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Resumo
Resenha de Edson Luiz André de Sousa, Uma invenção da utopia, São Paulo, Lume Editor, 2007, 49 p.


Autor(es)
Ana Costa
é doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP), professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), psicanalista membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), autora, entre outros, dos livros Tatuagem e marcas corporais. Atualizações do sagrado (Casa do Psicólogo, 2003) e Sonhos (Jorge Zahar, 2006).

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 LEITURA

O amanhã como invenção

Tomorrow as invention
Ana Costa


Resenha de Edson Luiz André de Sousa, Uma invenção da utopia, São Paulo, Lume Editor, 2007, 49 p.

No belo ensaio “Uma invenção da utopia”, Edson de Sousa nos transmite seu engajamento num difícil trabalho: o de permitir o futuro. Normalmente temos a idéia de que o futuro acontece de si mesmo, ou de que algum Outro o proverá, seja para o bem, ou para o mal. Raramente nos ocorre nossa implicação nesse acontecimento, mesmo porque isso nos antecipa um limite, o de nossa própria morte. No entanto, o que virá depende também, mesmo que discretamente, da posição que cada um de nós escolhe jogar. Ou seja, somos responsáveis, mesmo que as circunstâncias de nossa condição no mundo sejam limitadas a um tempo e a um espaço discretos.

A dificuldade intrínseca a esse tema deve-se a uma questão específica, ligada à complexidade de nossa referência ao tempo. Em relação a este, somos regulados pelo mecanismo ambíguo da antecipação. Se bem que desse mecanismo dependa que uma criança tenha existência simbólica – por um lugar na linguagem antecipado pelos pais – por ele também se perde a palavra, na impossibilidade de ser escutado, numa imagem que vem antecipada pelo outro, sempre disponível a recobrir uma fala. Nessas duas formas de antecipação, pode-se perceber a produção de futuros completamente distintos. Na primeira, os pais passam a palavra à próxima geração, renunciando a sua apropriação exclusiva; na segunda, essa palavra é impedida. Esse pequeno mecanismo que dá uma existência de sujeito possível pode também tirá-la. Nesse sentido, é, por excelência, um mecanismo utópico, na medida em que trata da invenção de um lugar na linguagem. Lugar, que, por ser simbólico, é vazio e que só tem consistência na medida em que alguém toma a palavra buscando preenchê-lo.

Sousa nos carrega pelos meandros dessa dificuldade, em passagens de inspiração benjaminiana, nas quais se apóia em alguns autores para construção de suas questões. São pequenos cortes de leitura que incitam sua enunciação em quatro tempos: a burocratização do amanhã, criar o inacabado, desejo de utopia e o sujeito inexato. Nessas enunciações, o fio que as enlaça institui a proposição de uma arte em que “criar é sempre criar um futuro, um horizonte que exige de nós uma liberdade mínima para um fazer irreverente” (p. 27). Aqui, sua escolha pela arte apóia-se no inacabado, condição em que a forma não se fecha em si mesma e que, por isso mesmo, “resiste à condição moralista do dever ser” (p. 26).

Sua escolha pela literatura também destaca a abertura e o inacabamento, tomando a análise de um conto de Rudyard Kipling, em que o personagem não consegue tornar-se um “grande escritor”, prisioneiro da perfeição da imagem que essa identidade porta na sua antecipação, na qual se pode perceber que qualquer ato a faz fracassar. O autor nos lembra, ali, a função ética de suportar o fracasso, na medida em que é dar lugar a expressões de atos possíveis. Ou seja, a forma perfeita só se apresenta como imagem acabada enquanto antecipada a qualquer ato, sendo inibidora de processos de criação. Neste ponto, Ernest Bloch é seu paradigma, com seu Princípio esperança, e permite ao autor propor que “criar é abrir descontinuidades, interrupções no fluxo do mesmo” (p. 19).

O tema da burocratização do amanhã está colocado também quando Sousa propõe que a utopia é necessária para uma abertura ao desejo, na medida em que o impossível é acolhido como potência inventiva. Estamos sempre iludidos de que tudo é possível, o que, evidentemente, fecha a condição de possibilidade de escolher. A inclusão do impossível permite a abertura de um lugar a partir do qual desejar. Nesse sentido, o autor nos lembra sua função positiva, transpondo uma das críticas que se faz sobre uma proposição utópica.

Por fim, o tema do sujeito na referência à utopia, no qual o autor propõe uma relação com a imaginação: “a imaginação exige liberdade e imprecisão, portanto precisa de sujeitos inexatos” (p. 45). Em todos esses quatro tempos, percorridos de leituras que abrem a relação do autor com a cultura, numa posição de responsabilidade, encontramos tintas de seu trabalho com uma atividade que lhe é cotidiana: a de psicanalista.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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