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AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
34
Fragilidades. Da clínica à literatura
ano XVIII - 1° semestre 2005
167 páginas
capa: Ana Carolina de Oliveira
  
 

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Resumo
Desde a descoberta do inconsciente freudiano, as implicações das transformações histó ricas e sociais na constituição da subjetivida de tem convocado a psicanálise a pensar seu lugar na cultura. O debate deste número retoma esta interrogação ao investigar a posição do psicanalista contemporâneo em relação à delimitação do seu campo de atuação. Convidamos psicanalistas que têm demonstrado preocupação e interesse em pensar as relações entre o coletivo e o individual, o sujeito e sua inserção política social, para responder à seguinte questão: Na busca de compreender os enigmas do psiquismo humano, Freud demonstrou interesse e preocupação em relacionar o funcionamento psíquico do sujeito com os grandes eventos da humanidade. Seu empenho pode ser constatado em vários artigos...


Autor(es)
Chaim Samuel Katz
é psicanalista, doutor em Comunicação (UFRJ), escritor (Nazismo e Psicanálise, Psicanálise e Instituição, Ética e Psicanálise, entre outros).

Charles Melman
é psicanalista e psiquiatra, foi um dos principais dirigentes da Ècole Freudienne de Paris. È o fundador da Association Lacanienne Internatinale e autor de numerosas obras e textos, entre eles Novos Estudos sobre a Histeria e O Homem sem Gravidade. Gozar a qualquer preço (2003).Editor da Revista Passages.

Catarina Koltai
é socióloga e psicanalista, professora na graduação e pós graduação da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP. Autora do livro Psicanálise e Política, o Estrangeiro, Ed. Escuta 2002 e Organizadora do livro O Estrangeiro, Ed. Escuta 1998.

Mário Pablo Fuks
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise, professor do Curso de "Psicanálise: teoria e clínica", coordenador do Curso de "Psicopatologia Psicanalíticas e Clínica Contemporânea", todos no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo.

 




Notas

1. Ressalto o excelente trabalho de Betty Bernardo Fuks http://www.estadosgerais.org/mundial_rj/ port/trabalhos/1_Fuks_25230803_port.htm mencionado na conferência ministrada por Rouanet no 2º Encontro Mundial Rio/2003

2. Ocupei-me recentemente dessa questão na mesa de abertura do Encontro do Rio. Ver em: http://www.estadosgerais.org/mundial_rj/port/ cb_m_fuks.htm

3. VIÑAR, M. e M. Exílio e tortura, São Paulo, Escuta, 1992. Costa, J. F. Violência e psicanálise, Rio de Janeiro, Graal/Paz e Terra; “Narcisismo em tempos sombrios”, in Birman, Joel (org.), Percursos na história da psicanálise, Rio de Janeiro, Taurus, 1988; “Psicanálise e moral”, São Paulo, EDUC, 1989. Garcia Reinoso, G. “Violencia y agresión o bien violencia y represión?”, in Cuestionamos, Buenos Aires, Granica, 1971; Le psychanaliste sous le terreur, Paris, Ed. Matrice, 1971. Reeditado sob o título de “Matar la muerte”, in Psyché nº 1, Buenos Aires, 1986. Pellegrino, H. “Pacte oedipian et pacte social” in Le psychanaliste sous le terreur, Vignieux Matrice, 1988; “Os incêndios do nada”, Folha de São Paulo, 10/9/1986.

4. São importantes, a respeito, os trabalhos de J. Birman, C. Calligaris, Ch. Katz, M. R. Kehl, E. Losicer, S. Bleichmar, J. C. Volnovich, e muitos outros, as pesquisas e publicações dos núcleos psicanalíticos das pós-graduações da PUC e USP, nos congressos e publicações em torno à Psicopatologia Fundamental, assim como a produção dos diversos grupos que articulam a psicanálise com o pensamento de Deleuze, Guattari, Castoriadis, Michel Foucault, Derrida, Agamben e outros.

5. Fuks, M. P. “Questões teóricas na psicopatologia contemporânea”, in Fuks, L. B. & Ferraz, F. C. (orgs.) A clínica conta histórias, São Paulo, Escuta, 2000; “Nos domínios das neuroses narcísicas e em suas proximidades”, in Fuks, L. B. & Ferraz, F. C. (orgs.) Desafios para a psicanálise contemporânea, São Paulo, Escuta, 2003; “O sofrimento e a contemporaneidade”, V Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, Campinas, Set./2000.

6. Ver Convocatória dos EG 2000; temas propostos: As instituições analíticas, tema 3.



Abstract
Four analysts of different orientation cope here with a touchy issue: in what measure is today’s Psychoanalysis keeping up with Freud’s keen attention to cultural and social issues? Terrorism, fundamentalisms, modern atrocities, the violence – overt or discreet – that pervades contemporary life, are some of the subjects addressed in these short but stimulating contributions.

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 DEBATE

Psicanálise e cultura: uma herança freudiana?

Psychoanalysis and culture: a Freudian heritage
Chaim Samuel Katz
Charles Melman
Catarina Koltai
Mário Pablo Fuks


Desde a descoberta do inconsciente freudiano, as implicações das transformações histó ricas e sociais na constituição da subjetivida de tem convocado a psicanálise a pensar seu lugar na cultura. O debate deste número retoma esta interrogação ao investigar a posição do psicanalista contemporâneo em relação à delimitação do seu campo de atuação. Convidamos psicanalistas que têm demonstrado preocupação e interesse em pensar as relações entre o coletivo e o individual, o sujeito e sua inserção política social, para responder à seguinte questão:

Na busca de compreender os enigmas do psiquismo humano, Freud demonstrou interesse e preocupação em relacionar o funcionamento psíquico do sujeito com os grandes eventos da humanidade. Seu empenho pode ser constatado em vários artigos. No apêndice de “Reflexões de atualidade sobre a guerra e a morte” (1915), a carta a Frederik van Eeden (1914) revela, em poucas linhas, o esforço de Freud em demonstrar como as categorias conceituais formuladas pela psicanálise podem explicar as crueldades e as injustiças cometidas pelas nações mais civilizadas. No livro “Psicologia das massas e análise do eu” (1921), afirma que na vida anímica do indivíduo as relações com os outros (família, sociedade, etc.) aparecem “com total regularidade”, portanto a psicologia individual é simultaneamente psicologia social.

Diante da obra fundadora, a psicanálise contemporânea arca com a crítica recorrente de restringir sua produção teórica ao campo da clínica individual e de não oferecer hipóteses que contribuam no debate e na análise das questões macro-estruturais.

Sérgio Paulo Rouanet, por exemplo, em entrevista concedida à Revista Percurso no. 34, sugere que apesar da ampla produção teórica da psicanálise contemporânea, são poucos os trabalhos psicanalíticos voltados à compreensão dos fenômenos sócio-políticos e do mal-estar na cultura de nossos tempos.

Será que a psicanálise efetivamente se encontra hoje dissociada do contexto histórico e das angústias do mundo contemporâneo? Será que a herança freudiana em atribuir à psicanálise um potencial teórico capaz de analisar e compreender os grandes conflitos da humanidade não foi sustentada?

De seu ponto de vista, a produção psicanalítica pós-freudiana contribui para a compreensão dos grandes problemas do nosso tempo relacionados com o imperialismo, o terrorismo, os fundamentalismos, ou a última palavra ainda pertence a Freud, mesmo que ele não tenha presenciado as mesmas atrocidades que nos atingem?

Entre o reconhecimento da implicação do sujeito psicanalítico na cultura e a unanimidade em relação à presença das teorizações psicanalíticas a respeito de questões da cultura contemporânea encontramos nos textos que seguem diversas elaborações que marcam a riqueza do pensamento psicanalítico.


Susan Markuschower
e Sílvio Hotimsky

CHAIM KATZ: 1- Gostaria de encontrar na carta de Freud a van Eeden a certeza colocada na vossa pergunta, acerca da “preocupação [de Freud] em relacionar o funcionamento psíquico do sujeito com os grandes eventos da humanidade”. Talvez me engane, outra vez mais, mas não me lembro de um único comentário imediato de Freud sobre os eventos que marcaram sua época como, por exemplo, a I Guerra Mundial, onde dois de seus filhos (Martin e Ernst) combateram diretamente, além de seu genro (Max Halberstadt), que foi ferido e se tornou inválido, e de um sobrinho, morto em combate. Do mesmo modo que a psicanálise viu a maioria dos seus membros ativos participar dessa guerra e nada fez para teorizá-la diretamente, até mesmo porque ocuparam por vezes campos nacionais em oposição.

Quanto à Segunda Guerra, Freud teve que fugir no nazismo, presentificado na sua própria casa e na invasão contra a Psicanálise, a IPV e a editora; ele acompanhou a noite dos cristais (Kristallnacht, de 9 de novembro de 1938), jamais ignorou os pogroms alemães e a violência contra os judeus (qual a análise conjuntural dele acerca do episódio acontecido com seu pai, da kipá, do solidéu atirado na lama?), sempre soube da existência dos campos de concentração e de extermínio e também não pôde levar suas quatro irmãs para o exílio inglês (elas terminaram assassinadas pelos nazistas). Onde seus escritos “universais” sobre tais temas? Universalidade passa pelos detalhes, aprendemos com Guimarães Rosa....

2. Aprendemos que não há Uma potência, teórica ou de poder, que pudesse tomar conta ou dar conta de Um Saber ou Justiça universal. Hölderlin nos ensinou que Deus ou os deuses se retraíram do mundo e só nos restou a forma pura da Lei para nos com-formarmos; mas essa não tem uma realização única, sabemo-lo os menos paranóicos. Mais próximo de nós, Paul Celan afirmou que Deus se fez silêncio na Shoá, se ausentou inteiramente: donde a impossibilidade de representar ou estetizar aquilo que permanecerá para sempre nas sombras. Deveria a psicanálise ocupar o divino lugar, ligar o “indivíduo” ao “coletivo”? O que homogeneiza a chamada “massa”, a morte permanente do Pai? Como fazemos hoje para entender coletivos sem vergonha nem culpa, que ignoram que O Pai deveria estar morto para que existisse a chamada civilização, grupos que se fazem sem ter um Pai morto como ancestral?

Os psicanalistas tivemos de aprender que, ao lado de “não ceder sobre seu desejo”, os chamados “sujeitos” se constituem também enquanto Bemächtigungstrieben, apoderamentos pulsionais insistentes, permanentes e expansivos; e que outras ordens de reuniões (Versammlungen) são possíveis, ainda que caóticas.

Se a psicanálise freudiana mostrou a organização psíquica da crueldade e a emergência do regime desejante das injustiças, não queiramos encontrar nos escritos publicáveis (tornados públicos) de Freud a ligação entre os processos psíquicos mais gerais e eventos específicos, postos em conjunturas diferenciadas. Tal crítica já foi enunciada por Nietzsche, quando disse que aos eleatas era impossível postular as antinomias dos erros naturais. Já eu imagino poder vivê-las simultaneamente (mesmo Credo de muitos iluministas, penso eu). Freud (disse-nos Yovel) foi um iluminista sombrio. Em direção às Luzes, clamado simultaneamente pela obscura disrupção pulsional (digo eu, CSK).

3. Portanto, nossas questões comuns, as psicanalíticas, se dão em planos diferentes. Penso que, primeiramente, trata-se de situar a ordem do questionamento. Se a chamada “clínica individual” nos importa, sem dúvida temos que nos lançar a ela. Mas a clínica psicanalítica não é unicamente uma inclinação (klinein) sobre o divã. Nem basta postular que o “Eu” só se constitui desde um “outro” para afirmar simetrias mecânicas entre “indivíduo” e “massa”. Por exemplo, há que perguntar porque se deu a transformação da “tipologia” histérica – que motivou Freud a inaugurar a psicanálise – num processo bastante diferenciado, a obsessão (por ele próprio, Freud, elaborado), marcada por características obsessivas e de reprodução; até sabermos que na contemporaneidade são as fobias, paranóias e melancolias que nos marcam – enquanto processos psíquicos mais importantes – de modo insistente. E isso não se inscreve, desde sempre, numa “individualidade” que simetrize grupalmente. O medo “individual” que têm nossos analisandos (e nós, claro) dos “bondes” de menores assaltantes nos grandes centros urbanos é produzido desde UMA persona? É um processo que sempre existiu no inconsciente, um inconsciente prévio e que daria conta de quaisquer processos? Não, claro que não. Os psicanalistas também temos de elaborar simultaneamente os processos psíquicos desses menores do bonde, cujas sexualidade e morte se produzem de modos diferenciados. Se não o fazemos, assim não há esta experiência de universalização necessária, estamos de acordo.

Portanto, eu chamo-a-favor (pro, vocare): tal elaboração (que aqui indiquei) não é geopolítica? Isso diz respeito ao terror, ao descentramento da cidade, à eliminação de fronteiras nacionais, à tomada dos processos de subjetivação por grandes mecanismos de controle. Ou será que para falar de Terror será sempre preciso citar Robespierre, Gavrilo Princip, bin Laden, Bush?

Talvez eu questione demasiadamente essa simetria entre o que se chama de “individual” e “de massa”. Certamente, penso ser difícil sustentar um conceito de “indivíduo”, quando sabemos o regime das pulsões, especialmente o que Freud chamou de “compulsão à repetição”. O que nos coloca, de saída, a pensar no estatuto dos conceitos e categorias. Já o sabemos, todos, da inadaptação da teoria psicanalítica ao regime usual das teorias: a psicanálise é um saber paradoxal.

São poucos os trabalhos psicanalíticos voltados à compreensão dos fenômenos sócio-políticos e do mal-estar na cultura de nosso tempo. Será que a psicanálise efetivamente se encontra hoje dissociada do contexto histórico e das angústias do mundo contemporâneo? Será que a herança freudiana em atribuir à psicanálise um potencial teórico capaz de analisar e compreender os grandes conflitos da humanidade não foi sustentada?

4. Permitam-me pensar um pouquinho diferente. É que retornamos à vossa afirmação acerca de uma simetria entre “indivíduo” e “de massa” e de questionar acerca do que são fenômenos sócio-políticos. Há que realizar uma passagem, um processo, uma transição diferenciada entre o registro do que se pensa ser os elementos simples (os indivíduos, as singularidades, os participantes de um coletivo, etc.) e seu modo diferenciado de se organizar em múltiplos. A psicanálise sabe que não há “unidades” básicas, pois o que chamamos de indivíduo é sempre inconsciente. Também, quando inconscientes se expandem – a compulsão à repetição e as disrupções são também da ordem expansiva – criam-se novas formações, que não se deixam reduzir a unidades básicas.

Ainda assim, mesmo que quiséssemos postular um indivíduo centrado num processo psíquico nuclear, lembremo-nos que o Freud múltiplo nos ensinou, em 1921, que a afirmação de que “o humano é um animal de rebanho (Herdentier), deve ser corrigida, [pois] que é muito mais um animal de horda (Hordentier), um indivíduo pertencente a uma horda conduzida por um superior” (GW, XIII, p. 135).

Por isso, o chamado mal-estar não é o mesmo, ainda que postulemos e saibamos sua insistência permanente. Talvez, em muitos momentos de nossas teorizações, os psicanalistas não soubemos questionar adequadamente sobre a multiplicidade dos mal-estares e suas diferenças. Mas é disso que se trata, mesmo quando alguns pensem que essa é uma vertente clínica “de divã”. É essa a passagem possível de uma psicologia individual para uma coletiva. Trata-se de um processo que não tem como ser deduzido de uma prévia e vasta teoria geral, que antecedesse nossas investigações concretas. Insisto, inexiste essa isomorfia entre os regimes do que chamaríamos de psicologias individual e social. Seria “o mesmo” o inconsciente das famílias ditas nucleares normativas e as famílias homossexuais contemporâneas? É o mesmo o inconsciente dos meninos nascidos nas famílias regulares das classes médias e o inconsciente dos meninos bósnios, cujo nascimento, desde mães que foram estupradas por croatas, os faz permanentemente excluídos, crianças que “nem podem nascer” pois lhes falta a autenticidade da geração?

É diante dessas questões que o psicanalista freudiano se põe. Assim como Freud se postou diante de questões não homogêneas, que ele teve que criar em níveis diferenciados durante seu pensamentar. Não tenho dúvida alguma de que foi Freud quem nos ensinou que as chamadas pulsões de morte não apenas são um regime específico de desligamento pulsional (Entbindung), como - e isso é o que importa para a realização e uma teoria mais generalizada - são outra forma de ligação, de realização do desejo. O que deixa a última teorização freudiana como um “saber insuportável”, positivando os desligamentos e a crueldade.

Assim, nosso grande desafio é a questão da Soberania. Soberania é resistência a si mesmo, é postular um pensamento posto unicamente na claridade e na afirmação de UM poder único, que eliminaria os processos pulsionais. Em honra a uma centralidade edípica unitária, se quer recusar o mais importante que Freud nos ensinou: que a psicanálise é inconsciente, transferência, resistência. Só assim podemos colocar a Soberania em questão, pois esta quer se afirmar desde mecanismos de saber e poder absolutos e absolutistas, ignorando a existência do mal e das resistências.

Se meus argumentos têm algum valor, ser psicanalista hoje é perseguir e afirmar a multiplicidade e não reduzir ao Uno. Sair da imediaticidade do divã (a que sempre retornamos!) e estatuir a produção transferencial, resistencial, inconsciente das famílias, aglomerados, instituições, dos grupos em rápido deslocamento que assolam a classe média a que pertencemos, asilos, creches, escolas, hospitais, a questão da dilatação da morte e o novo estatuto dos velhos (idosos, desculpem-me!), da precoce “adultização” das crianças, etc. É elaborar a comunicação e transmissão em alta velocidade e a formação de outros modos de subjetivação, que não mais se centram em elementos topológicos fixos, pois criam novos lugares e outras modalidades temporais.

Mas isso, perdoem-me, isso se faz em “tom menor”, mas de um modo tão importante como os que Freud nos formou (Ausbildung, desde a Bildung).

Herança? “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o, para fazêlo teu”.

5. Quanto ao terceiro ponto, para pensar as questões sobre terrorismo, invasão do Iraque, queda das torres, nazismo, até questões institucionais que nos são afeitas, não podemos nos esquecer da vasta questão da tortura, que foi muitíssimo elaborada entre nós e sobre cuja eliminação ou mitigação pudemos agir mais diretamente. Para ficar em termos próximos, penso nas teorizações brasileiras em ensaios, livros e lições de muitos de nós, bem vivos e importantes: Hélio Pellegrino, Joel Birman, Jurandir Freire Costa, Octavio Sousa, Betty Fuks, Neusa Santos Souza, Contardo Calligaris, Benilton Bezerra, Maria Rita Kehl, Catarina Koltai, Luís Claudio Figueiredo, Suely Rolnick, Jorge Forbes, Daniel Kupermann, Peter Pal Pelbart, Míriam Chnaiderman, Manoel Berlinck e, nosso conhecido e comum amigo, Renato Mezan. Suas contribuições nos carreiam para outro regime teórico, que respeita a atualidade e seus chamados, mas se elaboram também desde o regime atemporal da psicanálise.

CHARLES MELMAN: Lacan dizia: “O inconsciente é o social”. Por quê?

Simplesmente porque o recalque, que é o que alimenta o inconsciente e o que gera as neuroses, faz parte dos traços de moralidade exigidos para uma dada cultura e, no melhor dos casos, a família não faz senão transmitir à criança esse imperativo social.

Diga-me quais são seus interditos e eu lhe direi a que comunidade você pertence: é elementar.

Mas pode haver mais do que isso.

A história política de uma comunidade considerada conserva, de fato, a memória da legitimidade ou não da autoridade que, entre outras coisas, dita sua moral.

Assim, em certos casos, recusar a restrição de gozo implicada no recalque esperado pode se tornar a comemoração de uma oposição cívica geral a um poder usurpado.

Não duvidamos que, com essa inconstância que deslegitima a autoridade, as próprias relações intrafamiliares podem se encontrar pervertidas.

Vocês conheceriam uma sociedade em que, eventualmente, esse tipo de conseqüência poderia ser observada?

CATERINA KOLTAI: Antes de mais nada, gostaria de agradecer a Sérgio Paulo Rouanet por sua muito bem-vinda provocação ao nos convocar, enquanto analistas, a relacionar o inconsciente freudiano com as transformações sociais e históricas do mundo contemporâneo, uma vez que não podemos nos esquecer de que, além de uma terapêutica do sujeito, à psicanálise é também uma teorização da relação do sujeito com o mundo em que vive, razão pela qual as transformações sociais interessam a psicanálise tanto em sua prática quanto em sua teoria. A responsabilidade do analista se situa tanto na clínica quanto no social, uma vez que nenhum sintoma se forma sem essa implicação social, à condição que diga respeito ao real. Freud sempre recusou a clássica distinção entre individual e singular, de um lado, coletivo e social, do outro. Ao longo de toda sua obra, a experiência da subjetividade, enquanto discurso do inconsciente, que é a própria psicanálise e a experiência do laço social, enquanto discurso do político, são muito menos antinômicos do que podem parecer a primeira vista.

Muitos dos avanços freudianos, nesse sentido, foram respostas às injunções da História - Primeira Guerra Mundial, crise econômica, movimentos de massa e ascensão do nazismo - que lhe permitiram testar a operatividade de seus conceitos psicanalíticos. Não por acaso ele nos legou a idéia de que há um malestar na civilização, que ele é estrutural e não conjuntural, à medida que diz respeito ao trágico da existência humana.

Seu livro Mal-estar na civilização (1929) foi durante certo tempo criticado pelos analistas, numa época em que os problemas técnicos pareciam se impor e ocupar a frente da cena, os analistas tendo cada vez mais dificuldade em acompanhar Freud à medida que ele insistia em enraizar o sujeito em sua própria realidade pulsional: a da pulsão de morte. Hoje sabemos, que mais que um texto sociológico ou elucubração filosófica, Mal-estar na Civilização é um texto que questiona a psicanálise como práxis, situando- a no mundo e atestando o desejo de Freud.

O descentramento efetuado pela psicanálise, da ordem do mundo para a realidade psíquica, implica um deslocamento do ser do mundo para o ser do desejo e coloca a questão da implicação do sujeito no político que Lacan aprofundou em sua articulação psicanálise em intenção – a problemática interna da psicanálise – com sua posição no século, a que chamou de psicanálise em extensão.

Assim, Rouanet tem de certo modo razão: durante muito tempo o grosso da produção teórica dos analistas girou em torno da clínica individual, mas tenho a impressão que já há um certo tempo, conseguimos ultrapassar uma certa visão ingênua que reduziria a psicanálise ao estudo do desenvolvimento normal e patológico do indivíduo, deixando às outras ciências humanas o estudo de tudo aquilo que diria respeito ao coletivo, até porque, quer queiramos quer não, somos interpelados pelos acontecimentos, obrigados a refletir sobre a violência, a guerra, o terrorismo ou a segregação, já que são sinais de um mal-estar na civilização cujos efeitos o analista acolhe em seu consultório sob a forma de sintoma.

Vocês nos perguntam se a última palavra ainda pertenceria a Freud. De certo modo sim, pois como acabo de dizer foi ele que nos indicou o caminho, mas não podemos esquecer o que a psicanálise deve a Lacan nesse sentido.

Freud morreu antes de Auschwitz e Hiroshima, não chegou a conhecer o pior. Auschwitz foi um acontecimento maior individual e coletivo, posterior à metapsicologia freudiana, que marcou o desmoronamento da civilização ocidental em sua função de defesa do indivíduo contra o reino da morte, desmoronamento esse que passou, a partir de então, a fazer parte da herança humana.

Coube a Lacan avançar nessa questão ao levar em consideração a subversão introduzida pelos campos de extermínio, chamando nossa atenção para o fato que o discurso da ciência reforça necessariamente a segregação e que o desenvolvimento tecnológico só poderia se dar em detrimento do sujeito. Essa percepção fez com que pudesse prever o agravamento dos processos de segregação, ao afirmar que o nazismo, longe de ser um acidente monstruoso, deveria ser visto como o precursor de um processo desencadeado pelo remanejamento dos grupos pela ciência.

É o que estamos assistindo, infelizmente. Dos conflitos que marcaram o século XX herdamos um ódio irredutível que não cessa de se repetir, e o terrorismo atual, fundamentado em reivindicações religiosas e identitárias de uma extrema violência, tem em comum com a experiência dos campos o fato de querer abolir a noção de humano, fazendo dele “outra coisa”.

Freud já havia chamado nossa atenção para o conflito existente entre religião e psicanálise. Lacan, com sua reavaliação do discurso da ciência, chamou nossa atenção para o fato de que no futuro o conflito não seria mais apenas entre psicanálise e religião e sim entre essas e a ciência. Segundo ele, se a religião viesse a triunfar, a psicanálise desapareceria, se triunfasse aliada à ciência, não haveria como evitar o pior. É o que temos presenciando em nossos dias, com a luta fundamentalista que parece assumir múltiplas formas e conhecer distintos graus de virulência, sempre em nome de Deus e de um Absoluto, num desprezo total da própria vida e da dos demais.

Voltando mais uma vez a questão que nos foi colocada, creio que foram os analistas, não necessariamente lacanianos, mas marcados por seu ensino, os primeiros a voltar a se interessar pelo social e político. Afinal não podemos nos esquecer do aforismo lacaniano de que o inconsciente é o social. A produção francesa nesse sentido é grande. Aqui no Brasil prefiro não citar nomes, com medo de cometer alguma injustiça e me esquecer de alguém, mas instituições como a APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre), a Escola Brasileira de Psicanálise, os Foruns do Campo Lacaniano e o próprio Sedes tem incentivado essas discussões, como podemos constatar em publicações recentes e, last but not least, neste, número da Percurso no qual fomos convocados a nos posicionar a esse respeito.

MÁRIO PABLO FUKS:
A idéia de Sérgio Rouanet, de que, apesar da ampla produção teórica da psicanálise contemporânea, são poucos os trabalhos psicanalíticos voltados à compreensão dos fenômenos sócio- políticos e do mal-estar na cultura de nossos tempos, é no mínimo surpreendente no que se refere ao movimento psicanalítico na América Latina. Surpreende sobretudo por ser Rouanet não somente um conhecedor destacado da psicanálise, mas também um intelectual latino- americano. Se, por um lado, a afirmação reforça o chamado realizado por René Major na convocatória à constituição dos Estados Gerais no final dos anos 1990, chama a atenção que não mencione a quantidade de trabalhos sobre esses temas que foram apresentados tanto no encontro de 2003, no Rio de Janeiro [1], como no de Paris, em 2000, e nos três encontros latino-americanos realizados sucessivamente em São Paulo e Buenos Aires.

A partir dos anos 1970, muitos analistas da América Latina questionaram a profissionalização, a crítica presente em suas instituições e sua omissão em questões sociais e políticas, conduzindo a rupturas e reposicionamentos. [2] Esse movimento ganhou visibilidade na Argentina e Uruguai e, num segundo tempo, no Brasil. Foi a partir desse momento que os escritos de Freud sobre sociedade e cultura começaram a sair verdadeiramente de seu reduto nas estantes, e ganharam potência nova como instrumentos de análise da realidade social e política em suas dimensões individuais e coletivas. Resgatou-se uma perspectiva do social como totalidade e da história como processo, explorando suas afinidades com as concepções marxistas e apostando na contribuição da psicanálise para uma teoria da ideologia. Podemos destacar, nessa perspectiva, os trabalhos J. Bleger, M. Langer, L. Rozitchner e de outros analistas dos grupos Plataforma e Documento. Também houve trabalhos sobre ideologia na linha lacaniano-althusseriana.

No longo período de governos militares, os analistas tiveram a experiência da violência ditatorial e do terrorismo de estado, a cultura do medo e o exílio externo e interno e, quando puderam, escreveram sobre isso. Exploraram em todas as suas dimensões as relações dos sujeitos com o poder, a alienação, o desamparo e a crueldade presente nessas situações sociais de alto impacto traumático, mas aplicáveis também a outros contextos. M. Viñar, J. Freire Costa, Gilou García Reinoso e Hélio Pellegrino [3], entre outros, demonstraram como a perda de vínculos, a deterioração e a quebra do sistema de ideais, bem como o fim de projetos coletivos, impõem uma subjetividade fragilizada, quadros de verdadeira “demolição” da identidade e uma cultura de violência e medo, entre outros efeitos. Essa linha de trabalhos apresenta uma evidente continuidade do espírito da intervenção e combate no campo político, cultural e social que caracterizou o trabalho de Freud. Há neles um empenho forte e determinado em incluir a dimensão clínica, construir elementos conceituais que re-signifiquem e ampliem, ao mesmo tempo, a totalidade do campo psicanalítico. A edição 7 de Percurso (1991), dedicada à questão da violência, mostra uma série de trabalhos de autores brasileiros e argentinos que se inscrevem nesse perfil. No final desse período, ainda, surgiram alguns trabalhos de fôlego que permitem uma apreensão histórica e panorâmica do pensamento psicanalítico sobre a sociedade e a cultura, como os de os de R. Mezan e J. Birman, no Brasil, e E. Galende na Argentina.

Em relação ao tema da “cultura de guerra”, o trabalho de Hanna Segal “O silêncio é o crime verdadeiro” (Imago, 1985) ocupa um lugar muito especial, por sua aguçada análise, utilizando conceitos freudianos e kleinianos, das ilusões narcisistas, onipotentes e mortíferas, e dos mecanismos inconscientes arcaicos que entram em jogo nas situações bélicas contemporâneas. Acompanhando-se de profusa documentação, demonstra sua presença nos discursos e práticas vigentes nas cúpulas governamentais e militares, tanto na intervenção no Vietnã como nos preparativos para o confronto nuclear durante a Guerra Fria. Essas informações e análises permitem antever, já desde o período Reagan, os traços característicos e a importância numérica dos grupos de extrema direita e ideologia religiosa fundamentalista que ganharam poder e notoriedade no governo Bush. O título do trabalho aludia também ao silêncio da comunidade analítica, em sua maioria fora da Alemanha, “quando o fenômeno nazi nos olhou diretamente na cara”. O livro de Ch. Katz sobre Psicanálise e nazismo aporta muitos elementos para o conhecimento e a elaboração dessa última questão.

Nos últimos anos, a produção teórica tem recaído, em sua maior parte, sobre os estudos a respeito de subjetividade e contemporaneidade. Em muitos trabalhos, as chamadas patologias contemporâneas são tomadas como sintoma analisador das macroestruturas sociais dominantes. É raro hoje em dia encontrar algum trabalho psicanalítico sobre patologias contemporâneas que não lance mão do conceito de “sintoma social”, e que não parta do conceito freudiano de mal-estar para estabelecer relações entre câmbios sociais, configuração cultural e sofrimento psíquico. [4]

Freqüentemente, a ênfase é colocada sobre os efeitos da globalização neoliberal, aprofundando a destruição traumática de laços e referências simbólicas – anteriormente apontados – e promovendo uma individualidade narcísica adicta ao consumo, à exaltação egóica do espetáculo e ao fetichismo tecnológico como mecanismo de recusa do sofrimento. [5] Tem sido destacado o papel ideológico e a profunda incidência na vida das pessoas do avanço estratégico do biopoder.

Apagadas as marcas identitárias, esvaída a temporalidade e a elaboração historizante, perturbados ou bloqueados os processos intersubjetivos de reconhecimento e reciprocidade, a alteridade tende a eclipsar-se comprometendo o sentido de realidade e de existência. Algumas das conseqüências são a exacerbação da intolerância em relação às diferenças, o agrupamento massificante entre idênticos, a adesão a certezas dogmáticas e maniqueístas e a agressividade dos confrontos especulares, que podem corresponder à ativação de um laço e mecanismo paranóico de escoamento da tensão narcísica e à obtenção de um sentimento de consistência ontológica. Esses traços podem ser reconhecidos como sintoma tanto no âmbito das formações coletivas e dos acontecimentos sociopolíticos, como em diversos quadros que se fazem presentes na clínica. Podem ser reconhecidos e explicados, com a condição de admitir e afirmar sua complexidade, sua historicidade e a necessidade de contar com outras referências, evitando assim as armadilhas do reducionismo.

Ocupar-se de questões clínicas ou micropolíticas não significa, assim, a elisão de um pensamento mais abrangente, macro-estrutural. Ao contrário, pode ser um caminho de aproximação ao pensamento sociológico e filosófico contemporâneo, que faz delas um objeto importante de reflexão. Nesse âmbito desenvolve-se também um debate que tenta superar os impasses do pós-modernismo, e que pode ter importância para reencontrar, na psicanálise e também nas práticas sociais e políticas contemporâneas, a dimensão utópica – “no bom sentido” – de que fala Rouanet.

No contexto do Departamento de Psicanálise do Sedes, o grupo de “Psicopatologia e Contemporaneidade” vêm trabalhando nesse tema há três anos, tendo elaborado materiais de circulação interna a partir de suas leituras e discussões. Está em estudo a maneira de levar a público seu trabalho.

A produção da psicanálise latino- americana de trabalhos voltados para o social e o político foi e continua sendo importante. Talvez o contraste entre essa produtividade e o aparente desconhecimento de que ela parece ser objeto, também coloca uma questão e um desafio para a psicanálise. Por que essa produção não se expande e ganha reconhecimento público maior? As resistências externas que foram extensamente analisadas por Rouanet na sua conferência desempenham sem dúvida um papel importante. Mas também operam as resistências interiores apontadas por ele, dentro do próprio movimento psicanalítico. Essas resistências estão distribuídas de forma desigual em toda a extensão do campo psicanalítico institucional, em função das opções assumidas, dos caminhos percorridos individual e coletivamente e dos projetos em que se envolveram. Há uma problemática derivada do duplo modo de existência da psicanálise: a de prática singular e privada, e aquela outra, em que a psicanálise se manifesta no domínio público por meio da teoria, de suas instituições e na relação com o social e com o político. [6] Essa duplicidade pode ser encarada de forma cindente e anuladora, ou ser processada de forma criativa e enriquecedora, seguindo o exemplo de Freud. Entretanto, a fragmentação dentro do próprio movimento por sectarismos de escola e disputas de mercado, as dificuldades para asumir sua historicidade e as tendências à retração e ao isolamento – mecanismos privilegiados de subjugação – podem fazer obstáculo não somente para a produção, mas também para seu reconhecimento quando ela se realiza, e vir a enfraquecer sua manifestação e sua presença no espaço público mais amplo e compartilhado.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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