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Resumo
Resenha de "Leituras psicanalíticas da violência" - Magda Guimarães Khouri, Jassanan Amoroso D. Pastore, Inês Zulema Sucar, Raquel Plut Ajzenberg e Reinaldo Morano Filho (orgs.). São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004, 177 p.


Autor(es)
Raya Angel Zonana
é psicanalista, membro associado da SBPSP.


Abstract
By Raya Angel Zonana – review of Magda G. Kouri et al., "Leituras Psicanalíticas da Violência." This collection of essays by psychoanalysts focuses on the multiple faces of violence, which has become a major problem in Brazil as in other countries. As interdisciplinary approach is patent in almost all the papers, for violence has other roots than psychical; but good work is done in exploring the inner root of violent behavior – helplessness, hatred, frustration, insecurity and other emotions. Examples analyzed include real facts (such as terrorism), literary works (as for instance Euripides’ Medea) and a film by Peter Greenaway.

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 LEITURA

Violência: destruição e criação

Violence, destruction and creation
Raya Angel Zonana


Paris. Junho de 1940. Uma clara manhã de primavera. A cidade silenciosa ainda dorme, enquanto alguns carros transitam por lugares históricos da cidade. Hitler acompanhado de uma comitiva da qual fazia parte o arquiteto Albert Speer, faz um tour por Paris. Visita o Teatro da Ópera, a Torre Eiffel, e chega ao Arco do Triunfo. Nas legendas do filme Arquitetura da destruição, de Peter Cohen, lemos que Hitler sempre tivera o desejo de visitar Paris. Pensava em destruir a cidade, mas pondera que, após construir a Berlim de seus sonhos, Paris não passará de uma sombra. “Então para que destruí-la?”, diz Hitler.

E a câmera focaliza o sorriso triunfante do Führer.

Paris, patrimônio cultural da humanidade, está tomada pela barbárie nazista. A violência transmitida pelo prazer expresso no rosto de Hitler toma conta da cena do documentário Arquitetura da destruição.

Pode haver violência em um sorriso?

Violência, silêncio e destruição.

Onze de setembro de 2001. Milhões de espectadores horrorizados são arrebatados de sua lide cotidiana pelas indescritíveis imagens que saltam dos aparelhos de TV do mundo inteiro, que, via satélite, mostram dois aviões chocando-se contra as Twin Towers, destruindo o símbolo de poder do Império da América do Norte. Destruindo também milhares de anônimos sonhos soterrados sob os escombros, envoltos numa fumaça sinistra.

Difícil dizer o que violenta mais, se o silêncio de Paris tomada pelos nazistas, ou se o som ensurdecedor dos aviões derrubando e incendiando as duas construções gigantescas que definiam a contemporaneidade de Nova York.

O livro Leituras psicanalíticas da violência tem na curta frase inicial de seu prefácio uma síntese destas duas cenas de horror e de muitas outras situações de violência. Escreve Deodato Azambuja: “A violência é um toque. Um toque no corpo” (p. 9).

Nas cenas descritas acima, o toque se dá no corpo da Humanidade, da Cultura, da Civilização. É um toque de barbárie, é um toque que destrói séculos de construção do Homem em poucos segundos. É um toque que produz medo e escuridão.

“Mas barbárie e civilização podem ser separadas, como se existisse a hipótese de higienização da humanidade? Não são pares complementares da mesma estrutura?”, pergunta Leopold Nosek (p. 141).

Nesse sentido é interessante, apesar de talvez macabro, contrapor algumas cenas de documentários da Segunda Grande Guerra, onde se vêem centenas de corpos humanos (seria humano aquele amontoado de ossos e pele ressequida?) sendo jogados, alguns ainda vivos, em valas ou fornos crematórios, a uma outra cena mais contemporânea, das guerras atuais, mais modernas, tecnológicas, transmitidas pela televisão, ao vivo, em tempo real, onde, numa tela verde, a morte aparece como pequenos pontos fosforescentes, morte sem sangue, asséptica. Em contrapartida ao horror, à dor provocada pelas cenas cruentas da Segunda Guerra, surge o abismo do vazio, do nada diante de uma morte representada por um brilho na tela.

É diante do desamparo advindo do vazio do sentir, da necessidade de evitar a dor, e, portanto, o pensar, que está posto o homem contemporâneo.

A psicanálise, talvez uma das traduções mais vigorosas da cultura da humanidade, trabalha no campo da ruptura, portanto, de uma forma de violência. O conflito estrutura a vida mental, e a psicanálise o revela na busca de elaborá-lo, com ciência e arte, como diz ainda Deodato Azambuja (p. 11).

“Freud põe em série complementar a pulsionalidade da morte e a capacidade de pensamento. É na ausência desta que nos detemos desamparados diante da destruição, Por outro lado, é a destruição que nos impulsiona na necessidade de mais pensar”, nos lembra Leopold Nosek (p. 132).

É importante neste momento contextualizar a violência da psicanálise.

Penso em André Green, autor que, ao trabalhar a dualidade pulsional, estruturante do psiquismo, estabelece a diferenciação entre a objetalização e a desobjetalização. Desta forma entendo que o toque disruptivo e às vezes violento da psicanálise, ao revelar o conflito, humaniza, objetaliza, propõe novas ligações. Cria.

O tocar da psicanálise pode ocorrer através de uma pequena fala, ou de um delicado silêncio, que, interpretando a dor humana, abre-a em leque, e permite, assim, uma aproximação do sofrimento e sua compreensão. Em alguns momentos, contudo, a suavidade deve dar lugar a um golpe certeiro que desloca o sujeito de uma situação estática e põe a vida em movimento. É esta a pulsão de vida de que fala Freud, ruidosa, criativa.

Nas grandes guerras ou nas pequenas guerras urbanas do nosso cotidiano, a violência desobjetaliza, toma o Outro como parte obstrutiva do próprio desenvolvimento e, desta forma, como algo a ser eliminado. Propõe a destruição pura e simples. Uma limpeza burocrática do que incomoda, que Hannah Arendt chama de a banalização do mal.

Leituras psicanalíticas da violência permite, nos ensaios que compõem o volume, transitar por diversas maneiras de pensar estas questões. Seus autores, cada um dentro de sua singularidade, abrem espaço, para, através do viés psicanalítico, elaborar e procurar entender alguns dos infinitos ângulos do que Freud chamou o Mal Radical.

A mesma sutileza com que Deodato Azambuja abre o livro prossegue no texto de Cintia Buschinelli. Tomando um poema de Carlos Drummond de Andrade, a autora faz dele tema de uma poesia própria com a qual permeia sua escrita. O poema, “O medo”, sai da escuridão do nascimento para alternativas da existência: carteiro, ditador, soldado. Cintia entrelaça estas possibilidades de vida com a carta de Freud a Einstein: “Por que a guerra?”, e propõe a palavra que transita, o carteiro, como a forma de enfrentar a violência do ditador – soldado.

É por meio do simbólico, da linguagem, que o humano se diz. É neste dizer que pode surgir a elaboração da violência pulsional, a civilização, e não o ato guerreiro de subjugação do Outro, do ditador – soldado.

Mas, a própria palavra pode conter em si uma imensa violência. É com ela que nós, analistas, trabalhamos, às vezes com doçura, delicadeza, mas muitas vezes usando-a como elemento de corte, com violência, na tentativa de abrir espaço para o pensamento e a possibilidade de novas construções psíquicas.

Luiz Carlos U. Junqueira Filho e Ricardo Barreto nos apontam, através da análise que fazem do filme O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, de Greenaway, como a violência pode se apresentar sob o manto da estética. Diante de cenários que reproduzem belas e significativas telas barrocas, ou sugerem quadros de Mondrian, ou ainda cartas do Tarô, surgem situações de violência que engolfam essa estética. Os autores sugerem que é também através desses belos cenários que nos seduzem que a violência se faz ver. A violência fascina. Junqueira aproxima Greenaway de Melanie Klein, entremeando textos desta autora com sua análise do filme.

Somos obrigados a nos confrontar com a percepção do sadismo e das fantasias mais violentas que desde muito cedo povoam nossos sonhos. Essas fantasias, das quais se constitui a vida mental, vêm junto com a sexualidade e são trazidas para dentro do corpo e da psique da criança, pelos cuidados amorosos da mãe. A sexualidade entra no corpo da criança, como um corpo estranho, não compreensível e violento, ainda que amoroso.

Neste sentido, o texto de Isabel da Silva Khan Marin expõe a contradição que desponta na própria palavra violência. Diz ela: “é preciso considerar como nos fundamentos do sujeito humano se encontra uma força vital, absolutamente necessária à sua sobrevivência. É preciso ter coragem de chamar esta força de violência...” (p. 86).

É, no entanto, esta força vital que tem sido violentada pelo pensar contemporâneo, onde o sentir e o sofrer são perigosos e devem ser evitados de todas as maneiras, com todo o aparato tecnológico que se fizer necessário. A violência passa a ser então a falta, o oco que se cria no sentir humano no mundo contemporâneo.

Leopold Nosek vê aí a necessidade da arte como construção da subjetividade, do humano. Propõe para estes tempos ocos um analista que construa sonhos junto ao seu paciente. Em seu texto faz uma ampla reflexão sobre o Terror, usando a trágica figura de Medéia de Eurípedes, consumida por sua paixão, ou Joseph Conrad com o violento coronel Kurtz, revivido em Apocalypse Now (Coppola), passando pela metapsicologia de Freud, e chegando poéticamente a T. S. Elliot com os homens ocos, empalhados. É este homem da pós-modernidade que sofre da violência do nada que necessita da arte e do vigor do sonho de seu analista.

É como a construção de um sonho que vai se montando o texto de Paulo Sandler, que, através da associação de idéias, faz, ao lado de War Memoirs de Bion, as suas próprias Memórias do futuro. Passa de diálogos imaginários, com Bion, a diálogos reais, com as memórias que lhe restaram de seu avô judeu, traumatizado pelos sofrimentos de inúmeras guerras.

Plínio Montagna, ao fazer um longo percurso interdisciplinar seguindo os caminhos da ferocidade do homem através da história, vai observando as suas motivações. Adverte–nos de que, para compreender a violência humana, necessita- se tomá-la não só em seu sentido individual, mas também como fenômeno grupal, em toda a sua complexidade. Passa assim por vários autores, não só psicanalistas como Freud, Glover, Money-Kyrle, mas até Sun Tzu, com o texto A Arte da Guerra, ou Sócrates com sua idéia de cidadania universal, para construir uma paz também universal. Plínio Montagna leva-nos a uma ampliação do tema e à lembrança de que os piores crimes foram cometidos em nome de Deus, usando-se a ideologia de um suposto Bem como arma de violência e morte.

Ignácio Gerber se pergunta: o que veio primeiro, o medo ou a violência? E esta pergunta surge através de um poema de Carlos Drummond de Andrade, no qual a poesia nos auxilia, dentro de suas rimas, a pensar questões tão brutais como a violência. Ignácio nos leva a uma questão interessante, propondo “um novo contrato social humano no qual prevaleça o espírito feminino” (p. 47). Fala do espírito feminino essencial, em grande parte inconsciente, presente tanto no homem quanto na mulher. Justifica essa idéia pela possibilidade que tem a mulher de suportar a contradição, de manter-se no desconhecido, enquanto o homem busca a assertividade do conhecido, do preciso.

A psicanálise, assim como a poesia, atravessa as questões da humanidade.

Por meio da palavra, José Otávio Fagundes navega pelo tema da violência transitando pelas várias teorias psicanalíticas, tentando iluminar a questão. Assim também é a busca de Raquel Elisabeth Pires, que se detém na violência interna de cada indivíduo e usa como inspiração para sua escrita (também ela se serve do artista), uma frase do escritor israelense Amós Oz, que aqui reproduzo: “O maior perigo não está nas armas e nas bombas, nem nas guerras e nos militares, mas no coração humano: agressão, fanatismo, prepotência, excesso de zelo, incapacidade de imaginar, incapacidade de ouvir, de rir, principalmente rir de nós mesmos” (p. 147).

Lembro aqui Umberto Eco e seu romance O nome da rosa, no qual mostra como o terror e o obscurantismo da Idade Média eram mantidos à custa da proibição do riso.

A violência como um resíduo do processo de identificação e dessexualização pelo qual passa cada ser humano para ser introduzido no mundo da civilização é, finalmente, abordada por Luiz Tenório de Oliveira Lima. É também a ela que se refere Freud, quando escreve que, do amansamento das pulsões, sempre resta um resto, que mantém a força do desejo e impele a vida. A maneira pela qual será vivida a parte não domesticada constituirá a natureza de cada ser.

Poderá ser vivida como pura violência e destruição, ou poderá tornar-se criação, dependendo de como se toca o Outro, objetalizando-o, considerando- o como semelhante, ou destituindo-o da característica do humano, brutalizando-o e subjugando-o. Do toque no corpo, voltando a Deodato Azambuja, pode advir a violência, mas também a criação. Afinal, não é desta forma, com um toque de seu dedo, que pode ser ao mesmo tempo leve e furioso, no dedo de Adão, que Deus cria o homem à sua imagem e semelhança, no afresco pintado pelas mãos firmes e poéticas de Michelangelo?

P. S. Esta resenha terminava com Michelangelo e a Capela Sistina, evocando um ato de criação. Procurei apontar para a possibilidade, que os colegas psicanalistas abrem, de pensar que a violência, ao ser elaborada, pode ser transformada e usada como uma força, não só de caráter destrutivo, mas também, e principalmente, como um ato criativo.

A realidade, porém, às vezes vence a fantasia, o desejo. Em sete de julho de 2005, quando dava por findo este texto, o mundo foi invadido pela notícia da explosão de três bombas no centro de Londres, em atentado terrorista assumido pela organização Al Qaeda, com centenas de mortos e feridos.

Londres. Julho de 2005. Uma clara manhã de primavera. A cidade...
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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