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Resumo
Partindo da constatação de que o “erro” pode ser a única via para conduzir ao “acerto”, considera-se que o analista procura ajustar o foco de sua escuta de modo a identificar as várias manifestações do infantil. Este texto é um álbum de fragmentos clínicos obtidos a partir de diferentes focos sobre o discurso do analisando.


Palavras-chave
escuta analítica; erro; o infantil.


Autor(es)
Marion Minerbo
é psicanalista, analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, doutora pela UNIFESP.


Abstract
Considering that a "mistake" may be the only way to a better understanding of the analytic situation, the analyst tries to adjust the focus of his listening to the child within the patient. This paper is a collection of clinical vignettes that illustrate this idea.


Keywords
analytic listening; mistake; analytic situation

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 TEXTO

Tentativa e erro na escuta do infantil

Trial and error when listening to the infantile
Marion Minerbo

Em Psicanálise, para que se possa falar em erro seria preciso ter clareza sobre qual seria o acerto, isto é, como se dá a ação terapêutica em cada situação analítica. Embora já se tenha muitas idéias sobre esse tema, a complexidade dos acontecimentos no campo transferencial nos aconselha a passar ao largo da noção de erro.

Apesar disso, penso que se pode falar em erro na condução de um processo analítico. É algo que se percebe claramente em supervisão. Um diagnóstico transferencial equivocado pode fazer com que o analista simplesmente não esteja conversando com aquele sujeito que se encontra à sua frente. É preciso ter alguma idéia de "onde" está o paciente - que posição subjetiva ele ocupa no momento - para que o diálogo seja produtivo.

Por outro lado, um diagnóstico transferencial relativamente preciso depende do erro do analista. É preciso falar com um paciente como se ele fosse um neurótico para perceber, por suas respostas, que ele não o é. É preciso dizer a um paciente que ele não suporta a dependência para perceber, pelas justificativas que apresenta ao analista, que ele está lutando para preservar uma imagem idealizada de si - e que é preciso mudar de estratégia. É preciso ocupar certa posição durante algum tempo até perceber que aquela é, justamente, a posição complementar que perpetua a repetição. Algumas vezes é preciso chegar à atuação - adormecer, ou desinvestir o paciente - para que seja possível perceber a presença de Tânatos e a magnitude do desligamento operando no campo transferencial. Dessa perspectiva, o erro é necessário e pode ser bem aproveitado. Portanto, o mais importante é saber escutar.

Assim, deixando de lado a ideia de acerto ou erro, já que o erro pode ser a única via para conduzir ao acerto, parece-me que o mais importante é ajustar o foco da escuta para obtermos os elementos que nos permitam fazer um diagnóstico transferencial para aquele momento. Este texto tem por objetivo apresentar situações clínicas em que se procura ajustar o foco da escuta em busca de maior nitidez metapsicológica. Naturalmente, o trabalho analítico não se resume a traduzir ou explicar para o paciente o que se escutou; como usar o que se escuta é outra questão, de que não vamos tratar aqui.

O foco da escuta

Pode-se comparar a escuta analítica com a atividade do fotógrafo. A realidade do mundo está ali, tudo é e está visível. Mas este, com sua visão criativa, dirige seu olhar para um muro aparentemente banal e flagra, num canto, certa composição cromática inusitada ou uma textura interessante. Recorta e amplia aquele pedacinho, transformando o que sequer seria visto por nós em algo significativo. Amplia-se nossa capacidade de olhar para o mundo.

A escuta do analista também recorta o discurso do analisando, colocando em evidência algo da ordem do infantil, ampliando suas possibilidades de ser. A atenção flutua livremente até que a escuta, como o olhar do fotógrafo, se detenha em elementos marginais ou dissonantes no discurso do analisando. É uma escuta criativa. A interpretação é um criado-achado: baseia-se inteiramente no que se escutou, mas o analista cria algo novo a partir disso.

Quando olhamos por um binóculo, giramos lentamente o ajustador de foco até que a imagem que desejamos ver fique nítida. O foco varia conforme a distância em que se encontra o objeto, e também conforme o olho de quem focaliza. Assim, um mesmo objeto se torna nítido com focos diferentes para um míope e para um hipermétrope. Aqui esbarramos no limite de nossa analogia, pois não há "um mesmo objeto" visto por diferentes observadores. A "realidade" é a realidade interpretada por um sujeito, e a interpretação, mesmo a mais delirante, é um criado-achado. Apesar disso, a analogia serve para introduzir a ideia de que, para escutar a criança no analisando, diferentes focos podem ser necessários, em função das diferentes modalidades de apresentação do infantil.

Historicamente, os elementos marginais do discurso têm a ver com o funcionamento do processo primário. Certas palavras ou expressões podem ser vistas como representações deslocadas ou condensadas do recalcado em função do conflito psíquico. Seriam representações simbólicas dos "conteúdos" inconscientes, produto do recalcamento secundário.

Porém, os elementos marginais ou dissonantes do discurso podem ser de outra natureza e se manifestar também por meio de elementos não representacionais: estilo, estrutura da fala, sua função, clima emocional criado, o que ele mobiliza no corpo do analista. São elementos afetivo-sensoriais que, juntamente com as representações, nos remetem ao recalcado primário. Seja como for, procuramos escutar "a criança no adulto" procurando identificar os modos pelos quais ela se organizou ou desorganizou em suas relações intersubjetivas.

Ilustro, através de fragmentos de minha clínica e de meus supervisionandos, os movimentos de ajuste no foco da escuta que tornaram o infantil audível. Os casos foram completamente ficcionalizados. Conservei deles apenas os dados estruturais necessários para ilustrar determinada ideia. As particularidades que permitiriam identificar os analisandos foram eliminadas ou totalmente alteradas.

A escuta na clínica

1. A experiência subjetiva do analisando e a metapsicologia

Uma analisanda conta que o homem que vinha instalar a TV a cabo se atrasou mais de quatro horas, e ela ficou enfurecida. Assistir à TV é a única coisa que lhe dá prazer, e nem isso pôde fazer em seu dia vazio.

Quando relata um caso, ou mesmo um fragmento como este, o analista já efetuou certos recortes, identificou um tema e certo clima afetivo, fez alguma organização do material. É um primeiro nível de escuta analítica.

Um segundo nível de escuta nos introduz no universo subjetivo do paciente. Precisamos entender como ele vê o mundo, qual é sua experiência subjetiva da realidade, em que mundo ele vive.

O atraso do homem da TV a cabo foi "traduzido" por ela da seguinte maneira: "aquela mulher lá é uma zé-ninguém, ela pode me esperar pelo tempo que for; vou atender os clientes mais importantes antes dela". Se ela ficou enfurecida, é porque fez determinada leitura da realidade.

Mas isso ainda não qualifica a escuta como sendo analítica. Um bom escritor pode perfeitamente recriar a realidade psíquica de alguém. A empatia é necessária, mas não é suficiente. Num terceiro nível de escuta, queremos saber como, e por que, ela atribui ao homem da TV a cabo tamanho desprezo por sua pessoa.

A analisanda fez a transferência de uma dimensão do infantil sobre o homem da TV a cabo. Podemos imaginar que a criança nela se sente pouco importante para um adulto por quem espera ansiosamente, justamente porque depende dele de forma absoluta. (Ela precisa do homem para poder assistir à TV a cabo, que é a única coisa que lhe dá prazer.) Podemos imaginá-la sentada, sozinha, esperando, imaginando-se esquecida, ou pior, imaginando que ele está dando preferência aos clientes VIP. Enfim, este adulto - o objeto primário - está ocupado com o terceiro elemento - já há a triangulação edipiana - a quem valoriza bem mais do que a ela, a criança sem atrativos. Percebe-se um eu mal narcisado (a zé-ninguém que pode esperar), já com a percepção do terceiro elemento no horizonte (os VIP), e com ódio da exclusão, pois além de ser humilhante (ser tratada como zé-ninguém, enquanto o terceiro é VIP), ela fica desamparada (não pode assistir à TV). Seu objeto interno não a mantém em seu espaço psíquico durante a ausência (esqueceu-se dela?); ou, então, prefere o terceiro elemento a ela, o que é ainda pior para seu narcisismo - é mais humilhante ser preterida do que ser esquecida.

É, ou não é, um excelente motivo para ela estar enfurecida? Quando o homem da TV a cabo finalmente chegar, eu não me espantaria se ela o recebesse com alívio, porém também com pauladas. Por isso, seria um erro interpretar sua reação como intolerância à frustração. Não porque não seja verdade, mas porque esta fala não se dirige à criança nela, e sim a um suposto adulto que deveria estar adaptado às realidades da vida. Tal interpretação apenas reforçaria as defesas, agora contra um analista que, possivelmente, repete a situação traumática.

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2. Tentativa e erro na escuta do infantil

Dono de um comércio, um analisando tem problemas para se organizar com dinheiro. Nunca tem dinheiro na carteira, paga as contas com atraso e acaba usando o pai como banco, o que é fonte de atritos. Este, um importante administrador de empresas, tenta em vão ajudar o filho a se organizar e fazer suas contas. Apesar de ter seus próprios rendimentos, o analisando paga a análise com um cheque do pai. À escuta comum, é uma pessoa desorganizada. Mas a escuta analítica vai identificar a modalidade de relação com seus objetos internos que o levam a agir assim.

Ao se aproximar o dia de pagar a análise - na primeira sessão do mês seguinte -, sua angústia aumenta. Com receio de não ter o dinheiro no começo do mês, pede um cheque ao pai. Proponho que passe a pagar no dia 10, com seu próprio cheque. Embora ele tenha ficado aliviado, o arranjo não funcionou. Levou um tempo até que, ajustando o foco da escuta, pude entender o motivo.

Ele não deposita os cheques que recebe de seus clientes. Fica com eles na carteira um bom tempo, e depois os entrega ao pai. Quando precisa, pede dinheiro para pagar suas contas. Repete essa situação mês após mês, apesar das brigas que isso gera. Em certa sessão entendemos que, apesar do medo de pedir ao pai, isso ainda é preferível a se relacionar com o banco.

Finalmente entendemos que o banco seria o último lugar a quem confiaria seu dinheiro. Primeiro, porque não é possível saber quando poderá dispor do dinheiro: a compensação dos cheques demanda muitos dias. E, para ele, "muitos dias" significa "quando lhe dá na telha". Depositar os cheques é vivido como se colocar na dependência de um objeto primário arbitrário e imprevisível, que vai deixá-lo na mão quando mais precisa. Entende-se que fuja do banco como o diabo da cruz. Sua desorganização tem a ver com isso.

Além disso, o banco some com seu dinheiro. Pergunto-lhe como isso acontece. Ele explica que o banco usa o saldo positivo para cobrir a dívida do cheque especial, e também fica com outro tanto pelos juros de vários meses de saldo negativo. E tem mais, cobra umas taxas que a gente nem sabe a que se referem. Evita consultar seu saldo para não confirmar que o banco ficou com tudo. O banco é um objeto voraz e espoliador, do qual é melhor manter distância.

O maior problema, contudo, é o cheque especial. O banco dá uma de "bonzinho" e lhe oferece crédito através do cheque especial. Ele "acredita" na bondade do banco e gasta por conta. Depois, descobre que o banco quer receber tudo com juros. Como a dívida vai aumentando, acaba ficando "nas mãos dele".

Esse material me levou a associar com uma sessão em que contava que "caía feito um patinho" na sedução de uma garota: um dia ela o chamava de "meu gato", e no outro passava sem cumprimentar, indo "ficar" com outro. Falava de seu esforço, inútil até então, para "não cair nessa". Ficava completamente "rendido" pela expressão "meu gato".

O banco e a garota são representações de um objeto primário inconstante e imprevisível, sedutor e perverso, que faz dele - da "criança nele" - o que bem entende. Vislumbramos uma mãe que, de repente, fica com vontade de abraçar, beijar e brincar com a criança; vontade que logo passa, ela muda de humor e se volta para outra coisa. A criança fica à mercê do humor da mãe. É como o analisando, que acreditou no cheque especial e agora tem de se haver com a dívida.

A desorganização com o dinheiro - conteúdo manifesto - é fruto da relação com esse objeto interno temível que, no momento, está sendo encarnado pelo banco. Em outras palavras, o analisando faz certa leitura das características reais do banco a partir de seus objetos internos. Dessa perspectiva percebemos que foi um erro - embora um erro absolutamente necessário - alterar a data do pagamento. Nenhuma medida concreta, dirigida a um suposto adulto, resolve uma situação que está sendo mantida por fantasias inconscientes que são da ordem do infantil.

3. O valor simbólico das representações

Um empresário viaja com frequência para os EUA a trabalho. Toda vez tem a fantasia de que será parado na alfândega, embora não leve nada de errado na bagagem. Isso só faz sentido se imaginarmos a criança no adulto. Ainda vive nele a criança edipiana, que cometeu alguma transgressão em sua vida de fantasia e teme ser descoberta e punida por seu superego.

Voltando à questão da escuta. O analista escuta e recorta o "medo de ser parado na alfândega" porque é um elemento estranho, dissonante. Pressente que esse medo é deslocado. A fantasia de ser descoberto fazendo algo errado deve fazer sentido em outro contexto. É preciso que o analisando associe. O analista poderia perguntar: "O que será que eles sabem sobre você?" - e o analisando talvez se lembrasse de uma situação em que alguém adivinhara algo inconfessável.

A escuta pressupõe a transferência do infantil. Se o fiscal da alfândega sabe coisas sobre o analisando que ele mesmo ignora, está no lugar transferencial de uma figura parental vivida como onisciente. Este fragmento mostra que o analisando desenvolveu um superego extremamente severo - por isso mesmo é um neurótico. Mas, se o fez, foi por boas razões. Entra aqui a necessidade de ajustar o foco na criança edipiana e seus conflitos. Seu pai viajava muito, nunca parava em casa. Filho único, boa parte do tempo ele ficava sozinho com a mãe. Talvez angustiado por não ter quem fiscalizasse suas fantasias.

Meses depois, ele conta que está procurando um lugar para comprar uma casa de praia. Ele e sua família costumam passar as férias com os pais. É muito confortável, por isso hesita em "arranjar sarna para se coçar". Mas gostaria de ter uma casa que fosse dele. Foi passar um fim de semana na reserva da Jureia e adorou um terreno com uma casinha de caiçara. Uma vista maravilhosa, vegetação luxuriante. O problema é que a construção de novas casas está proibida. O governo quer manter essa reserva ambiental intacta. Construir ali é arriscar a ter a obra embargada. Seu amigo lhe contou que começara a plantar as estacas de uma casa e teve de parar. Os caiçaras da região denunciaram e baixou a fiscalização. O analisando, porém, tem um plano. Primeiro, vai tratar de se relacionar muito bem com os nativos. E vai fazer a obra disfarçadamente. Inicialmente, derruba uma parede e ergue outra no mesmo lugar. Faz depois a mesma coisa com outra parede. Assim, sem dar na vista, poderá ter a sua casa naquele lugar paradisíaco. Obviamente, tudo não passa de fantasia. Ele jamais faria isso.

Em que ponto a atenção flutuante se detém? No fato de que ter a sua própria casa é sarna para se coçar. Na vegetação luxuriante. Na sedução dos caiçaras. Nos planos secretos de passar a perna no governo. Todos esses recortes são igualmente possíveis. Cada recorte originará interpretações ligeiramente diferentes, que mobilizarão associações diferentes. Mas vamos supor que, por motivos internos a essa análise, eu tenha decidido recortar os "planos secretos". Por que a escuta se deteria justamente aí? Porque associo com aquela sessão em que ele me contou de seu medo de ser parado na alfândega americana. A criança nele deseja possuir o território proibido e fica fantasiando maneiras de conseguir isso. O que se poderia dizer a ele, a partir disso? Por exemplo, que ele parece acreditar que ele é diferente do amigo, e que ele vai conseguir. Ou então, melhor ainda, que os fiscais da alfândega dos Estados Unidos descobriram seu plano secreto aqui na Jureia.

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"Estou mal, muito deprimida. Há cinco anos vim de Santos para estudar Economia. No ano passado, terminei. Agora, não sei o que quero da vida. Não sei se quero ficar aqui e continuar no banco onde estagiei. Eles até querem me contratar. O problema é que ficar aqui em São Paulo sozinha não faz muito sentido, pois já estudei o que precisava. Ou se quero voltar para lá. Eu sinto falta da minha família, mas já saí de lá há tanto tempo que não me vejo voltando para a casa dos meus pais. Lá é gostoso, todo domingo meu pai faz churrasco. Mas o meu quarto já não é mais o meu quarto, eles mudaram tudo. Agora eu só choro."

O que escutar? Vemos alguém que está sem lugar: aqui não faz mais sentido, lá também não. A criança nela está num impasse entre um movimento de autonomia, interrompido, e um movimento de regressão, também impossível.

Sonhou que estava numa piscina, na qual algumas crianças brincavam com um caixãozinho branco que flutuava. Horrorizada, quis tirar o caixão da água para enterrar. A escuta se detém no caixãozinho. Quem será que jaz ali? Não é possível saber, podemos imaginar uma parte infantil dela, que está morta, todavia insepulta. É um sonho de entrada em análise: a analisanda quer dar um destino adequado ao caixão. Meses depois, conta que fora a uma exposição de arte. Duas crianças olhavam os quadros. O pai perguntava à menor, que devia ter uns 4 anos, o que estava vendo ali. Ela via alguma coisa que estava apenas na fantasia dela, e respondia com toda confiança. O mais velho, de 7, já não tinha imaginação. Dizia algo bem banal, bem enquadrado. A analisanda comenta que é uma pena que depois dos 5 anos as crianças percam sua inocência, sua confiança no mundo e, principalmente, a vida de fantasia. Elas se tornam banais.

O que escutar aqui? Primeiro, que ela se vê tendo perdido algo muito precioso em torno dos 5 anos, algo de verdadeiro (que Winnicott chamaria de verdadeiro self) que foi substituído por uma hiperadaptação. Por que 5 anos? Não sabemos. Mas sabemos que ela nunca se conformou em crescer e em perder tal precioso algo. Há um luto que não foi feito. Ela continua, melancolicamente, lamentando não ter mais o que tinha antes dos 5 anos, idealizando esse período da vida. Reencontramos aqui o sonho do caixãozinho insepulto. Resultado: nem pode tocar para frente, e crescer, nem pode voltar a ter 5 anos, e permanecer inocente, seja lá o que isso signifique.

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Outro analisando também apresenta um luto não realizado, porém o material clínico sugere que a perda ocorreu mais precocemente. É um rapaz bastante perturbado, aspecto infantilizado, que aos 30 anos mora com o pai, de quem tem muito ódio. O pai lhe arranjou um emprego em sua própria empresa, onde ele faz serviços leves, de office-boy. Começou três faculdades e parou; tentou vários trabalhos, mas não aguentou. Conta que, durante sua infância, ia com os pais a uma casa de praia, que ele adorava. Brincava o dia todo, sempre tinha sorvete e batata frita, além da piscina e do mar. Era um paraíso. Lembra-se de que era uma criança muito difícil, sentia ódio de tudo e de todos. Todo domingo de tarde ele se enchia de fúria e batia no pai. Ninguém entendia que bicho o mordia; o pai ficava com raiva e batia de volta. O analista entende que aquele menino não queria sair do sítio; não queria que a segunda-feira chegasse. O que escutar aqui? Esse paciente nunca se conformou em perder o "paraíso", o seio idealizado. Diante da ameaça de perdê-lo, reage com ódio. A criança no adulto continua reagindo com dor/ódio diante das segundas-feiras da vida.

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Esta vinheta se refere a uma analisanda que conquistou a autonomia com relação ao objeto primário. Ela volta das férias e me descreve sua viagem. A estrada à beira-mar permitia descortinar, em certos trechos, pequenas baías com barquinhos de pesca ali ancorados no fim do dia. Adorava aquela visão, poderia ficar horas olhando. A fala é longa, me entretém, mas não sei o que nela recortar. Então, entro na cena que ela descreve e converso sobre o ir e vir dos barquinhos, que logo cedo vão lá longe pescar, tendo no fim do dia um lugar acolhedor para voltar. Ela participa, acrescentando novos detalhes à história. Devaneamos juntas. De repente, surge algo com absoluta nitidez: o barquinho vai para longe, depois volta para a baía acolhedora. O barquinho é ela que saiu de férias; a baía acolhedora, a análise, representando o objeto primário acolhedor. A criança nela tem confiança de que pode ir, porque tem para onde voltar. Há um objeto interno bom que a recebe depois de seus movimentos de autonomia.

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4. Os elementos não verbais do discurso

Um analisando me diz que não iria se conformar em ter uma vida sem graça, feita só de trabalho e mais trabalho. Não pretende se deixar escravizar, quer tempo para namorar, para um esporte, um barzinho com os amigos, um filme de arte. Ele se expressa com muita veemência, num tom de raiva, contestação, desafio - ao mesmo tempo se sentindo injustiçado por minha suposta interpretação: "Quero um trabalho que me dê prazer. Sei que você vai interpretar que ralou muito no começo da carreira, que todo mundo rala, que quero ser diferente de todo mundo, que quero ser uma exceção. Vai dizer que não me submeto às leis do mercado. Não é nada disso. Eu me disponho a ralar, mas quero ter direito a algum prazer". O elemento que chama a atenção é o tom de sua fala, a raiva, o desafio, o sentimento de injustiça. A que objeto interno ele estaria se dirigindo? Acabo, enfim, entendendo que ele brigava com uma figura interna que lhe dizia algo como: "Só eu sou grande, e por isso só eu tenho direitos; você não passa de uma criança, vê se se enxerga, recolha-se à sua insignificância, você ainda tem que comer muito arroz e feijão para ser como eu e ter direito de se divertir". O tom de voz do analisando permite reconhecer uma figura interna que tiraniza e humilha o sujeito.

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Uma mulher tem uma forma de comunicação peculiar. Costuma falar o tempo todo, a fala é leve e agradável, o tema é o seu cotidiano. É impossível - e inútil - tentar relatar uma sessão, pois a cada vez ela compõe um painel cheio de elementos, em que nada particularmente se sobressai. Cada tema vai se ramificando, a fala vai se desenvolvendo de maneira extremamente prolixa, sem que seja possível identificar um assunto.

Eu ficava perplexa. Procurar algum sentido simbólico no conteúdo de sua fala resultou inútil. Os recortes que eu efetuava não produziam associações, no sentido de fazer o analisando "mudar de rota". Ela apenas confirmava minhas observações com um "É mesmo", que não levava a nada. Procurei mudar de foco e escutar seu discurso como um "fazer", e não como um "dizer". O que ela fazia, ao relatar suas histórias?

Aos poucos, passei a ter a impressão de que ela fazia verdadeiras crônicas sobre a fauna humana, suas grandezas, esquisitices, fraquezas. Parecia literatura. Certa sessão, ela conta de sua empregada que, quando limpava a estante de livros (a analisanda adora ler), abria e folheava alguns. Começaram a conversar sobre livros. A analisanda, encantada com aquela demonstração de interesse, selecionou alguns exemplares para emprestar à empregada, que prestou muita atenção, sem nada dizer. A analisanda ficou muito satisfeita, certa de que iria abrir novas portas para aquela moça simples. Dois dias depois, a empregada (que não levara os livros selecionados) estava novamente a folhear um outro da estante. E então a analisanda percebeu que ela olhava as figuras.

Longuíssimo, cheio de detalhes, o relato daria um conto de umas dez páginas. Fico sem ter ideia do caminho que aquilo tomaria. De repente, a analisanda começa a ter um ataque de riso no divã. Não consegue terminar a história de tanto rir. Não vejo qual é a graça, mas, como analista, cabe-me apostar que seu riso (como, aliás, qualquer sintoma) faz sentido. Ajusto o foco da escuta e percebo que ela estava "escrevendo uma crônica", cabendo-me o papel de leitora. Como boa cronista, ela deixava ao leitor uma parte do trabalho: para enxergar a graça da história, tenho de colocar algo meu ali. Percebo também que ela está rindo de si mesma, de sua ingenuidade ao tomar seu desejo por realidade, atribuindo à moça sua própria paixão pela leitura. O possível "conto" - que tem valor universal - é sobre a dificuldade do ser humano em fazer contato com a alteridade. A analisanda não conseguira ver que nas ilustrações concentrava-se a atração despertada pelos livros naquela faxineira semianalfabeta.

Com a minha compreensão, completo, assim, a crônica. Há júbilo em sua voz quando ela constata que valorizei sua história; quando se vê com fineza por mim "recontada", notando que fui capaz de ver sentido em seu relato. Meu comentário valoriza sua história e, portanto, a valoriza. Percebo que há uma necessidade brutal de reconhecimento ("Estou vendo o que você está fazendo") e de valorização ("O que você está fazendo tem valor"). Ou seja, se a fala dela precisa ser escutada como um fazer, a interpretação também incorpora essa dimensão: mostro à paciente que vejo sentido em suas histórias, e que as considero interessantes.

Ela descreve seu namorado como um sujeito grosseiro e insensível. Em sua família, ninguém tem paciência de ouvi-la. Ela diz: "Acham que sou burra". De fato, ela se disfarça de "burra" e se esconde atrás de uma aparência infantil, com um tipo de discurso aparentemente fútil, pontilhado por risos que parecem estereotipados e imotivados. É aqui reconhecida a menina nela, que se infantiliza para não afrontar figuras edípicas extremamente narcísicas e prepotentes. O sintoma é o tipo de discurso.

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5. A contratransferência

Um estudante de psicologia inicia uma análise e, pouco depois da "lua de mel", se estabelece um padrão transferencial. Ele fala, a analista interpreta e ele a "supervisiona". Ele se esmerava em corrigir as interpretações, criticava sua falta de profundidade, sentia falta de interpretações transferenciais, indignava-se com a ausência de interpretações sobre sua inveja e voracidade. Perguntava se a analista não ia interpretar seu atraso. Se ela fizesse menção ao conteúdo manifesto - por exemplo, se ela se referisse concretamente à sua namorada -, o analisando retrucava dizendo que, certamente, a namorada representava um aspecto dele. Diante daquilo, a analista - que apenas começava sua formação - começou a se sentir controlada, insegura, insuficiente, e, por fim, "burra". Passou a ter medo de seu paciente. Nada lhe ocorria; quando dizia algo, eram coisas rasas e banais. Agora, o paciente a criticava com razão. A analista sentia que seu paciente tinha um modelo do que era um "bom analista", e, se ela não se encaixasse, não servia. Aqui, o elemento importante é a contratransferência, que passou a ser o foco da supervisão. Pudemos conversar sobre como as questões narcísicas do analisando estavam sendo comunicadas via identificação projetiva. Também parecia que a "criança nele" precisava cuidar de seu objeto materno, vivido de forma angustiante como insuficiente. O importante era a analista sair do lugar em que havia sido colocada, do qual respondia de forma complementar.

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Há analisandos cuja fala não produz qualquer afeto contratransferencial no analista. Não consegue este "sentir" o analisado dentro de si, nem formar imagens, nem produzir associações.

A analisanda está namorando um rapaz que usa drogas, o que a leva a também fazer uso. Acha que o rapaz não serve para ela, mas não sabe se termina ou não. A verdade é que não consegue terminar. O pai do rapaz morreu de overdose. O pai da analisanda é alcoólatra. A moça trabalha na empresa da família. Há brigas com as irmãs pelo uso das roupas e do carro, que pertencem a todas. Os fins de semana são em família, no sítio. A analista identifica um padrão de simbiose familiar, que é interpretado. As interpretações parecem ser corretas, porém vazias. Pelo menos, não parecem tocar a analisanda. Isso origina um mal-estar difuso na contratransferência.

A analista me procura para supervisão. Relata o caso, mas eu não consigo formar uma ideia sobre essa paciente; não me é possível imaginar "a criança nela"; não consigo entrar no universo subjetivo dessa moça. Tudo o que escuto são fatos e fatos - um psiquismo bidimensional. Pergunto pela mãe da paciente, que até então não aparecera no relato. Diz a colega que a analisanda fala de sua mãe, é uma mãe que está ali, mas "não há nada de especial". A moça não conta muito com ela, senão para conversas sobre as roupas, o carro etc.

De repente, "vejo" uma mãe de arame, oca, uma mãe operatória, que faz as coisas necessárias, sem que sua subjetividade esteja presente. Tal como a analista experimenta suas próprias interpretações: são corretas, do ponto de vista do conteúdo, mas não tocam a paciente afetivamente. A mãe está, mas é como se não estivesse. Essa reverie ajuda a entrar em contato com a criança nela: a paciente está identificada com essa figura em negativo. É possível agora entender a ausência de forma psíquica, de imaginação e de figuração que o relato produz, tanto na analista, quanto na supervisora. É preciso tentar criar alguma espessura psíquica nessa moça, "recheá-la" com experiências que sejam subjetivadas pela própria analista, pelo menos no começo. Isso pode ser feito, por exemplo, simplesmente recontando os mesmos fatos trazidos pela analisanda, mas com espessura emocional.

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Uma analista me procura para que eu a ajude a escutar um paciente com quem tem dificuldades. Entretanto, usa várias supervisões para falar de outros pacientes. Finalmente, voltamos àquele primeiro paciente. Não sabe nem como começar a falar sobre ele. É um tipo de fala que a deixa com sono, ou então, pensando nas suas coisas - divagando, em vez de prestar atenção. Depois, não consegue anotar as sessões. Não entende nada do caso, apesar de estar com ele há quatro anos. Quando ela tenta exemplificar o tipo de fala de seu analisando, é notório seu desinteresse. Em que pese ser um paciente "chato" para ela, preocupa-se enormemente com ele. É um jovem que, aos 30 anos, está completamente perdido. É muito sozinho, apesar de ter pai e mãe. A mãe é descrita como distante e fria. O pai, como outro perdido.

Em minha escuta, o elemento mais importante é o grau de desinvestimento no paciente - desinvestimento defensivo, dado o grau de angústia que o atendimento lhe produz. Em função da angústia, entende-se que só consiga estar com ele pensando em outras coisas, de forma um tanto operatória, empurrando com a barriga. O círculo vicioso está formado, pois, desde esta posição contratransferencial, ela entende cada vez menos, desinveste cada vez mais, e só lhe resta empurrar mais com a barriga. Sabemos que só é chato o paciente, ou a análise, que, por um motivo ou por outro, não conseguimos investir libidinalmente.

A contratransferência nos permite reconstruir o estado mental de seu objeto primário. É possível imaginar uma mãe que, de tão angustiada por não ter a mais pálida ideia de como cuidar do seu primeiro bebê, acaba deixando tudo por conta da babá, passando o dia fora de casa, evitando este vínculo que a faz sentir tão insuficiente. É preciso ajudar a analista a estar viva com seu paciente, a reinvesti-lo toda vez que surgir a tendência a deixá-lo de lado; e, principalmente, ajudá-la a suportar a angústia contratransferencial, até que fique mais claro o universo subjetivo em que se move o paciente.

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Finalizando, os fragmentos apresentados obviamente não esgotam os diferentes focos da escuta analítica; serão tantos focos quantas são as formas de apresentação do infantil. Não chega a ser um erro se, ao pegarmos um binóculo, levamos algum tempo até decidir, diante da paisagem à nossa frente, se é mais produtivo focalizar a ilha longínqua que nos parece deserta, o pescador que luta pelo pão de cada dia, o mar batendo docemente na praia, ou a flor murcha que está logo aqui, onde me encontro. E menos ainda se, escolhendo falar da ilha, descobrimos que é com a flor que o analisando se identifica no momento.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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