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Resumo
Tendo em vista as comemorações de 20 anos de fundação do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, a revista Percurso convidou três colegas a se ocupar de um pequeno trecho do artigo “Política de formação em psicanálise – alinhavando algumas anotações de leitura” (Percurso, ano 1, nº 1), de Regina Schnaiderman. Esta foi a maneira que encontramos de homenagear Regina: dispor suas idéias às observações, críticas e reconsiderações possíveis...


Autor(es)
Janete Frochtengarten
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Autora de vários artigos publicados em livros e revistas especializadas.

Decio Gurfinkel
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor nos cursos "Psicanálise - teoria e clínica" e "Psicossomática" do mesmo Instituto. Doutor pelo Instituto de Psicologia da USP e autor dos livros Viagens ao informe: o sonhar e a experiência psicanalítica (em preparo), Do sonho ao trauma: psicossoma e adicções (Casa do Psicólogo) e A pulsão e seu objeto-droga: estudo psicanalítico sobre a toxicomania (Vozes).

Renata Udler Cromberg
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanalise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora pelo Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professora dos cursos de especialização de Psicopatologia e Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Teoria Psicanalítica da Pontifíca Universidade Católica de São Paulo. Autora dos livros Cena Incestuosa e Paranóia, da coleção Clínica Psicanlítica da Editora Casa do Psicólogo.



Abstract
The authors comment on a paragraph of Mr. Schnaiderman’s paper that opens this issue. What are the conditions of psychoanalytic knowledge? Ms. Frochtengarten questions the idea that “Freud demonstrates”: psychoanalysis is rooted in transference, which is incompatible with the idea of demonstration. Ms. Cromberg reflects about the formation of an analyst and about recent proposals to regulate the practice formulated in Brazil. Mr. Gurfinkel tackles the problem of a knowledge that comes from an intersubjective experience “in vivo”, and asks himself: the remarkable diffusion of Psychoanalysis in Brazil in the last twenty years has, or has not, brought with it a relative dilution of the analytic experience?

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 DEBATE

Diálogos com Regina Schnaiderman

Dialogues with Regina Schnaiderman
Janete Frochtengarten
Decio Gurfinkel
Renata Udler Cromberg


Tendo em vista as comemorações de 20 anos de fundação do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, a revista Percurso convidou três colegas a se ocupar de um pequeno trecho do artigo “Política de formação em psicanálise – alinhavando algumas anotações de leitura” (Percurso, ano 1, nº 1), de Regina Schnaiderman. Esta foi a maneira que encontramos de homenagear Regina: dispor suas idéias às observações, críticas e reconsiderações possíveis.

“De fato sabemos que: 1. o saber do analista tem como objeto o estudo do funcionamento psíquico; 2. a particularidade deste saber consiste na necessidade, tanto para o analista quanto para o analisando de, a cada vez, reencontrá-lo in vivo; 3. isto o diferencia do que seria , por exemplo (Castoriadis), o saber matemático – frente a um triângulo retângulo, posso sempre afirmar que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos; em face de um sujeito, não posso sustentar nenhum teorema desse tipo: ‘em todo sujeito histórico, posso deduzir que fatores históricos determinaram seu destino’; a respeito deste sujeito particular com quem me enfrento, eu não conheço nada – o que eu sei é o caminho para fazê-lo chegar a este conhecimento; 4. donde se conclui que o saber do analista se resolve num saber analisar, isto é, ser capaz de levar um outro sujeito à decifração do seu texto inconsciente; analisar é um fazer saber e não um saber fazer.

“Qual é a fonte do saber psicanalítico? 1. Os textos de Freud; sim, mas isto não basta; 2. o fato de ter sido analisado; sem dúvida, mas isto também não basta; 3. o fato de ser analista, o fato de analisar.

“Esta terceira origem do saber coloca o que é de demonstrar como já demonstrado. Este é um dos paradoxos da psicanálise.
” (p. 13)

JANETE FROCHTENGARTEN: Freud demonstra?...

Parece perto, parece longe. Mais de 20 anos sem Regina; dezessete anos desde a publicação desse texto.

Perto é longe, nesse tempo atordoante, tempo das transferências, do remoto no presente, do escondido bem guardado, da faísca que incendeia quando a ocasião a encontra.

A ocasião: o texto de Regina. A transferência eclode: de muito perto, de um muito quente, dialogo com Regina, no vivo de seu pensamento, usando inclusive, embora só o tenha, com surpresa, percebido depois (!), uma mesma fonte bibliográfica (que consta da íntegra do texto publicado).

Se transferência há e se o saber psicanalítico nela tem marca de origem, será que nos caberia pensar em termos de demonstração?

Como demonstrar, quando a matéria é maleável e andarilha, quando se move por saltos que deixam rastros/restos que ressurgem inesperadamente?

Demonstrar é tomar algo que nos é dado sensivelmente, e remetê- lo a um anterior, ausente, que o compreende e que o recobre com um manto de reassegurada constância; a compreensão pode se dar em torno de um único aspecto, dentro do múltiplo do sensível, mas neste — ao menos no exemplo utilizado como contraponto — é exclusiva e definitiva, como quando “frente a um triângulo retângulo posso sempre afirmar que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”. Demonstrar é, assim, repetição, no universo das previsibilidades. Podemos fazer um triângulo de madeira, desenhá-lo, moldá-lo em bronze, fazê-lo colorido ou perfumado, examiná-lo no calor ou no frio, observá-lo quando estamos tristes ou quando estamos felizes, e o quadrado da hipotenusa permanecerá impávido, inalterado, tal qual ele mesmo. Uma idealidade.

Já, na clínica....

Uma paciente, em uma época em que precisei desmarcar e retomar o trabalho de atendimento por várias vezes, em curtos espaços de tempo, e a quem eu dissera, por telefone, estar “com problemas em família”, me fala, furiosa: “mas você tem família???”.

Restos. Restos que emergem, ruidosos, em uma análise em andamento (mas que também ficam de uma análise finda), restos que se revelam em espantos, quando o acaso toca, fazendo queimar. E há acasos quando há o múltiplo, pois onde se dispõe de uma relação de determinação estrita, o que é da ordem do acidental, do circunstancial, pode permanecer ignorado.

O saber psicanalítico, que nos remete necessariamente à transferência, aos restos, às ambivalências, à multiplicidade e aos acasos, também nos remete ao sonho e – na intimidade deste – à interpretação.

Vou seguindo com Valabrega, que retoma os sonhos, e ao pontuar que estes jamais comportam uma única interpretação, mas, sim, múltiplas interpretações, qualifica-os, também, como portadores de mistérios. Afinal, possuem “umbigo” e, interpretados ou não, bem ou mal interpretados, eles dão origem a outros, depois a outros, depois... “O sonho, o inconsciente que é sua fonte, as origens primeiras e os fins últimos são da ordem do mistério. Acaso e mistério têm seus contatos, ou, melhor dizendo, ‘coincidências’ empíricas. Entre os dois há o enigma. (...) O enigma é decifrável, admite uma resposta. Há acasos que se revelarão, posteriormente, decifráveis e outros que permanecerão misteriosos.” [1]

Eis nosso saber psicanalítico: enrodilhado em transferências, em sonhos, em acasos e mistérios e ainda, com Freud, em provisoriedade. Em dois escritos freudianos, datados de 1914 e de 1915, encontramos colocações singelas e, por isto mesmo, comoventes: revelam, sem pudores, as fragilidades que cercam a construção do conhecimento psicanalítico.

No primeiro deles Freud comenta que representações tais como as de libido egóica, energia pulsional, bem como outras desta qualidade, não são facilmente assimiláveis e poderiam ser colocadas na categoria de fundamentos, caso se tratasse de uma teoria especulativa; mas, como se trata de uma ciência edificada sobre a interpretação empírica, “de bom grado haveremos de nos contentar com uns pensamentos básicos, que se perdem em nebulosidades e apenas se deixam conceber” [2].

E, no outro escrito, como que em prosseguimento direto a esta linha de pensamento, encontramos que “(...) enquanto as idéias se encontram neste estado indeterminado temos de ter um acordo sobre seu significado, através de repetidas referências ao material empírico do qual parecem extraídas, mas que, na realidade, a ele se impõe (o paradoxo no texto analisado)” [3]. Neste momento, ainda estaríamos de posse de convenções, embora não quaisquer, pois estas têm, como ponto de apoio e de retorno, a prática clínica. E Freud acrescenta que, em um crescendo de aproximações, com maior investigação no campo dos fenômenos abordados, será possível alcançar definições; prossegue, por fim, considerando que mesmo estas não devem ser tomadas como definitivas, na medida em que, com o movimento incessante do conhecimento, sucessivas mudanças deverão advir.

Depois de percorrermos incertezas, tempos trôpegos e mistérios, consideremos, por outro lado, que, de 1900 até nossos dias, muitos conceitos e idéias “básicas” que subsidiam o edifício teórico da psicanálise permanecem mantendo “relações significativas com o material empírico”. Para ficar no mais fundamental, no conceito de inconsciente: por mais diversificadas que possam ser suas acepções pós-freudianas, permanece sendo a “realidade psíquica” para a qual se volta o saber psicanalítico. As representações de libido egóica e de energia pulsional prosseguem em plena atividade operacional teórico- clínica e, por último, não ocorreram conhecimentos inovadores a ponto de descartarmos o que Lacan denomina de “os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, nos quais, alem do de inconsciente, está o de repetição, o de transferência e o de pulsão.

A teoria psicanalítica caminha, pois, em um contínuo interjogo entre o estabelecido e o móvel, em uma relação dialética entre o acaso e a permanência, entre os apoios essenciais e os novos conhecimentos que os questionam, sendo que estes, os questionados, passam, por sua vez, a produzir diferentemente do que antes de o serem. Para ser coerente com estas considerações, há que reconhecer que temos, sim, um (...) saber fazer; uma vez que algo do conhecimento permanece, temos direções, orientações e idéias-hipótese (...) a respeito deste sujeito particular com quem nos confrontamos, muito embora não seja um saber demonstrável, pois trata-se sempre, justamente, da singularidade deste sujeito particular.

Haverá, então, uma ausência total de vinculações que poderiam ser colocadas em termos de causalidade, de determinação?

Embora não haja, para esta questão, respostas simples e bem acabadas, penso que podemos ensaiar ligações complexas, inclusivas, ligações que ultrapassam a certeza plena de equivalências, ou de relações unívocas causa-efeito. Indico – e apenas isto – uma via a ser investida: os estudos de Valabrega, que desbravam caminhos muito promissores. Para Valabrega, o saber psicanalítico aponta para uma causalidade outra, para “um além do princípio da causalidade”, para um conjunto imbricado de causalidades, que inclui, entre outras, uma causalidade de transferência, uma causalidade de posterioridade, uma causalidade associativa, uma causalidade paradoxal, e até mesmo uma causalidade do acaso [4].

Escuto Regina, em seu suspiro curto e fundo, como ele só, de final abrupto como ele só, e vejo-a com os braços abandonados sobre os apoios da poltrona, vejo-a levantar apenas a mão esquerda, pousá-la no couro envelhecido, em gesto que, bem sei, significa final de conversa: “ah, faz tantos anos, vou pensar...”.

Trata-se mesmo, sempre, de pensar!

Eu agradeço. Sou grata a você, Regina, que, ao revelar-me a liberdade e a conseqüente amplidão do pensar, transmitiu-me, nesta mesma substância, o valor da interação crítica: a que não permite concordâncias fáceis, a que demanda ser passada e repassada pelo crivo próprio, a que discute.

RENATA UDLER CROMBERG: Para mim, é uma honra o convite para comentar estas palavras de Regina, pois me faz entrar em contato novamente com as palavras que saíram da minha boca naquele intenso momento coletivo de invenção de Percurso e que abrem seu primeiro número: “Regina Schnaiderman, seu poder fundador estará sempre presente na qualidade de uma força ancestral decisiva porque se fez ato.” É como reafirmação desta fundação que a comemoração do passado é invocada.

É curioso que o parágrafo que antecede, no texto de origem, o trecho escolhido para debate fala de duas realidades que neste momento estão no centro da discussão do campo político-institucional da psicanálise: a formação do psicanalista na universidade e a regulamentação da psicanálise como profissão.

Schnaiderman nega que a formação do psicanalista se faça dentro de qualquer enquadre por uma lei reguladora, exterior a ela mesma. É apenas seu grupo científico ou ideológico de pertinência que pode dar esse enquadre.

É, portanto, para justificar a não-regulamentação e a não-inserção da profissão de psicanalista (não da psicanálise) na universidade, que ela escreve o texto escolhido. Ela falará não da psicanálise, mas da particularidade do saber do psicanalista, que tem por objeto o funcionamento psíquico, que precisa ser reencontrado a cada vez, in vivo; não é um saber universal, geral, a priori, porque é singular. O analista não sabe a priori nada, o que ele sabe é que é capaz de levar um outro sujeito à decifração de seu texto inconsciente. O ato analítico remete ao saber do outro sobre si mesmo. Ler Freud, ser analisado, mas, sobretudo, analisar é necessário a este saber fazer.

O que está em jogo é um enquadre de formação que permita propiciar um enquadre interno em que o analista se sensibilize para a singularidade. É por isso que só analisar faz do analista um analista, pois só em sua prática ele percebe que cada história com seus arranjos fantasmáticos é única. O que há de prevalecer no analista, em todas as circunstâncias, é a preservação das condições de escuta que propicie o seu fazer saber. A teoria pode obturar a escuta, o próprio inconsciente do analista também. A própria análise e o estudo teórico precisam ser digeridos de maneira a criar os elementos de um laboratório interno sempre disponível para alimentar a escuta do analista e para fermentar a emergência da interpretação a partir da receptividade do analista às palavras de seu analisando. Assim, a formação analítica precisa propiciar tudo o que aumente a capacidade de escuta do analista. Escuta dos meandros e da polissemia das palavras que lhe permitirá dar acesso ao fazer saber da outra cena ao seu analisando, cena originária de seu mundo pulsional.

Eu me lembro, no início da minha formação, quando Regina dizia que fazia parte da formação do analista freqüentar muito o cinema, o teatro, ler bastante literatura, que isso tudo fazia parte da formação porque aumentava a capacidade metaforizante do analista. Diríamos que é fundamental para seu lugar de escuta geradora do fazer saber sobre o sentido. Que é sempre construído entre dois, ao menos.

DECIO GURFINKEL: Gostaria de destacar, do trecho-convite do artigo proposto para discussão, a seguinte afirmação: “a particularidade do saber do analista consiste na necessidade, tanto para o analista quanto para o analisando, de, a cada vez, reencontrá-lo in vivo”. Entendo que aqui Regina Schnaiderman refere-se ao que poderíamos denominar “experiência psicanalítica”, tema crucial que merece ser incessantemente relembrado e recolocado – in vivo!

Desde o “alinhavamento”, neste artigo histórico, de alguns dos princípios que de uma maneira ou de outra têm orientado a organização de nossa instituição (Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae) e de seu braço formativo (o Curso “Psicanálise – teoria e clínica”, agora acompanhado por mais dois novos cursos), um notável movimento de expansão da psicanálise no ambiente paulistano e nacional têm se dado. A expansão inclui tanto o incremento de grupos e instituições voltados para o estudo, a transmissão e a pesquisa em psicanálise, quanto a emergência crescente e quase espantosa de um grande número de pessoas envolvidas com tal disciplina. O papel cumprido pelas universidades neste movimento é conhecido por todos, especialmente a partir do momento em que programas de pós-graduação e cursos de especialização passaram a ser utilizados (de modo direto ou indireto) como espaços de “ensino de psicanálise”, o que muitas vezes é confundido com a “formação de analistas” (cf. Schnaiderman). A expansão tem se dado também em termos das práticas clínicas em instituições, da ampliação do setting de trabalho do analista, e do estudo de diversas “patologias” não neuróticas cujo contorno psicopatológico e estatuto metapsicológico estão ainda pouco definidos (casos-limite, adicções, transtornos psicossomáticos, transtornos alimentares e do sono, normapatia, etc.).

A minha preocupação pode ser assim formulada: esta expansão não traz consigo o risco de uma diluição da experiência psicanalítica? Eis um grande paradoxo da expansão da psicanálise.

Mas, afinal, o que entendemos por experiência psicanalítica? Esta é uma pergunta difícil, que nos deixa perdidos entre um discurso sobre o inefável e uma racionalização esterilizante. Em primeiro lugar, se trata da experiência da análise vivida pelo analisando e seu analista, impossível de ser reproduzida ou conhecida a não ser in vivo. Neste sentido, ela é insubstituível e imprescindível na formação de todos os analistas. Esta é a segunda regra fundamental.

Ora, as coisas se complicam quando consideramos que um simples fazer que cumpre o ritual da análise não é garantia de tal experiência. “Fazer análise” não implica em fazer experiência de... A crítica à instituição da análise didática pode ser retomada deste ponto de vista: o princípio fundamental da condição para uma formação (a análise pessoal) pode tornar-se um mandato burocrático cujo ponto cego é não discriminação entre cumprimento de tarefa e experiência de análise, que é singular e não pode ser medida por parâmetros formais exteriores a ela mesma. Hoje, podemos também acrescentar o problema das “patologias da experiência”. Refiro-me a certas análises que simplesmente “não acontecem”, mesmo que o ritual seja mais ou menos cumprido ao longo de muito tempo. Os analistas têm tentado descrever e compreender esses casos através de várias conceitualizações: do ponto de vista da reação terapêutica negativa, como neuroses narcísicas, como anti-analisandos (McDougall), pacientes de difícil acesso (Joseph), intratáveis, normopatas... Afinal, reencontrar o saber do analista in vivo não é tão fácil!

A experiência psicanalítica é, fundamentalmente, a experiência do inconsciente. Neste sentido, podemos aproximá-la da experiência do sonhar. Creio que não têm sido suficientemente ressaltada a proximidade entre sonho e transferência, assim como a metáfora da sessão analítica como um sonho. Ora, também no campo do sonhar é fundamental distinguirmos a função do sonhar do sonho enquanto objeto; pois muitas vezes deparamos com alguns extravios de tal função, como bem assinalaram Khan e Pontalis. O sonho pode ser manipulado como um objeto à maneira de uma acrobacia intelectual, ou ser utilizado como um objeto interno- coisa – fim em si mesmo – que exclui qualquer potencialidade de abertura ao outro. Nesta perversão da função onírica, o sonho se torna um objeto-fetiche. Como sugeriu Pontalis, estamos diante de mais um “fazedor de sonhos”. Em certos casos, não chegou a se constituir um “espaço de sonho”, e há uma lacuna no sonhar como experiência. A experiência psicanalítica, tal qual o sonhar, envolve, do meu ponto de vista, uma viagem ao informe.

Creio ser uma tarefa da maior importância resgatarmos o lugar primordial da experiência psicanalítica na formação dos analistas. Em primeiro lugar, reiterando a exigência incontornável da análise pessoal; mas não apenas como um cumprimento burocrático, e sim como a exigência radical de um mergulho nas profundezas da experiência subjetiva, em um encontro com os próprios demônios. Exigência, aliás, a ser recolocada no dia-a-dia de cada analista, mesmo após o fim de sua análise. (Aliás, como podemos falar em ser analista sem refletirmos sobre o que entendemos por fim de análise?). Até que ponto tal exigência é hoje abraçada na sua radicalidade? Em segundo lugar, há que se investir no espaço de supervisão enquanto lugar para se lapidar e discutir a experiência da análise. Penso que cabe ao supervisor a responsabilidade ética de transmitir, na medida do possível, a sua experiência; do contrário, corre-se o risco de um “fazer” supervisão didaticamente, passando ao lado da coisa analítica. No afã de rechaçarmos certas formas devido a seu suposto teor ideológico e normatizante – tais como a análise didática e a maltratada análise-padrão –, não estamos jogando fora o bebê com a água suja – sendo o bebê a própria experiência psicanalítica?

Por fim, no trabalho de leitura dos textos-fonte do saber psicanalítico – cujo repertório deve ser ampliado para além de Freud – a questão também se coloca. A leitura teórica e filosófica dos textos psicanalíticos que abunda nos meios universitários por vezes se dá de modo absolutamente divorciado da experiência psicanalítica, produzindo uma verdadeira perversão da formação – da mesma maneira que qualquer sonho pode ser tomado como um objeto, e utilizado absolutamente descolado da função onírica que o anima e lhe confere um sentido singular e subjetivado. Ler, transmitir e escrever não devem ser tarefas de uma mente dissociada alojada em um falso si-mesmo analítico, como diria Winnicott. O fazer analítico só se torna vivo e autêntico quando fundado sobre um ser psicanalítico.

Cuidar para não nos tornarmos “fazedores de psicanálise” – malabaristas intelectuais ou gozadores auto-eróticos da psicanálise enquanto objeto. Este é o recado da experiência psicanalítica: a particularidade de um saber in vivo.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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