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Resumo
Resenha de "A relação mãe – filha" - Malvine Zalcberg. Rio de Janeiro, Campus, 2003, 205 p.


Autor(es)
Marli Ciriaco Vianna
é psicanalista, membro do De­par­tamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sa­pien­tiae, atuante no Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise e professora do curso Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea no mesmo departamento.


Abstract
By Marly Ciriaco Vianna – review of Malvine Zalcberg, "A relação mãe-filha" What are the specific traits of the relationship between mother and daughter? Ms. Zalcberg presents Freud’s and Lacan’s views on this issue and on feminine sexuality; then she turns her attention to that most central relationship, for it is around it that femininity is organized.

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 LEITURA

Invenções do feminino

Invention of the feminine
Marli Ciriaco Vianna


O livro resenhado trata da especificidade da relação mãe e filha no processo de a menina tornar-se mulher. Nele, a autora, depois de retomar os últimos desenvolvimentos teóricos de Freud e Lacan sobre a sexualidade feminina, aborda com profundidade e originalidade o tema da relação da menina com a mãe, ponto crucial em torno do qual a feminilidade se constitui.

Somos capturados, já na introdução do livro A Relação Mãe-Filha, pela angústia de uma jovem mãe que sucumbe a algo mais forte do que ela ao agir com violência contra seus filhos. Esse é o ponto de partida de Malvine Zalcberg para a viagem teórica que empreenderá nesse belo livro.

A autora, que situa o cerne da questão de sua analisanda no fio da relação com a mãe, da qual nenhuma separação efetivamente se deu, nos faz antever que é de sua clínica que parte para a exploração desse campo teórico pouco percorrido antes dela. A inevitável separação a se dar entre uma mãe e uma filha, no caminho de esta tornar- se mulher, será o eixo principal desenvolvido por Malvine.

A recuperação da teoria freudiana sobre a sexualidade feminina se fará na forma de um acompanhamento precioso dos movimentos teóricos de Freud. Sua ênfase recairá principalmente na mudança que o levará, depois de um extenso período em que atribui o acesso da menina à feminilidade às vicissitudes de sua relação com o pai, a considerá-lo, sobretudo, em sua relação com a mãe.

O outro marco investigativo da autora são os textos de Lacan. A função paterna – operação simbólica que regula as posições do menino e da menina na família e na sociedade – é tomada pela autora como o ordenador da constituição do sujeito de ambos os sexos, sem deixar, no entanto, de apontar, para a especificidade dessa operação no caso da menina. A intervenção simbólica do pai, que deixa a mesma marca de identificação viril para ambos os sexos, e que no caso do menino é resolutiva de seu Édipo, deixa na menina um resto, que a relança à mãe na busca de uma identificação que só poderá ser encontrada ao lado desta.

É esse mesmo resto que leva a autora a pesquisar a originalidade do desenvolvimento teórico subseqüente de Lacan acerca da sexualidade feminina, no qual situa a constituição da feminilidade “entre duas mães” (p. 15). Seguindo Lacan, ela percorrerá as bases teóricas de onde obterá sustentação para a tese por ela desenvolvida neste trabalho: a de que a possibilidade de uma filha constituir sua feminilidade com inventividade e criação se funda na possibilidade de sua mãe viver sua dupla condição de mãe e mulher.

Malvine Zalcberg, ao longo dos sete capítulos que compõem seu livro, aponta para os preconceitos teóricos de Freud, determinantes do seu atraso na compreensão da especificidade da sexualidade feminina: “a história da teoria freudiana sobre a sexualidade feminina desenvolve- se em torno do deslocamento da preeminência exclusiva do pai no desenvolvimento psicossexual da mulher para dar lugar também à relevância da mãe, esta considerada por Freud, em seus últimos textos, um dos eixos da neurose da filha” (p. 17). Estes lhe custaram a demora em ver que, no que diz respeito à menina, sua concepção inicial do Édipo, na qual o primeiro objeto de amor para a menina é o pai, a mãe sendo-o apenas para o menino, contrariava sua primeira teoria sobre a sexualidade, na qual a mãe constitui o primeiro objeto de amor para ambos os sexos. Anos de desenvolvimento teórico serão necessários, até que Freud se proponha à revisão e ao aprofundamento de suas concepções sobre a sexualidade em geral, e da feminina em particular. Para a autora, Freud precisará se curar da crença adquirida em seu contato inicial com a histérica: de que poderia, por meio dela, ter acesso ao saber sobre a mulher para descobrir que nem tudo sobre a mulher pode ser dito e para se deparar com a especificidade de uma sexualidade que não encontra a contrapartida que ele julgava existir com a sexualidade masculina.

Zalcberg situa em 1923 o início da revisão da teoria freudiana da sexualidade com a retomada de uma questão que já ocupava Freud desde o tempo dos Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade (1905): a de que a mulher não é um ser dado desde o início e que para tornar- se-o ela terá diante de si um árduo e contínuo trabalho de mudança de sexo e de objeto. Ela também lembra o quanto Freud, nesse momento, ao referir o sexo da menina ao menino, encontrava-se longe de reconhecer que isso se dava não em função de uma suposta sexualidade masculina em si, e sim porque a menina assim se constitui na sua relação com a mãe, uma vez que, independentemente do sexo anatômico ao qual pertence, toda criança é sempre “menino” para a mãe, por constituir um substituto fálico para ela. Somente a partir da introdução da primazia do falo na teoria em substituição à primazia do pênis, o que ocorre apenas nos anos 1920, é que a falta da mulher pode passar a ser pensada em termos simbólicos, e não mais em termos imaginários. Só no decorrer dos ajustes teóricos que vai fazendo é que Freud dá nova dimensão à necessidade de a menina renunciar à sua sexualidade ativa para tornar-se mulher, entendendo que com essa renúncia ela não visa somente a uma aproximação com o pai, mas sobretudo afastar-se da mãe, separar-se dela. A autora, ao ocupar-se dessa questão, aproxima- se do que constitui o interesse central do seu trabalho: o tema da separação necessária e infindavelmente adiada a se dar entre uma mãe e uma filha no processo de tornar-se mulher. Ela retoma a mesma questão que ocupava Freud nos últimos anos de sua obra, quando, depois de se perder nos labirintos da pergunta sobre o que quer a mulher, ele passa a se interessar em entender por que a menina tem tanta dificuldade de se separar da mãe. Malvine o faz, no entanto, com o nítido propósito de avançar nas teorias freudianas, e é aí que mais ganhamos com seu texto, dado o fôlego invejável com que ela mantém a interlocução com o texto freudiano, com o vivo interesse de quem tem, em sua prática clínica com mulheres, questões a responder.

Malvine nos lembra o quanto as observações clínicas de Freud nos casos da jovem paranóica, em 1915, e da jovem homossexual, em 1920, foram fundamentais na descoberta de que a filha tem na mãe, e não no pai, seu primeiro objeto de amor, e para a conclusão de que a ligação edípica da menina com o pai é secundária em relação à que é vivida pré-edípicamente com a mãe, ligação primária exclusiva e fundamental, que não tem nenhuma contrapartida no menino.

Mas, antes da “menina” vem o “sujeito”, e é no texto de 1920, “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, que a autora, apoiada na leitura que Lacan faz desse texto, localiza em Freud o lugar da identificação fundante da subjetividade. Lugar da identificação primária a um traço paterno que dá à criança de ambos os sexos acesso a um lugar simbólico. Condição mínima indispensável para que a criança possa sair da assujeição ao desejo materno e advir como sujeito, essa primeira identificação, possibilitadora de uma primeira separação, que é viril porque é recebida do pai, terá destino diferente no menino e na menina. Enquanto o menino, por meio dela, obtém suporte para sua identidade à saída do Édipo (ela lhe dá o direito ao falo), a menina terá de continuar procurando sua identidade de mulher, já que essa identificação, sendo masculina, nada lhe diz sobre a especificidade de seu sexo.

Mesmo tendo reformulado em pontos chaves sua teoria sobre a sexualidade feminina, Freud, no ponto em que interrompe sua teorização, encontrase pouco otimista quanto às possibilidades da menina, na constituição de sua feminilidade. Ele descobre nela o mesmo empuxo à virilidade que marca o menino à saída do Édipo, e é na masculinidade original da menina, em sua relação com a mãe, que ele vê as causas da dificuldade.

De acordo com a autora, Freud lega duas questões básicas do desenvolvimento da feminilidade à psicanálise: “Por que é tão difícil para uma menina separar-se de sua mãe?” e “como uma relação demasiado intensa com a mãe pode impedir uma menina de tornar-se mulher?” (p. 48) Desse legado Malvine se faz herdeira. Esse é inegavelmente o fio do seu compromisso, e é para cumpri-lo que ela se vale do texto de Lacan “...por ser ele dentre os analistas pós-freudianos o que mais se dedica a retomar, aprofundar e enriquecer o patrimônio legado por Freud a respeito do processo pelo qual a feminilidade se constrói para uma mulher, em um movimento de inventividade e criação” (p. 14).

Os conceitos de alienação e separação, as duas operações constitutivas do ser humano, têm lugar de destaque entre os conceitos lacanianos usados por Malvine na sua argumentação teórica, por considerá-los úteis para abordar os esclarecimentos introduzidos por Lacan no exame da relação mãe e filha.

Alienação é a operação do primeiro momento da constituição do sujeito e significa que a criança, ao nascer, encontra-se totalmente dependente do mundo de significação e de desejo de um outro, no caso a mãe (p. 54). Nesse modo de funcionamento, é da mãe que a criança espera todas as satisfações, sem ter de pedir nada. Naquele que sobrevém a esse, a separação, a criança terá de passar a pedir o que deseja. Terá de, de forma organizada, num conjunto de signos, demandar aquilo que deseja. “Alguma coisa é perdida quando a criança, atendida até então sem ter de pedir, passa a ter de endereçar seu pedido em forma de demanda ao outro” (p. 57). Momento de ruptura entre a necessidade que em princípio pode ser atendida e a demanda que nunca poderá ser totalmente satisfeita, já que esta, por tratar-se sempre de uma demanda de amor, não visa o encontro de um objeto com qualidade e substância.

Seguindo a autora na leitura do texto lacaniano, sabemos que o fato de a mãe poder atender tanto as necessidades biológicas quanto amorosas da criança, constitui um dos motivos pelos quais ela é elevada à categoria do Outro, o que deixará a criança completamente subjugada a ela, a não ser pela função mediadora do pai. Para Lacan é dessa função, que dá lugar à operação de separação, que depende a criança tornarse sujeito.

Sabemos ainda que a intervenção do pai simbólico, de uma só vez, proíbe a criança de continuar na posição de submissão ao desejo da mãe e nomeia para ela o objeto do seu desejo, fazendo com que este deixe de lhe fazer enigma. E que, se por um lado essa intervenção é libertadora para a criança, por outro lhe coloca a questão de saber sobre seu ser, já que nesse processo ela perde o lugar de falo materno.

A busca de fundamento que acompanha o sujeito por toda sua existência, marca desta alienação fundamental ao Outro, é, de acordo com a autora, ainda mais dramática no caso da menina, porque ela, além da falta que caracteriza todo ser falante, ainda se ressente da falta específica de seu sexo. Nela, a demanda dirigida ao pai por um significante específico de seu sexo feminino, e por um lugar simbólico, é duplicada pela demanda de amor incondicional que dirige à mãe, o que faz no afã de obter compensação para sua dupla falta como sujeito e como mulher. Aí está situada, para a autora, a causa da maior dificuldade da mulher em renunciar às demandas do Outro, tornando mais sinuoso e complexo o caminho da formulação de seu desejo, já que, para a emergência deste, a demanda precisa não ser completamente satisfeita.

Para a autora, o resto inerente a toda operação de separação efetuada a partir da introdução da metáfora paterna será mais difícil de ser significado pela menina do que pelo menino, porque ela, nesse processo de perder o lugar de falo materno, teme perder tudo ou perderse. É para não se perder que ela terá pela frente a tarefa de criar um significado novo para seu ser de mulher, e de aprender a lidar com o paradoxo que lhe será para sempre inerente: mesmo não sabendo suportar bem a falta, ter em seu caminho, para tornar-se mulher, de buscar o vazio como condição de desejar (p. 77)

A tese da autora ganha corpo quando, depois de afirmar que cabe à mãe preservar para a criança a falta em que ela é necessariamente introduzida pela intervenção simbólica do pai, pergunta se a mãe saberá/ poderá suportar a própria falta que ela vê duplicada na filha. Nessa questão a criança fica pendente da postura da mãe face à castração, que poderá ter mais dificuldades em deixar de atender às demandas de uma filha, evitando confrontá-la com a falta por ela reativar mais facilmente sua própria problemática da falta feminina (p. 79)

Assim como Lacan, Malvine considera que a criança é tomada pela mãe como compensação para a falta de significante próprio ao seu sexo e como objeto de gozo em sua fantasia. Considera também que essas duas vertentes de falta na mãe, as quais a criança é chamada a preencher, repercutem na criança, tanto no nível da constituição de seu inconsciente quanto na formação de sua fantasia. Ser o falo para a mãe é a condição de possibilidade para que a função pacificadora do pai possa se exercer: de esclarecer para a criança que o objeto de desejo da mãe é o falo, e não ela mesma. Esse esclarecimento é que conduzirá a mudanças na relação da criança com a mãe, ajudando-a na escolha de seu sexo de maneira singular (p. 94).

A menina não sai da situação de engodo na qual entrara pela identificação fálica da mesma maneira que o menino. A autora entende que, abandonar a posição fálica em relação à mãe, saída de um destino totalmente alienado, traz para a menina uma questão sobre sua existência. A resposta que ela dará a essa questão, assim como sua estruturação subjetiva, dependerá do encontro com o pai na palavra da mãe, endosso necessário para que este possa estabelecer a lei para os seus filhos.

A nostalgia vivida pela menina ao final de seu Édipo é para Malvine a corroboração da tese lacaniana de que a metáfora paterna, no caso da mulher, opera apenas parcialmente, que ela é em parte submetida à castração e em parte não, pois o significante viril que ela recebe do pai à saída do Édipo, que lhe dá estrutura de sujeito, não lhe dá acesso a um significante específico de seu sexo feminino.

Lacan, da mesma forma que Freud, demorará a reconhecer o lugar prevalente da mãe na sexuação de uma filha. É nesse contexto teórico que a autora situa sua afirmação de que uma mulher busca um homem na qualidade de um significante, como uma maneira de ficar totalmente ao abrigo do simbólico, como o homem está. Somente na segunda parte do seu ensino é que Lacan conclui que a articulação falo-castração não é suficiente para dar conta do Édipo feminino. A metáfora paterna, que no caso da menina revela-se em parte inoperante, deixa um lado da mulher sem cobertura simbólica, sem isso querer dizer que ela fique fora do registro simbólico e sim que a mulher, além da divisão que atinge a todo sujeito falante, é marcada por outra específica a seu sexo: em parte ela é atingida pela castração e em parte não. Em decorrência disso ela é em parte sujeito e em parte não.

É percorrendo o final do ensino lacaniano que a autora aborda o campo em que se situa o que é mais específico da sexualidade feminina, o que fica além das palavras, mais além do falo, o que permite à mulher ter acesso a um gozo a mais do que o gozo fálico ou gozo sexual, gozo este, sobre o qual nada pode ser dito por se situar fora da linguagem, no campo do real.

Malvine entende que a menina, mais do que o menino, tem a sua subjetividade marcada pela dupla condição de a mãe estar e não estar submetida à castração e que seu futuro depende de que a lei simbólica, personificada pelo pai, opere regulando o seu lugar na fantasia da mãe, proibindo a esta tomá-la como objeto de seu gozo, única forma de interferência nos efeitos devastadores que essa relação pode alcançar. Ela entende ainda que a ameaça de voltar a ocupar junto ao Outro uma posição de submissão sempre paira para o sujeito, e que é para escapar dessa ameaça que a criança, independentemente da ajuda que recebe do pai, reage separando-se do objeto que ela é na fantasia da mãe, impondo-lhe sua perda. Esse movimento de separação que engendra o sujeito deverá ser inúmeras vezes repetido, para que a criança adquira consistência como sujeito. “Quanto menos separada ela for da mãe, tanto mais, depois, como mulher ou como homem, sente-se sem consistência própria, e tanto mais temerá o risco de o Outro submetê-lo novamente a seus desígnios” (p. 135).

No capítulo IV, no ponto em que passa a ocupar-se do olhar da mãe sobre a criança (p. 136), Malvine toca o cerne da problemática da relação mãe-filha. Entrar no mundo, submetida ao olhar do Outro, é condição estrutural para a criança de ambos os sexos, só que para o menino será mais fácil se liberar do fascínio exercido por esse lugar de objeto de desejo da mãe graças à intervenção do pai, que a saída de seu Édipo lhe ratifica o direito ao significante viril. Já a menina, devido ao resto deixado em seu Édipo pela metáfora paterna, permanece mais suspensa ao olhar do Outro. “Ela faz do olhar da mãe seu suporte identificatório para dele retirar o que precisa para constituir sua feminilidade” (p. 139).

A menina precisa ter sido o objeto que se revela no olhar para saber que ocupou um lugar na fantasia da mãe. Não ter ocupado esse lugar de objeto desejado para sua mãe ou, ao contrário, não deixar nunca de ocupá-lo, acarreta na filha seqüelas difíceis de sanar, e seu empenho em fazer-se objeto de satisfação para ela diz respeito ao seu modo de forjar-se uma identificação feminina, já que não conta com um significante do seu sexo.

No capítulo V do livro, Malvine Zalcberg chega ao que considero a essência de seus desenvolvimentos teóricos. Nesse ponto ela se introduz no seio da relação que se estabelece em torno da sexualidade da mãe e da filha. “As meninas emaranham-se desde cedo na sexualidade da mãe, e esta, por meio da filha, experimenta muitas vertentes de sua própria sexualidade” (p. 146).

Malvine fala daquilo que nos é familiar, que encontramos na vida e na clínica das mulheres. Ela fala das filhas que nunca se casam inteiramente, tão compromissadas estão na relação com a mãe. Das filhas que por medo de perder o amor da mãe nem tentam se separar dela. Fala do mistério da sexualidade que fascina a filha desde muito cedo e que a faz procurar algo no corpo da mãe, sem saber o quê. Fala da falta que a menina descobre no corpo da mãe, para a qual ela não encontra um nome. Da procura da menina por um traço visível no corpo da mãe que, ela espera, venha lhe revelar algo acerca do seu. Fala-nos da confusão de corpos que aprisiona mãe e filha, quando não contam com a intervenção salvadora do pai, único com quem se pode contar, ainda que só parcialmente, para que não seja trágico o desfecho dessa relação.

Para a autora, uma mãe se mantém mais facilmente separada de um filho, sem confundir- se com ele, deixando-o livre para realizar seus projetos, do que da filha, sobre quem a mãe muitas vezes, numa “abusiva apropriação narcísica” (p. 168), exerce enorme poder, dificultando- lhe saber de quem e para quem são suas realizações. Dessa indiferenciação de projetos entre mãe e filha, esta última muitas vezes não pode se libertar, sob pena de despertar na mãe o ódio subjacente à relação idílica em que ambas se encontram presas.

A imagem especular, nas palavras da autora, é a primeira vestimenta com que o olhar da mãe veste a criança. Essa imagem, que precisará ser confirmada pela palavra da mãe para formar a base da matriz do eu do sujeito, tem no caso da menina um desdobramento. Para encontrar sentido para o seu ser mulher e para o seu corpo, ela precisará voltar-se ainda uma vez para a mãe a fim de certificar- se de que esta reconhece a especificidade de seu corpo feminino. Será no acolhimento dado pela mãe ao seu corpo, marcado pela falta de uma definição clara e pela falta de um significante especificamente feminino, que ela encontrará possibilidade para começar o processo de constituição de uma identidade feminina (p.180). Acolhimento que a mãe só poderá dar ao corpo da filha se ela antes tiver dado ao seu, se ela antes tiver constituído uma feminilidade para si mesma e tiver participado dos jogos da mascarada na comédia dos sexos. Só assim ela poderá introduzir a filha nos jogos de mistério e dissimulação que esta precisará para atingir uma definição própria de mulher.

A mascarada, recurso que, ao mesmo tempo em que ajuda a mulher a esconder a falta de uma identificação específica de seu sexo, ajuda-a na construção de uma que, segundo a autora, é a maior contribuição dada por Lacan ao entendimento da sexualidade feminina – conceito tomado de Joan Rivière – que o definiu como o mecanismo por meio do qual uma mulher finge ser mulher para proteger uma masculinidade ameaçada – é para Lacan a possibilidade que uma mulher encontra de se fazer amada e desejada por aquilo que ela não é. Nas palavras da autora: “A mascarada indica à mulher que ela é tanto mais desejável quanto sua falta, coberta por um véu, sugere mais do que mostra”. (p. 184)

Zalcberg, fiel aos últimos desenvolvimentos de Lacan sobre o tema da feminilidade, considera que, ainda que seja no campo mais-além do falo em relação à especificidade da feminilidade, se desenhe para a mulher, é na referência ao falo que ela precisa encontrar a cobertura simbólica que a proteja de cair no “nada” para o qual a sua indefinição corporal aponta. Cobrindo-se e enfeitando-se, a mulher permite ao homem fetichizá- la, fazer de seu corpo, e dela mesma, falo, objeto de desejo, fazendo-se assim, parceira do homem na comédia dos sexos, ele ao modo de ostentar uma potência viril, estando ela ao modo de mascarar uma falta.

Ela nos diz que a filha, para construir sua feminilidade, observará cuidadosamente a mãe, perscrutará a expressão de seu rosto, a postura de seu corpo, a forma como ela o cobre ou o revela, como em essência ela procura fazer-se objeto de desejo do homem (p. 186).

Entendemos, com Malvine Zalkcberg, que é nesse espelho no qual a menina primeiro foi olhada, que ela em seguida se olhará para mais tarde inventar- se, e que a criação de uma feminilidade possível pela filha depende em grande parte da mãe ter sido capaz de “criar algo onde nada existe”, no sentido de uma primeira identidade feminina, de ela ter tido receptividade ao corpo da menina, de tê-lo envolvido pelo olhar e pelas palavras.

Todo esse processo dá mostras da forte ligação que une mãe e filha. Essa ligação, estreita demais, a unir mãe e filha, precisa ser perdida, e para isso é com a disposição da mãe em perder a cumplicidade que as duas mantiveram na sua infância, e que a filha precisa contar. Malvine desfaz mitos. A mãe precisará se libertar da crença de que ela pode transmitir feminilidade à filha. A transmissão da feminilidade é ilusão da mãe. Foi ao longo dos anos da infância, quando mãe e filha privaram de intimidade, que as bases de sua futura identificação feminina foi sendo construída. Chegado o tempo, é permitindo seu distanciamento que a mãe estará ajudando a filha a se separar dela para tornar-se mulher à sua maneira.

O livro de Malvine Zalcberg, este que nos provê de farto material literário e de referências cinematográficas sobre a relação mãe-filha, além dos inúmeros exemplos tirados de sua clínica, encerra-se com traços poéticos. Ao fazer sua contribuição ao tema do feminino, renova o convite à criatividade que mantém a escuta no diapasão necessário à captação das singularidades em jogo na invenção de cada mulher.
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