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Resumo
Resenha de "O psicanalista e seu ofício" - Conrad Stein. São Paulo, Escuta, 1988, 215 p.


Autor(es)
Janete Frochtengarten
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Autora de vários artigos publicados em livros e revistas especializadas.


Abstract
By Janete Frochtengarten – Review of Conrad Stein, "O psicanalista e seu ofício." This collection of essays by French analyst Conrad Stein has a powerful effect on its reader: the constant effort to undo dogmatic assumptions and to allow for the rising of a kind of thought open to the uncanny, the surprising, the “wild” aspect of the analytic experience. This feature can be noticed in Stein’s writing, whatever the subject he speaks about: transference, interpretation, psychic reality as confronted with outer reality, and so on.

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 LEITURA

A generosidade de um convite ao insólito

The generosity of an invitation to meet the uncanny (1988)
Janete Frochtengarten


Bem-vindos os pensadores, quaisquer que sejam as suas proveniências, quaisquer que sejam as eleições de seus lugares de pensar, que no próprio processo de pensamento fazem do insólito uma presença viva.

Recém-banhada no texto lido, assim comecei, para me dar conta que começo pelo que poderia ser o fecho (e de que efeito!) deste artigo. Penso que isto já tem a ver com o livro, tanto quanto o título do artigo. Desta forma: Stein, ao falar sobre o capítulo VII da Interpretação dos sonhos, detém-se num sonho relatado por Freud, que lhe foi por sua vez relatado por uma paciente, que ficou sabendo dele (sonho) durante uma conferência sobre sonhos... E diz Freud: “ele (o sonho) impressionou esta senhora em virtude do seu conteúdo, pois ela não deixou de “re-sonhá-lo”, ou seja, de reproduzir elementos do sonho em seu próprio sonho, para expressar por meio dessa transferência uma concordância sobre determinado ponto”. Bem, penso que eu fiz uma transferência sobre um determinado ponto do livro de Stein e o “re-sonhei”. E ao fazê-lo, sem perceber, me identifiquei com coisas lidas, nas quais o que é o começo e o que é o fim é recolocado em termo que nada tem a ver com o começo e o fim daquilo que é convencionado a sê-lo. Quando Stein fala da própria análise (a auto-análise) de alguém, diz dela que já pode ter se iniciado antes da instalação da análise com um analista, que se mantém bem ou mal durante o processo desta análise e que perdura indefinidamente para além dele.

O começo e o fim de uma análise feita a dois significam algo, mas não são necessariamente começo e fim do processo de “estar em análise”.

Eu, que na condição de intérprete, me apropriei, sem percebê-lo, desta revolução nos tempos oficiais, comecei como comecei, para depois, adiante na leitura do livro, deparar com a palavra "insólito", que já, com anterioridade, tinha me surgido para o título do artigo...

Coisas da identificação, coisas da transferência, coisas do intérprete que “re-sonha”... do intérprete que sou eu, neste momento, sem dúvida identificada com Stein (que nem sequer conheço), numa transferência amorosa que fiz transferencialmente comum a ambos, sobre a psicanálise...

E nem apresentei ainda Conrad Stein ao leitor: é um psicanalista francês, pela primeira vez traduzido entre nós; é membro titular da Societé Psychanalytique de Paris, tendo publicado textos desde 1958 até a atualidade, onde seus pensamentos continuam a ser prodigamente oferecidos em seus escritos.

Quero me deter agora no “determinado ponto”, no qual ancorei minha transferência.

É a meu ver um ponto que atravessa todos os textos coligidos, que se situam num intervalo de tempo de 25 anos, e que encontrei explicitado numa nota de rodapé.

É quando Stein (p.55), ao falar que Freud, na ausência de interesse pelas questões da filosofia das ciências, se “permitiu prosseguir a sua obra sob o domínio daquilo que, no fim de sua vida, ele denominará, 'nossa imperiosa necessidade de causalidade', sem ter de se perguntar muito se sua necessidade não era mais satisfeita pelo pensamento selvagem, criador de mitos de origem, do que pelo pensamento científico, formador de leis; assim pôde ele manter até o fim, sua nostalgia da ciência sem cair na ingenuidade do dogmatismo pseudocientífico”.

O livro, para mim, é percorrido por isto: a constante atenção para a dissolução do dogmático, através da irrupção do selvagem, do pensamento preguiçoso, do insólito, do que surpreende, embora hoje em dia seja inviável desconhecer a filosofia das ciências. E é mesmo assim, na sua presença, que o selvagem sobrevive. “ça n’empêche pas d’exister”...

Antinomias, paradoxos, contradições são olhados com carinho, como nós instigantes nos quais o pensamento se retorce, se dobra por sobre si mesmo e se revitaliza trabalhando... trabalhando preguiçosamente (por paradoxal que isto pareça).

É por onde Stein trabalha: desdobrando os nós, com delicadeza, ora em duplicidades, ora em feixes de idéias, mas não desatando-os numa dura exigência pseudocientífica de linearidade.

Embora eu veja a presença constante desta motivação sob os vários textos, quero ressaltar ocasiões onde isto se faz manifestamente muito claro.

Quando Stein, no último artigo do livro, usa a expressão liberdade obrigatória, usa-a mantendo a antinomia e explicitando- a.

Assim: ao analisar uma seqüência da análise de uma paciente sua, fala da conseqüência escandalosa do pensamento freudiano sobre a transferência: “o tratamento supõe que o sujeito obedecerá à convocação que se lhe faz para usar da liberdade que o médico lhe outorga”. O escandaloso: é o psicanalista que fascina o paciente por um logro, a sedução que o leva a obedecer à convocação – ou seja, que o leva a ter suficiente complacência para respeitar as condições de existência do tratamento. O paciente se engaja, então, com mais ou menos ciência disto, num estado de liberdade obrigatória no qual o analista lhe impõe que use sua liberdade de repetir compulsivamente, ao mesmo tempo em que respeite as condições para que o tratamento possa existir (portanto, que não repita compulsivamente).

A própria escolha de título para o artigo que no livro é o XIV, é um enunciado antinômico: “Sobre um amor que obstruiria o amor”.

Quando Stein aborda a questão da transferência, não aceita uma “visão das coisas” que lhe parece “por demais fenomenológica para não mascarar o essencial”. O essencial seria este nó: o termo transferência designa ao mesmo tempo um mecanismo psíquico e certas manifestações de que este mecanismo pode dar conta. Sendo assim, isto se presta a pensar que há uma transferência sobre o psicanalista e uma transferência sobre a psicanálise. A primeira é a condição de existência do próprio tratamento, e seu destino é ir perdendo a nitidez durante o mesmo. A segunda se instala mais ou menos progressivamente, vindo a fornecer o principal suporte do prosseguimento do trabalho no além das sessões. Mas aí Stein introduz uma diferença tal que permite o desdobramento em “transferência” e “transferências”. É a mobilidade das transferências que permite a continuidade do trabalho analítico por conta própria – capacidade esta que se exerce idealmente num palco infinito. Quanto à transferência (singular), ela designa uma disposição durável a operar de modo privilegiado e bastante manifesto, transferências sobre um suporte único, constituído pela pessoa do psicanalista.

Stein não driblou o nó que criava a dificuldade de pensar discriminadamente em duas realidades diferentes, pois isto levaria a uma dualidade fácil e falsa do tipo: há duas transferências. Ele se aproxima do nó e, ao analisá-lo, faz um outro desdobramento do qual se produz uma dualidade: singular e plural; há transferência e transferências. Esta dualidade não é fenomenológica, não é operativa e mobiliza, para ser formulada, bem mais trabalho psíquico.

Stein, falando sobre a “evidente” inveja do pênis, fala do sonho de uma paciente como sendo “demais evidente”, o caráter de evidência funcionando como defesa de um desdobramento outro. A evidência do sonho seria para que só haja reconhecimento do desejo de ter pênis e nenhum outro. Mas Stein não fica na evidência e se pergunta: por que queria ela ter um pênis, para fazer o quê? E, pela própria pergunta posta, vai se aproximando de que o desejo de ter um pênis era um substituto da busca da mãe e “esta relação de substituição pareceu-me mais essencial quanto à interpretação da inveja do pênis do que a relação de condição” (na qual há dois desejos unidos por um laço tal, que a realização de um é a condição da realização do outro; no caso, quero ter um pênis para ser amada pela minha mãe).

E lá vai o autor, com seu pensamento ágil, furtando-se a usar expressões que foram tão usadas e abusadas que ficaram esvaziadas (como a “neutralidade” do psicanalista) e para tanto inventando linguagem, furtando-se a tomar um símbolo onírico na sua associação simbólica única, lembrando que o símbolo em si é condensação e que, conseqüentemente, aponta para saídas múltiplas; furtando-se a entrar no universo do absoluto – “não se pode ser psicanalista submetido a um imperativo”, “não podemos ser analistas de modo absoluto”, uma vez que o analista também está imerso numa “atitude de pensamento que depende dos mesmos princípios que, do lado do paciente, são os da resistência – a resistência é uma exigência da vida – donde resulta que um pensamento puramente psicanalítico é um ser mítico”; lá vai o autor depondo, com a força do seu pensar, contra as ilusões cientificistas, contra as formulações de regras, mesmo quando estas se encontrem no próprio texto de Freud (a regra relativa às falas nos sonhos), contra as auto-evidências (o dever do supervisor é por suposto eliminar candidatos a analistas que são candidatos “perversos”).

O autor, que opta a favor de um enunciado de uma verdade antes que a favor da formulação de uma regra, que traz o insólito não só nas antinomias, mas também quebrando os “matter of fact” que se consolidam em determinadas instituições de formação de analistas, nas quais a representação da pertinência à Instituição deixa de ser equivalente de um produto de fabulação para ser um fato, que se cristaliza como fato, quando se pensa no próprio analista como membro do corpo constituído no qual se quer obter habilitação.

Lá vai Stein, navegando, através dos vários textos, desviando-se das explicações cômodas, frutos de leis de proporção, que surgem quando, por exemplo, ao falar dos benefícios secundários da neurose, se pensa numa ordem do mensurável: o benefício, comparativamente ao sofrimento causado pela neurose; desde aí, um fracasso terapêutico ficaria na coluna dos benefícios secundários, de um desejo inconsciente de não se curar.

Lá vai o autor, situando a psicanálise, não numa coluna à margem da vida, mas na própria vida e recusando-se também a permitir que o psicanalista fique à margem das instituições, formais ou não, tomando as suas distorções como fatos incontestáveis; colocando o psicanalista no centro da questão, tendo certeza de que “um psicanalista pode melhorar sensivelmente suas condições de trabalho, se compreender as implicações da pertinência a uma comunidadade psicanalítica” e “melhorá-las também se compreender as implicações da pertinência, quer queira, quer não, a uma comunidade terapêutica”.

Mas tudo isto consegue não ser pesado, por mais responsável e trabalhoso que seja, pois, de dentro de um pensar preguiçoso, o texto se abre em humor e em inesperados. A imagem que se forma para mim é a de um psicanalista que se declarando, com ironia, um bom menino, de bom comportamento, aponta justamente para o contrário; forma em mim uma figura de alguém que acolhe muito bem, até mesmo com volúpia, a sua criança sempre viva; as suas travessuras se mantêm na sua escrita.

Uma escrita na qual vivi o prazer do texto, o prazer do chiste, fluidificando o que poderia ser árido e hermético. Uma leitura que foi suscitando em mim a curiosidade de seguir o autor no que parecia, em muitos momentos, um jogo de esconde-esconde – onde iria ela aparecer agora? – me divertindo e criando uma expectativa alvoroçada. Só que neste jogo de esconde-esconde, quando eu o achava, na realidade o encontrava, pois eu era guiada imperceptivelmente pelas suas próprias mãos, tão leves, que me davam a ilusão de uma descoberta quando, em verdade, se tratava de um ir ao encontro. Neste jogo houve também momentos de frustração, de irritação de desencontro – eu não achei o autor, ou porque havia “pistas” que eu não vi, ou porque não vi a questão que instaurava o jogo. Quem sabe, um dia...

Uma leitura na qual houve ocasiões de risco escancarado. Quando Stein fala que ficou como um idiota, “indiferente”, frente a uma paciente que ameaçava arremessar-lhe a almofada na cabeça, eu me vi, tantas vezes idiota... E ri o riso de quando se consegue rir de si mesmo. Ri solto, também na definição que Stein faz da escuta analítica (expressão que já está se transformando na ordem do mítico, na fala dos psicanalistas) como ouvido mesmo, que “mais freqüentemente do que o analista gostaria é um órgão simultaneamente ativo e seletivo, um ouvido que procura”. A imagem de um ouvido por aí, procurando ouvir...

Momentos de prazer do riso, de riso de prazer de romper com um projeto de analista ideal que por vezes invisto em mim mesma... acreditando-o realidade.

Aplico ao livro o que o autor fala da psicanálise “mais longe, além do término do tratamento (do livro) não há fim, não há realização, somente uma obra que testemunha a virtualidade indefinida de uma realização”.

É isto aí.

Mas o indefinido não justifica a absolutização do relativo, no qual caberiam com tranqüilidade jogos de palavras que, ao invés de apontarem para o mais além, se tornam circulares. O que “salva” o autor de cair no mito do eterno selvagem é a clínica. A clínica é soberana; ela detém, na concretude de seu próprio corpo, as cadeias associativas, a rigor infinitas; impedindo um desenvolvimento de abstrações sempre crescentes, carnalizando; ao mesmo tempo em que ela, sempre ela, é quem dispara as associações. O começo e o fim coincidem...

Portanto, leitor, volte, por favor à afirmação exclamativa que abre este artigo, para finalizá- lo por si mesmo, uma vez que minha verborragia amorosa parece não cessar...

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