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Resumo
Este trabalho discute o lugar do analista quando o sujeito que o procura em sua clínica está implicado à questão adolescente, que, por sua vez, não está imediatamente determinada pelo fenômeno da adolescência. Defende-se a idéia de que, frente à inquietação do sujeito adolescente, é necessária a disponibilidade do analista para se questionar acerca de sua posição na relação transferencial, o que fi ca ilustrado por uma situação clínica.


Palavras-chave
adolescência; lugar do analista; clínica; sujeito.


Autor(es)
Tiago Corbisier Matheus
é psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Graduado em Psicologia pela PUC/SP, em Filosofia pela USP e doutor em Psicologia Social pela PUC/SP. Exerce também a atividade docente na FGV e no CEP. É autor dos livros "Ideais na Adolescência: falta (d)e perspectivas na virada do século", publicado pela Annablume/FAPESP, em 2002 e "Adolescência: história e política do conceito na psicanálise", pela Casa do Psicólogo, em 2007.


Notas

1 O argumento deste artigo está indicado no livro Adolescência: história e política do conceito na psicanálise.

2 Numa perspectiva sociológica, ver o clássico S. N. Eisenstadt, De geração a geração; ver também C. Attias-Donfut, “Jeunesse et conjugaison des temps”, e F. Dubet, “De jeunesse et des sociologies”; numa perspectiva histórica, ver o estudo de N. Schindler, “Os tutores da desordem: rituais da cultura juvenil nos primórdios da era moderna”; em psicanálise, ver particularmente R. Ruffino, “Sobre o lugar da adolescência na Teoria do Sujeito”.



Referências bibliográficas

Attias-Donfut C. (1996). Jeunesse et conjugaison des temps. Sociologie et Sociétés, vol. xxviii, n. 1. Montreal: Presses de l’Université, p. 13-22.

Dubet F. (1996). De jeunesse et des sociologies. Sociologie et Sociétés, vol. xxviii, n. 1. Montreal: Presses de L’Université, p. 23-35.

Eisenstadt S. N. (1976). De geração a geração. Trad. S. P. O. Pomeranc­blum. São Paulo: Perspectiva.

Matheus T. C. (2007). Adolescência: história e política do conceito na psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Ruffino R. (1993). Sobre o lugar da adolescência na Teoria do Sujeito. In: Rappaport C. R. (org.) Adolescência – abordagem psicanalítica. São Paulo: epu, p. 25-58.

Schindler N. (1996). Os tutores da desordem: rituais da cultura juvenil nos primórdios da era moderna. In: Levi G.; Schmitt, J.-C. (org.) História dos jovens. Trad. C. Marcondes, N. Moulin, p. Neves. São Paulo: Companhia das Letras, v. 1, p. 265-324.





Abstract
This essay debates the analyst role, when the subject that goes to the clinic is involved with the adolescent issue, and not directly affected by the adolescence phenomenon. It defends the theory that due to the adolescent anxiety it is necessary for the analist to have availability to conduct an inquiry about his own position at the transference relationship, which is ilustrated by a clinic case.


Keywords
adolescence; the analyst role; clinic; subject.

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 TEXTO

O lugar do analista frente à inquietação adolescente [1]

The analyst confronted to the unrest of teenagers
Tiago Corbisier Matheus


Desde Freud, a psicanálise tem lembrado que a infância pode ser passageira, mas não o infantil, que persiste na fala de cada sujeito, apesar do esforço em favor de seu esquecimento. No entanto, quando se trata da adolescência, esta discriminação parece ainda insuficiente: adolescência é ora tomada como um período da vida cronologicamente estabelecido, uma passagem a ser realizada a fim de se alcançar a condição de adulto, ora como um conjunto de conflitos enfrentados pelo sujeito, que remontam à experiência edípica, no segundo momento da sexualidade humana, após o chamado período de latência. Atualmente, percebe-se, em muitos trabalhos sobre o tema, uma oscilação entre essas duas concepções, freqüentemente estabelecidas a partir do próprio texto freudiano como ocorrências mutuamente implicadas, fazendo crer que durante a segunda fase da sexualidade o confronto com conflitos ali vividos poderia ou mesmo deveria ser ultrapassado, como uma travessia a ser concluída, condição para a conquista da dita maturidade, seja ela qual for.

Porém, ainda que cada sujeito almeje conquistar alguma estabilidade frente às turbulências de sua condição pulsional – ideal certamente inatingível, pelo menos para aquele que pertence ao universo humano – seu vaguear errante mostra que se trata de uma travessia sempre inconclusa. É premente, então, ao tratar o tema da adolescência, discriminar o que diz respeito a uma fase da vida, que vem a configurar o fenômeno social da adolescência, da questão adolescente, que diz respeito ao sujeito do inconsciente.

Fruto de um processo histórico, a fase da vida é cronologicamente determinada (podendo ser antecipada ou postergada, conforme os determinantes de cada sujeito e de seu universo simbólico) e configura uma crise singular e necessária, condição para a conquista da condição de indivíduo, fundamento das sociedades contemporâ­neas, como prevê o ideário da modernidade. Desse prisma, aliás, vários trabalhos realizados numa perspectiva histórica e social têm colaborado significativamente com a discussão, mostrando as peculiaridades de um processo que veio ocupar o lugar dos rituais de passagem das sociedades tradicionais ou sem tradição escrita, quando estes deixaram de cumprir a função de regrar a entrada no mundo adulto [2]. Neste sentido, a chamada crise de identidade – noção que se difundiu na contemporaneidade, quando se trata de caracterizar a adolescência – mostrou ser fruto de um processo de reificação de um conceito: um construto teórico passa a fazer parte da realidade social vigente, na medida em que os sujeitos se identificam com esse significante e se organizam a partir dele. Foi assim que a crise de identidade passou a funcionar, paradoxalmente, como um ritual a ser vivido pelo adolescente, singularmente, a fim de poder conquistar o estatuto de indivíduo e ser reconhecido como semelhante na contemporaneidade, sobretudo aquela marcada pelo cenário urbano mais e mais afetado pelo fenômeno da globalização.

Isto porque, em tal contexto, o pretenso igualitarismo cultuado pela imagem de cidadão do mundo é apenas a fachada da experiência de anonimato que cada sujeito experimenta nas sociedades capitalistas contemporâneas, estruturadas como estão em torno do exercício do consumo. O anseio adolescente por ser reconhecido como um indivíduo semelhante aos demais, nesse universo, implica defrontar-se com as incongruências e fissuras do tecido social em que se encontra. Se a crise é singular, deve-se mais ao anonimato do cenário contemporâneo – utilitarista como é em sua funcionalidade econômica –, no qual não há mais lugar para a cumplicidade necessária aos chamados rituais de passagem, do que a um desenvolvimento orgânico do inquieto corpo adolescente.

A questão adolescente, por sua vez, ainda que possa acompanhar o fenômeno da adolescência, não está circunscrita a uma fase da vida, tendo em vista a diferença fundamental entre o sujeito do inconsciente e as múltiplas manifestações do fenômeno da adolescência. Remetida como está ao sujeito do inconsciente, a questão adolescente anuncia a estranheza que persiste para aquele que experimenta a posição de estrangeiro, na errância que vive a partir do descolamento de suas amarras anteriores e segue em busca de um pertencimento nunca plenamente alcançado. A questão adolescente é aquela que norteia o segundo momento da sexualidade, quando cada sujeito é provocado pelo olhar de um outro – um olhar inusitado, sem qualquer registro precedente – a lançar-se num abismo, em busca de um ideal de autonomia, a fim de se desprender do universo familiar que lhe dava suporte e delimitava seu raio de ação. O anseio por tal desprendimento o lança em direção a novos laços, em busca de posições outras nas quais não esteja reduzido à condição marginal de terceiro excluído. A questão adolescente, portanto, diz respeito ao lugar errante daquele que vive a vertigem do desprendimento de suas amarras, sem ter encontrado, ainda, ponto de ancoragem para suas pretensões pulsionais.

É deste lugar errante que o sujeito adolescente faz seu pedido de pertinência àqueles que sejam capazes de lhe oferecer alguma morada, algum reconhecimento como semelhante, sem o risco de aprisionamento na alienação narcísica – como é próprio à autoridade parental –, além de escutar seu discurso em seu potencial enunciativo. Porém, inevitavelmente, não há como responder plenamente a este pedido de pertinência, em função da incessante tensão que sustenta cada rede de relações sociais. Aliás, em se tratando do capitalismo contemporâneo, o movimento de exclusão e fragilização dos laços sociais torna mais agudo cada pedido de pertinência, bem como a possibilidade de ser correspondido. Todo pedido de pertinência se mantém, irremediavelmente, em maior ou menor medida, em suspenso, sem resposta, tendo em vista o caráter incondicional de todo desejo, bem como a dissonância inevitável de cada encontro humano. Logo, não há um ponto final para o processo adolescente, o que vem a manter vivo, em cada sujeito, um traço seu, responsável pela inquietação e pela inconformidade frente ao estabelecido, conforme sua condição estrangeira.

É, pois, em função do descompromisso de sua condição errante, que o sujeito adolescente é capaz de lançar luz sobre aquilo que os demais atores sociais freqüentemente tentam abafar, quando almejam garantir as conquistas que eles próprios, em sua busca de pertencimento, um dia vieram a alcançar. Logo, a irreverência adolescente é, concomitantemente, uma tentativa de produzir mudança num cenário que se mostra pouco permeável aos novos candidatos a membros em cada corpo social, mas é também um pedido de escuta, um pedido de reconhecimento de seu discurso, não apenas como portador de sentido, mas de um sentido que faça diferença, provocando novos arranjos simbólicos e fazendo reaparecer as tensões do instituído.

O analista, por sua vez, não está fora desse jogo, ele que carrega suas próprias barreiras e velamentos, bem como suas inquietações e irreverências, das quais depende para ocupar o lugar que sustenta seu exercício profissional. O lugar do analista depende da capacidade daquele que se dispõe a ali estar, de se deixar levar pela ilusão do outro, no jogo amoroso transferencial que realiza, ambivalente como é. Trata-se de, num determinado instante, fazer de conta, acreditando na verdade da mentira encenada, mas sempre com a certeza da condição solitária de cada um, seja em função da rebeldia de um desejo irascível, seja em função do pouco prestigioso desamparo que o anonimato cotidiano exige daquele que não alcançou seu minuto de fama, numa cultura regida pela lógica do espetáculo.

Há algo na função do analista que sugere o resgate de dispositivos promovidos na operação adolescente, conforme as marcas deixadas por este momento na estrutura do sujeito. Primeiramente, trata-se da disposição para o desprendimento das referências que antecedem cada um (adolescente e analista) – algo impossível e igualmente necessário, quando se tem em vista o mergulho que o analista é convocado a dar a partir da mentira sedutora do discurso transferencial. É a disposição para percorrer caminhos outros, aparentemente aleatórios, seguindo a dispersão necessária que Freud propõe para a exploração do campo associativo, na modalidade da atenção flutuante. Quanto ao adolescente contemporâneo, cabe ao analista a dúvida e a inquietação que este personagem carrega, na posição daquele que se apropria criticamente das questões que percorrem cada ordem social e suas instituições. Nesse sentido, o lugar do analista sugere o uso de alguma desconfiança, bem como uma dose de irreverência, a fim de abrir mão da segurança que o conforto dogmático apresenta, para sustentar o instante de suspensão necessário ao exercício da escuta. A partir do movimento de descolamento que o adolescente experimenta, o analista mantém viva sua própria insuficiência, permitindo ao outro constatar que cada um segue um caminho singular.

Do pedido paradoxal do adolescente por pertencer e, ao mesmo tempo, recusar o lugar que lhe é proposto – lugar sempre morto, na medida em que já está previamente estabelecido – o analista guarda o traço romântico da disposição para o trânsito cúmplice, bem como o descrédito inevitável do que lhe é oferecido na sedução transferencial. Tal descrédito, no entanto, não se dá propriamente por uma ambição narcísica – o que parece fazer parte da experiência adolescente – mas pela travessia que um dia realizou, em sua própria análise, que marca a diferença de posição frente àquele que o procura. É esta travessia que lhe permite lembrar que as perguntas e respostas que um e outro produzem, na situação analítica, são sempre frágeis e incompletas. Porém, em vez de aí ratear num pesar melancólico, cabe ao analista o desafio de perceber o sabor da errância.

Deste lugar, o analista se lança ao incerto exercício da escuta. A clínica – que não se restringe ao consultório – é sua morada, lugar a partir do qual opera uma escuta e escreve sua pesquisa.

Um fragmento de um caso em andamento se oferece como ilustração. Manoel, semanas após ter dito que vivera há pouco uma sutil mas significativa mudança em sua vida, a partir, segundo ele, de algo produzido junto ao trabalho da análise, falta a algumas sessões, dando poucas justificativas sobre suas ausências. Na sessão em que retorna, evita o divã e vai para a poltrona, dizendo que não queria mais encenações, lugares comuns ou respostas vagas para suas questões. Achava que ele próprio havia caído nesta armadilha e era preciso fazer algo diferente. Silêncios entrecortam sua fala, encadeados por olhares ondulantes que percorrem fortuitas paradas, entre as quais o meu olhar. Resolve falar sobre a aula de música em que seu exercício fora desqualificado pelo colega, segundo ele, num explícito desdém anunciado para o público dos demais músicos. Frente a tal afronta, Manoel buscou apoio entre os mais próximos, tentando comprovar a impressão que tivera há pouco, sem, contudo, ficar satisfeito com o retorno obtido. Resolve conversar com a coordenadora do curso, a fim de questionar a pertinência da própria proposta do exercício, quando se dá conta do exagero de seu movimento. Neste momento, notando seu movimento, interrompo a sessão.

Parecia evidente a articulação entre a ameaça narcísica que experimentara a partir da provocação do colega, sua tentativa de desforra ao arregimentar cúmplices ou mesmo convocar a instância de autoridade e a desconfiança trazida para a situação transferencial, levando-o a generalizar sua dúvida – “não quero mais encenação”, dissera. O momento era delicado, pois apontar o deslocamento para a situação de análise poderia ser recebido como desqualificação do sentido primeiro de seu discurso, deixando somente para ele a responsabilidade pelo falseamento da encenação. Entendi que era preciso sustentar a hipótese de que, de algum modo, houvesse alguma verdade a ser considerada em sua denúncia manifesta. Era preciso que eu também me questionasse sobre o manejo da direção da análise, que não me contentasse com encaminhamentos que se mostrassem mais tangíveis ou coerentes. Entendi ser preciso incluir minha dúvida acerca daquele trabalho e de minha participação em sua condução, a fim de permitir a ele que pudesse se haver com a sua implicação na questão que trazia. Ainda que não tenha dito algo sobre a dúvida que eu mesmo passara a considerar, parecia-me primordial mantê-la ali viva, como um lastro para o enquadre daquele trabalho.

Na sessão seguinte, Manoel retoma a poltrona e relata que continuava “emperrado” na mesma questão, que duvidava da possibilidade de realizar algo de valor na música, quando estudava, por exemplo, com alguém tão destacado como seu professor, considerado por ele próprio como “o melhor” em sua especialidade, “um gênio”, dizia. Vê-se num impasse entre as referências de destaque que tomava como modelo e a possibilidade de ser “apenas um virtuose”, situação em que teria, de algum modo, que estar “mais solto” e ser “ele mesmo”. Conta então de um momento em que seu pai havia lhe dito que era preciso “ser o melhor”, não importava qual ramo seguisse. Faço eco à expressão “ser o melhor”, de modo mais lento do que ele a havia enunciado. Pondera então que era uma forma de o pai incentivá-lo, juntamente a seu irmão, cúmplice do discurso idealizado do pai.

Após uma pausa, se indaga sobre qual nome usar em sua carreira profissional. Conta que pensara em usar somente o nome da mãe, mas seu irmão o alertara para o pesar que isso traria ao pai, fazendo-o reconsiderar a situação e passar a mencionar seus dois sobrenomes, que, porém, lhe traziam uma sensação de algo insosso, sem sonoridade. Era como se não tivesse um nome que fosse seu, no qual se reconhecesse. Comento então que, na equação que montara, as alternativas previam ora a genialidade, ora uma condição insossa, sem som ou nome próprio, com o que ele concorda e reafirma: “parece que eu estou aí, entre um e outro”.

A angústia de aniquilamento em meio a uma travessia entre o imperativo paterno – ser genial, o melhor – e o possível – adquirir um nome próprio, que não fosse apenas o nome de um personagem a ser representado, numa encenação forçada – se mostrou pungente. Por outro lado, era a sustentação da incerteza na travessia a ser realizada, acompanhada pela angústia que ali vagueava, que permitia ao sujeito se fazer presente. Não se tratava somente da incerteza do ponto de chegada do trabalho de análise, mas também da incerteza da travessia adolescente, para este sujeito, frente ao desafio de se descolar dos desígnios parentais e anunciar um nome que lhe seja próprio, um som no qual se reconheça.

Do lugar de escuta que ocupei (e ocupo), manter-me inquieto frente à minha própria posição foi a condição necessária para acompanhar aquele que precisava duvidar daquilo que lhe era apresentado como único caminho cabível. Foi preciso experimentar a dúvida, a fim de escapar da imobilização narcísica e criar espaço para o possível, a partir do qual errar por entre diferentes veredas era o caminho necessário para construir uma narrativa com voz própria.
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