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Autor(es)
Janete Frochtengarten
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Autora de vários artigos publicados em livros e revistas especializadas.


Notas
1. Augusto dos Anjos, Eu e outras poesias, São Paulo, Martins Fontes, 2001.


Abstract
The author of the first book review published in Percurso (see below) reflects on the double contribution that the section – which has presented some two hundred books since 1988 – has been offering to Brazilian analysts and to the public in general: information about the growing number of good works that appear every year, and formation of the reader, an effect that comes from the mobilization and association the texts published in the section strive to stir in the reader.

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 LEITURA

Uma seção plural

An open section
Janete Frochtengarten


1988
, mês de novembro: comemora-se, festivamente, o primeiro número de Percurso.

No ato inaugural, tomada de emoção, vejo surgir, de dentro das máquinas, uma folha, outra folha, depois outra... as primeiríssimas folhas impressas.

A revista existe!

Duas “leitoras” escrevem: duas leituras na sessão que leva este nome; duas integrantes do Conselho Editorial de então, Renata Cromberg e eu. Afinal, era preciso começar e os “da casa”, que faziam parte do primeiro grupo responsável pela revista, se fizeram anfitriões, aguardando a vinda de outros articulistas. E outros foram vindo.

Percorrendo os números seguintes da revista, vemos que, até o número 9, há duas — quando não apenas uma — “leitura”. A sessão, mantendo seu objetivo, mesmo nesse número de uma só leitura, chamou- se LEITURAS.

LEITURAS: um plural.

Mas....será que mais outras chegarão?

Chegaram. De início uma a uma, depois aos pares. A sessão LEITURAS duplica. E depois vieram mais e mais; e assim tem continuado a vir, até este momento, quando se comemoram os 35 números de existência de Percurso.

LEITURAS, a meu ver, vem buscando ter uma dupla contribuição: a informativa e a formativa. Informação e formação caminham juntas, e juntas chegam aos leitores da sessão, mas é possível — e esta é minha intenção — tentar destacá-las.

O informativo é o mais óbvio, é o objetivo mais manifesto e assumido da sessão: oferecer contato com um volume de trabalhos e de autores que dificilmente poderiam ser obtidos isoladamente, por cada um de nós, dada a prolixidade do campo editorial. O informativo é mais pontual e localizável — ficamos sabendo da existência de tal e tal livro, com tal e tal temática. Mas não se trata apenas de uma questão numérica, embora também o seja. O numérico vem acompanhado de uma grande variedade de procedências: os articulistas provêm de diferentes formações, de diferentes estados do país, de diferentes instituições e de diferentes experiências clínicas, oferecendo, ao leitor da sessão, um contato com um conjunto variado de leituras, de diversos modos de apreensão, de aproveitamento e de problematizações dos livros enfocados.

LEITURAS: um plural.

O aspecto formativo é menos diretamente acessível, mais implícito, e requer um trabalho para que possa ser identificado.

O nome da sessão — LEITURAS — marca uma diferença para com resenhas/resenhar. Resenha, no dicionário: relatar minuciosamente, enumerar partes. “Resenhas” transporta uma conotação de neutralidade e isenção, que corresponderia bem ao aspecto informativo. Por outro lado, LEITURAS, ao menos no “dicionário” de PERCURSO implica em: muitas possibilidades, análises e comentários com envolvimento e investimento pessoal de quem escreve; textos libinizados. Textos assim, onde quer que se encontrem, tem, potencialmente, o efeito de mobilizar aqueles que os lêem, abrindo trilhas, arando territórios psíquicos, propiciando que ocorram associações próprias.

O desejado aporte formativo, em essência, é o que funciona acionando este processo. Um processo que não deixa de guardar algo de misterioso.

“De onde ela vem?!
De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as
nebulosas
Cai de incógnitas criptas
misteriosas
Como estalactites numa
gruta?”

Augusto dos Anjos, nos versos do soneto “Idéia” [1].

Há algo inapreensível nesta luz que cai...

O poeta, brasileiro, paraibano, publica estes versos no ano de 1912.

Por volta desse ano, em outro canto do mundo, Freud escreve sobre a memória, o sonho e o sintoma, guiado pela idéia de einfall: a associação, a associação livre, a ocorrência, o circunstancial, o acaso, o que acontece e — em seu acontecer — conduz ao coração da dor e do sofrimento neurótico.

Einfall: cair, cair para dentro.

De onde cai? De que matéria bruta?

Restos diurnos, a água sem a qual não se formam estalactites-sonhos, com suas formas intrigantes?

Redes de associações, até então incógnitas, que correm em nossas galerias subterrâneas?

Ao longo destes anos, equipes de colegas têm reiterado o propósito de que LEITURAS possa oferecer tramas associativas, a matéria bruta que, ao cair em quem a encontra, provoque movimentos na faixa nebulosa, na penumbra – limiar onde processos primários se enredam nos secundários, gerando criações, fornecendo combustível para a usina de pensamentos. Uma fabricação que, como Freud e o poeta Augusto nos ensinam, sempre guardará uma franja de enigma...

Assim, em 1988, arquitetamos nosso projeto para LEITURAS e assim ele prossegue, se trabalhando, a cada vez em que folhas recém-impressas anunciam um novo número de Percurso.

LEITURAS: um plural.

O formativo também ocorre do lado de quem comenta um livro. Ao fazer a sua leitura, aquele que escreve realiza algo bastante específico, que distingue o seu olhar daquele que teria se estivesse lendo o livro sem o objetivo da escrita/ transmissão para outros. Cada pequeno trecho, cada idéia exposta pelo autor ganha um relevo especial, pois será relacionado com outros fragmentos, acompanhado em seu desdobramento, cotejado. Para quem escreve sobre o que lê, o lido ganha uma nova geografia, na medida em que o caminho é seguido na companhia do autor, em um trabalho de identificação com formas de pensar que não as suas. O articulista passa por um processo formativo intenso, no empenho que faz de apreender — para concordar, questionar ou discordar; ao incitar o nascimento de idéias alheias, as suas próprias se põem em ágil movimento.

E porque houve e há este empenho de formar/formando, que vislumbrei LEITURAS habitando entre as linhas desta lenda.

Uma lenda judaica.

Deus convidou um Rabino para conhecer o céu e o inferno. Ao abrirem a porta do inferno, viram uma sala em cujo centro havia um caldeirão onde se cozinhava uma suculenta sopa.

Em volta dela, estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas.

Cada uma delas segurava uma colher de cabo tão comprido que lhe permitia alcançar o caldeirão, mas não suas próprias bocas.

O sofrimento era imenso.

Em seguida, Deus levou o Rabino para conhecer o céu.

Entraram em uma sala idêntica à primeira, havia o mesmo caldeirão, as pessoas em volta, as colheres de cabo comprido.

A diferença é que todos estavam saciados.

– Eu não compreendo, disse o Rabino, por que aqui as pessoas estão felizes, enquanto na outra sala morrem de aflição, se é tudo igual? Deus sorriu e respondeu: – Você não percebeu? É porque aqui eles aprenderam a dar comida uns aos outros... LEITURAS: um plural.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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