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Autor(es)
Aida Ungier


Notas

L. Althusser, O futuro dura muito tempo, São Paulo, Cia. das Letrtas, 1992, p. 11.


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 LEITURA

A psicanálise no divã

[A dor que emudece – a travessia clínica de Louis Althusser]


Psychoanalysis on the couch
Aida Ungier

Apresentação

A força motivadora que anima o texto de Marci Dória Passos, A dor que emudece, é a petição de princípio que deve guiar todo aquele que pretende exercer o ofício de psicanalista:

 

a psicanálise não inclui garantias ou promessas de felicidade, mas tem um lugar fundamental, mais que isso, inaugural no universo das terapias. Por isso, sustentar a clínica psicanalítica implica pensar seus objetivos, seus limites e suas possibilidades em cada atendimento singular (p. 60).

 

Revelando rigor conceitual e metodológico, ela teceu em estilo claro e escorreito, a partir das duas autobiografias de Louis Althusser, uma séria reflexão sobre a psicanálise e o psicanalisar, considerando as vicissitudes de quem ousa se aproximar do desamparo humano. Dividindo em duas partes o texto, na primeira, Marci traça as linhas mestras dessa disciplina, acompanhando sua leitura de críticas pertinentes sobre a articulação em ter o método de pesquisa e sua ação terapêutica. Na segunda, ela acompanha o trajeto de Althusser em estado de "teorização flutuante", como recomendava Piera Aulagnier, examinando questões cruciais no desenrolar desse caso: o narcisismo, o imperativo do supereu, a escolha do analista.

 

Percorrendo a aventura freudiana, Marci inicia o texto com um exame minucioso do nasci­ mento da psicanálise, sublinhando sua gênese a partir da introdução do conceito de sujeito, o que permitiu organizar discursivamente o sofrimento psíquico, causa de alívio para o paciente. Nosso saber se fundamenta na análise pessoal, nas supervisões, referências teóricas, discussões com nossos pares, sem esquecer nossos pacientes que testam as hipóteses que os saberes e as experiências estruturam. Ainda assim, é preciso estar ciente de que corremos riscos, especialmente se nos atrevemos a acolher casos limites ou psicóticos.

 

Além de Freud, Marci dialoga, ainda, com Lacan e Piera Aulagnier. A descrição cuidadosa de todos os conceitos que irá abordar em suas reflexões permite que o texto seja frequentado por estudiosos de outros saberes que venham a se interessar pela tragédia de Althusser. Enfim, por que a autora teria escolhido Althusser como caso exemplar? O que parece tê­la capturado foi o paradoxo que sua existência evidenciou. Ele próprio se autodenominou um "caraparte". Pessoa de difícil contato, intelectual respeitado, defensor e interlocutor da psicanálise, assassinou sua mulher num surto maníaco após superar anos de trata­ mento e inúmeras internações. Mesmo depois da tragédia, foi capaz de uma rica produção teórica, em busca de sentido para a perda da voz e a passagem ao ato. Na autobiografia de 1976, Os fatos, ele afirmou ter atravessado os fantasmas funda­ mentais que o atormentavam, ao longo dos quinze anos de percurso analítico, que parecia dar por terminado. Como justificar tal fracasso após expectativas tão positivas?  Apesar desse fracasso, a psicanálise foi o instrumento utilizado por Althusser para dar e prestar contas de seu ato, para significar suas depressões e para recuperar a cada internação uma vida produtiva e os laços sociais.


A origem da tragédia

Lucienne Berger casa­se com Charles Althusser porque seu noivo, Louis, irmão de Charles, morreu em Verdun, durante a Primeira Guerra Mundial. Ela jamais o esqueceu, homenageando­o ao dar seu nome ao filho, marcando, assim, o início da trágica vida de Louis Althusser, que viveu à sombra de um morto cujo nome carregava, perturbado por não existir por si mesmo. Sabia que o amor de sua mãe, na verdade, era dedicado ao tio, e que seu olhar o atravessava e buscava esse morto. Marci sublinha que a marca inicial do duplo perseguiu Althusser ao longo de toda a sua vida, levando a autora a refletir sobre o narcisismo, fenômeno que tem lugar funda­ mental na estruturação do eu e do jogo pulsional. O simbólico se constitui a partir da discriminação mãe­bebê, dada a necessidade de nomear os estímulos, afastamento fundamental para o surgimento do sujeito, promovido pela presença paterna. A autora credita à precariedade da figura paterna as perturbações nas relações amorosas de Althusser. A experiência sexual era uma violação da lei do incesto, e abria para ele o abis­ mo da depressão e o risco da morte.

 

Seu pai lhe era abjeto, violento, impulsivo, forçando­o a proteger sua mãe­mártir. Ao sair de casa lançava­lhe uma advertência: "Faça­a feliz!". Ficava confuso e aterrorizado, pois não escutava uma interdição ao corpo materno, porém, uma franquia. Sem o reconhecimento da interdição paterna, a dupla mãe­filho ficou condenada a uma terrível solidão a dois. Diante do perigo da vida erótica, manteve­se "puro" até os 29 anos, sublimando seus desejos através de uma dedicação sem limites à academia, ao sucesso es­ colar e à carreira literária. Mantinha com seus mestres uma posição de filho obediente e dócil, angariando proteção. Por outro lado, colocava­ se como protetor desses pais, o "pai do pai", suprindo, onipotentemente, as falhas do pai real e mascarando sua própria impotência. Essa trapaça se repetiu com Lacan e Diatkine. Era difícil para Althusser discriminar aquilo que admirava ou os papéis que assumia a fim de seduzir seus mestres. Onde ele era verdadeiro e onde se iniciava a impostura.

 

A escolha do analista

Em 1950, Althusser iniciou o tratamento com Laurent Stévenin, que praticava análise sob narcose e era terapeuta de seu amigo Jacques Martin, permanecendo com ele até o suicídio deste em 1963. Stévenin cuidou, também, de sua mãe e irmã, bem como de vários amigos do filósofo, sendo descrito como um médico generoso que o atendia e internava sempre que seu desespero se tornava inominável. Por recomendação de uma amiga, procurou Diatkine, alguém com ombros suficientemente fortes para aguentá­lo. No entanto, a experiência de análise demonstrou que as escolhas possuem razões inconscientes, decifradas, apenas, ao longo do processo.

 

Diatkine e Stévenin trabalhavam de forma inteiramente diversa. A experiência de análise face a face com Diatkine o tranquilizava, sabia que o analista estava ali. Ele não usava narcose, não valorizava positiva ou negativamente um sintoma e percebia as intenções de seu paciente. Desde o início do tratamento, os episódios de ameaça de suicídio, chantagem e hospitalizações ocorreram, mesmo contra a vontade do analista. Althusser percebia, muitas vezes, nos silêncios carregados, o esforço de Diatkine para dominar a contratransferência.

 

Em 1965, seu amigo Julien Sebag, analisando de Lacan, suicidou­se. Jamais confiara sufi­ cientemente no mestre, a ponto de tomá­lo como analista. Ao ouvi­lo em 1945 num ciclo de conferências sobre psicopatologia achou­o detestável, um discurso feito para impor o terror da ignorância. Porém, ao ouvi­lo em 1959, no Sainte-An- ne, ficou seduzido, tornando­se interessado pelo saber da psicanálise. Após o suicídio de Jacques Martin, temeu chegar ao mesmo lugar. Em 1963, Lacan havia sido afastado do Sainte-Anne e soli­ citou que Althusser interferisse junto a Hyppolite, que era diretor da École Normale, para receber seus seminários naquele estabelecimento. Anos mais tarde, quando foi convidado a retirar­se, também, da Rue d'Ulm, Lacan tornou a procurar Althusser, que estava internado e nada pôde fazer, sendo por isso abandonado.

 

Mesmo sem tomá­lo como analista, Althusser continuou interessado pelo ensino de Lacan, inspirando­se nele para escrever artigos sobre psicanálise, percorrendo sua obra numa aventura intelectual autônoma e significativa, que se faz notar em sua produção teórica, suas autobiografias, sua correspondência e mesmo sua análise com um não lacaniano, que havia sido analisa­ do por Lacan. Quando Sabag se suicidou, ele te­ meu ter o mesmo destino, caso tivesse o mesmo analista, pois as justificativas do analista para interromper a análise não lhe pareceram convincentes: Sabag se apaixonara pela filha de La­ can. Althusser desenvolve, então, suas reflexões a respeito da aplicação forçada da teoria à prática, a fim de defender o analista da angústia do duro embate do encontro clínico, reflexões lúcidas e pertinentes, o que nos deixa aturdidos frente à obviedade das medidas protetoras que deveriam ter sido tomadas para evitar o desastre. Certamente, algo mais forte e mortífero se impôs para que seu destino se cumprisse.

 

Marci nos convida a pensar sobre as dificuldades inerentes ao trabalho com psicóticos, mais ainda, quando se trata de alguém cujo saber e fama ultrapassam os limites do hospital. Althusser reconheceu que conseguia chantagear ou seduzir seu analista. A autora pergunta: quando o analista pode garantir que se trata de uma chantagem e a proteção institucional é prescindível? Te­ ria Althusser produzido tanto sem as barreiras de proteção que o cercavam? Até que ponto o destino poderia ter sido outro se as questões afetivas não tivessem perturbado a escuta psicanalítica?

 

Como um castelo de cartas, toda essa estrutura começou a ruir entre 1976 e 1977. Seu pai morreu; casou­se formalmente com Helène; Lacan fechou a escola; decepcionou­se com Stalin e o Partido Comunista; afastou­se de Franca, amor de toda a vida, companheira da aventura intelectual e política dos anos 50 e Helène, a seu pedido, foi se tratar com Diatkine. Por fim, seu analista não deu a devida importância ao texto que lhe endereçara: "Transferência e contratransferência: são coisas conhecidas há muito tempo". É possível, segundo Marci, que Diatkine, contratransferencialmente, tenha deslizado para uma disputa de saber; por outro lado, a intensidade dos afetos presentes nessa dádiva pode ter provocado uma indiferença estratégica, destinada a forçar o trabalho analítico. Na folha de rosto do artigo, é o nome de Diatkine que aparece como autor, apontando uma confusão identificatória que dá ideia de um campo transferencial bastante complicado para os movimentos do analista.

 

Althusser reconhecia ser uma pessoa difícil, todavia, com Helène conseguiu desenvolver uma fraternidade que deixava a união mais ou menos a salvo. Conheceram­se em dezembro de 1946, apresentados por Georges Lesèvre. Estabeleceu­se, imediatamente, o pathos. Louis se identificava com Georges, até mesmo pela proximidade do nome de sua irmã Georgette. Este ia visitar a mãe, logo, Althusser passa a "cuidar" de Helène, salvá­la, ao perceber sua dor e soli­ dão infinitas. Ela sofrera perseguições por ser judia, todavia a mais nefasta foi ter nascido me­ nina quando sua mãe queria um menino. Tornou­se impulsiva e rebelde. Helène, também, ficou impressionada com aquele adolescente desajeitado, uma alma do outro mundo. Esses dois seres se uniram compartilhando a mesma angústia, a mesma expectativa desesperada.

 

Althusser  fez amor pela primeira  vez aos  3 0anos sendo tomado por uma repulsa, extrema­ mente violenta. O conflito que se configurou entrelaçava a proibição da mãe em relação a um corpo sexuado, a intrusão materna no que diz respeito a seu corpo e a seu sexo e uma sensação de que estaria realizando o incesto. Seu sofri­ mento levou­o à primeira internação no Hôpital Sainte-Anne, onde Pierre Male diagnosticou "demência precoce". Proibido de receber visitas, inclusive Helène, marido e mulher se encontravam às escondidas e esta  levou  o  psiquia­tra Julian Ajuriaguera para examiná­lo. O novo médico modificou o diagnóstico para uma gravíssima melancolia e prescreveu eletrochoques. Marci ressalta que a psicanálise propõe pensar o sintoma como um enigma a ser decifrado e não eliminado; além disso, apesar da estrutura, a singularidade que marca o encontro de cada sujeito com o real é inquestionável, logo, chegar rapidamente a um diagnóstico pode ser uma obstrução do saber, pelo saber ou pior, uma devastação.

 

A parceria sintomática estabelecida pelo casal vai se tornando clara. Helène foi uma criança franzina e furiosa, transformando­se numa mulher que, apesar de amar desesperadamente, não acreditava na possibilidade de ser amada, dado que se via como um ser abjeto. Se Heléne foi odiada por sua mãe, por outro lado foi amada por seu pai que adoeceu de câncer, quando ela contava 10 anos. Cuidou dele ajudada pelo Dr. Delacroix, de quem sofreu abuso sexual. Um ano após a morte do pai, o mesmo ocorreu com sua mãe e, em ambos os casos, foi o Dr. Delacroix quem prescreveu a injeção de morfina que os mataria. Sendo assim, ela matou o pai que amava e a mãe que odiava.

 

As relações de Althusser eram sempre fusionais, havia uma complementaridade. Tinham enorme necessidade um do outro, todavia qual­ quer experiência de alteridade provocava explosões de agressividade próprias das relações narcísicas. Helène sempre se recriminou por não ter salvado o padre Larue, com quem viveu um caso de amor e que foi executado pelos alemães em 1944. Althusser mais uma vez viria substituir um amor morto no campo de batalha. Do mes­mo modo, ele colocava Helène, frequentemente, frente a outras mulheres. Certamente o que ele pretendia era obter, através dela, a aprovação da mãe e do pai em relação a uma mulher.

 

Um destino anunciado

Tal como Althusser, Helène convivia com os grandes pensadores dos mais variados saberes, inclusive da psicanálise. Para Lacan, poderia se dedicar à psicanálise, em virtude da sua capacidade de insight, além do interesse na literatura sobre a matéria, por isso suas reflexões eram sempre consideradas por Althusser. Em 1964 ela envia para o namorado uma carta onde teoriza sobre a etiologia de sua doença criando um "destino familiar". A tragédia edípica teria se perpetuado quando ele contava seis meses e Charles conheceu­o, ao voltar da guerra. Lucienne teve que aceitar o marido que não amava. Porém, desejava ter tido um filho com o noivo morto, seu verdadeiro marido, daí, o menino passou a receber toda a reserva de amor a ele destinada, tornando­se seu verdadeiro marido. Imaginariamente mantém a fantasia do marido / pai "verdadeiro", enquanto o "falso" marido/ pai real renuncia à sua função tornando­se um intruso. A criança se torna violenta, não contra o pai, que para ele é o avô materno, porém, contra o intruso que se impõe a sua mãe, numa clivagem decisiva: o pai real nunca será reconhecido pela criança como tal e a criança está constrangida a ser seu próprio pai.

 

Quinze dias depois Althusser tem um sonho no qual deve matar sua irmã, ou ela deve morrer, há uma obrigação impossível de evitar, um dever, numa data ou hora prescritas. Matá­la com seu acordo: uma espécie de comunhão paté­ tica no sacrifício. Ele lembrou, ainda, que havia algo de erótico na descrição dos corpos da mãe, da irmã, da avó, de quem deveria cuidar, transformando o cuidar em salvar, enxergar o Outro como doente, desviando, assim, o olhar do sexual. Enfim ele questiona e responde: por que é minha irmã que eu devo matar? Sem dúvida, pavor de matar o Outro pelo ato sexual. A única manei­ ra de ele se desculpabilizar seria o Outro se deixar matar. Infelizmente, este sonho não recebeu a atenção devida, no trabalho de análise, pois antecipava um destino que veio a se cumprir.

 

Heléne matou seus pais e era como uma irmã para Althusser. Precisava ser punida e salva e somente a morte poderia libertá­la de tanto sofrimento. Marci considera que, não podendo aceder à dimensão simbólica da castração materna


que lhe possibilitaria um corpo próprio e uma vida autônoma, Althusser passou ao ato. O que é mais terrível, especialmente para nós, psicanalistas, é que ele tinha consciência do que estava se passando, todavia esse registro não barrou o gozo mortífero. Ele precisava matar a mãe/irmã, como forma extrema de subjetivação e Helène precisava ser executada pela morte dos pais e do homem amado.

 

As vicissitudes do exercício da psicanálise

Lacan utiliza a metáfora da garrafa lançada ao mar com uma mensagem, cujo destino depende das invisíveis correntes marítimas. Que correntes impediram Diatkine de decifrar a mensagem contida no sonho profético? Dentre tantos empecilhos, havia grande intimidade entre o casal e a família do analista. O fato é que a massagem no pescoço de Helène, como no sonho, evoluiu para o estrangulamento sem que Althusser pudesse explicar. De junho a setembro Althusser permaneceu in­ ternado, delirante. Tentou retornar para casa, porém, a situação tornou a se agravar. Foi um tempo terrível até que Helène pediu para ser assassina­ da, causando­lhe horror. Diatkine interveio, pro­ pondo uma internação, para dois dias mais tarde, em 15 de novembro, última entrevista com Althusser. Ao pesquisar os últimos momentos que antecederam a tragédia na tentativa de dar um sentido para seu ato, Althusser descobriu que, nos dias 13 e 14, Helène havia suplicado a Diatkine que não internasse o marido. O analista concordou em aguardar até o dia 17. Essa súplica e a absoluta falta de reação enquanto era estrangula­ da induzem a pensar na realização de um desejo. Althusser encontrou, ainda, uma carta datada do dia 14 na qual Diatkine solicita de Helène uma resposta urgente, pois o casal havia cortado todos os contatos, inclusive com o analista.

 

Impõe­se, novamente, a questão sobre o  lugar do analista na corrente do destino. Qual seria o "desejo do analista" como operador nos momentos radicais? O que constitui um real irredutível aos esforços do sujeito e do analista, aquilo que nenhuma análise dá conta? O que na experiência precoce com os pais tem "voz de oráculo" e se estabelece como um imperativo superegoico forçando a satisfação? Ou seja, estaríamos sem­ pre entre o destino como o inexorável de certas marcas ou pela maneira como interpretamos o desejo materno, e os acasos, os fatos contingentes da vida.

 

Após matar Helène, Althusser foi condena­ do à impronúncia, uma morte "biográfica", sendo recolhido a uma instituição psiquiátrica. Em 1982 voltou a escrever, tendo antes que prestar contas pela morte da mulher. Inicia seu arrazoado dizendo que "escrevia esse livro em outubro de 1982, ao sair de uma prova atroz de três anos, cuja história, quem sabe, contarei talvez um dia"1. Como sabemos, o ato falho é o único ato verdadeiro. Haviam se passado dois anos do assassinato de Helène e três anos do suicídio de Nikos Poulantzas, amigo comum do casal. Se fosse Nikos quem tivesse morrido, Helène estaria viva. Se fosse suicídio, ele não teria tanta culpa.

 

Althusser faleceu aos 72 anos, após uma lenta falência orgânica que culminaria com sua segunda morte, a "biológica", em 1990. Em 1992 surge um livro de sua autoria em que  constam duas autobiografias: a de 1976 e outra de 1985, O futuro dura muito tempo. Trata­se de uma publicação notável, onde um sujeito que se confessa louco e assassino não deixa de ser considerado um intelectual brilhante, excepcionalmente inteligente, provando que a psicanálise pode ser impotente diante de uma dor que emudece e mata. O valor da psicanálise é posto em xeque, ela é desidealizada e revalorizada, segundo perspectivas mais ajustadas à realidade. Oxalá, o texto de Marci Dória Passos faça escola e desperte em cada um de nós, que somos psicanalistas, o fascínio pelo "não sabido" que deve animar todo trabalho de pesquisa e que é a fonte da originalidade do método psicanalítico.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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