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Resumo
Resenha de "A psique e o eu" - Fabio Herrmann. São Paulo, Editora HePsyché, 1999, 220 p.


Autor(es)
Alice Paes de Barros Arruda
é psicanalista do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e membro do CETEC (Centro de Estudos da Teoria dos Campos).


Notas

1. Machado de Assis, Contos: uma antologia, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 409.

2. Modesto Carone, comunicação oral, 1999.



Abstract
By Alice Paes Arruda – review of Fabio Herrmann, A Psique e o Eu. Fabio Herrmann is one of the most original thinkers of Psychoanalysis in Brazil. His “Field Theory” is an important contribution to the investigation of how analysis works, and a welcome refusal of dogmatism in psychoanalytic thought. In his new book, he examines the idea of “ego”, stressing its implicit duplication in all sorts of disguises as a way to reveal how the representation of myself originates. A person has in fact several “selves”, and to map them is an essential part of analytic work.

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 LEITURA

Que (rei) sou eu ?

What (kind of king) am I?
Alice Paes de Barros Arruda


“Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez ao espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e, se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque ao fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumaçada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer.” [1]

Nessas palavras pronunciadas pelo personagem de Machado de Assis no conto “O espelho – um esboço da nova teoria da alma humana”, escrito em 1882, podemos constatar a intensa inquietação que nos alcança quando somos confrontados com nós mesmos: Afinal, quem sou eu? Este que me mostram, me reconheço como sendo eu mesmo? Sou uno, sou vários? Figuras que se desdobram, “esfumaçadas e difusas”...

Ao tomá-las como uma primeira aproximação do livro A psique e o eu, de Fabio Herrmann, deparamos com o mesmo foco: o Eu, discutido em ambos os textos, com entrecruzamentos gerados a partir do lugar do qual cada um desses autores falam. O conto discute a relação entre ser e parecer, entre desejo e máscara ou disfarce, aspectos que também são considerados e analisados por Herrmann. Relata a experiência de um jovem que vê sua vida mudar ao alcançar o posto de alferes, para em seguida viver uma crise de identidade (descrita no trecho inicial que abre esta resenha) ao se ver só, numa casa. Ocorre, então, uma mudança de patamar de consciência de si deste personagem – narrador diante do espelho, quando, a partir do momento em que veste a farda de militar e se mira, passa de uma alma ingênua para uma máscara-disfarce-adulta. [2] Mostra, segundo a ótica machadiana, a impotência psíquica quando o indivíduo é desamparado do olhar consensual do outro, presentificado na tia ausente, aquela que o obsequiava por ser alferes. Sem isso, a “alma interior” é uma alma esgarçada, “enigmática e indecifrável”, num indivíduo antes “autômato”, agora “um ente animado”.

Grande observador que ironizava a sociedade provinciana de sua época, sutil, Machado de Assis já tinha por suporte da chamada interioridade o olhar do outro, primeiro espelho. Não basta vestir a farda; é preciso que os outros a vejam em toda sua extensão: o status e a identidade que confere, o papel e a função militar numa época em que ocorria a guerra do Paraguai. O espelho reproduz, assim, o sentido do olhar que falta: sem a farda, não és. “O alferes eliminou o homem.”

Por outras vias, o psicanalista Fabio Herrmann tem chamado atenção, em seus escritos, para a importância do real humano, aquilo que nos constitui, a cultura, como um sistema gerador de sentidos. A própria noção do eu está relacionada ao modelo de psiquismo e da relação sujeito – realidade, sendo a realidade mesma uma criação subjetiva, uma representação, uma forma que o sujeito imprime, num mundo já assim marcado pela presença do humano. Uma primeira duplicação de si.

O livro A psique e o eu constitui um ensaio crítico-conceitual da noção psicanalítica do eu. É dirigido principalmente aos profissionais da área que aspiram a uma sólida formação, para os quais é particularmente útil, mas também aos que se interessam pelo tema, dada a forma como é discorrido. Quem conhece os textos desse autor acostumou- se a se deixar levar por um pensamento sofisticado, denso. Talvez pela natureza do objeto focado, tão volátil por um lado, e tão complexo por outro, conduza o leitor a ser tomado por uma sensação de ter alcançado uma idéia que logo se desfaz, dando lugar ao sentimento de realmente não ter compreendido o que lhe é proposto. Neste livro, é muito difícil isso acontecer. Com muito cuidado para com o leitor, mas nem por isso abrindo mão do rigor crítico-conceitual que lhe é tão caro, Herrmann se mostra generoso e até mesmo cúmplice junto a ele: passo a passo, vai construindo seu pensamento rico em imagens, belas, por sinal, abrindo janelas, oferecendo repouso, seja através de exemplos do cotidiano da clínica, refrescando a aridez da empreitada, seja através de exemplos tirados da própria história egípcia, inspiração para seu texto. O resultado é uma das narrativas mais agradáveis e fecundas deste autor.

O livro, composto de duas partes, “O eu no fígado da pedra” e “Paixão pelo disfarce”, (além da introdução, referente à posição que a psicanálise ocupa entre ciência e ficção), parte do legado freudiano, e tem como pano de fundo a Teoria dos Campos, que pode ser compreendida como uma maneira de interpretar a psicanálise. Interessado em discutir a validade teórica conceitual do eu, parte da relativização deste conceito e propõe examinar o fenômeno da duplicação sub-reptícia do eu, investigar o problema do disfarce e da identidade do sujeito psíquico, tendo em vista a oportunidade que esses fenômenos oferecem de recuperar a origem da representação do eu. E por quê? Porque, ao recuperar sua origem, descortina-se uma oportunidade heurística. Oferece, assim, uma construção teórica crítico-conceitual da posição do eu, um eu que se concebe a si mesmo, nos processos anímicos. E o faz de modo exemplar, isto é, ele opera no campo teórico como o próprio método, buscando discriminar, dentro de um conceito, que sentidos permanecem válidos sob efeito de uma extrema compressão teórica, o que constitui o equivalente teórico exato do processo clínico de ruptura de campo. Indubitavelmente este é o ponto forte do livro: exame rigoroso com que Herrmann brinda o leitor, a contribuição desta teoria à psicanálise.

Se o modelo do eu freudiano é eminentemente biológico, constituindo-se no mediador entre as exigências instintivas e as da realidade, originalmente um eu corporal, o modelo de eu aqui proposto destaca o aspecto sociológico, com ênfase no cultural. Afirma que o “eu é aquilo que se sacrifica para conservação do eu”. Como assim?, dirá o leitor desconfiado. Tento clarear: o eu é construído de tal forma que é agente e alvo ao mesmo tempo de ações psíquicas, de tal modo que é continuamente sintetizado numa representação (ilusória) totalizante de si mesmo que de fato envolve o sacrifício de outros eus. Para conservar a forma do eu total, é a atividade do eu que se sacrifica, posto que cada ato visa construir o sujeito do ato. O que Herrmann ressalta é que, sendo a realidade resultante do próprio eu cultural, é a identidade do eu entronada no seu arredor que é escolhida para se conservar. Em outras palavras, o eu-representação que se há de conservar é o eu que reflete a mesma forma que determina cada sujeito ingressado numa cultura nesse novo nível de humanidade. Esse movimento, no meu entender, é ilustrado de forma magistral no conto citado anteriormente, onde “sem a farda, não és”. Neste processo de construção do eu dominante outros eus-representação serão armazenados em outros depósitos culturais pré-estabelecidos, sendo talvez a vida onírica o melhor deles, onde vivo outros eus que não vingaram, ou nas artes, ou no carnaval, etc. Nesta infinita multiplicação de eus, cada conjunto de fantasias, cada núcleo de complexos psíquicos tem seu eu e age sobre outras dimensões do psiquismo e pode deter as funções egóicas.

O que me parece instigante nesta construção de eu é que não se trata mais da discussão concernente ao sujeito psíquico como sujeito do consciente ou do inconsciente, mas sim como um lugar funcional, cuja posição é de agente em relação ao psiquismo. Se neste lugar se instala uma representação do eu que se declara única e definitiva, aí se eternizando, assistiremos “ao narcisismo do eu totalitário, onde o eu sucumbe à megalomania e fica prisioneiro do fígado da pedra”. Em contraste com este eu patológico, tirânico e ameaçado por outras representações que subjazem, há o eu da criação: uma circulação de sujeito psíquico semeia diversos eus que se sucedem nesta posição e dominam as funções egóicas, como memória, atenção, etc. Com muita pertinência, o autor relembra a citação dos versos de Heine por Freud, segundo os quais, afinal, a doença é a razão última da criação.

Na Teoria dos Campos, conclui, nesta crise constante de identidade que caracteriza o objeto da psicanálise, a garantia do sujeito psíquico é dada pelo sentido de imanência, que me garante que eu sou eu mesmo, por mais bizarro que me pareça, ao experimentar outras representações de mim mesmo nesta circulação de sujeitos psíquicos , ao viver representações mais periféricas.

Tendo em vista a coerência emocional de cada complexo psíquico, a lógica das emoções, o alcance clínico deste ensaio parece-me relevante: tendo mapeado os diversos eus do paciente, o analista pode propiciar o diálogo entre eles, numa expansão , e pode fazê-los colidir, eventualmente, e gerar até mesmo uma ruptura de campo e o conseqüente aparecimento de novos campos do inconsciente. Além disso possibilita exatidão do endereçamento das falas do analista para determinado eu do paciente, na sua forma adequada e precisa. Parece-me, de fato, muito oportuno para o exercício da clínica.

Antes de encerrar, gostaria, ainda, de acrescentar uma questão: sendo o que sou tão calcado na cultura, como vimos e constatamos todos os dias, me pergunto que tipo de cultura estamos gerando atualmente, onde predominam atos de violência, onde os poros sociais exalam de forma avassaladora a virtualidade da realidade, um mundo feito de imagens, de imediatez. Nesse contexto cultural da vida atual, onde encontrar os subsídios para a construção da subjetividade? Parece-me que este é o desafio da psicanálise do século XXI. Encontrar instrumentos, criá-los, para podermos pensar nosso eu cultural.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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