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Resumo
Resenha de "Partículas elementares" - Michel Houellebecq. Porto Alegre, Sulina, 1999, 340 p.


Autor(es)
Alessandra Monachesi Ribeiro
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutoranda em Teoria Psicanalítica pela UFRJ e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.


Notas

1. Para um aprofundamento na análise literária da obra de Houellebecq, sugiro: S. van Wesemael (org.), “Michel Houellebecq”, Cahiers de recherche des instituts néerlandais de langue et de littérature françaises, no. 45, Amsterdã/Nova York, Rodopi, 2004.

2. G. Steiner, No castelo do Barba Azul – algumas notas para a redefinição da cultura, São Paulo, Companhia das Letras, 1991.

3. J. Baudrillard, A ilusão vital, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.

4. G. Steiner, op. cit.

5. E. Roudinesco, Por que a psicanálise?, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.

6. J. Birman, Mal-estar na atualidade – a psicanálise e as novas formas de subjetivação, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.

7. J. Baudrillard, op. cit.

8. S. Freud, “O mal-estar na civilização” (1930[1929]), in: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XXI, Rio de Janeiro, Imago, 1996.

9. J. Baudrillard, op. cit.

10. E. Roudinesco, op. cit.

11. J. Birman, op. cit.



Abstract
By Alessandra Monachesi Ribeiro – review of Michel Houellebecq, "Elementary Particles". The polemical French writer presents a literary illustration of contemporary man as a loser who tries to overcome his condition of unbearable suffering. His novel deals with recent discussions in the humanities and social sciences; the psychoanalyst who reads it is urged to think about time-honored concerns, which are equally relevant today: sexuality, love and death.

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 LEITURA

O homem contemporâneo por Michel Houellebecq

Contemporary man, according to Michel Houellebecq
Alessandra Monachesi Ribeiro


Da safra de escritores literários contemporâneos que tratam das questões de nossos tempos, quero destacar a obra de Michel Houellebecq, pelo que traz de incômodo e de ilustrativo daquilo que vivemos, e, em meio a seus três cáusticos romances, deter-me-ei sobre As partículas elementares como aquele que nos apresenta esse homem atual da maneira mais crua, cruel e brutal possível.

Michel Houellebecq encarna com propriedade o mote: “ame-o ou deixe-o”. Acusado de reacionário, racista ou anti-feminista por alguns, é também admirado por aqueles que percebem, em sua escrita, a ácida ironia com a qual aborda os temas caros à nossa civilização ocidental, não apenas pelo conteúdo de seus romances, mas também a partir da forma como são escritos. Em meio à narrativa, um texto de propaganda, um artigo de revista, o ruído cotidiano invade o texto, tornando- se parte destoante dele, incômodo, quisto desajeitado que atordoa o leitor e participa da constituição subjetiva dos personagens. Somos o que comemos, o que consumimos, as propagandas dos encartes publicitários, os spams que se imiscuem em nossas caixas de e-mail... eles falam mais alto e entrecortam nossa existência, moldando-nos como seres fragmentários, costurados pelas frágeis linhas dos enxertos midiáticos de uma sociedade de consumo.

Polêmico, Houellebecq já teve suas posições confundidas com as dos personagens de seus romances, como se fossem o que se chama de roman à thèse [1], como se denunciá- las equivalesse a professá- las, o que se confunde ainda mais dada a contundência de sua escrita, quanto mais os temas de seus livros se embrenham por áreas espinhosas, tais como o sexo e a religião. E, a bem da verdade, ele faz pouco para atenuar os mal-entendidos, possivelmente satisfeito por ser mais um enfant terrible literário.

De forma geral, podemos dizer que Houellebecq é o porta-voz dos losers. Não exatamente aqueles dos filmes americanos, maltratados pelas figuras populares da escola, os bonitos, ricos e bem nascidos. O autor escapa dessa polarização fácil pela qual seríamos orientados a torcer pelos mais fracos que triunfariam ao final, vingando a todos aqueles que viveram suas vidas excluídos do ideal de perfeição disseminado culturalmente. Aqui começa o interesse de Houellebecq para o psicanalista, no paralelo possível de ser estabelecido entre a maneira que a psicanálise aponta a distância entre o sujeito e seus ideais como intransponível, inescapável à condição humana, transitada pelo desejo e sempre passível de frustração e falta e o que o autor procurará ilustrar com seus personagens. Os fracassados de seus romances somos todos nós.

Partículas elementares é seu segundo romance. Nele, acompanhamos os meio-irmãos Bruno e Michel em suas agruras cotidianas. Filhos da mesma mãe, uma mulher que peregrina pelo mundo a seguir diversas seitas – da onda hippie ao new age, passando por cirurgias plásticas e todas e quaisquer promessas de eterna juventude e prazer – pouco se importando com os filhos, são criados cada qual por sua avó paterna. Conhecem-se na época da escola e reencontram- se quando adultos.

A família, esgarçada, pareceria, a princípio, causar maiores danos a Bruno do que a Michel, que vive em um certo mundo idílico, com sua namoradinha de infância, a belíssima Annabelle, que o acompanha em seu silêncio e sua indiferença até seus tempos de faculdade, quando se descobre bonita e desejada, o que lhe mostra que o mundo em que vivera até então fora o da indiferença falsamente apaziguadora. Annabelle inserida no jogo das seduções e dos relacionamentos fugazes das pessoas de sua idade se arruína como personagem romântico, sem carne e sem inquietações. Tanta indiferença, tanta falta de substância, apenas Michel as mantém.

Bom aluno, tratado de maneira amigável pelos colegas de escola, Michel pareceria ter passado incólume a tudo o que perturbou Bruno, o que nos levaria a entendê-los como contrapontos um do outro: dois filhos de uma mesma mãe, um que “dá certo”, outro que não. Mas não é tão fácil assim com Houellebecq, que desmonta cada um dos inúmeros clichês hollywoodianos implantados em nossa subjetividade como o caminho esperado em direção ao que devemos ser e a como devemos nos relacionar. Desmonta-os ao fazer uso deles e levá-los às últimas conseqüências, provocando o embaraço do leitor que vê desmascarada, a cada página, a sobreposição que almeja falsear o terrível da condição humana.

Não por acaso, Michel é um geneticista que busca livrar o mundo do sofrimento que o ser humano traz, através da extirpação daquilo que, no homem, lhe causa os maiores conflitos, dores e atribulações: a sexualidade. Trabalha em um projeto para permitir que os seres humanos se reproduzam prescindindo dos descontroles, das intensidades, dos imprevistos e dos desconhecimentos que envolvem a reprodução sexuada. Ele é um dos cientistas a criar condições para o surgimento do clone em um futuro não tão distante. O clone é o homem aprimorado e ultrapassado dessa sua condição de humanidade. É ele quem narra o romance com olhar retrospectivo, situando suas origens em nossos tempos.

Bruno, o outro irmão, é o que poderíamos chamar de “pervertido sexual”, no sentido de ser alguém que busca compulsivamente alguma redenção através da atividade sexual, a qual lhe é recusada pela maioria das mulheres, transformando-o em um onanista raivoso. Ele seria o perdedor mais óbvio, o autêntico loser: feio, sem sucesso com as mulheres, repulsivo, profissional medíocre, espancado e abusado das mais diversas formas ao longo de sua infância em um colégio interno, sem amigos, sem forças para se defender. Quando adulto, Bruno peregrina pelos espaços new age em busca de companhia, repetidas vezes rejeitado, incapaz de se inserir, de fazer parte, de encontrar lugar de conforto nessa dissolução em um grupo de pertinência. Desmascarado sempre, crítico, amargo, não encontra consolo nem ao menos em Christine, que vagueia pelos mesmos lugares que ele, dos alternativos e esotéricos às colônias naturistas e casas de swing, estabelecendo, tal qual sua mãe, uma interessante continuidade entre espaços de busca religiosa e espaços de busca de prazer, sobrepostos pelo engodo do misticismo atual, também desvelado no livro.

Está feito o contraponto, mas o que Houellebecq buscará evidenciar é que todos os personagens partilham de um mesmo destino trágico, inerente a sua humanidade em comum: todos e cada um deles serão testemunhos de que a condição humana traz males insuportáveis, sofrimentos atrozes, ausência de sentidos e de possibilidades de alento. Sendo assim – e aqui reside um segundo foco de interesse dessa narrativa para o psicanalista – a solução que se apresenta é tal qual se segue: se possível for escapar da condição humana, é melhor que se o faça.

Como ocorre com Annabelle, que se promete como um personagem romântico, desencarnado e etéreo a pairar no ar, e descobre-se atormentada pela lancinante constatação da indiferença que Michel nutre por ela no exato momento em que se experimenta desejada e desejante, cada um dos personagens terá, também, a sua queda. E o único que não cai – além do clone que está acima disso, o que o torna, por isso mesmo, um precursor dele, bem como seu criador – é Michel, olhando os homens com incômodo e perplexidade, como só aqueles que estão do lado de fora dessa condição conseguem. Ele ajudará a criar o “novo homem”, isento, como ele, de tudo o que perturba a manutenção de um estado de coisas apaziguado. Se quisermos arriscar uma aproximação freudiana, podemos pensar que Michel encarna a pulsão de morte naquilo que ela ruma em direção à extinção da perturbação que é a vida, pela tentativa de manter o ser humano livre das excitações promovidas por Eros.

Partículas elementares apresenta uma perspectiva sobre a contemporaneidade na qual se ressalta que, no mundo dos losers, não há redenção possível. Nisso, afasta-se do que encontramos nas reflexões de alguns pensadores, tais como George Steiner [2], e aproxima-se de uma certa maneira de pensar o contemporâneo da qual Jean Baudrillard [3] me parece o autor mais paradigmático.

Steiner [4], ao analisar a possibilidade de conceber uma cultura em nossos tempos, realiza uma leitura dos dias de hoje a partir da proposição de que o pior dos acontecimentos modernos é corolário do melhor que foi criado com a modernidade, o que faria de nossos dias uma conseqüência direta de um grande ennui e do anseio perverso de caos, gerados no seio da bem-aventurança produzida pela alta civilização do século XIX. Tédio, vazio e frustração surgidos do melhor que a condição humana pode produzir, o que daria origem, como produto desse melhor, também ao pior do ser humano, que explode pelas brechas rasgadas no âmago da civilidade: as duas guerras mundiais, o holocausto, a barbárie.

Em Houellebecq não há explosão possível, e a violência já não garante mais lugar para a vontade de destruição animada pela pulsão de morte, que caminharia lado a lado com os movimentos civilizatórios. Aqui o autor nos presenteia com a novidade contemporânea da impotência absoluta – ainda escassamente pensada pela psicanálise, mesmo que se apresente aos borbotões na clínica atual. O que acontece quando não se encontra saída no amor e, tampouco, na violência? Bruno e Michel não a encontram em nenhum desses “lugares”. Que resta do humano quando os caminhos pulsionais encontram-se barrados pela impossibilidade quase total de encontrar alguma via de escoamento, alguma satisfação, ressonância ou redenção? O que pode fazer o sujeito quando o sofrimento insustentável é dor, sem perspectiva de simbolização possível?

Nisso, Bruno difere de Michel, pois, ainda que seja o pior dos homens, conserva alguma esperança ao buscar possibilidades dentro da esfera do que cabe ao humano. No mínimo, podemos pensá-lo movido por alguma compulsão em repetir suas tentativas. Compulsão à repetição como esperança de encontrar espaço de simbolização, de inscrição psíquica. Talvez possamos entender dessa maneira os movimentos desajeitados e fracassados de Bruno. Mas Michel vai mais além em sua tentativa de superação da esperança, da repetição e da busca de simbolização: ele trabalha para superar o humano, para exterminá-lo. Então, não há redenção possível e a saída que cada um dos meio-irmãos dará para esse impasse parece ilustrar a discussão sobre a contemporaneidade que vemos ocorrer nos tempos atuais, em diversos aspectos.

Bruno, após não poder se esvair no prazer, nem se safar pela violência, interna-se em uma clínica. Entorpecido e apaziguado pelos remédios, tem como destino ser mais um assujeitado, objetificado pelo modo medicalizado e patologizante de constituição das subjetividades sem sujeito, assunto tão bem abordado nas obras de Roudinesco [5] e Birman [6] no campo psicanalítico, para citar apenas alguns dos autores que buscaram refletir sobre o claustro depressivo imposto ao sujeito como condição de existir retirado de suas possibilidades de singularidade e de desejo.

Michel, por sua vez, contribui para a constituição do “novo homem” e some. Como o clone, sua criatura, não mais capaz de morrer, simplesmente evapora no ar, como uma lenda.

Não há consolo nos laços familiares, na irmandade, no trabalho, no sexo, no amor ou na violência. A cada saída possível o “sem saída” renova-se e reafirma-se de maneira contundente. Não apenas o sem saída da impossibilidade de redenção desses personagens, como de todos que passeiam pela trama: hippies pós-anos 60, adeptos da onda new age, mulheres liberadas pós-feminismo, religiosos em geral, usuários de drogas, praticantes de orgias, etc, etc, etc. Nem ao menos os bonitos, ricos e bem-sucedidos escapam, o que reforça a constatação de que somos todos perdedores em um mundo sem saída.

Qual a solução? Erradicar a espécie humana da face da Terra ao extirpar do homem tudo o que lhe é característico, tudo o que lhe é próprio de sua condição humana? O fato de ser um clone que narra a história poderia apontar para isso, para essa superação das mazelas humanas e para a construção de um super-homem, capaz de experimentar a felicidade e a bem-aventurança de maneira absoluta.

Jean Baudrillard [7] aponta- nos como o movimento que dissocia a prática sexual da procriação, reforçado pela criação e pelo uso dos métodos contraceptivos, é o início de um percurso rumo à erradicação daquilo que perfaz a condição humana: sexualidade e mortalidade. Quando sexo e procriação se separam, caminhamos no sentido da inutilização do primeiro, o que podemos vislumbrar nos inúmeros avanços científicos que nos possibilitam, atualmente, prescindir do sexo para nos reproduzirmos. Próximo passo: erradicação da morte com a perpetuação do ser humano infinitamente, o que se evidencia com o adiamento artificial do envelhecimento, da decrepitude e da degenerescência, possibilitado também pelos avanços da ciência. A clonagem, em um certo sentido, apresentar-se-ia como o ápice desses dois percursos: reprodução sem sexo, recriação do mesmo, ultrapassagem da morte, perpetuação infinita de si. O clone de Houellebecq nos olha em retrospectiva e nos indaga acerca do movimento que fazemos em sua direção. O que será de nós, humanos, com aquilo que criamos para nós mesmos? Indagação quase apocalíptica em Baudrillard, mas que demanda reflexão e trabalho.

Para quem lê Partículas elementares e se deixa afetar pelo tom irônico da escrita, fica claro que não se trata de pregação de uma mensagem eugenista, mas da elucidação humorada e crítica acerca do lugar no qual o sujeito vive atualmente, e para onde parece caminhar: a extinção da sexualidade, do sofrimento e da morte, com a conseqüente extinção de nossa espécie. O que Houellebecq apresenta, em seus romances, é um estado de coisas próximo ao que Freud constatava, quase uma centena de anos antes, em O mal-estar da civilização [8], o que o torna ainda mais interessante para uma reflexão psicanalítica ocupada com a problemática da alteridade.

Freud dizia que, dos três sofrimentos a que o humano está sujeito por sua própria condição, é aquele proveniente do outro o que mais o incomoda, por lhe parecer o único possível de ser evitado. O intolerável da alteridade reaparece nos tempos atuais através de seus projetos em relação ao humano, na medida em que a extinção da sexualidade e da morte prometeria desfazer todas as diferenças, arrastando com seu extermínio todas as possibilidades de singularidade e de subjetividade humanas. Com isso, supõe-se, a extirpação do sofrimento teria alcançado um êxito impossível de ser pensado enquanto o sujeito e o outro se imbricavam no campo da condição humana, encontrando-se marcados e cerceados por ela. Assim, a proximidade com Freud se desfaz quando constatamos que, cem anos depois, o que seria impensável tornou-se factível e o além do humano é passível de ser criado e de dar cabo do que se entende por humanidade.

Retornamos a Freud e ao mal-estar incurável, ao fracasso e à perda que nos acompanham, à condição trágica de nossa existência, idéias tão caras aos psicanalistas contemporâneos que se interessam pelo tema e pelas figurações desse homem atual. Para superarmos tal condição, temos que nos extinguir enquanto seres humanos, algo para o que Baudrillard [9] apontou através de sua análise dos progressos da ciência e para o que os psicanalistas se percebem constantemente voltados quando escutam, em suas práticas clínicas, todo o tipo de discursos que almejam a extirpação do desejo, o aplacamento das intensidades, a busca de um assujeitamento, tão presente e factível com os atuais avanços médicos e farmacológicos. Mas aí, vale a pergunta: e temos que superar tal condição? Aonde queremos chegar com isso?

Buscar evitar a morte, o sofrimento, o conflito, tal é a tônica do homem atual, o homem deprimido de Roudinesco [10] e Birman [11], o loser sem saída de Houellebecq. Dono de um estilo inconfundível por sua fragmentação e de uma amargurada visão sobre a contemporaneidade – na qual não dispensa menções pouco honrosas nem mesmo à psicanálise como produtora desse indivíduo atual – sua obra torna-se leitura necessária e instigante para os psicanalistas que se indagam a respeito do homem contemporâneo, mesmo para os que tenham, acerca dos dias de hoje, a perspectiva de uma aposta mais esperançosa.
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