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Resumo
Resenha de Rubia Delorenzo, Neurose obsessiva, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2007, 162 p.


Autor(es)
Renata Udler Cromberg
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanalise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora pelo Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professora dos cursos de especialização de Psicopatologia e Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Teoria Psicanalítica da Pontifíca Universidade Católica de São Paulo. Autora dos livros Cena Incestuosa e Paranóia, da coleção Clínica Psicanlítica da Editora Casa do Psicólogo.


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 LEITURA

O romance da neurose obsessiva

[Neurose obsessiva]


Obsessional neurosis
Renata Udler Cromberg


Resenha de Rubia Delorenzo, Neurose obsessiva, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2007, 162 p.

O extraordinário estilo da escritora e psicanalista Rubia Delorenzo compõe o seu livro em um gênero insólito na literatura psicanalítica: o romance da neurose obsessiva. Explico-me. Se à maneira freudiana podemos pensar a histeria e suas preocupações acerca do amor como mais ligadas à forma romance, a neurose obsessiva e suas cavilações reflexivas em torno do ódio e da morte se assemelhariam à forma do tratado religioso ou do gênero de suspense. Mas é uma mulher a inventar o romance da neurose obsessiva conferindo a ele uma grande riqueza, já que sua forma mesma tenta quebrar com a ordem esterilizante e anti-erótica do mundo obsessivo, buscando constantes metaforizações ao deslocamento incessante que a viagem labiríntica do obsessivo traz. Se o menino-na-menina da mulher pode encontrar ecos e ressonâncias na travessia do obsessivo, é como mulher que a autora consegue a distância necessária para observar sem se deixar tragar, para entender sem aprisionar. Mulher “heteros” a acompanhar a tessitura do mapeamento de uma ordem homogeneizante e reasseguradora que mata toda brecha que denuncie alteridade. É assim que deixa entrever uma leitura minuciosa dos principais autores que trabalharam sobre o tema, mas que é digerida e transformada em matéria que segue o curso do seu próprio veio reflexivo. Nada de simples
ordenações didáticas e explicativas, mas de tornar o pensamento dos autores alimento combustível de sua própria narrativa apaixonada e apaixonante, não naquilo que a paixão tem de alienante, mas naquilo que ela tem do compromisso que o ser faz com o seu semelhante a partir de suas próprias vísceras. É ela mesma quem nos fala do solo em que brota a sua paixão pela escrita. “É pela experiência do excesso ou pela vivência do nada que escrevemos. Quando nos encontramos no deserto, ou quando queimamos no inferno, quando já não podemos pensar, quando já não podemos dizer” (p. 87). Mas a escrita analítica tem ainda uma função de transmissão desordenada e não linear. Ela busca se aproximar daquilo que os efeitos da experiência da análise desalojam e modificam o analista. Os escritos “surgem das infiltrações da transferência, como testemunho e desejo de partilha do anseio de encontrar alguma possibilidade dentro do impossível da tarefa – sempre inconclusa – de psicanalisar” (p. 89). A impossível tarefa sendo a capacidade do analista de metaforizar o não verbal. “Escrevemos, talvez, na tentativa de transformar: dar figura ao desfigurado, soprar o inerte, agitá-lo, dar solo ao nômade” (p. 89). É nesse veio literário, entremeado de citações dos casos clínicos de seu inspirador, Serge Leclaire, que a admirável e fluente escrita clínica de Rubia Delorenzo brota na exposição de duas observações clínicas, cujos títulos já dizem tanto da poe­sia implacável com que enfrenta o perturbador da neurose obsessiva: “Sobre a morte na figura da mulher: objeto inanimado, presença demoníaca” e “A muralha e a possessão: figurações do mortífero em um obsessivo”.

Pois não é do visceral de que se trata na neurose obsessiva? Deste momento infantil em que a endopercepção das vísceras anais como a fábrica produtora do primeiro objeto destacável de si, o cocô, este volume que a partir de então se torna o prazeroso e angustiante veículo das operações físicas, sensoriais, afetivas e mentais da retenção e da expulsão?

Ora, junto com esse volume visceral, Rubia faz surgir o personagem principal de seu romance: “a figura imponente, dilatada, que é o eu grandioso, onipotente, dominador, que se avoluma na fase anal” (p. 84), cuja saga se propõe a acompanhar de diversos ângulos. Mas é o circuito da agressividade a teia que lhe vem dar essa particular fisionomia. Seguindo suas pegadas, o eu, “pressentindo-se desguarnecido, agarra-se à posição de domínio, à tendência a se tornar senhor do outro, conquistada por identificação”, eu sádico que humilha aquele do qual desconhece os desejos e pedidos (p. 84). Este circuito da agressividade é montado sobre dois pilares: as condições do narcisismo e a dimensão do intercâmbio, da substituição e da reversibilidade que o sadomasoquismo – como certa gramática ou determinado argumento inconsciente – traz de transformação da pura destrutividade. É o que permite entender que na neurose obsessiva a posição média, reflexa, autopunitiva só ocorre por identificação. Assim, o “eu me torturo” de culpa, de punição, de ódio a si mesmo, deve ser entendido como “eu torturo em mim o objeto que aí coloquei”, prenúncio do tema do superego, de que o eu é também um outro (p. 82-3). Pelo atalho do auto-castigo, “o sujeito obsessivo cultiva seu ódio vingativo sobre seus objetos de amor” (p. 140). A estrutura agressiva funciona para negar a dívida para com o outro, a dependência do eu, a alteridade que o constitui. “É justamente nas trincheiras da defesa egóica – onde operam os mecanismos de inversão, anulação, isolamento – que o obsessivo sustenta sua negação e sua tenaz resistência” (p. 85-6), pelo medo da morte e do destroçamento do corpo. É vivendo essa tensão de domínio que o eu exige, recusa, ordena e subjuga. O eu obsessivo contorna os fragmentos, os elementos disjuntos, buscando sempre a síntese. Quando busca se ressituar, se recompor, escapando da sensação de estar perdido e desamparado, é que ele tende para a estabi­lidade do inorgânico, através de seus mecanismos de defesa. A paixão conformista o arrasta para uma vida morta, sem riscos. Há um silêncio dos afetos. A pergunta aterrorizada do obsessivo é: “Estou vivo ou morto? Pois em sua paixão pela forma, pelo mundo organizado pelo tratamento dado ao tempo, pelo qual sonha em perdurar e se manter intacto”, longe da castração, não é difícil perceber a rigidez cadavérica dos processos de identificação animados por um perpétuo jogo de espelhos (p. 86) Ele vive por procuração, ausente do campo do desejo e é a imagem e não ele que o substitui na dialética do desejo.

A autora nos diz que é o ângulo da articulação da analidade com o complexo narcisista que traz os fundamentos metapsicológicos da neurose obessiva. Se o ódio e o narcisismo são analisados em Freud no segundo capítulo, o terceiro capítulo aprofunda a análise da relação entre complexo narcísico e a analidade sob o realce da demanda materna e do sacrifício de si. Essa relação é, na neurose obsessiva, uma estrutura de subjetividade. “A analidade reformula o campo da demanda em relação à oralidade” (p. 67) e é o tempo de consolidação do eu e da descoberta do não. Há a presença de dois lugares intercambiáveis e o esboço do registro do simbólico no sujeito, “nesta particular conjunção que vem ligar o objeto anal e seu valor à dimensão da palavra e ao símbolo da negação” (p. 67). O eu trabalha expandindo-se e amplificando a imagem especular, materializando-se – na analidade – a aspiração agressiva do narcisismo. É assim que a autora desdobra a instância do ego ideal: “A criança no espelho mata, no imaginário, o rival invejado em seus atributos. Instala-se em seu lugar e, perpetuando o desaparecimento do objeto da identificação, ela o substitui por um eu tão monumental como o era a mãe diante dos olhos fascinados da criança” (p. 68). Entre o sacrifício dos excrementos pela demanda materna, que a criança perde e vê partir, e a fantasia de controle sobre os excrementos do poderoso efeito de criar e destruir, constitui-se a primeira e mais preciosa dádiva da vida da criança e toda a dialética do ser de valor. Dialética ambígua da dádiva anal, pois a mãe pede com fervor o que logo sumirá da vista da criança.

“A entrada do excremento no processo de subjetivação pela via dos ambíguos pedidos maternos produzirá conseqüências para a organização subjetiva: a mãe, que deveria ser a primeira proteção contra a angústia, será, no entanto, na estrutura obsessiva, sua causa mais poderosa” (p. 74). A criança entra num regime de trocas que vem significar a necessidade como presente à mãe. A experiência sexual precoce do obsessivo é feita da necessidade de desdobrar-se para servir, atender e agradar a mãe. E, assim, a demanda do Outro prevalece sobre o próprio desejo. No âmbito da relação anal, o outro ocupa o lugar de domínio pleno. O obsessivo desaparece do mundo com o presente que cede ao outro. “Objeto ego, objeto não-ego, objeto valioso, dejeto a expulsar, disposição narcisista ou sacrifício de amor? Ser ou não ser, merda ou maravilha, essa é a questão com a qual se ocupa, a hesitação que o consome, na hiância sempre aberta pela angústia de existir” (p. 76).

Mas é no último capítulo que a mãe do obsessivo vem ocupar a cena (ou seria roubar a cena?). Aqui, Rubia Delorenzo faz a crítica, no sentido de exame para balanço, da posição de Freud em relação à preservação que ele sempre fez da relação entre o obsessivo e sua mãe. A neurose obsessiva é baseada no recalque do ódio, que aparece em diferentes concepções na obra de Freud. A rivalidade com o pai, que é – ao mesmo tempo – modelo e obstáculo de satisfação de desejo, forma o campo da base edípica de hostilidade ao pai, o veio principal que percorre desde as origens até os últimos escritos de Freud. O mito do pai primevo em Totem e Tabu aponta para a positividade do ódio que leva ao assassinato e à possibilidade de uma herança simbólica. Mas “a revolta dos filhos contra as mães permaneceu para Freud terra incógnita” (p. 127). Para a autora, Freud furtou-se à idéia de que uma mãe abrigasse hostilidades com relação ao filho. A evolução do tempo da infância se apresenta sempre nostálgica de um tempo de bem-aventurança, de um gozo extraordinário e perfeito. Freud “resistiu a um exame mais persistente do excesso de mãe e, menos ainda, dedicou-se a analisar seu ódio” (p. 129). Ela diz mais: parece suspeita a afirmação freudiana sobre a relação mais-que-perfeita da mãe com seu filho homem. Essa é quase sempre a fantasia do obsessivo, reconhecendo-se intimamente como o favorito dos deuses. Esse sinal do destino pode, no entanto, encaminhá-lo tanto para sua fortuna quanto para sua miséria. “Conhecemos os exageros do amor e seu alcance. O amor materno, sabe-se de longa data, poderá ser tão destrutivo quanto é cruel o da criança, em sua desmedida exigência” (p. 130).

Inspirando-se em Fédida, ela se pergunta se não será do campo do materno que emana o
excesso de excitação, o excesso de solicitação que faz intervir uma intolerável invasão. É daí
que viria o padecimento obsessivo expresso no sentimento de intrusão, no temor de exposição ao contágio, no risco de transmissão pelo toque, na exigência de uma “distância radical exigida pela crença na capacidade onipotente de invadir, tocar e destruir pelos pensamentos” (p. 120). O que está em jogo aqui é a mãe demais, cujo desejo de morte inconsciente fabrica tanto a idealização do filho como perfeito quanto a superproteção como modelo de mãe. O drama da idealização é que ela está perigosamente unida à decepção que favorece a presença do ódio. Se a mãe não tolera o seu ódio para dar realidade à criança, “só lhe resta o caminho do masoquismo” (p. 133). Estamos aí no campo dos “efeitos tremendos do narcisismo” (p. 133). Se a mãe do obsessivo não abandona “a representação de um filho perfeito, imaginário, identificado a uma sombra do passado que ele teria a missão de encarnar, se ela se dirige a um criança que não é real para alimentar-se desse sonho, sem dúvida sua criança não será odiada. Mas será uma imagem que vive no sonho da mãe, não é a criança de carne e osso, nunca reconhecida” (p. 132).

A autora nos diz que é a sedução materna que dará a especificidade à problemática obsessiva. “Precoce, maciça, polimorfa na perversão, a sedução erótica efetiva está ausente da problemática obsessiva” (p. 134). Pois a severidade é a marca da mãe que exprime a transformação desse recalcado do laço íntimo e precoce erótico. “Uma distância afetiva, técnica, selada pelo rigor e dever, aparece como o avesso do impacto dos cuidados – dos olhares, dos toques – dos quais o obsessivo conservou a intensa impressão.” (p. 134). Habitado pelo intenso erotismo do vínculo de fusão-devoração, esse recalcado retorna deformado no “tom depressivo, desvitalizado, insatisfeito que se apreende no agir metódico e criterioso da mãe” (p. 135). Ser moral, digna e reservada, mãe sem fantasias ou ímpetos libidinosos, é a mãe de quem se herda o modelo da infâmia do desejo. O obsessivo não pode ignorar o objeto de paixão indestrutível que é a mãe assim como seu poder excepcional a quem serviu. Essa mãe extrai sua melancolia “dessa renúncia que não quer fazer: aceitar-se perdida para o filho” (p. 136). Posição paradoxal da mãe: oscilante entre a distância e a possessão, ela denuncia a força do erotismo das origens e seu aprisionamento. A autora se pergunta se não é isso o que interdita qualquer ligação verdadeiramente amorosa ao obsessivo, aquilo que lhe reserva o destino no amor de que o encanto se desvaneça e que seu desejo se apague.

Mas é o fantasma masoquista que mora no centro do seu ser que é a paixão do obsessivo. A nascente desse ódio primordial de si, que é também a origem do supereu, está no matricídio, pensamento que Rubia resgata de Conrad Stein, na interpretação que este faz da lenda de Édipo e Jocasta como um matricídio censurado. O verdadeiro crime de Édipo foi o “desejo de conhecer seu destino, sem complacência, contrariando os apelos de Jocasta, apelos para ignorar” (p. 143). Há portanto, para a autora, um deslocamento da questão do supereu no entendimento da neurose obsessiva. É na figura da mãe dos primórdios, mais que do pai edípico, que ele se apóia. O ódio se origina de uma perda, de uma ruptura, de uma desobediência, de uma distância com a mãe. “Ele surge pelo desvio do fascínio incestuoso, no movimento de separação que torna possível criar o mundo do sonho e da fantasia, criar pensamento e linguagem” (p. 145). No entanto, é o mesmo ódio que restitui o sujeito à unidade perdida. Quando se perdeu o paraíso do dois em um, se instaurou o laço de ódio, sentido primeiro do que Freud nos diz de que o ódio nasce com o objeto. “Ódio cujo destino será, em parte, o do recalque, porque se gera no caldo do desamparo e da servidão” (p. 147). E a autora se encaminha para a conclusão de seu belo livro perguntando se haveria algo mais devastador e insistente na neurose do que esse discurso primitivo, imperativo e arbitrário que está na origem da formação do que chamamos de supereu.

Mas é na separação dos começos que está o início para o sujeito obsessivo das devastações de seu autoerotismo produzidas através da cativação pela mãe e na mãe do obsessivo, a ruptura de seu autoerotismo na violência do parto que a deixaria num abandono sem luz, sobretudo se falta à mãe a palavra que a reconheceria inscrita na rede simbólica da filiação, ou, ainda, “se lhe falta o amparo que lhe permitiria apropriar-se de um lugar materno engendrado na narrativa familiar” (p. 149), mãe assumida pelo mito, embalada nas palavras da tradição.

Mas será na grande boca dos obsessivos – suplicante, exigente, disfarçada ou abertamente voraz, mas sempre demandante – que a análise deverá insistir. Desejo de fusão-devoração e de apropriação da mãe atormentada que comprime e se apodera. “Desejo de tornar seu o excesso que o expropria de si mesmo, deixando-se devorar por ele”. (p. 149-50). Se o seu segredo inconfessável permanece na cumplicidade de uma relação vampírica de uma satisfação oral arcaica, é aí que a análise deve incidir, numa dolorosa travessia, que ignora os apelos maternos para o desconhecimento e encontra o ódio em estado puro à espreita.

Para desalojá-lo, pulverizá-lo, direcioná-lo para fora, para o mundo e suas lutas, perguntaria eu à autora, querendo continuar um pouco mais seu romance. Porque se não houver esperança de saída da captura pelo ódio através da promessa de um amor de outra ordem, um amor ateu, sem sacrifícios, ficamos todos – analistas, pacientes, saber psicanalítico – presos ao livro de mistério, suspense e assassinato da neurose obsessiva, armadilha narcísica sinistra e labiríntica que mata o romance como vivência e como gênero, porque deixa o amor sem saída. Rubia já havia evocado o alerta de Leclaire: cuidado com o eu. Para sustentar uma fala viva é preciso vigiar o imaginário e o narcisismo. Esse é o perigo: ceder aos encantos da coerência, do saber estéril que ignora o desconhecido. É preciso fazer saber ao obsessivo que é só com o naufrágio do seu monumento que poderá falar verdadeiramente. A verdadeira língua, a do desejo, ainda que no caso do analista isso implique chegar primeiro ao fantástico e extraordinário da presença do horror representada pela figura da morte. A esperança de saída da obsessão é figurada duplamente: por uma mãe que aceite perder seu filho para outro amor e que aceite se transformar no sopro espiritual que o anime em sua vida de desejo e pela esperança de um amor por uma mulher transfigurada que o ame de volta às paixões dos inícios, fazendo-o renascer de posse integral de seu corpo e de seu autoerotismo na paz de um espírito não mais atormentado, que aceita a companhia de um outro radicalmente diferente sem dominá-lo, subjugá-lo ou torturá-lo, na abertura criativa de uma vida sempre nova porque sempre presente.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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