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Resumo
Ao longo de seus cem anos, a psicanálise contribuiu largamente para ampliar a compreensão do desenvolvimento psíquico humano e conquistou um lugar de singular importância na análise da subjetividade moderna. Muitos conhecimentos e preceitos psicanalíticos encontram-se difundidos na cultura atual. Reconhecida e utilizada prioritariamente como um procedimento terapêutico peculiar, parece não haver um consenso em torno do uso de sua particular escuta aos novos discursos produzidos pela cultura ou suas conseqüências para as subjetividades contemporâneas. Há os que defendem que a psicanálise deve se dedicar exclusivamente aos problemas do divã ou os que conferem a ela um lugar especial para revelar a signifi cação dos fatos sociais. A sessão Debates deste número da Revista Percurso selecionou alguns colegas e propôs que refl etissem e escrevessem sobre a seguinte questão: A partir de sua experiência, como você analisa o campo de atuação da psicanálise na cultura contemporânea?


Autor(es)
Ana Elizabeth Cavalcanti
é membro do Círculo Psicanalítico de Pernambuco e psicanalista e professora do CPPL- Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem de Recife. Autora, entre outros de “Autismo: construção e desconstrução" ( em co-autoria com Paulina Rocha) e "Reflexões sobre a Instituição Psicanalítica na contemporaneidade".

Daniel Delouya
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do do Instituto Sedes Sapientiae e da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Professor no programa de pós-graduação em psicologia na Universidade São Marcos em São Paulo. Autor de Torções na razão freudiana. Especificidades e afinidades, Unimarco, São Paulo, 2005, entre outros livros e artigos em revistas especializadas.


Pedro Luiz Ribeiro de Santi
é psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Mestre em Filosofia pela USP. Autor de “A crítica ao eu na Modernidade. Em Montaigne e Freud” (Casa do Psicólogo, 2003) e Psicologia. Uma nova introdução (em co-autoria com Luis Cláudio Figueiredo; EDUC, 1997), entre outros.


Notas

1 O CPPL é uma instituição fundada em 1982 em Recife. Desenvolve desde então uma clínica institucional psicanalítica com crianças e adolescentes com Transtornos Globais no Desenvolvimento, além de atividades de ensino e assessoria à gestão institucional.

2 Novas conferências de introdução à psicanálise (1932), Conferência xxxiv, “Esclarecimentos, aplicações, orientações”, gw, xv, 169; bn 3190.


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 DEBATE

Entre o divã e a cultura

Between the couch and culture
Ana Elizabeth Cavalcanti
Daniel Delouya
Pedro Luiz Ribeiro de Santi


Ao longo de seus cem anos, a psicanálise contribuiu largamente para ampliar a compreensão do desenvolvimento psíquico humano e conquistou um lugar de singular importância na análise da subjetividade moderna. Muitos conhecimentos e preceitos psicanalíticos encontram-se difundidos na cultura atual. Reconhecida e utilizada prioritariamente como um procedimento terapêutico peculiar, parece não haver um consenso em torno do uso de sua particular escuta aos novos discursos produzidos pela cultura ou suas conseqüências para as subjetividades contemporâneas. Há os que defendem que a psicanálise deve se dedicar exclusivamente aos problemas do divã ou os que conferem a ela um lugar especial para revelar a significação dos fatos sociais. A sessão Debates deste número da Revista Percurso selecionou alguns colegas e propôs que refletissem e escrevessem sobre a seguinte questão:

A partir de sua experiência, como você analisa o campo de atuação da psicanálise na cultura contemporânea?


ANA ELIZABETH CAVALCANTI
O uso da psicanálise em extensão: uma questão política.

O uso da psicanálise em extensão é uma questão controvertida entre os psicanalistas. Alguns defendem o uso, tanto de seus construtos teóricos como de seus dispositivos clínicos, em situações que extrapolam o enquadre clássico do consultório. Para outros, ao contrário, o seu uso deve ser restrito à situação clínica, tal qual foi pensada e construída por Freud.

O texto freudiano nos acena com as duas possibilidades. O Freud que utilizou a psicanálise para refletir sobre o seu tempo e a cultura foi o mesmo que, quando de sua viagem aos Estados Unidos em 1909, reagiu fortemente à idéia do psiquiatra T. Burrow de utilizar o dispositivo analítico em um grupo de doentes. Mais tarde, em 1919, em suas Conferências Introdutórias à Psicanálise, reafirmaria sua posição de que a psicanálise só poderia ser praticada na forma de tratamento individual, excluindo qualquer outro dispositivo.

Particularmente, compartilho com a idéia de que a psicanálise pode e deve ser utilizada de forma extensiva, tanto como ferramenta teórica para iluminar e ajudar a compreender os acontecimentos culturais do nosso tempo, quanto como dispositivo clínico destinado a acolher o sofrimento psíquico em suas diversas manifestações.

Nesses tempos em que ganha força cultural uma visão biologizante do homem que tenta reduzir a experiência humana ao funcionamento de neurônios e processos químicos; em que a singularidade é solapada pela generalização e universalidade simplista dos diagnósticos da moda (depressão, síndrome de pânico, TOC, TDAH….); em que um ideal de normalização produz a figura do homem previsível e comportado em detrimento do homem da ação, livre e imprevisível, a psicanálise, como diz Elizabeth Roudinesco, parece uma vitória da civilização contra a barbárie. A psicanálise afirma a idéia de que o homem é livre e se singulariza pelo seu discurso e pelas suas ações, contrariando a idéia da biologia como destino. Aí reside, a meu ver, a atualidade da psicanálise e é aí que ela se inscreve no campo dos saberes como um discurso subversivo de resistência ao apagamento da subjetividade, à vitória da massificação sobre a singularidade, da norma sobre a liberdade, enfim, do cientificismo sobre a ética.

Nessa perspectiva, o uso extensivo da psicanálise, longe de ser apenas uma questão clínica, torna-se uma questão política. E, nesse sentido, tem razão, a meu ver, o filósofo Jacques Derrida, quando se indaga se, para manter viva essa virtude subversiva de Freud no contexto da cultura contemporânea, a urgência atual da psicanálise não seria carregá-la para campos onde até agora ela não esteve presente nem ativa. E nesses campos o que realmente importa não é a defesa do aparelho conceitual nem a fidelidade à metapsicologia freudiana. A verdadeira contribuição da psicanálise nesses campos é possibilitar a reedição da experiência freudiana de colocar em questão o instituído e criar narrativas que permitam positivar os mais diversos modos de existência. Foi esse o espírito que orientou Freud em suas pesquisas e, se hoje a psicanálise perdeu um tanto de seu vigor subversivo, cabe a nós, psicanalistas, encontrar, tanto no campo psicanalítico – no pensamento freudiano e de seus sucessores – como fora dele – em pensadores que o iluminem e o revigorem – formulações que lhe devolvam sua feição subversiva, conferindo-lhe uma atualidade e disponibilizando-a como uma boa ferramenta para compreender e acolher o sofrimento humano em sua diversidade e indeterminação radical.

Hoje, felizmente, numa demonstração de que a força da palavra do fundador não foi suficiente para impedir o uso da psicanálise em diversos contextos, podemos encontrar inúmeras experiências, sobretudo institucionais, cujos dispositivos clínicos são psicanalíticos, embora pouco tenham a ver com o enquadramento clássico. Nelas, a valorização da palavra e de sua força criadora, o lugar privilegiado das histórias singulares de seus atores, a aposta na polissemia de sentidos da experiência e nas infinitas formas de existência humana revelam-se como alguns dos efeitos da incidência decisiva da psicanálise em âmbitos diversos. É nesse contexto que se insere a experiência do CPPL [1] com o tratamento psicanalítico de crianças com Transtorno Global do Desenvolvimento – os autistas, como os denominávamos na época – cujo início remonta à década de 1980.

Desde o início éramos orientados pela idéia de que o enquadramento clássico psicanalítico não dava conta da complexidade e gravidade desses transtornos. Ficava cada vez mais clara a necessidade de uma abordagem interdisciplinar que possibilitasse olhar as crianças sob a perspectiva de diversos saberes. Impulsionados também pela complexidade dessa clínica, compreendíamos que era preciso construir um espaço terapêutico institucional que oferecesse o suporte para a experiência analítica.

Estabelecemos, então, o enquadramento institucional, constituído pelo conjunto de acordos estabelecidos entre os pares institucionais. Uma vez estabelecidos, esses acordos funcionavam como uma lei à qual estávamos todos submetidos, independentemente da formação ou função que exercíamos na instituição. O enquadramento delimitava um espaço onde era possível viver a experiência analítica, fomentando a transferência e sua análise, tanto dos terapeutas com as crianças como dos terapeutas entre si. O enquadramento, na qualidade de suporte da rede transferencial que ali se tecia, construía o espaço analítico institucional, condição para a emergência do desejo e sua expressão através da palavra.

Foi assim que, após alguns anos de trabalho, pudemos encontrar novas narrativas para redescrever os autistas, tratados até então, inclusive pelos psicanalistas, como seres sem subjetividade cujos modos de existência eram narrados sempre pela negativa: não falam, não se comunicam, não estabelecem contatos afetivos etc. Foi sem dúvida a experiência analítica que, possibilitando escutar essas crianças em suas radicais diferenças, nos permitiu afirmar suas subjetividades e positivar seus singularíssimos modos de existência.

É nesse sentido que entendemos a reedição da experiência freudiana. Afirmar a subjetividade das crianças autistas, restituindo-lhes a condição de sujeitos singulares, inseridos no campo da linguagem, tem estreita ligação com o que Freud fez com as histéricas, ao deslocar seus sintomas do campo do biológico para o campo do sentido, dando-lhes voz e positivando seus modos de existência. A nossa experiência corrobora uma visão da condição humana inaugurada por Freud, centrada na singularidade que se revela pelo discurso e pelo desejo. Se isso acontece na esfera da experiência analítica clássica do consultório ou no âmbito de outras experiências, a meu ver, não importa. O que importa de fato é que nós psicanalistas não abramos mão do lugar de resistência que nos cabe ocupar, num momento em que o que está em jogo é a própria visão da condição humana.


DANIEL DELOUYA

Se os “problemas do divã” fossem desvinculados da cultura e do mundo social, o referido divã não seria mais o do tratamento psicanalítico, mas de um outro onde se aplicam, quem sabe, luzes ou coisas de gênero, disponíveis, talvez, entre os apetrechos high-tech atuais. O fenômeno do encontro analítico, em oposição às análises laboratoriais de nosso sangue ou tecidos orgânicos – essas sim alheias ao regime cultural de nossa vida –, evidencia este fato: o que e com que se busca e se realiza a análise senão pelas vias sofridas da inserção do paciente junto aos outros, mais ou menos próximos, e em contextos diversos do seu universo social? E qual seria a visada e o exercício do analista senão dentro da metapsicologia cuja “shiboleth” (espiga, metáfora bíblica, da qual Freud se utiliza, para o fulcro do pensamento) é o Édipo, inserção do sujeito em cultura? Freud explorou, abundantemente, as conseqüências desta concepção nesses trajetos de mão dupla entre a vida psíquica e as produções primitivas, clássicas e modernas do homem, dialogando com a literatura, a poesia, a escultura, a pintura, a religião, a sociologia, a antropologia, a história e a política.

Tenho certeza de que os colegas, coordenadores do debate, compartilham, integralmente, as colocações acima. Portanto, a separação, à qual se referem, entre a sala de análise e a ocupação do analista no palco social deve se reportar a um outro aspecto, algo que acredito estar contido na palavra “contemporânea”, a atualidade. A psicanálise corre o perigo, segundo esse pressuposto, de não se atualizar: “o mundo avança e nós ficamos para trás… por isso a clientela nos abandona… vide a situação nos consultórios… é preciso vir ao encontro de…”. Citação fictícia que suspeito resume o desconforto de muitos colegas como se pairasse, hoje, uma verdadeira ameaça de aniquilamento da psicanálise. O incentivo para “re-atualizar” a psicanálise e ampliar o campo de atuação do analista se deve, ao meu ver, à preocupação com o nosso respaldo clínico na sociedade. O que lembra um temor parecido na comunidade psicanalítica durante e no final do terrível e sombrio período da primeira guerra mundial. A urgência nos pedidos de re-atualização e reforma, ecoando em vozes, como as de Ferenczi e Rank, gênios efervescentes da psicanálise daquele período, é logo retrucada – e contundentemente – por Freud já no primeiro congresso pós-guerra sob um título que vale citar: Novas perspectivas da terapia psicanalítica. Não seria o caso de adentrar a trama e o drama da então conjuntura, mas apenas evocá-los como ecos à agonia escondida por detrás dos grunhidos emergindo das fileiras da comunidade psicanalítica e que demandam o nosso engajamento em meio ao discurso crítico da contemporaneidade. Citei acima a reação de Freud, em circunstâncias análogas, porém não semelhantes, para logo responder diretamente a pergunta que me foi dirigida pela Percurso. Penso que o analista é impelido, pelo caráter inerente da psicanálise, a atuar na cultura –entendida, aqui, no sentido extenso, da clínica e, como Freud, em outros espaços da cultura – sob a condição de prover sentidos e significações junto à sociedade, a partir de e desde uma posição singular, regressiva, depurada no espaço analítico, que visa e acessa “a outra cena” da experiência humana. O modo inabitual de pensar da psicanálise, a única em que se pode contribuir no palco cultural, está neste respeito, nessa atenção ao que se transfere, se dispõe na transferência, o infantil, pela via alucinatória de realização pulsional. Repito, o respeito ao infantil recalcado e sua movimentação pela força anímica da pulsão.

O cultural é criado junto, mas, e ao mesmo tempo, em oposição a este desvelamento, como evidenciam as barreiras do nojo, repúdio e vergonha do período da latência, em que o jovem está prestes a adentrar o universo social. O cultural toma partido, em sua construção, da tendência negativa silenciosa, da negatividade encerrada na vida psíquica. A psicanálise é uma das artes de luta contra algumas dessas derivadas operações negativas (do recalcamento, da recusa e da rejeição) que desrespeitam o infantil e seu motor de origem, a pulsão. Tal desrespeito, e crescente, ao recalcado e à satisfação pulsional, exercida pela cultura em sua exigência sublimatória, é vingada pela pulsão, transbordando os limites da manutenção do eu do sujeito. O que, portanto, acarreta a exposição do sujeito a carências substanciais de origem e que podem levá-lo ao colapso, ou à eclosão de doenças psicossomáticas, assim como de mal-estar, do masoquismo moral e sua face reversa em formas agressivas de atuação, na adição e outras desordens no palco social. É verdade que essas conseqüências da vida em cultura, tal como o aumento de desordem, explodindo no interior do projeto cujo objetivo era aperfeiçoar e intensificar as ordens, vêm sendo notadas (como na obra de Bauman) pelos críticos da contemporaneidade. Não obstante, vários psicanalistas sentem que é insuficiente apenas analisar e interpretar a partir da nossa posição “clássica”; preferem se precipitar e se filiar à crítica contemporânea, pois esta abriga sempre uma promessa em seu próprio ato acusatório de responsabilizar a cultura pela maldade, por fazer a coisa errada. Posição implicando solução: “é preciso fazer alguma coisa”. O que, no meu entender, acelera a tendência dos agentes “conscientes” e esclarecidos da cultura a encontrar ações dentro de uma religiosidade secular que acredita “resolver” o desamparo, inventando messias, em nome dos quais se perpetuam as ações alienantes. Nessa perspectiva, abole-se o respeito ao conflito e a aceitação do desamparo, elucidado na segunda tópica freudiana. Os messias da psicanálise vêm empreendendo – aliados a essa corrente que desistiu de nossa tarefa mais árdua de apenas assumir nossa posição de analisar – um discurso sociológico da clínica e sócio-etiológico da psicopatologia, dita “contemporânea”.

Penso que a psicanálise deve sempre se ater a – e atentar para – uma cena diversa daquela da vigília do palco cultural. Como ética, a psicanálise deve, em sua técnica, caminhar, e o quanto for possível, na contramão da cultura, que sempre privilegiará negar o recalcado e o desamparo. A nós cabe analisar, este é o curativo, e deixar – posição de imenso desafio – a cura, a solução, para o “deus”, como diz Freud muito cedo, citando um sábio médico cujo espírito contrastava com o da atual medicina e do pensamento engajado da contemporaneidade, de tudo acreditar poder dominar e solucionar.


PEDRO LUIZ RIBEIRO DE SANTI
“Eu disse a vocês que a psicanálise começou como uma terapia; mas não é em qualidade de terapia que eu gostaria de recomendá-la a seu interesse, mas por seu conteúdo de verdade, pelos esclarecimentos que nos proporciona sobre aquilo que mais interessa ao Homem, seu próprio ser, e pelas relações que descobre entre suas mais diversas atividades.” [S. Freud]. [2]

Boa parte da tradição psicanalítica identifica a alteridade como uma dimensão clínica e teórica fundamental. As figuras da alteridade são variadas: o sintoma é um estranho ao eu; o inconsciente foi a primeira formulação teórica de Freud sobre a alteridade que nos habita e, talvez, a pulsão de morte, seu limite. É claro, outras figuras da alteridade ao psíquico se impõem: o corpo, a outra pessoa, o “mundo externo”.

Possuindo a alteridade esta dimensão teórica e clínica, como poderia um psicanalista se encastelar narcisicamente em seu universo e reduzir seu interesse pela experiência humana à clínica?

Como diz o enunciado do qual parte a questão inicial, desde sua origem, a psicanálise existe para além da clínica. Ela é ao mesmo tempo para nós, psicanalistas, sua principal fonte e sentido. Estar sensível ao que esteja para além da clínica não ameaça a nossa identidade e a especificidade da contribuição que oferecemos à compreensão do Homem. Talvez, pelo contrário, seja mais nocivo ao pensamento e avanço psicanalíticos o risco que corremos de ficar fechados no próprio consultório, atendendo predominantemente futuros psicanalistas.

Ainda com relação ao enunciado inicial proposto, é curiosa a expressão “se dedicar aos problemas do divã”, uma vez que, desde os primeiros seguidores de Freud, a clínica psicanalítica expandiu-se do campo da neurose e do divã para campos de atendimento distintos e para formas de sofrimento diversas, assim como para ambientes institucionais nos quais é convocada a intervir. Não se atende em divã crianças, psicóticos em surto, pacientes em enfermarias hospitalares, constituições psíquicas frágeis que sucumbiriam à angústia com a perda do contato visual com o analista etc. É do interior do próprio campo clínico que a psicanálise pôde também transcender ao divã.

Fazendo borda com o campo da clínica psicanalítica, temos o educador, o filósofo, o fonoaudiólogo, o médico, o historiador, o acompanhante terapêutico etc. E um pouco mais para além, o advogado, o artista, o político. Trata-se de esferas mais amplas que se podem traçar a partir do ponto central do “divã”.

No Brasil, assistimos a um boom da psicanálise nos anos 1980. De um período em que a psicanálise era relativamente restrita ao ambiente da Sociedade de Psicanálise, passamos a conviver com sua ampla difusão, assim como com seu debate com o campo da filosofia ou de fenômenos políticos e sociais. Desde então, habituamo-nos a ler em grandes meios de comunicação artigos de psicanalistas tratando de questões sociais contemporâneas: Renato Mezan, Contardo Calligaris e Jurandir Freire Costa são nomes de referência. Do último, remeto o leitor em especial a O vestígio e a aura. Corpo e consumismo na moral do espetáculo. (Rio de Janeiro: Garamond, 2004); essa obra é um excelente exemplo da pertinência do uso da psicanálise na compreensão do mundo social e político contemporâneo.

Os caminhos abertos por Freud no campo da cultura são bastante conhecidos e reconhecidos. Mas podemos observar que as transformações pelas quais passou o mundo desde suas últimas palavras a respeito, no monumental O mal-estar na civilização, talvez tenham tornado suas posições ultrapassadas.

A repressão ao sexual persiste, mas vivemos situações de maior exterioridade e fragilidade psíquica do que aquelas analisadas por Freud; sofremos mais por vergonha que por culpa. A vergonha diz respeito a ser pego em flagrante ao realizarmos algo que sabemos ser errado, mas a que nos permitimos; a culpa é aquele monstro interno que nos acompanha onde quer que estejamos sem um olhar externo sobre nós. Pois então, o grande algoz de O mal-estar… parece hoje estar “fora de moda”. A culpa dizia respeito a um mundo no qual as pessoas abrigavam uma interioridade consistente; num mundo mais superficial e invasivo como o contemporâneo, recursos psíquicos distintos são mobilizados, resultando num mundo interno que se empobrece e num psiquismo que se mantém mais escorado na exterioridade.

Assim, podemos dizer que algumas das análises culturais de Freud já não se aplicam ao Homem contemporâneo, mas podemos igualmente evocar instrumentos teóricos criados pelo próprio Freud amplamente evocados como instrumentos de reflexão sobre a subjetividade contemporânea: narcisismo, trauma e dissociação são alguns deles.

No curso de Especialização em Teoria Psicanalítica da COGEAE PUC-SP, do qual sou professor, cerca de metade dos alunos não são psicólogos e não pretendem se tornar psicanalistas. Em sua maior parte, eles já têm sua atividade profissional, mas percebem que há algo na escuta analítica e na concepção de Homem da psicanálise que pode lhes ser fundamental em suas atividades. Acreditamos que tanto aqueles alunos têm um ganho importante ao conhecer a obra de Freud, quanto que nós nos alimentamos e respiramos com o contato com realidades distintas daquelas com as quais convivemos cotidianamente em nossos consultórios.

Uma aluna, por exemplo, é juíza e trabalha num Tribunal de Pequenas Causas. Ela percebe que as partes em litígio costumam estar mais interessadas em reparações morais e em poderem narrar a história de seu prejuízo do que em resolver uma causa objetiva. Outra aluna é ginecologista e depara com situações inusitadas como a de uma paciente que, estando em dificuldades para fazer o desmame de seu filho, pede à médica que interrompa quimicamente a produção de seu leite; ou como a de encontrar um casal com um filho e ouvir os pais dizerem: “foi essa mulher que pôs você no mundo”. Por fim, um aluno é bailarino e procura compreender a dimensão erógena e representativa do corpo enquanto dança. Tudo isso é muito rico e provocativo à nossa escuta. E aqueles profissionais buscam uma condição melhor de entender e escutar as demandas com que trabalham, através da psicanálise.

Sou também professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing. Esta experiência pode soar ainda mais estranha e, mesmo, anti-é­ti­ca. Mas o que é evidente é que o consumo é uma dimensão fundamental de nossa experiência contemporânea e a psicanálise tem muito a colaborar na compreensão desse fenômeno. Uma análise crítica do consumo pode nos mostrar o quanto recorremos a ele para ligar e buscar descarregar tensões internas primárias; o quanto buscamos encontrar através dele nossos ideais identitários e de completude. E, o que é mais importante, o quanto a cultura contemporânea nos excita e provoca mecanismos compulsivos tão semelhantes àqueles que estudamos em psicanálise, a respeito dos vícios e das perversões.


Para concluir: uma discussão sobre se nós psicanalistas concordamos com o uso da psicanálise para a compreensão de fenômenos para além da clínica é, de fato, ociosa. Isso simplesmente já ocorre e é coerente com a própria natureza da psicanálise. Cito outra passagem de Freud: “[…] eu disse com freqüência que considero mais importante a transcendência científica da análise que a médica e que, como tratamento, considero mais efetiva a ação sobre as massas por meio do esclarecimento e da revelação dos erros que a cura de pessoas ilhadas.” [Sigmund Freud/ Oskar Pfister. Correspondencia (1909-1939), p. 115. México: Fondo de Cultura Economica, 1966].

A psicanálise traz uma contribuição preciosíssima ao abordar o campo da realidade psíquica, das significações, conflitos, traumas e afetos da experiência humana. Nesse sentido, ela é maior do que o conjunto dos psicanalistas. A psicanálise definitivamente também é Cultura.

Quanto a nós, temos o privilégio de habitar o espaço clínico no qual aquela dimensão humana se evidencia de forma dolorosa, bela e profunda.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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