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Resumo
A autora faz um depoimento sobre sua relação com Emilio Rodrigué, ressaltando aspectos da vida e obra do psicanalista. Ele próprio descrevia sua maneira de estar na vida como “transgressiva”, o que se reflete na movimentada trajetória que o levou de Buenos Aires a Londres e da Califórnia à Bahia, passando por diversos lugares e posições. Faz-se referência também à sua extensa produção e à sua vocação de escritor.


Palavras-chave
Emilio Rodrigué; transgressão; revelação; psicanálise na Argentina; Melanie Klein; Susanne Langer; Mimi Langer.


Autor(es)
Urania Tourinho Peres
é psicanalista, membro fundador da clapp/Bahia (1970), e do Colégio Freudiano da Bahia (1988) – atual Colégio de Psicanálise da Bahia. É membro da École Lacanienne de Psychanalyse (Paris) e membro correspondente de Insistance A.E. da Escuela Freudiana de Buenos Aires. Autora dos livros Mosaico de letras (Escuta, 1999), Depressão e melancolia (Zahar, 2003), e das coletâneas Melancolia (Escuta), A culpa (Escuta, 2001), Emilio Rodrigué – Caçador de labirintos (Corrupio, 2004).


Notas
1 U. Tourinho (org.), Emilio Rodrigué, caçador de labirintos.

2 E. Rodrigué, El libro de las separaciones, p. 109.

3 Ibidem, p. 146.

4 E. Rodrigué, Sigmund Freud, o século da psicanálise, p. 30.

5 E. Rodrigué, op. cit.,p. 81.

6 S. Langer, Filosofia em nova chave, p. 12.



Referências bibliográficas

Langer S. (1989). Filosofia em nova chave. São Paulo: Perspectiva.

Peres Tourinho U. (2004). Emilio Rodrigué, caçador de labirintos. Salvador: Currupio.

Rodrigué E. (1995). Sigmund Freud, o século da psicanálise. São Paulo: Escuta.

_____. (2000). El libro de las separaciones. Buenos Aires: Sudamericana.

_____. (1989). Ondina supertramp. Rio de Janeiro: Imago.





Abstract
This paper is a testimony about the Argentinian–Brazilian analyst Emilio Rodrigué by one of his ex-patients and colleague. It dwells on the tortuous road that took him from Buenos Aires to London, from California to Salvador, and to many places and positions in-between. Reference is made to his voluminous production as a writer.


Keywords
Emilio Rodrigué; transgression; revelation; Psychoanalysis in Argentina; Melanie Klein; Susanne Langer; Mimi Langer.

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 TEXTO

Emilio Rodrigué

Emilio Rodrigué
Urania Tourinho Peres


Inúmeras vezes conversei com Emilio sobre o que decidimos chamar "final de analista" [1]. Tínhamos certeza da inadequação da expressão, mas nunca encontramos uma melhor, e, para nossos almoços nas quartas-feiras, ela funcionava. Falávamos de um momento na vida de um analista em que algo finalizava e portas se abriam para uma nova maneira de caminhar na psicanálise. Algo próximo ao final de análise, momento em que a decisão de tornar-se ou não analista existe. Contudo, o nosso "final de analista" dizia respeito à prática analítica, à relação com a teoria, com a instituição psicanalítica e, mais do que isso, com a experiência analítica. E, é importante dizer, com a insatisfação em nossa prática e nossa inquietação frente a mudanças. Era um liquidar de transferência generalizado. Em verdade, tínhamos a convicção de que algo muito forte acontecia e que poderia ou não nos retirar da condição de analistas. Ou saíamos ou entrávamos com novo vigor. Emilio muitas vezes se interrogava se essa captação era de muitos ou de todos ou se havíamos sido inoculados com algum vírus estranho. E o que iríamos fazer com essas "novas inquietações"? Mas nós, também, sabíamos que "uma vez analistas, sempre analistas". Eram conversas francas que, creio, raras vezes acontecem entre um analista e um ex-analisando.

Para Emilio, escrever a biografia de Freud foi um rito de passagem que o levou a essa nova condição, que então chegava não como um finalizar, mas seguramente como um libertar-se, um jubilar-se de amarras. E ele me disse que depois de ter passado cinco anos em companhia de Freud havia se tornado muito melhor analista.

Eu tive outro rito de passagem, bem distinto: uma experiência de passe vivida na Escuela Freudiana de Buenos Ayres. Um passe às avessas, pois o depoimento não era o de um final de análise e entrada na posição da analista, mas, sobretudo, o questionamento do que era estar sendo analista em todo esse tempo em que assim estive. Um depoimento, pois. E eu sabia que era um depoimento de "final de analista". Emilio concordava.

No momento em que escrevo este texto, Emilio está morto, e essa é uma verdade difícil de ser assimilada. Creio que não foi por acaso que comecei pela questão do fim de analista. Será que aquele que foi o analista morre? Acima do amigo, do interlocutor, Emilio foi o meu analista. Será que agora, verdadeiramente, tenho que enfrentar o seu fim, o seu finalizar? Não creio, mas de que imortalidade se reveste o analista? Seria fácil responder que o analista se reveste da imortalidade da palavra. Estou convencida, contudo, de que tem algo mais.

Vou dizer uma obviedade: Emilio não foi um analista comum. Obviedade porque nenhum analista é um analista comum, ou melhor, ninguém é comum, todos somos singulares. Mas tive necessidade dessa afirmativa, até porque muitas vezes me interroguei sobre a maneira de estar na vida que ele desvelava e a sua condição de psicanalista. E talvez seja nesse ponto que quero me deter. Uma relação singular e, portanto, não comum entre o homem e o analista marcada pela revelação. Uma excentricidade e, como ele próprio gostava de dizer, uma maneira transgressiva de estar.

Emilio decidiu ser escritor ainda jovem. Não foi um início fácil, porém habitado por uma intensa angústia diante da página branca. Para ele, ser autor de um livro, uma novela de preferência, era mais que ser ator de Hollywood.Das primeiras tentativas resultou o livro de contos Plenipotência, sem grande sucesso. Contudo, um dos contos transformou-se em Heroína, uma novela que lhe trouxe fama, um êxito editorial, que o fez passear repetidas vezes entre Santa Fé e Corrientes para ver o livro nas vitrines das livrarias e que, por último, transformou-se em filme. Essa novela acontece na encruzilhada de sua vida, segundo seu próprio relato, e surge como um passaporte para o mundo dos escritores. A personagem do conto o surpreende e sobre ela, declara: "Eu nunca pensei mesclar minha vida com a heroína imaginada por mim. Este efeito autobiográfico faz que tome distância de mim mesmo e me converta no personagem de minhas memórias" [2].A leitura da última página do livro sempre o emocionava e enchia-lhe os olhos de lágrimas, até mesmo com o passar dos anos. Por que a cena final continha um imperativo que o acompanhava: jogar-se na vida, e esse jogar-se nada mais era do que ser fiel ao seu projeto e à sua realização de desejo. Penny, a personagem, converte-se em seu ideal do eu.

O sucesso de Heroína transformou-se em inibição. Emilio vive um período de silêncio, tempo marcado pela tristeza da perda de Noune, sua segunda mulher.


O encontro com Martha Berlin e com a cidade de Salvador na sua querida Bahia abre definitivamente as comportas do escritor. Embarcam Martha e Emilio na aventura do El antiyo-yo, livroiniciado em Buenos Ayres e concluído na "Universidade das Palmeiras". Transcrevo o que ele diz desse livro de fundamental importância para ele:

O Antiyo-yo foi um livro básico em minha biblioteca: a partir desse momento comecei a explorar um estilo intimista, condimentado com crueldade e humor: um estilo autobiográfico no sentido em que falo de coisas de minha vida, usadas como ficção. Então minha literatura se volta terapêutica, na medida em que opera como um modo de pensar minha vida e para mim pensar é escrever e escrever é pensar [3].

Escrever tornou-se um oficio diário, "uma forma de apropriação", de "dar vida à morte do esquecimento" e, ultrapassada a tormenta inicial que lhe custou "suor e sangue" no aprendizado em frente de cada folha de papel, tornou-se o que ele mesmo se conferiu: um recordista válido para o Guinness com trinta anos seguidos sem destruir uma única página escrita. Mas Emilio guardava a certeza, nessa caminhada de escritor, de que ele devia à psicanálise o "destravar das teclas".

Psicanálise e psicanalista estão presentes nos livros, e aqui tem início um estilo audacioso, no qual o homem e o psicanalista se fundem em uma narrativa quase autobiográfica, corajosa e desafiante. Homem inquieto, aventureiro, na busca do prazer e da renovação da vida. Se a vida intelectual do escritor o fascinava, o cultivo do corpo era uma obrigação diária. Natação, tênis, academias, maratonas e o deslumbramento de uma viagem de bicicleta pelos campos franceses. O sexo estava na linha de frente, o que o levou a afirmar aos 81 anos os prazeres de uma sexualidade octogenária pela descoberta de um corpo erótico sem os imperativos do pênis. Transitava fácil da generosidade para a crueldade, sobretudo nas separações amorosas. Dizia ter uma boa alma, mas de forma alguma podia ser considerado um angelito.

A teoria psicanalítica não se dissociava da vida, e exatamente por isso poucos foram seus textos estritamente teóricos, quase todos acontecidos no início da formação de psicanalista e, na maioria das vezes, escritos por exigência da própria formação. Sobre o relato de casos clínicos, acusava-os de serem mentirosos e a eles se furtava, e os escritos psicanalíticos, considerava-os insossos.

O Antiyo-yo foi o primeiro de uma série na qual procurava uma nova maneira de misturar relato de experiências de vida, ficção e psicanálise. A sua procura era ao mesmo tempo "escrever o que vivia" e "viver o que escrevia", criando assim o que chamou uma "ficção da ficção" onde tudo pode ser e não ser verdade, ao mesmo tempo.

Mas de todos os seus livros, destacava como de sua preferência Gigante pela própria natureza, livro que de alguma maneira encerra um percurso iniciado com o Antiyo-yo. Para Emilio, uma história de amor, a mais forte por ele vivida, e a penetração na alma mística da Bahia. Por que caminhos esse livro o preparou para a grande aventura de transformar Freud em um personagem biográfico e com ele viver durante cinco anos, não saberia dizer, e talvez nem mesmo Emilio soubesse, mas a verdade é que um dia disse: vou escrever a biografia de Freud. E escreveu. Projeto de um gigante.

Vale a pena lembrar seu comentário sobre Penny, a personagem de Heroína:"Nunca pensei em mesclar a minha vida com a heroína imaginada". Escrever a biografia de Freud foi como realizar uma análise com Freud. Analisava-se, ao tempo que analisava Freud. Um misturar de vidas.

O período de gestação da biografia coincidiu com o das famosas Jornadas de História da Psicanálise realizadas pelo Colégio de Psicanálise da Bahia. Cada jornada alimentava o nosso biógrafo e nos transportava ao seu mundo de audácia e de prazerosa intimidade com Freud. Assim, todas as biografias anteriores foram revisitadas, correspondências pesquisadas, detalhes da vida discutidos, teoria novamente não dissociada da vida. Entre Emilio e o Colégio estabeleceu-se um pacto mudo de intensa colaboração. Emilio referiu-se a esse período das jornadas e produção da biografia como período mítico. Escrever a biografia tornou-se para ele um "dever desejante" e, para nós, um estado de encantamento.

Entre muitas razões para o projeto, destaco uma que me parece da maior importância: Emilio sabia que ele era dos últimos analistas com um passado de formação tão rico. Estava em Londres quando surgiu o primeiro volume da biografia de Ernst Jones, ou seja, ele viu nascer o "desvelamento público do pai da psicanálise"; até então muito pouco era conhecido da vida de Freud.
Ele diz:

Sou um analista da quarta ou quinta geração. Abraham foi meu avô. Conheci um Jones um tanto irônico, polêmico na discussão de trabalhos de Bion e Balint. Fui vizinho de Mrs. Klein por mais de dois anos. Participei de seminários com Rickman, Glover e Anna Freud. E mais tarde troquei cartas com Winnicott. Tomei chá com Alix Strachey, servido por Mrs. Lindon, a bibliotecária do Instituto Britânico de Psicanálise. Do outro lado do Atlântico, na Costa da ego psychology, trabalhei, por mais de três anos, na mesma clínica que David Rappaport e Erik Erikson. Possuo uma poderosa transferência com o passado, mas sou, ao mesmo tempo, um franco atirador, um arqueiro free-lance, alguém que foi um jovem analista do tempo velho e que agora é um velho analista do tempo novo
[4].

Nesse pequeno currículo de celebridades, Emilio deixa fora sua análise com Paula Heimann, sua condição de analista da neta de Klein, sua admiração pela inteligência de Masud Kahn e mais outros companheiros: Hana Segall, Elliot Jacques, Joan Rivière, Marion Milner, entre outros.

Médico de formação acadêmica, entrou no mundo psicanalítico em Buenos Aires. Seguindo uma tendência teórica dominante, apaixonou-se pelas idéias de Melanie Klein, a tal ponto que sua relação com seu primeiro analista, Arnaldo Rascovsky, tornou-se impossível. Questionava as interpretações, tentava corrigi-las e, conseqüência inevitável, foi expulso do divã após uma intervenção inusitada: "Rodrigué, se você não gosta, foda-se". Para um analista que se dirigia ao seu paciente tratando-o de senhor foi, de fato, um impacto. Esse episódio impediu que pudesse continuar sua análise com outro didata da apa, pois essa era a regra da instituição. Aconselhado por Fairbain, segue então para Londres para continuar a análise com Paula Heimann.

Para ele, a volta à Argentina, "com sotaque inglês", foi gloriosa. A psicanálise começava a tornar-se uma paixão nacional e é desse momento o seu encontro com Marie Langer, psicanalista vinda de Viena, com forte passado comunista, e que viria a tornar-se uma das suas grandes amigas. Surgem então as primeiras experiências com grupos e os primeiros textos psicanalíticos. Foi desse momento a escrita de Análise de um esquizofrênico, com mutismo, de três anos de idade ou, como é chamado, "o caso Raúl", que iria compor o livro comemorativo dos setenta anos de Melanie Klein: Novas tendências na psicanálise. A busca de uma teoria que ajudasse na compreensão do paciente conduziu-o ao encontro da filósofa Susanne Langer e o levou aos Estados Unidos.

O período americano dividiu-se entre a Clínica Austen Riggs, em Stockbridge, e os memoráveis encontros na casa de Susanne Langer, uma vez por semana, onde trabalhavam as últimas 21 páginas que a escritora havia produzido na semana anterior. Emilio aprendeu Lógica Simbólica, tornou-se leitor de Cassirer, o que o fez penetrar no mundo da filosofia da arte. Austen Riggs permitiu-lhe escrever seu primeiro livro - Biografia de uma comunidade terapêutica - e propiciou-lhe um olhar diferente para o mundo da loucura.

O estudo com Langer foi de extrema importância e possivelmente imprimiu-lhe, de alguma maneira, a direção que tomaria na psicanálise. Austen Riggs deu-lhe experiência com uma unidade de tratamento psiquiátrico de ponta; contudo, não tenho dúvida de que foi o contato com a filosofia de Langer e o trabalho com ela desenvolvido que o marcaram de maneira especial. Foi através de uma referência de Marion Milner que Emilio encontrou-se com o livro Philosophy in a new key, leitura que o entusiasmou e o fez mudar de rumo em sua trajetória. Deixa Buenos Aires com sua jovem mulher Beatriz, três filhos, e parte para nova aventura. Outra jogada em busca de seu projeto e sua realização de desejo. Susanne Langer relutava em aceitar discípulos; entretanto, as insistentes cartas fizeram-na abrir uma exceção.

Emilio viajava para Mystic, uma aldeia no interior de Connecticut, todas as semanas. Ele relata esses encontros:

A casa de Susanne Langer estava situada no meio de um bosque de pinheiros, sem vizinhos à vista. Era um chalé rústico de madeira, forrado de livros por dentro. Livros, arquivos e mesas de trabalho, circundando uma grande lareira campesina na qual Susanne preparava o almoço. [...] a casa não tinha nem telefone, nem rádio, nem televisão [...] Passava 16 horas, no mínimo, escrevendo e estudando. [...] Uma pessoa retraída, de poucas palavras, que só se animava quando discutia teoria. [...] Susanne havia sido uma menina autista, considerada retardada, uma autista de verdade, que só começou a escrever depois dos 10 anos
[5].

É curioso quando qualifica o autismo da escritora como "autismo de verdade". Nós sabemos quantas vezes, falando de sua infância, dizia ter sido um menino autista e, também, como elogiava o autismo na fase adulta, que o protegia de "conversas tolas". Emilio, como regra, escutava mais do que falava e demonstrava sempre grande curiosidade sobre as pessoas. Foi o estudo sobre o simbolismo que o levou a Mystic, e creio que a conquista central foi ter adquirido uma particular maneira de lidar com as palavras e com o saber. Duvidar das palavras e ter sempre presente a interrogação: "Será assim?" é como sintetiza o centro do seu aprendizado nesse momento de sua vida. Para Langer, "um livro é como uma vida: tudo o que há nele é realmente uma só peça, Les jeux sont faits" [6].

Emilio manteve a analogia entre o livro e a vida: "Escrever o vivido" e "viver o escrito". É possível que as 21 páginas lidas semanalmente tenham sido o processo de construção do livro da filósofa Sentimento e forma.

Foi uma grande paixão que sobretudo o fez voltar a Buenos Aires. Separa-se de Beatriz, sua primeira mulher, e da vida familiar tranqüila e feliz na aldeia americana - "Stockbridge é o mais próximo que estive do céu" - para viver anos "prósperos e luxuosos" em companhia de sua segunda mulher Noune, com quem escreve El contexto del processo analítico. Como já disse, foram também dessa época seus primeiros livros de ficção - Plenipotência e Heroína.

Buenos Aires crescia em seu fervor psicanalítico e os grupos tomavam posições políticas. Rodrigué considera que Susanne Langer foi seu guru em lógica e que agora, outra Langer, Mimi, passa a ser seu guru em política, aliás, ele reconhece a força de três mulheres em sua formação: Melanie Klein, Susanne Langer e Mimi Langer.

Nesse tempo em que experimenta "o acre e embriagador gosto do poder", foi presidente da apa - Associação Psicanalítica da Argentina, vice-presidente da ipa - Associação Psicanalítica Internacional - e presidente da fap - Federação Argentina de Psiquiatras.

Segue-se um momento de grande turbulência, que levou nosso Emilio a mudanças importantes, e que ele sintetiza da seguinte maneira: "Tirei o paletó e a gravata, indumentária que usava mesmo quando analisava o pequeno Raúl autista".

A morte prematura de Noune de alguma maneira o conduz a um período em que as amizades ocuparam um importante lugar. Surge o movimento Plataforma, acontece uma viagem a Moscou e uma experiência de vida comunitária na intitulada A casona, da qual participam: Hernán Kesselman, Tato Pavlovski, Armando Bauleo e posteriormente Bertold Rotschild. Fernando Ulloa foi o fiador para o aluguel da casa, estando, assim, de alguma maneira presente. Tato, Hernán, Armando e Fernando foram sempre grandes amigos de Emilio. Recentemente, disse: "Fernando e eu somos os últimos samurais da psicanálise". A casona teve vida curta e por "uma debandada fóbica" encerrou suas portas.

Emilio integra o movimento Plataforma, que questionava a didática e a hierarquia dentro da instituição psicanalista, e é curioso observar que no mesmo tempo, na França, Jacques Lacan empreendia a mesma batalha. Essa concomitância de movimentos sempre deixou Emilio desconfiado com os lacanianos, que na sua leitura haviam "usurpado" os princípios de Plataforma e colhido os seus frutos.

A forte repressão política na Argentina iniciou um "período negro" e todos os membros de Plataforma pediram desligamento da ipa e da apa. O ano de 1972 marcou o fim de uma época. Para ele, o país havia enlouquecido, o pavor era companheiro constante, a única saída foi o exílio; e o exílio o trouxe à Bahia.

É fruto desse período um texto, em meu entender, extremamente rico e que tem um sabor de manifesto. Contabilizando suas horas como analista, escreve o livro que recebe o título O paciente das 50.000 horas, que em um primeiro momento foi um artigo para uma edição especial comemorativa dos 50 anos da Revista Internacional de Psicanálise, publicação oficial da ipa. A idéia central era criar um personagem que fosse uma síntese de todas as análises até então conduzidas por ele. Em verdade, uma avaliação de sua atuação como analista, texto que segue na linha do "final de analista". Em 1976, o artigo transforma-se em livro, que se divide em duas partes: a primeira, resultado dos 25 anos como o "analista ortodoxo", contém o relato clínico de uma análise didática. A segunda parte relata uma experiência de "cura" vivida em um laboratório social e lança a possibilidade de integrar o Psicodrama, a Bioenergética e a Gestalt Terapia na psicanálise. O ponto central do texto é o inconformismo com uma psicanálise adaptativa, com um enquadre convencional e desvitalizante, um empobrecimento da palavra resultante de análises crônicas, pouca ação e resistências às mudanças.

Emilio não se retira do grupo criticado e chega a confessar que, de alguma maneira, havia perdido a "vocação urticante" dos seus primeiros anos como analista. Ele sintetiza a crise da psicanálise, no final dos anos 1960, em três grandes dilemas: a didática, a cura, a teoria. A vinculação da didática à instituição e a rigidez do enquadre trabalham no sentido de produzir jovens adaptados, sem rebelião e inventividade. A pouca clareza entre a meta analítica e a terapêutica aparece como outro ponto de fragilidade; por último, a pouca criatividade na teoria, a presença da psicologia do ego, reforçando o viés alienante e conformista.

Não tenho dúvida de que ainda aqui a influência de Susanne Langer se fazia sentir, questionando as palavras e as certezas afirmadas, colocando o próprio pensamento sempre em questão.

O destino trouxe Emilio à Bahia, onde viveu o período de maior riqueza afetiva e intelectual. Ele disse: "Eu acho que a Bahia me tornou um homem notável e estou pensando em termos de sabedoria. Foi aqui que, seguindo o Eclesiastes, começou a hora da colheita. A Bahia foi o tempo de colher os frutos". Emilio amou Salvador-Bahia como poucos amantes sabem fazê-lo: intensa e fielmente. Para ele, a sua vida dividiu-se entre um antes e um depois, e ele confessou que um sussurro vindo da boca do mar de Ondina disse-lhe: "Fique aqui!" E ele ficou. E ficará sempre como o professor emérito da "Universidade das Palmeiras".

A morte de Emilio, retirando seu corpo do nosso olhar, sua voz de nossa escuta, abre um novo espaço de presença, que nos transmite a certeza de que sempre um finalizar é a indicação de algo novo que se inicia. A herança que nos deixa Emilio, entre muitas outras, é que não há psicanálise sem liberdade.


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