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Resumo
Resenha de "Desafios para a psicanálise contemporânea" - Lucia Barbero Fuks e Flávio Carvalho Ferraz (orgs.). São Paulo, Escuta, 2003, 264 p.


Autor(es)
Nayra C. P. Ganhito
é psiquiatra e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do curso Psicopatologia Psicanalítica na Clínica Contemporânea neste departamento. Membro do EBEP-SP e autora de Distúrbios do sono (Casa do Psicólogo, 2001).


Notas

1. Coletânea dos textos apresentados no terceiro Ciclo de Debates, em 2002, pelos professores do Curso de Psicanálise.

2. Os temas são, pela ordem: Loucura, corpo e sentido; Maternidade, sexuação e vínculos na atualidade; Mudanças na subjetividade e dispositivo analítico; Passagens e simbolização: impossíveis?; O sonhar, a depressão e a neurose narcísica; e, finalmente, A clínica psicanalítica ante os novos destinos da pulsão.

3. D. Kupermann , Ousar rir - Humor, criação e psicanálise, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003, p. 68.

4. Referência ao título do artigo de Maria de Fátima Vicente, “Nu com minha música” ou “A alegria é a prova dos nove”.



Abstract
By Nayra C. P. Ganhito – review of Lucia B. Fuks and Flávio C. Ferraz (orgs.), "Desafios para a Psicanálise Contemporânea" This collection addresses the new questions and demands that face analysts today, and which originate from the sweeping changes in social structures in the last few decades. Those demands – which could be described as “this side of fantasy and beyond the pleasure principle” – are taken as a pivotal point from which new theoretical elaboration and new clinical techniques can be developed.

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 LEITURA

Admirável chip novo

Brave new chips
Nayra C. P. Ganhito


Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo (...)
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado...
Mas lá vêm eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema
“Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste, viva” (...)


Admirável chip novo
,
música da roqueira baiana Pitty,
dedicada aos “profetas”
Asimov, A. Huxley e G. Orwell

Sob o afluxo incessante de aportes tecnológicos, inundado pelas informações e imagens que são veiculadas, submetido a injunções econômicas, políticas e ideológicas que emanam de fontes invisíveis, perdido num campo de valores mutante e desprovido de utopias, o jovem sujeito contemporâneo tem o sentimento de estar fora de si, comandado por forças ou poderes indeterminados e externos ao seu desejo ou controle. A máquina biológica das ciências experimentais e seu sistema nervoso autônomo integram este sistema que lhe é transcendente, programando corações e mentes cujo funcionamento já “não é vivo nem orgânico”.

Os versos acima surpreendem ao expressar tal situação na primeira pessoa, soando como uma estranha “canção de protesto” diante do que seria a própria dessubjetivação. Numa existência que luta por adquirir algum sentido, o sistema que entra em pane é aquele imposto por “eles”, manifesto por enunciados imperativos dos quais nem o “seja” escapa, e, bizarra inversão, o fator desestabilizador é a emergência do sistema próprio de representações, que justamente deixa entrever o sujeito, embora “desconfigurado”.

Pitty é uma jovem que faz sucesso entre os muitos jovens, subjetividades imersas na vertigem das mudanças das últimas décadas, mediadas ou não por um entorno humano que se apresenta como anteparo ou pólo de questionamento. Por outro lado, os adultos se mostram desorientados, perplexos ou impotentes ao ter seu mundo de valores e projetos mais caros virados pelo avesso. A questão geracional é aqui central, já que os ideais de juventude que marcam a época faz dos jovens e adolescentes um modelo de subjetividade de nossos tempos, refletindo a cultura “como um espelho ampliado” (p. 139). Mas se Dora ou Anna O. não puderam em seu tempo empunhar uma guitarra e gritar sua revolta, o “I can´t get no satisfation” daqueles com mais de 30 talvez se afine mais com a insatisfação da modernidade e das histéricas do século XIX do que com o inquietante malestar da atualidade.

De qualquer forma, tratase sempre de efeitos de grande potencial traumático, numa época que poderia ser de transição, mas não chega a sê-lo, devido à falta de tempo e espaços de processamento e elaboração. Mas se o traumatismo pode paralisar e desencadear a repetição compulsiva, pode também, encontrando interlocução, num tempo segundo gerar frutos, ser fonte de saber e criação.

Numa comunidade analítica cuja marca é a consideração da historicidade nas formas de organização e sofrimento psíquicos, o resultado se vê aqui: deste terceiro livro da série que vem materializando os momentos públicos da produção do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae [1], pode-se dizer, talvez, que é o mais clínico de todos eles. Ao mesmo tempo, prestase como um rico testemunho de nossa época: o mal-estar na civilização é sempre dos sujeitos, cujos sintomas questionam a lógica instituída, como tentativa de resolução do desprazer gerado pela adaptação excessiva à cultura (p. 193).

A palavra “desafios” sublinha seu papel na constituição e desenvolvimento do campo analítico; especificamente, a atitude pela qual desafios vividos na clínica se convertem no motor das diferentes vertentes dessa prática: “método de pesquisa, modalidade terapêutica e teoria metapsicológica” (p. 9) Tematizando aquilo que na clínica atual escapa aos seus operadores “clássicos”, abre-se à revisão de alguns de seus pressupostos e ao mesmo tempo reitera a posição ética de seu fundador. O legado essencial de Freud é uma forma de conceber o saber que implica a crítica permanente das próprias construções, (p. 63) a escuta de indivíduos conduzindo ao questionamento das estruturas sociais, devido à relação conflitiva, potencialmente patologizante, entre anseios subjetivos e condições objetivas de existência, postulada em 1930, em Mal-estar na civilização (p. 193).

São 18 trabalhos organizados em seis eixos temáticos, apresentados por instigantes sínteses-comentários, que, juntos, dariam por si só uma resenha do livro. [2] Mas a viva e complexa trama de diálogo tecida pelo conjunto dos textos transborda esses recortes, remetendo a questões transversais à divisão original dos temas. Trata- se aqui de ecoar as ressonâncias que produzem entre si, o paladar das misturas, subtraindo algo do seu melhor – a densidade e o sabor singular de cada texto, seu ritmo e melodia próprios.

No diapasão geral dos trabalhos, o relato aprofundado de um caso é preterido por flashes ou breves citações clínicas, tentando captar o movimento geral das demandas atuais. Diante dos impasses existenciais e psicopatológicos da época, que escapam ao instituído teórico, impõe-se o recurso a saberes distintos da psicanálise, lembrando, nesse aspecto, os textos especulativos de Freud. Encontram em Débord (sociedade do espetáculo), Foucault (bio-poder), Baudrillard (realidade do simulacro), Roudinesco (sociedade depressiva), Benjamin (atrofia da experiência), Nietzsche e Deleuze (dança, ritmo, jogo, fluxo, alegria, riso), seus intérpretes críticos. No campo psicanalítico, Ferenczi, Winnicott e Lacan, e contemporâneos como Le Poulichet, Abraham e Torok, Galende, Birman e Rassial dialogam com a obra freudiana. Pode-se ainda inferir que adolescentes e mulheres protagonizam esses tempos de transformação, as últimas principalmente por meio das questões que atravessam a maternidade e as relações amorosas – as adolescentes grávidas em proporções estatísticas espetaculares, nesse sentido, figuram aí como uma curiosa condensação... ao lado das anoréxicas!

O muito cheio e o muito vazio vão delineando o perfil de um sujeito exteriorizado, inclinado à ação, raso em sua espessura subjetiva. Seu agir esvaziado de sentido pode ser performático, catártico, compulsivo, violento ou circunscrito à discrição normótica. Sem parceiros em seu individualismo exacerbado, encontra-se em estado de atonia afetiva, tendendo às relações adictas com substâncias e com o outro. Descompromissado, movido pela instantaneidade das sensações e das aparências, distancia-se do indivíduo da modernidade que se apoiou nos vínculos e nas instituições para dotar sua vida de projetos e de sentido. (p. 73) A rigidez identitária e dos superegos, correlatas à racionalidade e disciplina do ideário moderno, cede lugar “à lassitude das formas e ao paradoxo de identidades amorfas”. (p. 118) O burguês que recalca os impulsos por uma lei interna e o controle social que exige renúncias cedem a uma forma de instância cuja ordem reduz-se a “deixar-se levar” e a um “goza” ( p. 24).

As imagens plásticas refletem a leitura da contemporaneidade como tempos sombrios e como o cinzento mortífero de certos arranjos pulsionais. A paisagem metapsicológica do inconsciente do sonho, comparada ao polimorfismo dos quadros de Bosch, cede lugar à das neuroses narcísicas, correspondendo mais a um De Chirico – “grandes prédios monumentais isolados separados por imensos espaços vazios e silenciosos em que se recorta alguma figura humana, da qual não se sabe se o pouco que tem de humano não seria, justamente, sua sombra.” (p. 208). Um pátio nu, cimentado e frio substitui o playground da infância na entrada da adolescência: no “jogo da verdade” que aí se encena, o beijo não deixa marca de prazer, e sim do impacto do trauma (p. 138)

Mas sobre o escuro desse pano de fundo vibram, notórias, as imagens musicais, centrais em alguns trabalhos, ou pontuando aqui e ali o seu conjunto – um contraponto? Questão indicada no comentário de Silvia Alonso acerca do seu “Novos Arranjos para a Melodia”, preferido a metáforas gastronômicas que poderiam convir ao espírito da época por sua referência à incorporação – mecanismo diferenciado da introjeção, evocado em vários trabalhos.

Freud referiu-se a uma “potente e primordial melodia das pulsões”, sinfonia universal cuja escuta não deve limitar-se à contingência de acordes culturais. “As condições da cultura marcam caminhos para as pulsões”, mas trata-se, ante os arranjos que a pulsão encontra dentro das atuais restrições e exigências, de não perder de vista suas características essenciais – um alerta quanto a qualquer naturalização em nome do novo (p. 227).

Os arranjos pulsionais nos protegem do que a pulsão tem de mais indizível e violento, representando “uma forma inaugural de sublimação” (p. 236), mas algo em nossa cultura dificulta quer os bons encontros, quer os bons arranjos, deixando- a circular loucamente pelo corpo panicado, ou aprisionando- a em circuitos repetitivos ligados a um objeto quase-necessidade, ou ainda estancando-a como libido no eu. Como devolver a pulsão à sua errância original – errância para com os objetos de satisfação, o que nela há de mais contingente – permitindo arranjos mais favoráveis, é a pergunta que ecoa por todo o livro.

Alcimar de Souza Lima mergulha no campo pulsional das relações mãe-bebê, universo “pré-representacional ou apresentacional” de fortes intensidades que paulatinamente encontrarão arranjos por meio dos ritmos engendrados nas experiências da dupla. Há fluxo e melodia nesse universo, cujo compasso, espécie de partitura musical, exerce uma função marcadora pela qual as sensações alcançam uma potencialidade simbólica essencial. Sua articulação com a estrutura aberta da linguagem encontra no constitucional freudiano o elo perdido: sensações e afetos carreiam precipitados de gerações anteriores, a escuta podendo rastrear, neles, os lugares ocupados e desocupados pela ancestralidade. “Fort-Da transgeracional” organizado pelo ritmo e pela movimentação, cujo protótipo são as idas e vindas da mãe e depois o jogo como invenção ativa da criança com seu carretel (p. 26).

A eficácia da música real da voz e dos sons humanos (da mãe, do torturador, do assobio que comunica os torturados isolados em suas celas, da cantoria coletiva dos presos no Brasil dos anos 1980) atravessa todo o trabalho de Fátima Vicente. Afirmação da função constitutiva da voz materna, ao lado do olhar, quando oferece aos significantes um leito de musicalidade desejante. Condição que permeia o sucumbir ou o resistir nas estratégias de sobrevivência à demolição subjetiva visada pela tortura, na qual o isolamento é um elemento decisivo, ao lado das sevícias corporais. O torturador fala numa língua de certeza que remete o sujeito, no seu desamparo, a um Outro primordial transmutado, malévolo e perseguidor, cujo poder absoluto faz do extermínio e da aniquilação possibilidades reais. Mas a voz da mãe titubeia e vacila, submetida à estruturação aberta da linguagem que barra as certezas definitivas: nota que falta, nota de passagem para que o sujeito seja escutado como desejante, a instantaneidade da audição sendo o substrato para que a “sonata materna” seja recebida incondicionalmente como “algo que me ouve” (p. 165).

Embalo sonoro impresso por uma mãe-ambiente “em rede”, plugada no mundo globalizado, mas também na sua ancestralidade e nas suas relações atuais. Insinua-se o convite a um deslocamento da escuta do analista para registros assemânticos do discurso, contemplando as fontes sensoriais da palavra na materialidade das variações da voz. O trabalho na transferência adquire o caráter de uma orquestração pulsional realizada entre dois corpos, cujas intervenções privilegiam o movimento dos sentidos e não uma parada brusca significacional (p. 30).

De fato, o texto da canção de Pitty, lido em sua significação, perde o impacto conferido por sua voz de menina sobre a batida de guitarras rasgadas, sem nenhum axé ou concessão a baianidades faceiras incorporadas ao sistema. Sublinho também a sinistra coincidência entre os enunciados imperativos na cena da tortura – “os da obediência devida” – e sua forma social, a propaganda, presente no refrão: “Pense, fale, seja... etc.”

Novas formas de poder e controle sociais requerem outras estratégias de luta ou resistência. Queixas e demandas que não são inéditas na cena psicopatológia trazem como novidade sua insistência e predominância (p. 120), desafiando o corpo teórico e seus dispositivos clínicos. Depressões, adicções, distúrbios alimentares, somatizações, a paranóia e a normopatia marcam, no conjunto nos trabalhos, a queda da expressividade das neuroses na dimensão patológica. Ilustrando mecanismos ou funcionamentos psíquicos mais amplos, tais quadros sintomáticos reiteram a delimitação nosográfica como preocupação psiquiátrica ao passo que colocam o psicanalista “no limite de uma clínica psicanalítica “clássica”,... do conceito de estrutura, no limite da transferência e, talvez,.... da analisabilidade.” ( p. 118)

A distinção entre neuroses, psicoses e perversões é preterida à oposição entre neuroses de transferência e neuroses narcísicas, terceira linhagem entre as neuroses e as psicoses, com sua conflitiva peculiar (p. 203). Noções e conceitos da psicanálise situados aquém da fantasia e além do princípio do prazer passam ao primeiro plano: o traumatismo, as falhas na função simbolizante, o excesso e a desfusão pulsional e, no plano das defesas, os mecanismos de incorporaçãodevoração e a recusa (Verleugnung). Esboça-se uma clínica preocupada com as pré-condições da simbolização.

As depressões figuram como nova “doença moderna nervosa” como termo abusado e esvaziado de especificidade psicopatológica. Para Silvia Bolguese, o viés ideológico que liga a melancolia como traço da subjetividade burguesa à doença orgânica tratada por fármacos – mantendo um estado de “depressão normal”, produtiva e adaptada – convoca o analista a resgatar o seu significado. O humor freudiano abriria uma perspectiva diversa à dos “transtornos do humor”, justamente enquanto saída “rebelde” e sublimatória. Situado na relação entre ego e superego – herdeiro do processo civilizatório –, foca a questão nos embates do sujeito com a cultura, indagando de que modo a ordem social incide sobre os sujeitos que hoje buscam a via depressiva de resolução (p. 197).

Despojadas do pathos do luto, algumas depressões atuais seriam marcadas por “formas de recusa da realidade psíquica interna e externa” (aspectos sociais, do corpo, das relações intersubjetivas), manifestandose pelo vazio afetivo, estados ansiosos, queixas corporais e do sono, e o apelo a objetos-fetiche; pelo empobrecimento fantasístico e pelo caráter operatório do pensamento evocariam a “depressão essencial” de Marty (Fucks, M. p. 213).

Decio Gurfinkel propõe um operador clínico-teórico para o leque psicopatológico caracterizado por falhas na função simbolizante: o colapso do sonhar, inspirado pelo breakdown winnicottiano. Quadros aparentemente distantes se aproximam pela problemática comum de uma falha na organização do sujeito, seja do ponto de vista da primeira tópica (falha no aparelho psíquico, na psicossomática de Marty) ou da segunda (o eu, em Winnicott), preservados na clínica das neuroses (p. 180). A hipertrofia da ação presente nas afecções psicossomáticas se manifesta também nas adições, assumindo um caráter compulsivo-repetitivo que evidencia a pane do trabalho psíquico das representações e do próprio circuito pulsional, revertido do plano do desejo ao da necessidade. (p. 185) O trabalho psicanalítico, nestas condições, desloca-se da interpretação dos sonhos à função do sonhar em si mesma.

Outros trabalhos referemse à instalação de panes representacionais circunstanciais, em momentos de esgarçamento que solicitam reordenamentos, tais como a passagem adolescente. (Souza, M. L. R., p. 144). O adolescente parece dispor de meios que entretanto estão como que suspensos, lembrando a sugestão de Mário Fuks acerca de situações marcadas por impasses narcísicos: o hard do aparelho está intacto, mas falham as ligações que poderiam colocar o processo em marcha. Seu texto sobre as neuroses narcísicas detém-se especialmente no modelo incorporativo da melancolia e na recusa da realidade, defesa paradoxal diferente do recalque. “Introjetar é um processo; incorporar é uma fantasia”, que visa economizar a ratificação de uma perda que solicitaria ao psiquismo todo um remanejamento, equivalente a uma introjeção. Dinâmica próxima à teorização freudiana acerca do fetichismo, que evita a admissão da diferença sexual que imporia uma recomposição psíquica profunda dos aspectos narcísicos (p. 209).

Com efeito, a operação essencial da recusa é a suspensão do julgamento que permitiria introjetar as consequências de uma percepção. Sua relação com as experiências de despersonalização/ desrealização se apóia na afirmativa de Freud, crucial para as patologias atuais, de que a atribuição de valor (bom-mau, eu-não eu) precede a atribuição de existência. Nas situações de confronto súbito – retorno pela percepção – com o recusado, o sentimento de realidade vacila, seja referido ao mundo externo (desrealização) seja ao próprio sujeito (despersonalização).

A introjeção se refere à identificação com traços parciais, à incorporação ao ingresso fantasmático de um objeto total dentro do corpo, ligando-se à concreção real do ato em quadros como bulimias e toxicomanias (Alonso, S., p. 230). Processos incorporativos como forma de apreensão da realidade seriam promovidos na atualidade: em estado de fascinação passiva e hipnótica frente a imagens virtuais e idealizadas, o sujeito é levado a introduzir pela ingestão um novo objeto, “compacto e indiscutível”, no lugar do objeto perdido, bloqueando o processo introjetivo que implica mobilidade entre as dimensões narcisista e objetal. Modalidade identificatória que favorece também a incorporação de sintomas pré-fabricados, como forma aglutinadora (Uchitel, M., p. 125). A oferta de sintomas no mercado da mídia impõe como tarefa suplementar ao analista “devolver ao sujeito a possibilidade e direito a construir seus próprios sintomas”. (Ocariz, C., p. 110)

Modalidades da transferência, como os sintomas, não são a-históricas; os traços do sujeito contemporâneo se reproduzem na relação analista-analisando. Quais as condições de instalação da transferência quando a regra fundamental não se adequa pela dificuldade de associar livremente? Quando o silêncio do analista reverbera dramaticamente o vazio da simbolização (p. 97) e uma solidão já experimentada traumaticamente (p. 129)? O que define a intervenção analítica quando o predomínio de questões constitutivas e de falhas no recalque convidam mais às construções que à interpretação e seu dispositivo se recria na direção da versatilidade, da mobilidade e da experimentação? A incontinência e o excesso pulsional à margem das palavras no contexto da análise fazem indagar “sobre o objeto da repetição e as características da repetição em si” (p. 95)

Para Isabel de Vellutis, a questão não é alheia aos fenômenos transferenciais e se refere a dificuldades na representação dos objetos primordiais. O prolongamento do período inicial de ensaio e o investimento ativo no processo por parte do analista são pensados segundo o modelo de construção do objeto, como construção da categoria de ausência, intermediária entre presença e perda. Myriam Uchitel se dedica à discriminação de manifestações que escapariam ao âmbito estrito da transferência, afetando o analista por percepções sensitivas e corpóreas e do que é, induzido a dizer ou fazer, permitindo inferir sobre o funcionamento do paciente. Às vezes trata-se de contemplar “a repetição sem objeto à mercê de um movimento excitatório pulsional orientado pela necessidade primeira de controlar o estímulo”. (p. 128) A compreensão empática, os vínculos de apoio emocional onde o analista se presta como objeto idealizado, a inclusão do corpo na sessão (p. 129) são discutidas como estratégias. Cristina Ocariz privilegia o problema da relação compulsiva e voraz com os objetos movida por uma intensidade que busca enlaçar-se a qualquer custo. Quando o Outro da cultura se mostra inconsistente e arbitrário na circunscrição dos campos do desejo e do gozo, o analista é chamado a “introduzir significantes que separem o sujeito e sua demanda da busca de satisfação imediata, estabelecendo nova posição subjetiva... pela via do desejo e não submissão passiva ao gozo do Outro” (p. 109). É o prazer, e não a inanição, o que se constitui como defesa contra o excesso: a interpretação cede lugar ao ato analítico, que trabalha com a insaciabilidade da pulsão, incluindo a interdição.

O adolescer figura como paradigma da perda da eficácia simbólica com o advento da modernidade, denunciando as impossibilidades do nosso mundo sustentar simbolicamente as passagens da vida (p. 140 e p. 54). Vivido como substituto e herdeiro dos ritos pré-modernos, evidencia que a migração do processamento de conflitos do social para o interior do sujeito o condena a solitárias travessias, que tendem a prolongarse num estado de irresolução.

M. Laurinda Souza nomeia o terror do mundo contemporâneo e o profundo reordenamento da família, definido pela progressiva desautorização do lugar paterno e o incremento do poder dos filhos, como fatores complicadores. A fragilidade paterna “retorna especularmente nos filhos”. Nos quais a apatia ou a violência representam sinais de apelo à intervenção da autoridade incontestável de um pai ideal (p. 141-142). Num momento em que as duas gerações são confrontadas, em posições diferentes, com questões cruciais como a morte e a sexualidade, o trabalho de luto pode ser impedido por anulações mágicas de diferenças, impedindo, para ambas, a passagem e o encontro com a finitude.

Cleide Monteiro se ocupa do fenômeno colateral ao precoce ingresso na vida genital nos dias de hoje: a gravidez adolescente – indesejada? O encantamento dos pais em sua nova condição de avós indica que mecanismos de “desconhecimento” no adolescente quanto aos métodos contraceptivos podem operar também aí, na linha de uma recusa. No regresso do mundo social para o familiar que a situação exige, pais são reinvestidos de uma importância antes perdida, especialmente a mãe. Pergunta-se: o contexto da gravidez das filhas avalizaria a tendência ao prolongamento desta fase da vida tomada como ideal e idealizada também? Ou um filho, como representante fálico, é um objeto chamado a barrar o tempo adolescente e sua exigência de satisfação ilimitada e excesso consentido? Poderia ser uma tentativa de recomeçar o processo de outra perspectiva, invertendo alguns papéis?

Nos dois trabalhos a travessia da adolescência esbarra na hesitação dos pais em retirarem- se, abrindo essa possibilidade para os descendentes. A transmissão da lei do desejo para filhos crescidos implicaria que mãe e pai continuassem sendo um para outro homem e mulher; alijados de sua condição de adultos sexuados, despertos demais para seus filhos, falham nesta transmissão (p. 142). Mas isso esbarra na constatação de que na atualidade os desencontros predominam sobre os encontros amorosos, atingindo a conjugalidade.

As vicissitudes das relações e da sexualidade adulta em nossos dias são atravessadas pelo abalo das identidades tradicionais, impondo a tarefa de reelaborar um projeto identificatório no campo da identidade sexual – o que esbarra no conflito entre as configurações do ideal de ego, referidas ao sistema de valores de gerações anteriores e as coordenadas atuais.

Assim, a quebra da trama simbólica que distribuía poder e prazer entre homens e mulheres não reverteu em maior satisfação afetiva ou erótica. Para Lucia Fuks, o poder protagoniza a cena e o desencontro estrutural entre as fantasias que presidem a aproximação erótica para cada um se transforma numa confusão de línguas. Ela, em conflito interno entre a matriz de identidade feminina recebida no modelo maternal e reprodutivo e as exigências estabelecidas por suas “conquistas”. Ele, exposto a fragilidades desconhecidas, resiste, perguntando-se (ainda uma vez!) o que quer uma mulher – agora distante do modelo de suas mães e que parece prescindir de seus cuidados e amor em sua autonomia sexual e financeira. A violência, que não é estranha ao campo do erotismo, escapa ao domínio da fantasia e se manifesta como agressividade e competitividade nas interações do casal. Porém, tanto o homem violento como a mulher passiva são criações culturais: a atuação da violência visa recuperar um domínio sobre algo que se supõe padecer, e nos vínculos amorosos evidencia vivências de perda do poder que põe em crise identidades.

Para M. Aparecida Aidar, a sexualidade heterossexual “natural” tornou-se problemática, e a variedade das manifestações sexuais da atualidade valida indagar se, imposta culturalmente, encobria outras montagens ou se o momento propicia a emergência de neosexualidades como reinvenções reativas do erotismo. Sem desconsiderar a complexidade da noção de sexualidade em psicanálise – “a incerteza sexual é primeira à narcísica” e o mal-estar na sexualidade sempre se refere ao nosso, pela dimensão de incompletude que o outro lhe confere – sublinha a importância da vida sexual efetiva do adulto, para além das fantasias, introduzindo uma dimensão inexistente em versões anteriores, a qual pode ampliar as vias inconscientes (p. 69). Assinala ainda a confusão entre formulação inconsciente e formulação teórica na teoria sexual infantil do primado do falo: verdadeira para a criança fálica que insiste no adulto, neste não é necessariamente soberana. Aquilo que a teoria recalca produz efeitos clínicos, neste caso excluindo o polimorfismo que permitiria uma relativa mobilidade na ordem das representações. Indaga-se então sobre as possibilidades de desestabilizar a equação simbólica falo-pênis, saída teórica e política que implicaria pensar um masculino não-fálico.

Rubia Delorenzo denuncia a estranha ausência de estranhamento, na atualidade, ante um corpo – próprio? – re-cortado e suturado por fios cirúrgicos, cujas cicatrizes denegadas poderiam evocar sinistros Frankensteins. Corpo cujo estatuto se constrói no bojo da genealogia da concepção da vida como processos físico-químicos, em sua relação com o poder. Reduzido a “material biológico de que se pode dispôr”, desalmado, se aparta das experiências da corporeidade forjadas longe dos centros urbanos e de sua pósmodernidade: corpos complexos cuja “realidade dupla, carnal e simbólica a um só tempo” é parte viva de uma cosmogonia cuja dimensão sagrada não é recalcada. (p. 152) O questionamento ético se estende da banalização das intervenções estéticas à medicina dita curativa – e suas amputações, próteses e implantes, prescritos sob o imperativo do prolongamento da vida. As dimensões simbólicas do corpo são amputadas em proveito de sua funcionalidade mecânica ou estética.

Em contrapartida, Ana Sigal convida a pensar sob quais justificativas e em que medida a psicanálise pode articular essas dimensões naqueles que optam por servir-se dessa tecnologia, em casos extremos. Pode-se favorecer um apropriar- se subjetivo e crítico das práticas de fecundação artificial a serviço da vida – da mãe e de um bebê que possa amar como seu, “num momento em que seu corpo biológico trai o seu desejo” e no qual o destino da mulher não é circunscrito à maternidade. (p. 252) As incessantes mostrações do embrião e contagens de células dificultam a figuração própria ao processo primário e a imaginarização do corpo do bebê como corpo erógeno, demandando um trabalho de simbolização dessa filiação ( p. 262).

Nelson da Silva indaga os modos de capitalização da pulsionalidade e desamparo humanos na sociedade da imagem, em seus efeitos sobre a economia libidinal. A marcha civilizatória determinou que o homem, ao erguer-se do chão poluído por seus próprios excrementos e centrar sua vida pulsional sobre a visão, recalcasse outras formas de satisfação, sublimadas diretamente para a cultura. A progressiva privação de elementos sensoriais – olfativos, táteis e na cinética corporal – no presente tecnológico, no entanto, exigiria um montante inédito de renúncias pulsionais, “reeditando na realidade a teoria freudiana do recalcamento orgânico” (p. 244) No mundo virtualizado, no qual o sujeito é tão privado de corporeidade física como as mercadorias que consome, reduzidas a sua marca, a lógica do desejo é substituída pela da identificação, favorecendo a desfusão pulsional e seus efeitos mortíferos.

Aqui, o viés incômodo da teorização freudiana sobre a sublimação parece colidir com o convite à saída sublimatória apontada em vários trabalhos, abrindo um impasse. Mas a conceitualização da sublimação na psicanálise não é unívoca, convidando à pesquisa dos desdobramentos de duas vertentes abertas por Freud: dessexualização do alvo das pulsões ou saída independente do recalque, a qual cria objetos eróticos partilháveis culturalmente. [3]

Moisés Rodrigues desvela a dimensão paranóica do malestar atual, instalada pela definição de um eixo do mal “com rosto e geografia reconhecíveis”, desencadeando o determinismo circular entre o medo e o ódio. O campo privado dos fatos psicopatológicos articulase com as forças da realidade social: a eclosão de crises individuais se desencadeia por estados de emergência do contexto social imediato ao sujeito – perspectiva que marca sua leitura do caso Schreber. O excesso do corpo paranóico é ditado por uma autoridade simbólica em crise, que paradoxalmente se manifesta em transgressora, obscena proximidade do sujeito, invadindo sua intimidade tomada como sede de manipulações violentas que exigem o gozo. A estabilidade e saúde do indivíduo e da sociedade dependem da eficácia das operações simbólicas pela qual o sujeito é investido no seu lugar na cultura, moderando a dimensão de “magia performativa” inerente à toda autoridade simbólica e seus mandatos (p. 20).

Freud se ocupou do material no contexto da crise inaugural da consolidação do movimento analítico, quando rachas teóricos delimitavam um dentro e um fora do campo. Constatação solidária à preocupação de Flávio Ferraz: o funcionamento normótico como corolário das tentativas de normalização nas instituições analíticas, criando um corpo institucional compacto, defensivo, paranóico. A natureza epistemológica da psicanálise não a torna imune às circunstâncias do mundo; o zelo corporativo pela manutenção de sua autenticidade pode inibir o livre pensar, numa situação análoga à normopatia em casos individuais: atrofia do campo de experiência do sujeito, em nome da evitação da dor e da loucura. A questão desafia a criação de mecanismos institucionais que não reproduzam os que prevalecem nas grupalizações do mundo contemporâneo: massificação e não favorecimento da criação individual e coletiva.

Entretanto, a grupalidade parece imprescindível no processamento de certas crises e situações traumáticas, encontrando na elaboração do poema épico pelos irmãos, que sucede o parricídio no mito freudiano, o seu paradigma (p. 212). A fratria e a amizade vêm sendo propostas como alianças possíveis num mundo desagregador. Num momento em as pertinências parecem descartáveis, esse livro pode ser recebido como uma espécie de canto coletivo, cujo papel em situações desfavoráveis da existência é mobilizar as potências próprias de cada um: semelhante ao humor em sua dinâmica e função, longe de representar uma saída maníaca ou evitativa, inclui a dimensão trágica, mostrando que a alegria, em tempos sombrios, pode ser a “prova dos nove”. [4] Para quem é parte deste coletivo, soma-se o prazer de reconhecer, nos textos, o rosto dos colegas.
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