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Resumo
Resenha de "Ferenczi: história, teoria, técnica"- Chaim S. Katz (org.). São Paulo, Editora 34, 1996, 148 p.


Autor(es)
Ivanise Fontes
é psicanalista, doutora em Psicanálise pela Universidade Paris 7 – Denis Diderot, com pós-doutorado no Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Núcleo de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. Autora dos livros La mémoire corporelle et le transfert (Presses Universitaires du Septentrion, 1999) e Memória corporal e transferência – fundamentos para uma psicanálise do sensível (Via Lettera, 2002).


Abstract
By Ivanise Fontes – review of Chaim S. Katz (org.), Ferenczi: história, teoria, técnica. The papers presented in a 1993 colloquium on the Hungarian analyst stress the actuality of his ideas. From the socio-cultural context of 1900 Hungary in which he lived, through the importance of the Magyar language in the organization of Ferenczi’s general outlook, to the origins of the Budapest school, with its distinctive features, the contributors examine Ferenczi’s concepts in several areas: his theory of the symbol and of the object, his ideas about trauma, his contribution to the metapsychology of melancholia, and other issues. His place in the history of the discipline is also assessed.

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 LEITURA

A modernidade de Sandor Ferenczi

Actuality of Sandor Ferenczi
Ivanise Fontes


O “I Simpósio Sandor Ferenczi” teve lugar no Rio de Janeiro, em novembro de 1993, organizado pelo grupo Formação Freudiana, do Rio de Janeiro. Em 1996, com o título Ferenczi: história, teoria, técnica, a Editora 34 publica o resumo das conferências então pronunciadas e nos dá a oportunidade de participar dessa homenagem aos 60 anos da morte do autor. Para quem, ainda em 2005, não foi contagiado pelo espírito de investigação radical de Ferenczi, como bem o disse D. Kuperman no prefácio, a leitura do livro pode ser determinante.

Apresentadas em tom coloquial, reproduzindo a vivacidade da exposição, cada palestra é introduzida por um coordenador, membro da instituição, e finalizada com um debate suscitado pelo tema desenvolvido.

A seqüência das apresentações faz jus ao título: inicialmente um pouco de história, em que vamos à Hungria de Ferenczi, levados pela mão de Anna Verônica Mautner, conhecedora da cultura daquele país e da herança magiar. Em seguida, os psicanalistas Maria Tereza Pinheiro, Joel Birman, Renato Mezan e Chaim Katz expõem seus pontos de vista sobre a teoria e a técnica na obra de S. Ferenczi.

Anna Verônica Mautner revela-nos elementos inusitados a partir de lembranças familiares: uma possível primeira aula de Ferenczi na universidade, assistida por um tio dela! E o fato de que, naquele início de século, havia espaço para a sexualidade no dia-a-dia, no diálogo, na avaliação espontânea do outro. Com seu depoimento, Mautner confirmou o que venho aprendendo, através da literatura, sobre essa cultura peculiar. Nas publicações traduzidas para o português de seus escritores mais representativos como Gyula Krúdy (1878/33) e Sandor Márai (1900/1989), percebi tratar-se de um povo muito sensível à afetividade.

Anna Verônica Mautner nos diz que a língua magiar era “para rir, chorar, xingar e amar” (p.29), tendo ficado relegada à informalidade, tornando- se oficial somente no século XX. Portanto, segundo ela, a língua especializou-se, durante mais de um milênio, como língua para comunicar afetos e desditas.

Ressalto este aspecto dentre os inúmeros que a autora apresenta porque acredito, como ela, que essa inserção particular da psicanálise na língua húngara, no “espírito dos húngaros”, cria uma dimensão mais “corporal”. Quando a psicanálise encontra essa língua em tudo aquilo que se fala ou vê, no sentido de comunicação de afetos, a psicanálise e a língua húngara se encaixam perfeitamente, diz ela. E S. Ferenczi viria a representar, isto é, a “incorporar” essa característica não só em sua obra, mas em seus traços de personalidade. Sabe-se que era uma pessoa menos formal e até mesmo muito risonha, como testemunham algumas de suas fotos, inclusive a da capa do livro em questão. Ainda segundo a autora, Ferenczi não considerava natural o sofrimento e queria curar, parecia ter um compromisso com a cura – aspecto que será explorado por Chaim Katz em sua exposição.

De fato, reconhecidamente esse autor estava voltado para uma metapsicologia da clínica analítica. Deixou uma escola, que, apesar de oficialmente desconsiderada, tem sido revalorizada. Em seu relato, Anna Verônica Mautner nos chama atenção também para a revisão da idéia corrente de que Ferenczi era um homem indiferente à política institucional da psicanálise.

Desse ponto de vista, podemos atualmente considerar “uma escola de Budapeste”. Recentemente assisti a uma mesa-redonda no Colóquio Internacional N. Abraham e M. Torok em Paris (outubro de 2004) cujo título era “De Ferenczi, Balint, Imre Hermann a N. Abraham e M. Torok”, nomes aos quais poderíamos incluir Eva Brabant e Judith Dupont, psicanalistas radicadas na França. Ali se evidenciava a existência de um pensamento psicanalítico húngaro, com uma nítida preocupação clínica. A originalidade presente em vários trabalhos desses autores e a visão que inauguram sobre uma nova escuta em psicanálise – graças principalmente aos conceitos de doença do luto, cripta, fantasma e segredo de família – reafirmam algo de efervescente que perdura nessa “escola”.

As conferências de Maria Tereza Pinheiro, Joel Birman, Renato Mezan e Chaim Katz apresentam alguns pontos em comum que passo a ressaltar, procurando com isso evidenciar a importância de um livro como esse para nossa centenária psicanálise. São eles:

1. Questões relacionadas com o futuro da psicanálise.
2. A psicopatologia atual e sua abordagem teórico-técnica.

Questões relacionadas com o futuro da psicanálise

Tereza Pinheiro estabelece uma relação interessante entre o que observa em seus pacientes melancólicos – a falta de projeto de futuro e dificuldades de lembrança do passado, com alguma coisa enterrada – e uma psicanálise também melancólica, com um passado também enterrado através dos escritos de Jones. Nesse sentido, segundo a autora, a retomada da obra ferencziana poderia revitalizá-la.

Para Joel Birman, o fato de Ferenczi poder sair do “arquivo morto” deixa claro que a Psicanálise dos últimos decênios não admitia a “franja de problemas clínicos e metodológicos que a obra de Ferenczi testemunha de modo muito rico” (p.70). Indagando “o que é ser psicanalista?” e “o que é essa tal ‘senhora’ psicanálise?”, Birman lembra que a psicanálise no final dos anos 20 já estava se tornando “anêmica e perniciosa” – lembramos que esta é uma referência à causa da morte de Ferenczi. A crise que eclodiu nos anos 50, segundo ele, reabriu a crítica que esse autor fazia às instituições em sua época. Sua dissonância em relação à comunidade psicanalítica era patente e nos faz supor que essas duas questões eram centrais em sua obra.

A exposição de Renato Mezan volta-se para uma análise da noção de símbolo e as reflexões subseqüentes sobre o objeto na situação analítica, o que permite ressaltar a originalidade do pensamento desse autor. Partindo do simbolismo dos olhos, explorado por Ferenczi, Mezan fala do interesse do autor na gênese psíquica do símbolo. No texto – um dos mais originais de Ferenczi – “Sobre o desenvolvimento do sentido da realidade” (1913), Mezan ressalta, com pertinência, o lugar que o corpo ocupa como referência inicial básica para a construção das representações.

Desenvolvendo a noção de seis etapas na aquisição do sentido de realidade, Ferenczi não só apresenta uma criança feliz (ao contrário, como assinala Mezan, da impressão de que a criança ferencziana é sempre traumatizada), mas também inclui o corpo como via pela qual os objetos são encontrados e incluídos dentro da esfera do self.

Tendo escolhido essa perspectiva para analisar a obra ferencziana, Mezan nos oferece a possibilidade de nela vislumbrar uma atualidade inquestionável. Por isso, para ele faz sentido lembrar a frase de A. Green que dizia ser Ferenczi “o pai da psicanálise contemporânea”.

Estudando a questão dos símbolos, Mezan diz que Ferenczi se defrontou com um caminho singular, específico – aquele pelo qual uma criança que explora as sensações de seu corpo se constitui como sujeito de uma percepção de si mesma e dos outros. Seria esta a trajetória para a construção de suas representações.

Se o território psíquico a ser investigado atualmente é cada vez mais o das organizações nas quais o recalcamento não é o mecanismo de defesa principal, poder fazer incursões teóricas na dimensão do corpo na origem do psiquismo leva certamente a uma renovação no campo da psicanálise.

Chaim Katz completa esse ponto de vista considerando o trabalho de Ferenczi uma “obra aberta”, lembrando a concepção de Umberto Eco. Ela estabeleceu, segundo ele, no interior do campo psicanalítico, postulações incisivas que transformaram decisivamente tanto a teorização quanto a clínica. É um saber longe do equilíbrio e, como tal, como teoria não acabada, tem mais chance de permanecer viva, já que têm sido freqüentes, tanto nos Estados Unidos quanto na França, anúncios sobre a morte da psicanálise. Chaim Katz considera Ferenczi como uma nova perspectiva para a psicanálise. Segundo ele, voltamo-nos para esse autor pelas dificuldades teóricas e clínicas cada vez mais presentes em nosso trabalho analítico.

Sobre a psicopatologia atual e sua abordagem teórico-técnica

Tereza Pinheiro faz uma vasta reflexão sobre os pacientes aparentemente histéricos, que, em sua opinião, na verdade são estruturas mais prejudicadas, próximas da melancolia. No debate, ela esclarece: “Não se parecem com os melancólicos clássicos de jeito nenhum, mas têm angústia numa quantidade enorme e estamos, apesar das facetas diferentes, diante da mesma estrutura.” São pacientes que nos dão, segundo ela, a sensação de que nosso instrumento é inoperante: “(esses pacientes) não fazem lapsos, não sonham, não sabem o que é fantasia” (p.44). É, portanto, na teoria do trauma em Ferenczi que ela vai encontrar respaldo para pensar essas organizações psíquicas, nas quais não há retorno do recalcado, como na histeria. Podemos acompanhá-la em uma descrição bastante clara das noções de culpa, desmentido, introjeção e identificação.

Para Birman começam a ganhar volume, e estão na demanda clínica de qualquer psicanalista, os casos e as patologias ligadas ao narcisismo, o que os americanos chamam de borderline e os franceses de “estados-limites”, as pequenas e grandes formas novas de manifestações de histeria. Lembra-nos – o que nunca é demais – que o ofício do psicanalista é exatamente o trabalho sobre as singularidades, no qual devemos eticamente reconhecer o que existe de único em cada sujeito. A partir daí fica evidente a necessidade de uma nova compreensão dos mecanismos de funcionamento mental de pacientes que já não se encaixam numa metapsicologia freudiana.

Em breve explanação, Birman traz elementos essenciais da “teoria da clínica ferencziana”: o ato analítico e a técnica ativa, o conceito de trauma, a criança sábia, a experiência da catástrofe, a análise mútua e reflexões sobre a transferência e a ética do analista.

Sua afirmação de que a psicanálise só se desenvolve – como clínica e como saber – quando afronta os limites, me parece bastante relevante. Até porque parece ser esse o movimento necessário para lidar com “as experiências clínicas da psicose, nos estados-limites dos borderlines, das patologias de um narcisismo negatizável, etc.” (p. 87). A psicanálise de Ferenczi assume o risco de ir para as fronteiras. Para Birman a experiência da psicanálise é uma experiência de fronteira.

Na suposição de que o interesse atual suscitado por Ferenczi está em sua liberdade de experimentação e numa coragem um pouco tresloucada no trabalho clínico e na escrita, Renato Mezan nos dá a pista para a importância desse autor nos impasses da clínica contemporânea. É no debate que ele esclarece, fazendo um paralelo com a teoria freudiana da pulsão de morte, a intenção de Ferenczi ao se encaminhar para a construção de seus conceitos de linguagem da ternura, da paixão etc. Estaria preocupado com a impossibilidade de acesso da análise às organizações nas quais o recalcamento não é o mecanismo de defesa principal, quer dizer, segundo Mezan, das organizações extraneuróticas. Justamente aquelas às quais estamos chamando de “psicopatologias modernas”. Acrescenta ainda que a idéia de compreender a gênese dessas organizações através das experiências traumáticas é uma outra maneira (diferente da de Freud) de pensar sobre o que escapa ao campo da representação.

Sabemos que cada vez mais a psicanálise se defronta com a necessidade de uma metapsicologia que inclua esse mecanismo de funcionamento mental que não passa pela representação. Nesse sentido, a obra de Ferenczi torna-se essencial.

Destaco aqui, dentre os vários temas abordados por Chaim Katz (a cura, o belo e o sublime, o sonho), sua observação sobre os dois registros do psiquismo: “Acho que Ferenczi fala de dois andares, ou dois regimes do psiquismo” (p. 137). Ao mostrar que um dos andares é precioso e tem sido abandonado, Katz se aproxima da questão pertinente às diferenças entre os mecanismos psíquicos e principalmente àqueles ainda inexplorados. Reproduzo seu texto:

“Na medida em que os casos chamados ‘difíceis’ não podem ser resolvidos por uma teoria previamente formulada, penso que cada momento diz respeito a uma espécie de aparelho psíquico” (p. 124).

Vale a pena acompanhar a provocação, ao estilo dos enfants térribles, como ele mesmo qualifica sua exposição, para sentirmos a riqueza das contribuições ferenczianas. E, de fato, Katz nos apresenta a uma “obra diferenciada”, com todo vigor de um “ferencziano”.

Ele acredita que Freud tomou uma grande lição de Ferenczi em 1933, quando este mostrou como nascem outras representações. “O campo das representações vai ser ressignificado, retrabalhado de outra maneira, desde que possa tomar posse do mecanismo que produziu a expulsão de maneira violenta...” “Elas são chamadas ‘representações fora do lugar’” (p. 141).

A partir dessas reflexões, Katz concluiu o debate falando sobre a importância da noção de catástrofe. A catástrofe, que faz parte do título original de Thalassa, indica que algo que já estava organizado se desorganizou. Mas, ao invés de ser uma desgraça, é a necessidade de uma outra organização. A crise e a catástrofe pedem a feitura de uma outra organização, segundo ele. Se reportarmos essa análise à crise da psicanálise, quem sabe possamos reconhecer aí também uma necessidade de novas organizações, tanto teóricas quanto técnicas.

Sem dúvida o acontecimento que o presente livro documenta reuniu um grupo de profissionais sensíveis às questões colocadas à psicanálise na atualidade. Sua publicação reitera o crescente interesse pela obra desse autor em nosso país e em outros países, como o atestam os encontros Ferenczi em Madri – 1998 e o Congresso “Sandor Ferenczi – o clínico” em Turim, julho de 2002.

Um detalhe para finalizar. O endereço da Editora 34 em São Paulo: Rua Hungria, no Jardim Europa. Talvez pudéssemos brincar ao considerar que Ferenczi não deixa de ser um pouco brasileiro, no seu jeito mais criativo de ser.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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