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Resumo
Resenha de Jacques André e Catherine Chabert (orgs.), O esquecimento do pai. São Paulo: Edusp, 2008, 170 p.


Autor(es)
Luiz A. Calmon Nabuco Lastória

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 LEITURA

O status do pai na psicanálise: um debate travado a partir da clínica contemporânea

[O esquecimento do pai]


The status of the father in Psychoanalysis: a debate starting from contemporary clinic
Luiz A. Calmon Nabuco Lastória

Há três décadas, aproximadamente, verifica­se uma reconfiguração mais acentuada da instituição familiar no seio da sociedade. Obviamente não se trata de um fenômeno particular a um recorte temporal definido, nem tampouco facilmente delimitável. Novos padrões de relacionamentos intra e entre gerações foram se estabelecendo ao longo desse período, e novos hábitos se constituíram. O direito sacramentou a "união estável" entre casais em novas bases na legislação brasileira, além de assimilar conquistas reivindicadas por parcelas da sociedade civil organizada. Também nessas últimas três décadas o desenvolvimento tecnológico acelerado impactou profundamente o ethos cultural que nos abriga. Em meio ao turbilhão provocado por todas essas mutações, a posição emblemática do pai para a constituição psíquica dos sujeitos, a partir dos vínculos sociais que sustentam o processo civilizatório em curso, nos salta à vista, e, sobretudo, ao olhar atento da psicanálise.

 

Com o intuito de renovar a urgente discussão acerca do status do pai no interior da perspectiva psicanalítica, contando com os valiosos e imprescindíveis subsídios compilados de situações clínicas, o Laboratório de Psicologia Clínica e de Psicopatologia da Universidade Re­ né­Descartes (Paris v) e o Centro de Estudos de Psicopatologia e Psicanálise da Universidade Denis­Diderot (Paris vii) organizaram em março de 2003 uma jornada científica sobre o tema "O esquecimento do pai", sob a coordenação de Régine Waintrater. Os resultados desse evento ensejaram a organização de um livro por Jacques André e Catherine Chabert sob o mesmo título - L'oubli du père -, publicado na França pela Petite Bibliothèque de Psychanalyse. São esses resultados que, graças ao empenho e dedicação de um grupo de tradutores psicanalistas, dão­se ao conhecimento do leitor em língua portuguesa. Trata­se, sem sombra de dúvida, de uma importante contribuição para alimentar os debates sobre o tema junto ao público especializado, mas também junto a segmentos de outras áreas do conhecimento que buscam no manancial da psicanálise uma interlocução privilegiada.

 

Em seu artigo "A via do pai: uma segunda chance", Catherine Chabert retoma o debate em torno da oposição entre a perspectiva psicanalítica de Freud, cuja ênfase recai sobre a figura do pai, e aquela traçada por Winnicott, cuja ênfase recai sobre a figura da mãe, sem deixar de extrair as consequências clínicas que se inscrevem no plano das relações de transferência. Ao "sustentar a ideia de uma sexualidade ‘freudiana' presente do começo ao fim da vida", a autora inquieta­se no decorrer de sua exposição com o "[...] ‘desaparecimento' do pai do horizonte analítico". E insiste na conservação da referência às figuras materna e paterna como condição para o entendimento dos múltiplos cenários fantasmáticos erigidos pela psique individual.

 

Do contrário, sublinha C. Charbet, corre­se o risco de "dessexualizar" a própria teoria psicanalítica, isto é, desconsiderar a importância capital da diferença anatômica entre os sexos, tal como fora vislumbrada por Freud, para a constituição de uma psicodinâmica efetiva em resposta ao enigma da diferença sexual que desafia desde muito cedo a criança. De outra parte, nos lembra que o esquecimento do pai no plano da teoria implica, em primeira instância, a manutenção de um sistema narcísico de referência. Exclusão de toda e qualquer diferença percebida como perturbadora da injunção com a totalidade e morbidez pulsional autoconservadora emergem como características decorrentes desse sistema. Ao desfechar seu argumento a propósito do confronto entre as perspectivas de Freud e Winnicott, a autora alude à "via do pai", esse tertius que nos impele ao deslocamento, como "uma segunda chance" para desobstruir e encaminhar os processos de análise.

 

O segundo artigo, denominado "O apagar de um pai", de Pierre Pachet, traz à reflexão as lembranças de um pai, reconstituídas ficticiamente pelo autor e publicadas como uma autobiografia sob o título Autobiographie de mon père. Ao "conceder a palavra" ao pai já falecido, animando­o mediante a construção de um personagem expresso em termos autobiográficos, o autor, ainda adolescente, lançou mão de um expediente literário para elaborar seu luto:

 

[...] dar­lhe vida ou gerá­lo de maneira quase mítica; dar­lhe uma sepultura dentro de mim, e, contudo vi­ sível: incorporá­lo em mim, ao mesmo tempo para to­ mar sua força e neutralizá­la; exercitar­me (como se praticaria uma autópsia), tirando proveito de seu desaparecimento, numa palavra viva, que ele não estaria mais lá para me impedir de tocar ou para reivindicar­ lhe responsabilidade.

 

O grande mestre, pai iniciático, ou avalista de condutas que ainda subsiste em sua memória como imagem evanescente e atravessada pelo ato da criação literária mostra­se, ao mesmo, robusto e impotente contra a torrente de um tempo que condena suas lembranças às ruínas.


Assim, conclui P. Pachet, a função paterna na contemporaneidade, ainda que sua autoridade tenha sido corroída (mas não extinta), não deixa de interligar a herança do passado ao enigma do futuro, restando­lhe a obrigação de anunciar a ausência de uma concessão perpétua.

 

No artigo seguinte, "Terror e esquecimento: a literatura como resgate da figura do pai", Janine Altounian serve­se também de um material autobiográfico. Seu objetivo é indicar o destino da estratégia de escamoteamento de momentos agônicos vividos pelo sujeito frente às atrocidades cometidas pelo terror, estratégia essa observável em narrativas literárias,"[...] na transmissão aos inconscientes que herdam  e contraem a dívida de uma escrita". No fluxo geracional, argumenta J. Altounian, tal estratégia se repetirá sintomaticamente como um "aparente esquecimento" do terror; algo como um ato falho, que, no entanto, converte­se num ato "bem sucedido". Remetendo­se a Freud, a auto­ ra nos lembra que o pai da psicanálise aproxima o ato de esquecer ao ato de deslocar um objeto de modo a posicioná­lo num lugar fugidio à lembrança. E, acompanhando Michel de Certeau, para quem "[...] a escrita desempenha o papel de um rito de sepultamento", assevera que alguns escritores, ao ressentirem "cruelmente a ausência de uma palavra que não pôde ser emiti­ da", oferecem­na por meio da literatura de modo a ensejar, num só movimento, o sepultamento dos mortos e a delimitação de um espaço subjetivo para os vivos. É aqui que a estratégia de escamoteamento, uma vez estetizada sob a forma de linguagem escrita, chega a produzir uma espécie de efeito balsâmico sobre os descendentes. Isso converte o trauma experimentado pelo escritor numa ausência muda a qual as crianças tendem a respeitar espontaneamente, por intuírem a mensagem ali implícita: a mensagem de um luto impossível.

 

O debate com a Escola Britânica é retomado por Régine Waintrater em "O self ainda tem um sexo?". Tendo em vista a chamada psicologia do self, a autora lança a seguinte interrogação:


O lugar concedido à díade mãe­bebê significará aqui um abandono puro e simples da triangulação edipiana e uma relegação do pai, [...] uma teorização diferente das etapas do desenvolvimento psíquico, numa insistência sobre o que chamamos pré­edipiano, em referência ao Édipo clássico?.

 

Após examinar alguns conceitos capitais que alicerçam o legado de Freud como os de pulsão, narcisismo, complexo edipiano e angústia de castração em autores como Fairbairn, Winnicott e Kohut, aponta, mais uma vez, a dessexualização imputada à psicanálise por esses autores. Senão vejamos: "Mesmo o Édipo não chega a reintroduzir o sexual nessa teoria voluntariamente assexuada. O casal parental é um casal onde a diferença sexual não desempenha o papel central que desempenhava em Freud". De outra parte, R. Waintrater procura refletir sobre as contribuições oriundas da psicologia do self no que se refere às relações de transferência no setting clínico. Para ilustrar seu ponto de vista, apresenta o caso de uma paciente diagnosticada como "estado­limite grave", no qual

 

[...] as posições transferenciais sucessivas ocupadas pela terapeuta constituem o fio diretor que conduz a descoberta e à consequente elaboração da sexualidade infantil, pela redução progressiva da clivagem do objeto e do eu, que caracteriza esse tipo de patologia.

 

Já em "A construção do pai na clínica dos casos­limite", Catherine Cyssau retoma o tema tratado nos artigos de P. Pachet e de J. Altounian ao indagar sobre as possibilidades de elaboração do luto a partir das diversas posições de ausência real do pai. O caso exposto pela autora enseja uma interessante reflexão acerca da "obra de sepultamento" - conceito criado por P. Fédida -, como situação clínica autoengendrada, fundamentalmente, [...] "a partir da ressonância contratransferencial e dos ecos da transferência". Também para C. Cyssau é pela via da "utilização do objeto", no sentido winnicottiano, que se pode efetuar uma identificação primária quanto à figura paterna tanto para o paciente, quanto para o analista. No entanto, a autora esclarece que

 

[...] essa identificação, por ser primária, não está inscrita imemorialmente no passado, ela se atualiza na tessitura da transferência, por meio da repetição no presente, onde se torna o centro do "tratamento da alma" que funda a cura analítica.

 

Servindo­se da metáfora da "marionete" como objeto manipulável por movimentos finos, a autora ilustra o processo analítico de interpretação da transferência mediante o qual o próprio analista acha­se também implicado (contratransferência), ao identificar­se implicitamente com a coreografia executada pela marionete.

 

Martine Lamour, em "construir conjunta­ mente a paternidade: uma experiência de pesquisa, ação e formação na creche", expõe um trabalho realizado junto a equipes profissionais de quatro creches vinculadas ao serviço de Proteção Maternal Infantil (pmi) da cidade de Paris, no sentido de: aprimorar o conhecimento sobre o processo da paternidade, sensibilizar as equipes em relação à importância das relações estabelecidas entre os pais e os bebês tendo em vista o acolhimento desses nos espaços das creches, e reconhecer a necessidade de um tempo de formação (continuada), incluído no tempo de trabalho das equipes, com o objetivo de integrar às práticas cotidianas o fenômeno da "paternagem". Pois, desde dezembro de 1989, por determinação legal, as funções do pmi foram ampliadas devendo incorporar, além das mães  e crianças, também os pais. Trata­se, portanto, de uma experiência de pesquisa e intervenção conjugadas em que seus proponentes procuraram apreender e problematizar o lugar do pai na cultura hodierna. E o fizeram a partir do contato empírico com o cotidiano de um serviço público de atendimento à população. Os resultados alcançados abarcam múltiplas questões em diferentes planos das relações sociais, como por exemplo: os estereótipos determinados pela divisão tradicional de trabalho entre os sexos e que ainda orientam as condutas das profissionais atendentes nas creches, as implicações da sedução quando a díade atendente­mãe é substituída pela díade atendente­pai, e questões relativas à própria identidade sexual dos pais, bem como a posição desses no interior da família frente às alterações dos scripts que prescrevem novas condutas aos papéis sociais.

 

A interrogação sobre o tema, a partir de um índice extraído de um caso clínico, é efetuada por François Villa em "O esquecimento do pai: um desejo de permanecer eternamente filho". Ao encerrar os telefonemas, um pai repetia sistematicamente: "Filho! Não nos esqueça!". Mas, afinal, de quem se tratava? Esse "nos" latejou na consciência do filho sessões a fio. Foi então, per­ seguindo esse índice manifesto no transcorrer da análise, que F. Villa nos apresenta uma instigante digressão efetuada a partir da linguística de Benveniste, e da teorização freudiana acerca do pai. Sobretudo daquele que figura na "cena primitiva" e que se prolonga no complexo de Édipo. Longe de pensar a primazia de um dos gêneros na constituição dos processos psíquicos, F. Villa os toma em sua dilacerante conjunção na diferença, apontando para a admissão enigmática e amedrontadora da possibilidade do coito entre os pais nas representações infantis. Nesse caso, a súplica pelo não esquecimento daquele pai que subsumiu a sua própria paternidade num pronome "impessoal" - nos - revela­ ria o conflito psíquico de um homem que anseia por permanecer eternamente filho; conflito esse que se perpetua projetado na relação estabeleci­ da com sua descendência. E conclui: "De fato o desejo de esquecer o pai não será senão o desejo de abolir o sexual".

 

"George Perec. Salvar o pai" é o título do artigo de Anny Dayan Rosenman. A autora perscruta o destino da figura paterna na literatura de G. Perec, figura inscrita numa genealogia cuja transmissão viu­se acometida pela mais violenta e abrupta ruptura desencadeada pela Shoah. Contrastada com a figura da mãe que comparece na literatura perecquiana irremediavelmente vinculada à morte, e, portanto, à identidade judaica enlutada, a figura paterna, num primeiro momento, aparece delineada de modo impreciso e dissociada de toda e qualquer referência à origem. Preservada da catástrofe, e, por­ tanto, da tragicidade histórica, a figura paterna ensejará a reconstituição do vínculo com a ancestralidade cultural, mediante a lei, a letra e a obra literária.

 

O livro desfecha com um pequeno fragmento intitulado "A escada", de Jacques André, extraído do livro L'imprévu. Um filho se lança, repetidas vezes, do quinto degrau da escada no vazio em direção aos braços de seu pai. Emocionado, interroga­se o pai: de onde vem tal confiança que atesta, inquestionavelmente, seu amor refletido nos olhos de seu filho? J. André, recorrendo a Freud, nos lembra que o princípio da incerteza (a paternidade) elevou­se a um triunfo cultural edificado sobre uma "dedução" e um "postulado", enquanto a maternidade permaneceu sob a evidência dos nossos senti­ dos. Logo, esse triunfo representa nada menos que "uma vitória da vida do espírito sobre a vida sensorial", e, com essa vitória, o advento da própria teoria como objetivação cultural simbólica para além das certezas sensíveis. É também a in­ certeza, sublinha J. André, que acomete o pai ao pé da escada ao lhe impelir à escolha (antinatural) de amar o filho e de se responsabilizar pelo seu desejo.

 

Poderíamos retomar o sentido desse instigante fragmento escolhido para encerrar o livro conferindo­lhe uma espécie de linha de borda temática, a partir de uma colocação de W. Benjamin em seus escritos sobre o "Brinquedo e brincadeira": "A obscura compulsão de repetição não é menos violenta nem menos astuta na brincadeira que no sexo". Experiências profundas sempre retornam à cena, nos ensinou a psicanálise. E o desvencilhar do seu mau infinito cíclico, ao mesmo tempo que enseja a continuidade da produção cultural pela via da sublimação, também indica as vias dos processos de singularização possível em nível das biografias individuais nos tratamentos clínicos. Em ambos os casos a remissão à figura paterna apresenta­se como um expediente incontornável até o momento. Os debates travados pelos partidários das diferentes interpretações da psicanálise quanto aos destinos históricos possíveis dessa figura emblemática encerram hoje uma demanda cuja intensidade parece aumentar na razão inversa do seu prestígio empírico na cultura contemporânea. Se a partir dos anos 60 muito se falou (e se praticou) a respeito da sociedade sem pai, hoje nos parece imperativo renovar o debate em torno desse tema, especialmente se mantivermos em nosso horizonte os perigos de serialização massificante dos seres humanos engendrados por uma cultura higth tech, de um lado, e pela esterilização da psicanálise em meio a uma sociedade cada vez mais medicalizada, de outro. A tradução para o português de O esquecimento do pai, organizado por Jacques André e Catherine Chabert, representa uma valiosa contribuição para a renovação desse debate.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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