fator identificatório em jogo dispararia um movimento entrópico que a “proliferação cancerosa das idéias”, segundo a expressão de Bion, tentaria mascarar.

É necessário voltar-se para a epistemologia para compreender que o paradigma científico se torna “inerte”, imutável apesar das anomalias constatadas [6], que é necessária uma crise (Kuhn) ou uma catástrofe (Thom) para que ele reencontre “seu próprio objeto natural” sem “pseudo-soluções” [7]? E, se é preciso uma crise para que haja mudança, isso não seria reconhecer a ação silenciosa da pulsão de morte sobre as teorias, quando estas não são objeto de um trabalho de regressão que garantirá a própria reconquista delas? A inércia do paradigma é produto da pulsão de morte quando esta não é utilizada para a reconquista da herança epistêmica, ou para uma formalização do desconhecido.

Podemos supor que este avatar transgeracional da teoria vale para todas as disciplinas e obras do espírito, e que cabe à psicanálise, mais do que a qualquer outra disciplina, conceituar nele os efeitos destruidores, e, se possível, providenciar os devidos remédios.

O problema foi abordado pelos epistemólogos, mas também pelos tradutores (Berman e Schlegel), referindo-se às obras literárias: a tradução como movimento crítico que permite ao mesmo tempo arrancar a obra “da sua empiricidade primeira” e “como condição de possibilidade da obra futura” [8]. Da mesma maneira, o problema foi abordado do ponto de vista da história da filosofia, por Michel Serres: a “lei da entropia” da idéia (que se torna “ruído”) seria evitada pela preocupação histórica, a qual permitiria remontar à fonte do conceito, lá onde ele é mais verídico e menos deformado [9]. Observamos que esta concepção da pura verdade conceitual originária não é a dos tradutores: a preocupação historicista impediria, ao contrário, liberar o conceito do invólucro de sua “característica empírica primeira”.

Em psicanálise, é preciso constatar que a historicidade nem sempre é sinônimo de neguentropia, e a razão disso é que o que está em jogo não é a degradação da idéia ou do conceito (apesar de haver efetivamente conceitos como a sexualidade, e a atenção igualmente flutuante, que não são mais unanimemente honrados), mas antes o valor pulsional que a sustentava na origem. É então que há ideologização – como fenômeno de modificação dos valores, que podem ser estáveis na sua formalização ideal, e, no entanto, significar profundas transformações no que chamamos uma “concepção do homem” [10]. Mas a causalidade desta modificação de valores, que tem como efeito conservar uma formulação ideal que perdeu seu sentido original, encontra- se também na cultura ambiente: “Assim como o crepúsculo e a noite, nos quais as formas se unem, engendram facilmente o sublime, o dia, ao contrário, que desune e separa tudo, o põe em fuga; e assim é preciso que o sublime seja aniquilado por toda civilização que cresce, se não tiver a felicidade de se refugiar e de entremear-se a ela intimamente, o que os torna igualmente imortais e incorruptíveis” [11]. É Goethe que Freud evoca nas últimas linhas de sua obra: “O que teus antepassados te legaram como herança, se o quiseres possuir, conquista-o.”

Nesta perspectiva, a reconquista da herança parece ter que ser elevada à categoria de um princípio epistêmico; implica que o trabalho de sublimação original da teoria seja retomado pelos herdeiros, o que supõe sua anterioridade em relação a qualquer instituição, e uma fidelidade em relação ao absoluto original, fonte de qualquer criação, que só se atinge se renunciarmos a tal absoluto. Mas, se a reconquista da herança se faz pela sublimação, a psicanálise em sua prática deve poder chegar a analisar a evitação fóbica do sublime e sua relação com o que F. Pasche denomina “denegação das angústias arcaicas” [12]. Eu veria nisso, porém, mais uma desautorização∗ concomitante à cisão, pois há um resto de conhecimento inconsciente próprio ao désaveu que explica a ambigüidade, da qual trataremos adiante, entre evitação e busca da sublimação.

Se a herança teórica não for reconquistada por um trabalho de sublimação cumprido pelas gerações seguintes, com seu próprio pensamento teórico e sua própria prática, o que se perde é o sentido mesmo da descoberta, com o que sua utilização se torna insignificante. Todos os avatares epistêmicos devem então ser temidos. O modelo de pensamento pode tornar-se um sistema de pensamento: há mentalização, no sentido de Winnicott, e fechamento dos processos. O trabalho de abstração do pensamento, que evidencia uma estrutura causal explícita ao vincular entre si os elementos de uma configuração existencial da qual ele se destacou (por uma sublimação a partir da estrutura implícita), é substituída por ligações de conceito a conceito, isto é, de um já-pensado (nomeado) a um outro já-pensado (nomeado). Os fenômenos são desta forma interpretados numa estrita referência ao paradigma existente, limitados ao conteúdo, e a teoria desempenha o papel de um Ideal do Ego externo, como se os limites narcísicos congelados precisassem ser ainda reforçados pela referência a um modelo supostamente exaustivo e acabado. E se o Ideal do Ego for assim projetado e garantido pela teoria, não estamos mais na área científica, mas no ideológico e no nominalismo. O fato de que toda observação de um fenômeno é theory laden, carregada de teoria, pode ter como resultado que somente seja visto o que o modelo nos diz para ver, e que o detalhe incongruente seja afastado, quando muitas vezes está carregado de sentido. É a razão pela qual a observação, na prática psicanalítica, não convém: é pela atenção flutuante que a referência teórica consciente é afastada.

Pode acontecer também que a teoria se reifique: ela é o real, e não seu modelo. Na psicanálise, o realismo epistemológico teria como único efeito a desubjetivação, pois substituiria à existência subjetal um modelo reificado, no qual a significância referencial substitui o sentido – e o destrói. É preciso, por outro lado, extrair uma lição dos poderes totalitários em política: neste caso, a idealidade de massa sempre é acompanhada pelo recurso ao realismo (na pintura soviética, por exemplo). Quando se instala, sob forma de idealidade, um Ersatz da realidade (psíquica ou social), o recurso ao real se impõe como um peso ou um lastro. Os processos psíquicos são surreais: psicose e somatose são provas a contrario disso. Por uma espécie de enigma, análogo ao do tempo, é libertando-se do realismo que o pensamento esposa a realidade.

Os demais avatares epistemológicos são conhecidos, mas não necessariamente dominados: a teoria torna-se instrumento de poder para aquele que não percebeu, por um trabalho próprio de sublimação, o valor libidinal original originário dela. Enquanto no espírito de quem inventa a teoria ela é um aporte do indivíduo à humanidade, simples necessidade interna de transmitir “como uma tocha que se passa de mão em mão” a cultura como expressão e como traço transgeracional do que a humanidade tem de melhor, a teoria pode inverter-se (em todos os sentidos da palavra) em domínio. A utilização da teoria se faz então sobre a forclusão do assassinato do pai “como ídolo” [13]; e, em psicanálise, o recurso incessante a Freud parece, bem mais que um luto impossível, “o esquecimento do assassinato na psicanálise” [14]. A idolatria mascararia então, ao mesmo tempo, o assassinato e o reconhecimento da superioridade sexual do pai criador sobre seus herdeiros. Mas estaríamos nos chocando aqui, como no delírio, com uma “verdade histórica?” Podemos nos basear na clínica dos filhos psicóticos, que revela a verdade histórica de um pai-deus, um pai ideal. Freud, como pai ideal, seria produto não de uma verdade histórica a respeito de sua pessoa psicopatológica, mas produto da instituição psicanalítica, cuja verdade histórica seria uma idealidade instaurada imediatamente pela análise didática, isto é, uma psicanálise que objetiva ensinar, com sua representação de alvo consciente – e antagônica à não-intencionalidade de todo verdadeiro pensamento. A força de atração não pode tomar atalhos, mesmo quando a proposta parte da própria instituição. À falta de uma melhor teoria e de uma melhor prática das moções sublimatórias do psiquismo, permitiu-se o desenvolvimento da idealização, que oferece, em relação à sublimação, a vantagem incomparável de ser não-pulsional. A pulsão retornará – na crise.

Mas a teoria, a prática ou a instituição que se auto-idealizam só podem produzir o mesmo: a homossexualidade primária segue pari passu com a repetição. Se, neste caso particular o objeto teórico desemboca na perversão, quando o modelo se torna realidade estamos na psicose: o modelo incompleto e inacabado por definição, que comporta necessariamente erros ainda desconhecidos, sem falar em seus pontos cegos, é considerado como real. Podemos então falar de uma neo-realidade teórica, da qual a ficção representacional fica abolida: a heterogeneidade entre a ordem da vida psíquica e a ordem da representação não é mais mantida, e a congruência entre as duas, sempre pontual e improvável, é considerada como automática, tendo como conseqüência um dobrar-se da “representação” sobre a vida psíquica que evoca a imagem da peça-cortante sendo aplicada ao tecido. Há apagamento da distância entre o psiquismo e o representacional, com o que desaparecem tanto um como o outro, em proveito de uma automatização da psique que parece ser de fato o princípio mais freqüente de toda evolução individual: a existência de um sistema de pensamento antagonista da representação é uma das conseqüências da clivagem do Ego, com a desautorização sendo atribuída a toda forma da sexualidade que implique o negativo. O antipsíquico [15] é uma defesa contra a própria representação, por causa de seu vínculo constitutivo com a moção pulsional, a qual desencadeia inevitavelmente um movimento que desorganiza o princípio da inércia. A substituição econômica, que consiste em pensar horizontalmente, sem regressão do pensamento, suprime a perlaboração contínua exigida pela vida psíquica, mas podemos ver nisso também uma manobra narcísica de fechamento, feita para negar que a ordem da vida excederá sempre a ordem da representação.

A fúria da idealidade

O Ideal do Ego como “convergência do narcisismo (idealização do Ego) e das identificações aos pais” (Laplanche e Pontalis) é portanto narcísica e identificatória. Ora, a sublimação, da qual falaremos em seguida, parece hoje constituir um movimento psíquico exatamente inverso à idealidade: seria antinarcísica e desidentificatória. A crítica da idealidade faz parte dos pensamentos latentes de Freud em “O Ego, o Superego e o Ideal do Ego”, terceiro capítulo de O Ego e o Id, publicado em 1923. Nesta obra, Freud anuncia que a psicanálise já está em condições de estudar o que há de “sublimado e elevado na alma humana”, e de abordar “a essência superior” que há no homem: ela não é outra, diz ele, que “o Ideal do Ego, o Superego” [16]. Freud insiste por duas vezes que o mais elevado é o mais profundo, e que os dois podem ser inconscientes. Mas o modelo do Ideal do Ego é construído excluindo a ciência e a arte (“aqui deixamos de lado a ciência e a arte”) [17] e o que constitui o conteúdo do conceito do Ideal do Ego são os fenômenos psíquicos de religião, de moral, e os sentimentos sociais.

A primeira observação que fazemos é perguntar qual seria o modelo teórico capaz de explicar a ciência e a arte, que não estão compreendidas sob o conceito de Ideal do Ego (e, é claro, pensamos na sublimação), cuja conseqüência seria que o Ideal do Ego, pela sua origem e pelo seu território, não pode produzir nem ciência nem arte.

Outra observação que retiramos da leitura do texto é que Freud acaba confessando, de certo modo, que não acredita no caráter elevado do Ideal do Ego. Pois, após ter declarado que a religião, a moral e o sentimento social são “os três elementos fundamentais da essência mais elevada do homem”, e ter sublinhado que os sentimentos sociais “repousam sobre identificações com outros membros da coletividade que possuem o mesmo Ideal do Ego”, ele vai falar de formação reativa, de hostilidade e homossexualidade na origem das identificações do Ideal do Ego.

Finalmente, última observação, não se estabelece qualquer distinção conceitual entre identificação e sublimação, o que explica a continuação da fúria: “A luta furiosa nas camadas profundas, sem poder terminar numa sublimação e identificação rápida, continua doravante – como a batalha dos Hunos na tela de Kaulbach – numa região superior” [18]: fim do capítulo sobre o Eu ideal.

Freud constatou um dia que estava tão acostumado pela sua profissão a dizer a verdade, que quando tentava mentir se dava muito mal, e acabava sempre cometendo um ato falho ou um lapso. E é esta reflexão que vem à mente quando lemos suas considerações sobre o Ideal do Ego. Pois a virada do texto, após ter colocado a essência superior dessa instância, assemelha-se a um retorno do recalcado: “como a hostilidade não pode ser satisfeita, surge no seu lugar uma identificação.” E a mesma palavra “hostilidade” volta em 1937, quando evoca os efeitos Roentgen.

A sublimação

Se o ideal parece uma manobra ambígua (uma formação reativa), e se a ciência e a arte foram descartadas da teoria do psiquismo estabelecida por Freud, é necessário e oportuno complicar o modelo para integrar nele o sublimado e o sublime que fazem parte das noções pulsionais da psique. A psicanálise aplicada às obras de arte oferece aqui poucos recursos: ela se liga às representações subjetais em relação com suas aparições numa obra, mas o processo da criação e da execução da obra (a existência da tela, do poema, da composição musical ou da descoberta científica) é ora desconhecido, ora explicado por uma teoria que o excluiu.

Se tentamos entender o processo de sublimação tal como foi descrito por aqueles que o praticaram, destaca-se uma configuração de elementos psíquicos: força pulsional (pulsão de amor e pulsão de morte), honestidade absoluta [19], regressão aquém do princípio do prazer (e portanto desligamento), desidentificação e em seguida surgimento de um objeto psíquico nem interno nem externo, nem mesmo transicional: a obra ou a descoberta não são mais, como o objeto transicional, uma possessão do Eu. Pois, se há uma função objetalizante operando na sublimação (como escreve Green) [20], o objeto criado se diferencia do objeto transicional, desprende-se do Ego, não é de ninguém, e é de todos: “Die Niemandsrose” (A rosa de ninguém, Paul Célan). É por isso que passar do objeto transicional infantil à cultura, como fez Winnicott, parece ser mais uma extrapolação. Embora se trate, no objeto cultural como no objeto transicional, de um investimento de objetos não-humanos, o objeto cultural – a diferença do transicional – não pode ser possuído (salvo em estruturas narcísicas). Sua função é similar à do sonho: dá luz a moções latentes. Mas a felicidade que proporciona, diferentemente do sonho, é como uma composição explícita, que permite encontrar uma relação harmônica entre o mundo interno profundo e o mundo externo. Graças a esta composição (pictural, musical ou interpretativa), o ser humano pode reencontrar, indiretamente e pontualmente, o estado de união originário (Freud, Winnicott, Bion) entre o interno e o externo. É por isso que esta composição “reconcilia” (esta palavra aparece tanto em René Char quanto em Nietzsche).

Além disso, a cultura que veio de objetos próximos e longínquos, vivos ou mortos, e que nutriu as pré-concepções psíquicas, carrega sempre o traço da negatividade dos objetos que as trazem, e veicula, por conseguinte, este elemento de gratuidade que a metáfora da rosa ou da flor representa para os poetas, e às vezes nas sessões de análise. Chegamos a pensar que aquilo que constitui o psiquismo são respostas objetais sublimadas das quais “o amor apagou seu nome”.

O processo de sublimação, tal como é descrito nas literaturas não-analíticas e na correspondência de Freud com Fliess, permite avaliar as forças pulsionais em jogo na origem de uma obra, e a paciência conservada até sua transformação em novos processos psíquicos. Pois a nova formalização, que provém da “obscura autopercepção do reino exterior ao Ego, o Id” [21], procede também da obscura autopercepção de um “ponto a atingir e a não perder” (Breton). Este ponto exerce sua força de atração e dá uma direção ao processo, recusando toda representação “prematura” (Proust).

Ele é similar ao ponto de perspectiva, ou ponto de fuga, a partir do qual é organizada a composição de um quadro. Aquele que deve continuamente garantir seu pensamento com percepções atuais, ou com representações existentes, não pode suportar esse ponto de fuga, que Bion representava com o símbolo O. Assim, um paciente que sofria de um superinvestimento perceptivo compulsivo percebia ser incapaz de desenhar, pois não compreendia como todas as linhas se organizam a partir desse ponto de fuga. Foi a repetição da expressão “ponto de fuga” em seu relato que permitiu a aparição de uma confusão entre o ponto de fuga e o desaparecimento do objeto, bem como de uma outra confusão entre o desaparecimento do objeto e o autodesaparecimento.

O trabalho de sublimação é de início separação: em sua fase regressiva, o psiquismo desce abaixo de um limiar (a palavra está no sonho “Non vixit”), além do princípio do prazer, e mergulha em um estado caracterizado pela desintricação pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte, desligadas uma da outra, enfrentam-se assim numa luta cuja figuração habitual é o Combate com o Anjo (“Quando, no curso da luta, vi-me ameaçado de perder a respiração, pedi ao anjo para renunciar” [22]).

Essa regressão, das quais as sessões de psicanálise são às vezes um reflexo benigno, pode atingir proporções malignas: tendo renunciado às aquisições egóicas para penetrar no território do id, o psiquismo não é mais do que o instrumento de sua obra (“um trabalho ao qual pertence cada moção de pensamento, e que, progressivamente, absorve todas as outras faculdades e receptividades, como uma espécie de tecido neoplásico que se infiltra no tecido humano... Tornei-me totalmente carcinoma” [23]). (Grifo nosso.)

O processo psíquico sublimatório que se põe em movimento tem sempre a mesma conotação espacial de distanciamento em relação a uma norma traçada: desvio, descentração, distância ou loucura; a mesma idéia de um trabalho orgânico que deve ser feito sem a intervenção do ego, e, às vezes, a presença de afetos de terror e de repulsa. A noção de distanciamento (Valéry) ou de erro (Ch. Bally) é o que os poetas e os estilistas chamam justamente de estilo [24]. Porém somente haverá forma (ou estilo) se houver descentração e reagrupamento: “Uma visão, uma ação finalmente livres descentram e reagrupam os objetos do mundo no pintor, as palavras no poeta.” [25]

A liberdade também faz parte do processo, ou, mais exatamente, a liberação: ela permite um movimento psíquico que não é somente um deslocamento, mas uma desintegração e uma reintegração posterior da psique. O caráter orgânico do processo se refere a duas coisas diferentes. À origem pulsional do movimento sublimatório, e, mais que uma simples origem, ao trabalho quase autônomo do id, que impõe à psique sua própria lei: “tudo se passa de tal maneira que se tem a impressão de não ter nem mesmo uma palavra a dizer”, escreve Nicolas de Stäel [26]. Pode-se falar de um poder sintético do id, que fabrica uma configuração nova, desde que consiga“espancar sem piedade a sua águia como se fosse sua rã” [27]. St. John Perse dirá: sob a condição de saber“humilhar a inteligência” [28]. O poder sintético do Id descrito na fórmula rimbaldiana (“Eu não penso, ‘isso’ me pensa”), mostra o trabalho que se faz nas camadas profundas deste outro id, da qual também trata Rimbaud. Existem, naquilo que se passa assim no não-ego, momentos de quase afasia, que se transformam pontualmente em linguagens.

O conhecimento vivido do processo criador é analogicamente necessário à psicanálise a partir do momento em que o conceito do id invalida o método baseado no modelo do sonho, cuja eficácia comprovada refere-se somente às situações clínicas nas quais as exigências de figurabilidade foram historicamente asseguradas. O fato de que a introdução do conceito do id não tenha colocado a questão simultânea da necessidade de um outro método prático é explicado por um recalque, facilitado pelo inacabamento da teoria da sublimação, com a conseqüência não teorizada de que a descoberta do modelo do sonho não pertence à categoria do sonho: o processo de descoberta responde a outras leis, além daquelas do objeto da descoberta. Além disso, como já vimos, a censura editorial ou institucional fez desaparecer de As origens da psicanálise a passagem na qual Freud descreve, numa carta a Fliess, o carcinoma psíquico que o corrói quando da construção da Interpretação dos Sonhos.

O próprio freud, porém, censurou après-coup o sentimento de terror que acompanhava certos sonhos da época, ou o processo pelo qual passava então: em 1929, citando “a luz rosa” do poema de Schiller (“O mergulhador” [29]), acrescenta que a prefere a sentimentos mais místicos (trata-se então do sentimento oceânico); mas esquece o verso seguinte – “Pois lá, no seio das águas, reina o terror” – e esquece também que ele próprio provocou os deuses, conforme testemunha a epígrafe da Interpretação dos sonhos: “Flectere si nequeo Superos, Acheronta movebo” (se não posso dobrar os deuses, descerei aos Infernos). Aos Infernos: no universo das sombras, dessas “formas vacilantes” que Freud cita em outro momento. Nessa regressão aos confins, a ameaça é da não-existência do vínculo e da subjetividade, que equivaleria ao horror da agonia física. Nas situações clínicas em que se expressa essa agonia, é a negação da psique infantil que ocorre, silenciosamente. Mas a ameaça dos confins existe sempre que há regressão, até a origem: guardaria o ser humano o traço do seu estado de não-existência psíquica?

Não sabemos o que é mais doloroso no processo sublimatório: seria a desintricação pulsional? A desobjetalização? O movimento de afastamento em direção ao id, sentido como uma morte do ego? Ou a passividade mantida sem inteligência até que o id se organize? E, se há afastamento e mesmo deserção no processo sublimatório, parece que o movimento psíquico de desligamento que se produz (agitur) refere-se, ao mesmo tempo, ao ego e aos objetos internos e externos. Ou seja, comporta ao mesmo tempo desligamento do ego e desidentificação; essa desidentificação pode ser sentida como uma desobjetalização, quer dizer, perda de qualquer objeto. (Sabemos pela clínica o quanto é difícil a desidentificação, em comparação ao objeto interno alienante, justamente devido à equação: desidentificação = desobjetalização. E que esta equação é ainda mais real – é necessário dizê-lo – quando o objeto não pôde ser alucinado negativamente, porque jamais se apagou.)

Existe assim, no processo sublimatório, uma passagem por um estado anobjetal, no sentido forte, que o bebê provavelmente jamais conhece em condições normais: privação do objeto, até o momento em que o objeto cultural é encontrado por sua própria construção.

Enfim, para completar o quadro, uma vez estabelecida a novidade, e justamente porque é uma novidade, ela provoca resistência e mal-estar, negação e desautorização (désaveu). Essas reações são tão inevitáveis que podem ser consideradas como o signo da novidade; inversamente, o entusiasmo e a unanimidade imediatas são sinais de uma pseudonovidade: ou conceitos conhecidos foram revestidos com roupas novas, ou novos conceitos (podemos pensar na “criatividade” de Winnicott) dão a ilusão de que se pode evitar a “incerteza levada até a espera ansiosa” que o novo “sempre exige da vida mental” [30].

Curiosamente, pois se trata de um pensamento realista como poucas vezes encontramos em seus escritos, Freud se pergunta, ao final de “Resistências à psicanálise”, se “a antipatia geral” que ele provocou não teria sido causada por sua condição de judeu. A reação à novidade é provavelmente mais ambígua do que Freud diz, e a descrição dada por Hugo von Hofmannsthal parece mais completa: relendo a correspondência trocada com Richard Strauss quando da criação de Rosenkavalier (ainda uma rosa), o poeta nota que “brota dessas cartas a lembrança da resistência com a qual o mundo recebe e fortifica todo ser vivo saído da imaginação, acreditando recusá-lo e acertar as contas com ele” [31]. Essa ambigüidade explica-se pelas atitudes dos seres humanos em relação à sublimação: evitamento e busca.
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