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Resumo
Este texto apresenta os momentos fortes de um tratamento: a do paciente Henri, cuja organização perversa se construiu como uma proteção contra a psicose. O mecanismo dissociativo, reconhecível neste trabalho, permitiu-lhe, num primeiro tempo, isolar o universo traumático no qual viveu, onde a sexualidade e a violência são indissociáveis. As cenas de grandes excitações que lhe foram infligidas precocemente inscrevem marcas que se mantêm em estado selvagem dada a carência de representações verbais tranquilizantes. Com a diminuição progressiva da dissociação, Henri descobrirá pouco a pouco o caráter totalitário e alienante do domínio materno, que lhe impõe o segredo como uma forma de contrato íntimo. Quem é ele, se deixa de ser aquele que é tudo para sua mãe? Seria presunçoso afirmar que Henri aceita hoje plenamente a ideia de uma versão paterna do mundo na qual ele poderia se reconhecer. O que é certo: o terreno da transferência lhe permitiu instalar um terceiro espaço no qual ele não se sente mais indispensável à sua mãe. Por outro lado, sua paternidade reforça uma conexão através das gerações e integra cenas perversas até então dissociadas.


Autor(es)
Annie  Topalov
é psicanalista. Possui extensa experiência clínica com pacientes psicóticos em hospital psiquiátrico. Atualmente conduz um grupo de pesquisa, “O trabalho da transferência”, na Federation des Ateliers de Psychanalyse. É autora de “D’un corps à l’autre” (Le coq héron, n. 190, 2007) e Freud avec Halbwachs: les conditions d’une inscription symbolique.

H. O´Dwyer de Macedo
é analista titular do Quarto Grupo em Paris, autor de "De l'amour à la pensée" (L'Harmattan), e organizador de "Le psychanalyste sous la terreur" (Rocinante).


Referências bibliográficas

Clavreul J. (1967). Le couple pervers. In: Le désir et la perversion. Paris: Seuil. [O desejo e a perversão. Campinas: Papirus, 1990.]

Ferenczi S. (1974). Psychanalyse dês habitudes sexuelles (1925). In: Psychanalyse iii. Oeuvres completes. 1919-1926. Paris: Payot. [Psicanálise dos hábitos sexuais. In Psicanálise iii - Obras Completas. São Paulo: Martins Fontes, 1993.]

Khan M. (1981). Figures de la perversion. Paris: Gallimard.

McDougall J. (1972). Scène primitive et scenario pervers. In: La sexualité perverse. Paris: Payot.

Réfabert P. (2001). De Freud à Kafka. Paris: Calmann-Lévy.





Abstract
This paper presents the highlights of a treatment: patient Henri, whose perverse organization was built as a protection against psychosis. The dissociative mechanism, recognizable in this work allowed him, as a first step, isolating the traumatic universe in which he lived, where sexuality and violence are inseparable. The scenes of large excitations which were inflicted early fall marks that remain in the wild due to the lack of verbal representations tranquilizers. With the gradual reduction of decoupling, Henri discover little by little the totalitarian character of the area and alienating mother, which imposes secrecy as a form of contract intimate. Who he is, is no longer one that is everything to her mother? It would be presumptuous to claim that Henri now fully accepts the idea of ​​a paternal version of the world in which he could be recognized. What is certain: the land transfer allowed him to install a third space in which he no longer feels necessary for their mother. Moreover, his paternity reinforces a connection across generations and perverse scenes integrates hitherto separated.

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 TEXTO

Trauma e Perversão

Henti, a reinterpretação dos sexos


Trauma and perversion
Annie  Topalov
H. O´Dwyer de Macedo

i. Apresentação:
Henri, a reinterpretação dos sexos

[Annie Topalov] 

Escolhi a escrita para lhes falar esta noite do tratamento de Henri.

 

A escrita de um tratamento impõe a organização de um imenso material clínico em que se mesclam várias histórias de transferência.

 

A escrita de um tratamento põe em destaque temas essenciais que, embora tivéssemos enunciado, nem sempre tínhamos inscrito como pedra angular ou como momento de virada no tratamento.

 

Apresento-lhes, portanto, a composição de todas as conversas que tive a respeito deste tratamento, conversas que o nutriram e apuraram.

 

Ao receber Henri pela primeira vez, mergulho numa atmosfera estranha: seu físico de homem parrudo me remete ao ambiente de Querelle, romance de Jean Genet que li faz vários anos. Chego a fantasiar que ele poderia estar saindo da prisão. Seu falar é curto, sem desenvolvimentos, seco, e os silêncios ficam rapidamente incômodos.

 

Recém-casado, sofre de falhas de ereção que não suporta, e ele me procura aconselhado pela mulher, que já passou pela experiência da psicanálise. Sua profissão lhe impõe deslocamentos permanentes para locais distantes. Por isso, a periodicidade das sessões será mutável, mas combinamos em garantir duas sessões por semana.

 

A dureza de seu pensamento irá se atenuar com suas confissões, e o trabalho da análise só trará frutos quando seus atos tiverem ganho sentido numa história da qual, ao menos por enquanto, ele não é dono. O termo confissão [aveu] não é inocente: refere-se a um inconfessável e, ao mesmo tempo, ao desmentido [désaveu].

 

E é toda a questão do desmentido, termo que discutirei mais adiante, que vai se desenrolar e ser escutada nesse tratamento, nos meandros dos próprios enunciados.

 

O indecidível como primeiro aparecimento do conflito psíquico

A homossexualidade de Henri se apresenta de início na forma de encontros efêmeros com homens sempre mais jovens que ele, detalhe importante, em que o fim buscado é a felação e em que estabelecer qualquer tipo de relação duradoura estava fora de questão. Findo o ato, Henri se sente sujo e larga rapidamente o parceiro, buscando o anonimato do sexo e não o vínculo. O que caracteriza as manifestações pulsionais de Henri é a satisfação imediata, nos moldes de um toxicômano que move céus e terra para obter sua droga. Portanto, é principalmente na rede da prostituição que Henri encontra seu "objeto sexual".

 

É a primeira vez que Henri revela esse segredo, embora tenha acabado de se casar. Casamento vivido como um alívio, vitrine social que o protege das questões que seus atos homossexuais poderiam suscitar. O temor de ser descoberto sempre esteve presente em sua vida desde a adolescência, e logo no começo do tratamento Henri me falará da oscilação, traduzida em porcentagens, entre sua sexualidade com a mulher e seu prazer homossexual. Essa dualidade tingida de angústia retornará como questão a ser resolvida: "sou homossexual? Sou heterossexual?", com uma verdadeira sensação de conquista quando ele consegue gozar com a mulher, gozo, no entanto, bem mais problemático do que com parceiros masculinos: "Com minha mulher, entro num esquema de tudo ou nada, quando não funciona e perco o desejo, me digo que sou homossexual e que não vou conseguir nunca. Quando funciona, sou um homem feliz".

 

Henri fica transtornado com essa oscilação permanente que ele se ouve pronunciar nas sessões, até o momento em que, voltando de férias, fala do alívio em me rever, pois está totalmente invadido pela indecisão de estar em um ou outro de seus dois espaços de sexualidade: "Eu já não sabia quem era... tinha a sensação de um branco... era impossível tomar minha mulher nos braços, eu o teria feito com qualquer um que passasse na rua... estava mais frio que um pedaço de pau". Essa sequência, que interpreto como levantamento brutal de uma clivagem, abre as portas para uma vivência de aniquilamento ante o envolvimento de Henri com sua mulher. Ele se sente invadido pelo retorno de uma posição psíquica em que prevalece a convicção de que é homossexual. Henri se consola "tornando-se ele mesmo rígido", um pedaço de pau, para se sentir "um pênis" com o risco de ser aniquilado.

 

Ter um pênis adquire aqui o valor do corpo inteiro no sentido de um Eu pênis, o que Ferenczi[1] ressaltou bem, mostrando que o corpo assume o lugar de um pênis insuficientemente erétil. Para Ferenczi, cito, "essa identificação do corpo inteiro com os órgãos genitais" é de grande importância, e quando submete a Freud essa descoberta clínica, Freud lhe responde, cito: "que os impotentes que carecem de coragem para as relações sexuais realizam o coito com todo seu corpo em suas fantasias, e talvez esteja aí a fonte de toda fantasia intrauterina.

 

Impressionada pela intensidade de seus afetos entre frieza e pavor, arrisco dizer que, se está em dúvida quanto ao seu envolvimento com a mulher, não é oportuno decidir a questão da escolha de seu objeto sexual por ora. Sua sexualidade bissexual é um fato que tem de ser pensado e desdobrado em sua análise antes de qualquer decisão apressada. Foi muito depois que Henri me contou o quanto minha intervenção o tinha aliviado. Mas, de quê? De um questionamento precipitado da homossexualidade que ele construiu para si como pseudorresposta identitária incestuosa com uma mãe que o idolatra contra um fundo de abandono, o que o tratamento mostraria mais tarde e que eu ainda não sabia.

 

A amarração existencial de Henri, no começo desse tratamento, depende do lugar que ocupa para a mãe. Eu o resumiria assim: "É minha mãe que centraliza tudo, meu pai não entendeu nada, ele não entra na dança, e eu sou quem confirma essa regra para a minha mãe, condenado a ser o mensageiro ativo de seus desejos para um homem que foge dela".

 

O que Henri tentou? Tentou se casar para manter em segredo uma sexualidade proibida? Ou, ao contrário, foi seu casamento que o precipitou num conflito psíquico em que é sua homossexualidade como outro gozo que ele vem questionar com uma analista mulher? Se Henri tivesse usado seu casamento apenas com a finalidade de iludir, poderíamos nos indagar sobre os motivos que o levaram a vir nos procurar. Uma transferência perversa consistiria em recompor ficticiamente uma relação com o analista como testemunha, cúmplice impotente, voyeur e ouvinte desarmado de suas práticas sexuais.

 

Optamos pelo conflito, e os desdobramentos do tratamento nos mostraram que, embora Henri tivesse tudo para afundar em práticas autoeróticas e numa passagem ao ato pedófila que principiara na adolescência, a transferência não se organizou de modo instrumental. Parece-nos, portanto, essencial diferenciar uma clínica da perversão de uma transferência perversa, distinção que foi sendo construída no decorrer de uma discussão com Heitor de Macedo. Nosso lugar de analista possibilitou para Henri um acesso ao "eu não sabia", ou seja, a uma pergunta feita a partir de um "não sabido" ali onde, no começo, havia uma certeza: a de jamais ter questionado o saber de sua mãe, sua única e indispensável interlocutora.

 

Os termos do contrato

A escolha do sexo do analista que Henri fez aponta para uma clivagem de que ele não tem consciência como tal, mas que ele introduz numa sessão por meio de um relato: durante um jantar, fica indignado com um primo que, na frente dos convidados, critica abertamente a sua mãe, ausente naquela noite. Ele não só não consegue nem cogitar um arranhão na imagem dela, mas ser-lhe-ia insuportável imaginar ter de escolher entre a mãe e a mulher se elas viessem a se desentender, embora ele no fundo soubesse que sua mãe levaria vantagem. Teria ele vindo buscar uma analista mulher para interrogar o desejo de sua mãe?

 

Expresso deliberadamente um grande espanto, sublinhando assim o caráter embaraçoso e a opacidade de sua posição subjetiva, que ele nunca pôde pensar por medo de questionar um narcisismo frágil totalmente construído no e pelo olhar da mãe.

 

Foi desde muito cedo, me diz ele, que o idílio deles começou: "meu pai não sabe falar direito, ele é rude com minha mãe. Ela se sente muito negligenciada e, quando fica deprimida, eu fico mal, isso me afeta, eu me sinto impotente... com ela a coisa corre solta, é fácil conversar, ao passo que, com ele, os silêncios são pesados". No seu discurso manifesto, ele descreve a mãe como uma supermãe. No entanto, em várias oportunidades irá evocar um aspecto mais sombrio de sua infância, em que a mãe estava muito desvalida e sozinha para cuidar de seus três filhos. Naquela época, por motivos de trabalho, seu pai viajava muito, e o relato lancinante de sua mãe insiste no fato de que ela só saiu de casa sozinha uma vez, quando os filhos eram pequenos. Sob a dominação do desamparo materno, Henri se constituiu como consolador: "Se eu ligo para o meu pai duas vezes seguidas, já espreito a reação da minha mãe, pois fico com medo de decepcioná-la... evito os assuntos que poderiam deixá-la inquieta... não posso ter uma altercação com ela e, se ela fica triste por minha causa, é insuportável. Eu preferiria de longe que ela me mandasse às favas, isso me faria menos mal".

 

Logo no começo da análise, Henri percebe até que ponto ele ocupou o lugar do pai: "Quando minha mãe não está bem, meu pai não a ajuda, ao contrário, pode ser ignóbil com ela... a depressão da mulher dele o remete à sua própria mãe e daí... bloqueio total. Por isso minha mãe espera tudo de mim desde sempre". Henri está evidentemente preso numa identificação maciça com a dor da mãe, com todos os ingredientes de uma posição masoquista reunidos. Posteriormente, em seu tratamento, ele me dirá: "É como se eu fosse minha mãe e a defendesse quando é preciso defendê-la". Ante a notícia da morte próxima de uma de suas antigas colegas de liceu em decorrência de um câncer, ele me dirá que o que mais o toca é imaginar a dor da mãe dessa amiga. Essa montagem identificatória lhe permite não pensar sua mãe e, ao mesmo tempo, não se pensar nessa catástrofe. Em vez de falar de identificação, seria, a meu ver, mais correto ver nisso uma técnica de incorporação que consiste em se tornar o objeto mãe. Masud Khan[2] fala, nessas situações, de um Eu que se apresenta como uma colagem em que as fases libidinais estão superpostas em vez de estarem integradas umas às outras.

 

A apoteose dessa "colagem" ocorre quando, adolescente, ele se pronuncia rejeitando abertamente o pai na presença da mãe. Na sua lembrança, o pai não disse nada, saiu de casa pelo menos uma noite e deixou de falar durante três dias. Depois de Henri ter se desculpado, a relação teria se restabelecido, graças, diz ele, à intermediação da mãe. É ela quem distribui os lugares psíquicos de uns em relação aos outros, subentendendo uma queixa insidiosa e permanente de insatisfação em relação ao marido ao qual demonstra, ao mesmo tempo, uma grande devoção. Ela encontra em Henri uma orelha compreensiva. Este último, quando me procura para falar de suas falhas de ereção com a mulher, não tem a menor ideia do contrato perverso de que é objeto. Acredita plenamente que o casal que forma com a mãe deve-se tão-somente às dificuldades de seu pai, e que desde sempre seu dever foi socorrer a mãe. Será no tratamento que irá descobrir aos poucos o caráter totalitário da dominação materna e, assim, adquirir maior certeza de que seus pensamentos são confiáveis, pensamentos que até então eram flutuantes "em função", diz ele, "de quem teve a última palavra".

 

As cenas perversas:
pôr em cena para dar sentido

Logo no começo do tratamento, Henri me fala de sua sexualidade, que ele qualifica de "pirada". Entendo imediatamente que ele quer me falar de algo que não são seus encontros homossexuais. De fato, Henri expõe com meias palavras uma cena sexual de intensa excitação com uma criança de menos de dois anos de quem ficou cuidando uma noite quando tinha dezessete anos. Escutei suas palavras, ditas sem afeto, com uma sensação de vertigem. Foi somente mais tarde que Henri, em resposta a uma de minhas perguntas, falou de seu ato: "Acho que lhe fiz uma felação... depois ele [o menininho] quis ir ao banheiro... ele fez cocô... ao limpá-lo, senti nojo, paramos tudo, eu o pus na cama.. A respeito de felação, duvidei das palavras de Henri perguntando-me: quem fez felação em quem? Pois a reversibilidade dos papéis no ato da felação tem um interesse clínico. Ele conta essa cena com dificuldade e segue-se o silêncio... nenhuma associação... nenhum esboço de tentativa de dar sentido. Somente uma observação sobre a idade da criança: "dois anos não é uma idade que me atrai, mas eu sabia que ele não diria nada".

 

Henri estava me contando um cenário isolado dentro de um longo rébus em que a descarga sexual só pode encontrar expressão fora, diz ele, das normas convencionais. Esse "fora", esse "não convencional" retorna com insistência, embora Henri não faça nenhuma associação consciente com o fora do casal que ele forma com a mãe, num trio em que seu pai é tacitamente aceito apenas como espectador impotente.

 

Parece-me importante reconstituir o desenrolar dos encontros de Henri nos quais sexualidade e violência são indissociáveis e nos quais as cenas de superexcitação, inicialmente padecidas, tornam-se mortíferas. A posição sádico-agressiva que tinha sido suprimida na relação com a mãe fica completamente desinibida nessas passagens ao ato. Todas elas têm em comum um fundo incestuoso evidente e não têm o estatuto de lembranças, mas sim de um "sempre presente" que não conhece a temporalidade e, portanto, o recalque. Henri viveu num universo traumático, que ele isola para sobreviver. O conceito de clivagem narcisista de Ferenczi é muito útil aqui, pois designa o que permite que o sujeito não seja totalmente tragado pela mãe.

 

Com seis anos, Henri é o alvo de maus-tratos de primos cinco anos mais velhos, que encontra regularmente nos fins de semana. "Eles eram trash", me diz Henri, "eles me diziam: a gente vai te mostrar como a vida é... eu não tinha nenhum senso crítico sobre o que eles me mandavam fazer". É com um deles que tinha frequentemente o que chama de "jogos sexuais de adultos": "A gente ficava nu, muito excitado". A dominação dos primos é maciça, a idolatria de Henri em relação a eles, impressionante. Ele imagina ser o mascote deles, mas não é bobo e teme a brutalidade deles.

 

A diferença de idade é um detalhe importante, que irá reaparecer mais tarde no tratamento quando Henri insistir na inversão de papéis: fazer o menorzinho sofrer o que ele sofreu com os mais velhos. As escolhas homossexuais de Henri na idade adulta põem-no na posição de controlar um outro suficientemente desvalido. Ele acrescenta que os encontros com homens que tomam a iniciativa não foram bons para ele. Isso não tem nada a ver com uma escolha homossexual em que o outro é um objeto de amor, o outro é um instrumento de seu gozo, única condição para se assegurar de uma função pseudofálica reparadora.

 

Prova disso é que, dos dez aos treze anos, ele tem uma relação incestuosa com sua irmãzinha em que só é admitida a felação. Virá se juntar um priminho do lado materno e depois, mais tarde, outro primo, também do lado materno, quatro anos mais novo que ele. "Eles penaram um pouco", me dirá Henri. Depois de novo a irmã mais velha de um dos primos é objeto de sua cobiça.

 

Foi bem no começo de sua adolescência, durante uma estada no exterior na casa de uma tia paterna, que Henri, com doze anos, experimentou uma grande excitação ao sair nu de um banheiro que dava para uma escada de incêndio, consciente do risco de ser visto. Nesse momento de sua vida, os banheiros são o local preferido para suas interrogações: passa neles horas pelado e às vezes fantasiado com batom e saia, imagem emblemática de uma mãe dotada de um pênis, expressão muito assustadora da recusa da castração, tanto da sua como da de sua mãe. A ideia de que uma mulher seja atravessada pelo desejo de um homem é para Henri uma língua estrangeira. O que ele compartilha com a mãe é erogeneidade e não sexualidade. Ele não cessa de questionar seu pênis de modo compulsivo e excitatório, numa relação circular com uma mãe que só lhe dá acesso ao pai por meio de um aviltamento permanente.

 

Que dizer de suas vontades de nudez senão que elas interrogam um momento que prepara para a diferença dos sexos? Se sua mãe é dotada da potência fálica, o que ele pode fazer com o que lhe resta da ideia mais que medíocre de seu pênis? Senão, como bem diz Joyce McDougall[3], "ressuscitá-lo eternamente para ser outra vez reparado ou dominado na cena sexual perversa". Ali onde, na neurose, a base da identificação aos pais possibilitou uma representação simbólica da diferença dos sexos e do transgeracional, a história de Henri nos mostra um caminho completamente diferente, que ele reconhece numa sessão ao falar do casal que forma com a mãe: "fiz com minha mãe tudo o que ela deveria ter feito com meu pai". Como escreve Clavreul[4], não há um antes e um depois que caracterizariam o desejo de Henri, não há um antes em que a criança se ilude sobre seu desejo por sua mãe, não há um depois em que a desilusão de seu desejo dá lugar à entrada na dança da castração.

 

Numa noite particularmente chuvosa - sendo a chuva um elemento que reforça sua sensação de nudez -, Henri sai nu e vai se meter numa poça d'água, com o sexo erguido em grande excitação. Só uma cloaca, na falta de representação da cavidade materna, lhe garantiria uma aparência de posse fálica. O império do pré-genital, aqui uma poça, serve de supermercado para sua excitação efêmera e que tem de recomeçar sempre. Naquela época, o onanismo era compulsivo, com um ritual repetitivo: assumir posições como se estivesse urinando sobre si mesmo, muitas vezes nu, na banheira, e gozar de pensar que está sujo. Esse caráter compulsivo marca a suposta incapacidade do bebê Henri de internalizar experiências apaziguadoras, e sua relação com a mãe só é pensável em termos de identificação externa, ou seja, de colagem, fazer o que sua mãe quer que ele faça. Portanto, não há ou há pouca representação interna.

 

No colégio, Henri nem sequer imaginava que uma moça pudesse se interessar por ele. No melhor dos casos, ele é o confidente gentil e transparente delas. Sua falta de iniciativa e seu pouco interesse por brincar quando criança contrastam incrivelmente com sua empatia muito marcante com a mãe. Naquela época de sua vida, a transgressão é generalizada: ele rouba nas lojas, pega escondido o carro dos pais embora não tenha carta, faz tudo o que não se deve fazer. Mais tarde, durante seus anos de estudo, Henri se muda para longe da cidade natal e divide um quarto com outros estudantes. As compulsões masturbatórias acordaram-no muitas noites com o temor de ser ouvido ou descoberto. Naquela época, Henri tem desejos de suicídio, está longe da família e vive essa separação como um trauma de efeito retardado que o remete ao desinvestimento regular de que era objeto, quando criança, nos períodos depressivos pelos quais a mãe passava.

 

A primeira relação sexual por penetração com uma mulher ocorre com Laura, uma parente com trissomia, da mesma idade que ele. Ele tem vergonha dela, acha-a autoritária e mandona. Essa mulher encarna o calvário de toda a linhagem paterna. É quem carrega o monstruoso e a inumanidade da história dos avós paternos.

 

O risco narcísico

Foi portanto bem tarde que Henri conheceu algumas mulheres, com as quais os casos não deram certo, pois ele não consegue pensar nem o enfrentamento com a mãe, nem a impossibilidade de se identificar com o pai - outra vertente que vou desenvolver um pouco mais adiante. Virá, portanto, me procurar para reconhecer e limitar a potência materna e para se ouvir dizer a inconsistência afetiva de sua relação com o pai. Será essa a trama essencial que irá se impor ao longo da análise, sabendo que essa descoberta implica imperativamente levar em conta o risco narcísico que ela supõe: o que aconteceria com Henri se ele deixasse de ser aquele que é tudo para a mãe?

 

Portanto, o risco não está somente na ação psíquica que consiste em se interrogar sobre seus pais[5], mas também no acesso a uma vivência em que seu pensamento não lhe pertence. Com efeito, uma parte do psiquismo de Henri vive e pensa segundo a vontade do outro a fim de que este último tenha uma boa imagem dele. É uma proibição que chega ao ponto de deixar uma faxineira impor um preço injustificado para "ser como se deve ser", de dizer à sua mulher que ele é muito ativo no seu trabalho para que ela não imagine que ele poderia não fazer nada. Cito Henri: "Não se trata do conteúdo do pensamento, mas do julgamento dos outros, do fato de que eles não vão mais me amar... Em grupo, fico sempre com medo, prefiro não entender a intervir e fazer perguntas... ou então... eu me sinto muito sensível, se um melodrama faz as adolescentes chorarem, eu também choro. A forma rapidamente prevalece sobre o fundo".

 

A forma seria esse pensamento a serviço do outro que eu interpreto como uma defesa contra o desmoronamento psíquico. O fundo é essa dissociação que Henri integrou bem cedo na vida: ser o objeto indispensável da mãe para não se perder nela. É o que provavelmente ele revive nas suas passagens ao ato homossexuais: uma necessidade imperiosa de algo no outro que ele pega, sem consideração pelo parceiro. Portanto, está em jogo tanto sua identidade: "se sou o que você quer que eu seja, então quem sou para mim?", quanto suas identificações: "sou um camaleão, e impor meu ponto de vista é impossível". Henri ora é influenciável, a serviço da dominação materna, ora está às voltas com um mundo onde até agora a sexualidade viu-se reduzida à excitação sexual. É esta que ele renova incessantemente numa relação de predação/abandono para fazer frente à angústia do vazio pulsional. Retomo aqui a tese de Masud Khan que vê a perversão mais como uma fixação a uma atividade do que a um objeto. Ele sugere que esses estados de excitação são uma defesa maníaca contra sensações de desarticulação do Eu, em que o "fazer" predomina sobre o "ser".

 

Numa sessão, Henri me contará: "quando pequeno, havia um menino espontâneo. No dia em que comecei a dizer o que queriam que eu dissesse, tenho a impressão de que estava cavando meu espaço e, desde aquela época, eu funciono assim". No entanto, seu gozo se organiza com esse espaço cavado, e nele se instalou sem texto, compulsivo e repetitivo. Quando tinha por volta de dez anos, um menino de uma turma de amigos lhe disse: "eu não gosto de você!" e Henri rememora ter escutado essas palavras como uma verdade que vinha desmascará-lo, confirmá-lo em sua posição de criança diferente desde sempre. Essa sensação vai muito além das primeiras cenas de abuso sexual por seus primos, ele sabe disso desde sempre.

 

Há uma sessão que ficou marcada para mim, porque ela cruza com a questão identificatória, a questão identitária, no sentido de que o que Henri percebe como afeto não leva a nenhuma representação simbólica que ele possa processar. Por isso, a saída que ele encontra é calcar o afeto na demanda do outro. Assim, a respeito da depressão de sua irmã menor, ele me dirá: "certa noite, ao telefone, percebi que o fato de ela estar muito mal não me afetava e eu me forcei a ficar afetado, eu funciono assim... não quero que as pessoas me julguem por minha insensibilidade... isso não mexe nem um pouco comigo e é algo que me questiona... e quando acaba me atingindo, fico aliviado, como se eu fosse culpado de não dar a resposta adequada".

 

Nas organizações psicóticas, o afeto se reduz a um sistema perceptivo destituído de existência em si, pois está cortado de toda representação. Estou pensando num paciente melancólico que, embora sentisse que a carne que estava comendo estava estragada, só tomou consciência disso quando sua mulher lhe disse. A percepção é sentida, mas não é operante, flutua à espera de ser alocada pela emoção de uma palavra. Em Henri, a resposta afetiva é aquela que o outro espera, ou seja, estamos diante de uma organização que Winnicott qualificaria de "falso self". Masud Khan[6], por sua vez, descreve um fenômeno de dissociação da experiência de si em que a criança, desde muito pequena, integra que aquilo que sua mãe quer dela é algo muito especial e não a sua pessoa como um todo.

 

Mas, diferentemente da resposta psicótica que pode chegar até o delírio, Henri constituiu para si um "fora" da dominação materna, aquilo que ele chama de "fora das normas" e que constitui para ele um equivalente de "espaço outro". Assim, a transgressão seria não só a única resposta à dominação materna, mas também um modo de impor ferozmente seu pseudopênis ali onde, na neurose, o homem o tem de modo a poder colocá-lo em risco. A transgressão, longe de inscrevê-lo no espaço de seu pai, nos indica também que Henri não tem nenhuma representação de um espaço materno acolhedor, no sentido de um espaço psíquico cavo. Ser dotado de uma função fálica não é apenas questão de castração, implica inevitavelmente uma passagem pelas identificações maternas. Aliás, a ereção não contém em si mesma a virtualidade da cavidade em que virá se alojar?

 

Dar-se outra imagem de pai

Tudo o que Henri pode dizer do pai, ele aprendeu da boca da mãe. Logo, ela é o porta-voz, o pistolão, a alcoviteira. O próprio Henri reconhece que desde sempre integrou a não palavra de seu pai. Sua mãe se outorgou a reinterpretação da história do marido a fim de afastar Henri de uma eventual curiosidade ou interesse pelo pai. Como objeto do desejo da mãe, Henri não convoca nem o saber nem o desejo do pai. Concordo com a tese de Clavreul[7] de que, para o perverso, não há precessão do pai. É a anterioridade de seu saber sobre o desejo que faz que um pai possa permitir o reconhecimento, por seu filho, da diferença das duas funções parentais e, por isso mesmo, da diferença dos sexos. Ora, o pai de Henri sabe tão pouco de si quanto ele. A ilusão de Henri de ser o objeto do desejo da mãe não é modulada pelo pai.

 

Não haver precessão do pai significa que, para Henri, é sempre a partir do desejo da mãe que ele entra em contato com o pai. Assume o lugar de negociador do desacordo entre eles com a íntima convicção de que é a favor de sua mãe que negocia. Seja por compras diversas ou por desejos de saída, Henri estava até agora encarregado de administrar o desejo do pai para satisfazer a mãe. Apenas paulatinamente é que ele tomará consciência de que é usado.

 

Descobre também que seu pai é mais desvalido do que imaginava. Uma grave somatização no olho anulará um projeto muito aguardado por sua mulher. Embora vá regularmente passar bons momentos com os amigos, aparece nas palavras do filho como um homem que não quer ficar sozinho com a mulher. Ante cada uma das demandas desta, ele responde de uma ou de outra maneira, pela desistência ou pela esquiva. Somente mais tarde no tratamento é que Henri irá se questionar sobre a ligação entre a loucura da mãe de seu pai e a posição de seu pai em relação à própria mulher.

 

Outra descoberta concerne à posição de salvador que seu pai ocupa em relação a toda a sua família ampliada, que ele nunca deixou de ajudar financeiramente, recuperando várias falências financeiras de uns e outros. O efeito da constatação por parte de Henri desse apoio ilimitado é humanizar um pai que até então carecia de todo interesse. Essa descoberta, embora tenha mudado a direção de seus pensamentos, não modificou realmente a ausência de desejo pelo pai, mas abalou sua crença no que diz respeito à mãe. O pai de Henri, "Noé universal", se construiu em cima do desmoronamento psíquico de seus próprios pais. É elogiado por sua retidão, mas aqueles que ele ajudou não reconhecem a dívida que têm com ele. Fez tudo com as próprias mãos e sua ética é: "querer é poder". Essas afirmações paternas não fomentam o diálogo, apenas alimentam a exclusão de sua palavra, que, por isso, não é levada a sério.

 

A impotência do pai de Henri é um enigma para ele, apesar de hoje perceber mais claramente a recusa e a onipotência da mãe. Assim sendo, dois vetores irão se cruzar e ganhar destaque no tratamento: por um lado, a filiação transgeracional de seus dois pais tomados isoladamente em sua história, mas sobretudo o efeito sobre ele do encavalamento inconsciente de seus dois mundos psíquicos. Sua mãe, como veremos adiante, fazendo-se a guardiã da loucura da história do marido, e seu pai, por seu apagamento, cedendo espaço para o discurso e para a lei das mulheres. Henri se lembra, ao voltar do exterior, do reencontro com o pai, que lhe disse: "Tua mãe está contente de te rever". O pai de Henri nunca fala dos próprios pais; seu silêncio a respeito da loucura da própria mãe é sinal, nos diz Henri, de um distanciamento radical.

 

Num momento posterior do tratamento, por ocasião de uma caminhada de Henri com o pai, este lhe contará que compartilhou muitas coisas com seu próprio avô materno, mas que nunca voltou a vê-lo depois de ter ido embora. Essa confidência paterna é recebida por Henri como uma informação, mas sem qualquer afeto, o que ele enuncia claramente com uma ausência de interesse: "Fiquei muito excitado ao ficar sabendo coisas do meu pai para trazê-las para você como um troféu de caça". Eu: "Como se fosse preciso satisfazer quem?" Ele: "Sim, como se eu tivesse feito direitinho minha lição de casa durante as férias". Eu: "A ligação entre essas duas histórias é a relação de exclusividade que você tem com sua mãe". Ele: "É, mas eu também sou assim com minha mulher, brinco de marido perfeito". Esse marido perfeito, ou melhor, essa criança que esconde o jogo por não conhecer suas regras, me convida frequentemente na transferência a participar das justas femininas entre sua mulher, sua mãe e suas irmãs, quando, na verdade, o que está em questão para ele é sustentar uma palavra de homem.

 

É no cerne de seus enunciados que o desejo de Henri pelo pai está ausente. Diz nunca tê-lo pensado como modelo nem ter tido qualquer cumplicidade com ele quando era pequeno. Lia a decepção no seu rosto quando lhe mostrava sua ausência de interesse por todas as atividades que lhe eram propostas. "Com meu pai, tem um lado doente, fico pensando que ele teria que falar, isso faria bem a ele e a mim. Nada é espontâneo, não vem de dentro, é um exercício prático, sinto-me pescando e faço de tudo para que ele morda a isca". Quando seu pai, num momento de intimidade, lhe faz confidências sobre dois de seus irmãos mortos ainda crianças, Henri não se implica afetivamente.

 

No entanto, aos vinte e cinco anos, Henri decide, além de seu trabalho no comércio, formar-se como guia de montanha, seu sonho desde a adolescência. Será nesse momento que receberá o apoio do pai contra a angústia da mãe. Seu pai aproveitará a oportunidade para também se formar em escalada, apoiando-se no desejo do filho. Henri reconhece que ter escolhido essa atividade como verdadeiro compromisso libertou-o da pressão do olhar do pai, mas também de uma pressão social "convencional", como diz ele, que lhe era penosa quando trabalhava no comércio: "meu desejo de ser guia de montanha é meu cantinho, onde ele me reconhece, não o decepcionei. Eu me sinto o referente nesse esporte [sic]."

 

Reiterando a questão do vínculo cerebral com o pai e do afeto reservado para a mãe, ele enunciará sua fantasia da seguinte maneira, graças a uma colocação equivocada da minha parte: "Se eu escolhesse meu pai, seria como me passar para o outro lado". E eu lhe digo: "como se você abandonasse sua mãe!". Ele: "Não, como se eu a enganasse, porque nessas coisas sempre há cumplicidade. Se eu o disser para o meu pai, eu a traio, traio um segredo". A nuança que Henri introduz poderia, a meu ver, ser objeto de um desenvolvimento clínico interessante sobre o medo do abandono na experiência psicótica e, por outro lado, sobre o medo da traição no contrato perverso, que também pode dar em abandono, mas de outro modo. Da mesma forma, podem ser encontradas muitas manobras perversas no vínculo psicótico. Contudo, o suporte do segredo assentado sobre um contrato íntimo é o que de fato amarra Henri à sua mãe.

 

A ruptura do contrato é vivida como traição. A cumplicidade perversa prevalece aqui sobre a vivência mórbida da psicose, pois introduz de forma ilusória um afeto vivo, frágil base narcísica que permitiu que Henri não se sentisse abandonado. Concordo aqui com a tese de Clavreul de que não há, verdadeiramente, dimensão ilusória nas psicoses, e muitas vezes notei que, quando a verdade surge, a resposta delirante vem dizer o quanto o mundo psíquico do sujeito não pode integrar essa verdade. A questão da violência da verdade se constrói apaziguando-se no decorrer de longos anos de análise. Querer ir rápido demais na revelação subjetiva sempre contém o risco de uma resposta delirante.

 

Proponho a tese de que o sentimento de cumplicidade num contrato perverso é um equivalente do fetiche por seu caráter ilusório, por um lado, e substitutivo por outro. Ilusório, pois a cumplicidade dá a Henri uma aparência de existência viva pelo lado de um afeto tacitamente reconhecido por ele e pela mãe. Substitutivo, pois essa cumplicidade o põe no lugar do pai e, mais que isso, o põe na expectativa de fazer melhor que ele. É sobre essa montagem que ele se constrói uma aparência de função fálica.

 

O que vêm nos dizer os sonhos

"Hoje à noite eu não dormi bem, fiquei imaginando a minha reação se minha mãe morresse, e minha primeira reação seria ficar com raiva da minha mulher". O contexto dessa fantasia é a incessante advertência de sua mulher contra a invasão materna, que mergulha Henri numa ambivalência e numa dificuldade de se posicionar. Toda uma série de iniciativas de sua mãe será sentida pela mulher como invasões e terá um efeito impressionante sobre ele, e cada sessão de análise ficará saturada pela ideia perturbadora de uma escolha, isto é, de uma mudança radical de quadro de pensamento. Seu mal-estar interno está hoje a céu aberto, tomar posição equivale para ele a sustentar uma palavra diferente da da mãe, uma palavra de homem da qual não tem nenhum saber.

 

Um ano depois, explode uma nova crise. Novamente, Henri passa do papel de confidente da mulher para o papel de confidente da mãe, com todo esse turbilhão vertiginoso sendo descarregado por telefone, a posteriori com a mãe, num cotidiano doloroso com a mulher. Dividido entre sua culpa de excluir a mãe e a constatação de nunca ser escutado ou levado a sério quando tenta intervir, Henri me traz nesse contexto um sonho recorrente: "Estou num time de futebol e sou mais que o elo fraco. Não consigo dar um chute na bola, não consigo correr, nem andar. Aproximo-me da bola e chuto ao lado, é frustrante". Todas as sessões que se seguem a esse sonho anunciam um começo de agressividade: "resmungar é algo novo para mim", ele declara, ao mesmo tempo que reconhece que a palavra do pai não é escutada pela mãe. É Nadine, sua mulher, que a limita, a frustra, moldando para si o lugar de uma perseguidora engajada que pretende desmascarar a dominação materna sobre seu marido.

 

Um sonho, que acredito ser fundamental no seu efeito de a posteriori, marca uma guinada transferencial no tratamento de Henri. Cito-o: "É uma saída em grupo; dois grupos tinham se formado e eu estava excluído e estava completamente nu sobre um banco. Estava virado para um grupo que me ignorava e que depois me vê; na verdade, perdi o bonde de me enturmar".

 

Engatam-se várias associações, entre as quais a ideia recorrente de que, quando pequeno, ele não se sentia enturmado na escola, no colégio, no liceu. Sentia-se, nas suas próprias palavras, uma peça fora de lugar. O fato de estar completamente nu em algum lugar é um sonho recorrente acompanhado de vergonha.

 

Na sessão seguinte, fala de novo da questão da nudez relacionada com o medo de ser descoberto, "posto a nu", como se diz. Com seus colegas, evita qualquer encontro que possa convocá-lo subjetivamente. Tem também a impressão de que não escolhe suas atividades em função do que quer, mas em função do que acha que os outros gostariam. Por exemplo, prefere declarar ter visitado uma cidade em vez de dizer que ficou sem fazer nada no quarto de hotel, o que significaria para ele um começo de confissão de suas atividades masturbatórias. Em seguida, na continuidade da nudez/verdade, confessa sua vergonha pelo fato de que sua mãe ainda o veste às vezes, como ela sempre fez. "Quando ela compra para o meu pai, ela compra para mim", diz ele.

 

Na sessão seguinte, volta a evocar seu sonho e eu lhe proponho uma tradução que reúne, creio, um grande número de ideias que ele trouxe para a análise. O grupo para o qual ele está voltado seria o grupo das mulheres, sua mãe, suas tias, que na realidade é muito poderoso e não o nota como homem, mas se certifica de sua solidariedade clânica com elas. Como se enturmar nesse grupo? Esta é a sua questão, à qual ele não cessa de responder calcando sua resposta no desejo esperado do outro. O outro grupo, o dos homens, ainda não o interessa.

 

Com o relato desse sonho, Henri tenta, parece-me, partilhar na transferência o esboço de uma reinterpretação da diferença dos sexos, ali onde nada viera questionar suas próprias fundações psíquicas. Cito novamente Clavreul[8]: "Portanto, a descoberta da diferença dos sexos para o menino é, antes de mais nada, uma oportunidade de reinterpretação da causa do desejo, e é essa reinterpretação que, afinal, o perverso deixa de fazer". Interrogar seu lugar no desejo da mãe equivale a interrogar, no seu sonho, o modo como é visto pelo grupo das mulheres.

 

Será também nessa mesma sessão que Henri irá insistir na pouca idade de seus parceiros masculinos para garantir o controle de sua excitação, e aceitará a ideia de que provavelmente trata-se de recuperar o vínculo de uma dominação materna invertida: identificado com sua mãe, ele pode gozar do corpo dos outros excluindo qualquer vínculo que o confrontaria com o vazio de seu pensamento. Contudo, o que ele ainda não consegue formular claramente é sua vivência de criança abusada confrontada com a alternância entre uma cumplicidade ilusória com a mãe e um abandono absoluto do garoto em construção.

 

Reinterpretação dos sexos

O trabalho do sonho não deixa de ter efeitos: é a primeira vez que Henri me liga para pedir uma sessão urgente. Está voltando de uma temporada passada com a mulher e a filha a convite de sua mãe. Está muito mexido, completamente zonzo. Descobre uma mãe muito manipuladora, que quer sempre ter a última palavra, e ele confessa já não saber quem ela é. Ela passou todo o tempo dando ordens à sua mulher sobre o modo de educar a filha deles. Além disso, percebe a manipulação insidiosa permanente por meio da qual sua mãe se empenha em monopolizar sua filha denegrindo-os, os pais.

 

Não há nenhuma culpa ou mal-estar nessa dominação materna, o que Henri sente equivocadamente como ingenuidade da parte dela. Ela não hesita em contar-lhes um "segredo" que ela teria compartilhado muitos anos atrás com o filho de uma de suas amigas: "Me diz que você também gosta muito de mim, como da sua mamãe, mas não diz nada para ela". O imperativo de amor: "me ama", numa cumplicidade a dois, que, para a criança, faz passar para segundo plano qualquer outra relação de amor, é próprio do mecanismo perverso. O amor colhido numa relação de objeto "suficientemente boa" é algo que, por definição, não se ordena, a garantia do amor do outro não sendo nunca definitiva e tendo sempre de ser conquistada. A manobra perversa da mãe de Henri se impõe por meio de uma confissão a respeito de uma criança, modalidade do que Masud Khan chama de "técnica de intimidade".

 

Henri fica transtornado com o que vê desenhar-se nesses dias. A dominação de sua mãe sobre sua própria filha lhe aparece com toda clareza, e claríssima será a primeira construção psíquica que ele poderá imaginar na sua análise, sobre o que podem ter sido as relações de sua mãe com ele quando criança. Os efeitos transgeracionais vão ser vividos através de todas as emoções de Henri e na descoberta de uma outra mãe, até então intocável. Ele passa a reagir ao menor detalhe e a rejeita ferozmente. Sobre aqueles dias, sua mãe dirá que foram fantásticos, negando o mal-estar, o que Henri percebe com acuidade, assim como percebe a recusa da realidade de sua mãe no tocante ao seu pai, que usa de qualquer pretexto para evitar o face a face.

 

Sua decepção gera uma nova relação com a mãe, ao mesmo tempo que abre um espaço para pensar seu lugar de pai. No entanto, a vacilação está presente. Henri irá repetir muitas vezes: "É impossível eu lhe dizer o que penso hoje, é impossível ela ficar infeliz, prefiro ocupar o lugar do malvado... não é que eu tenha medo de que ela não me ame...". Ao mesmo tempo, a influência de sua mãe sobre seu modo de estar com a filha lhe é cada vez mais intolerável, e às vezes ele arrisca dizê-lo, o que lhe valerá reações amuadas em represália. Henri está temeroso e fantasia que sua mãe considera sua mulher responsável por sua mudança de atitude.

 

A vacilação da posição de Henri pode ser escutada nos próprios enunciados e, várias vezes, noto que ele emprega a dupla negação e que isso não é um mero acaso linguístico. A respeito do autoritarismo da mãe, ele diz: "Não é que minha mãe me peça para concordar com ela, é que ela não me deixa a possibilidade de não concordar", ou então, "Não posso não concordar com ela". Com a dupla negação, ele abarca dois espaços: o de sua adesão ao contrato fixado pelo outro e, ao mesmo tempo, a possibilidade de um espaço em que ele não seria dependente.

 

Ali onde, na psicose, a adesão ao contrato do outro é, na verdade, adesividade psíquica que não permite, ou mal permite, a diferenciação de dois sujeitos, a dupla negação de Henri designa um vínculo possível para ele, mas impossível para o outro. Essa dupla negação formula um saber em impasse, que ele tem de evacuar, "senão", diz ele, "a família não poderia mais funcionar", pois ele mesmo se constituiu como a pedra angular de uma arquitetura que ele agora tem de manter artificialmente, pelo tempo necessário até que consiga garantir pensamentos internos mais consistentes. O que retorna da evacuação do saber de Henri é a ilusão de ser indispensável ao lado da mãe, ao passo que, na psicose, a evacuação das representações pode sempre reaparecer de uma forma delirante.

 

O lugar da mulher de Henri é central para que ele se dê conta de que a abordagem cúmplice de sua mãe está relacionada com uma técnica de aproximação, a do lobo disfarçado de vovó, pronto para devorar sua presa. É essa aproximação pela intimidade como máscara do ódio que Heitor de Macedo[9] mostra perfeitamente na sua análise das "memórias do subsolo" de Dostoievski. O homem do subsolo finge entregar-se num discurso verdadeiro para melhor seduzir Lisa e destruí-la. A mulher de Henri não é boba e se recusa a deixar-se submeter pela sogra. É o discurso dela que, à medida que o tratamento de Henri avança, ocupa o lugar do terceiro e aponta a sua mãe como tendo participação no mal-estar familiar. Henri me dirá: "Aos poucos vou aceitando que minha mulher fique zangada com minha mãe, já não é insuportável nem catastrófico".

 

Redistribuição

Henri abandonou o lugar de filho modelo, de alcoviteiro junto do pai - que é o que a mãe deseja. Passou de uma representação de uma mãe vítima e frágil para uma figuração mais ameaçadora, mais atacante, que até então tinha permanecido na sombra. Hoje, ele se sente menos em guarda e a fachada que constituiu para si é mais permeável, tanto no trabalho como com sua família. A ameaça de desilusão afetiva em relação à mãe pode ser abordada, sem que ele tenha necessidade de redobrar a intensidade perdida em suas práticas masturbatórias voyeuristas em sites pornográficos. Suas vontades de visitar os sites homo continuam presentes, mas já não são irresistíveis como antes, quando ficava esperando, muito excitado, que a mulher saísse para neles se enfiar compulsivamente.

 

Recentemente, seu interesse está voltado para sites de homossexualidade feminina, onde são mulheres de idade madura que se emprestam suas próprias filhas para que elas descubram os prazeres do corpo feminino. As associações de Henri nos fizeram descobrir um vínculo estreito entre sua busca do mistério feminino nesses sites e a gravidez de sua mulher. Vemos com precisão como Henri resolve o enigma da feminilidade e talvez o da sexualidade em geral. Nesse site, a representação simbólica do que uma mulher é no olhar de sua mãe é obturada por uma excitabilidade permanente do corpo: amar a filha transforma-se em fazê-la gozar. Podemos certamente reconstruir, a partir dessa obsessão voyeurista de Henri, como seu corpo foi superinvestido de maneira totalitária por estímulos excitatórios. Os traços pulsionais perduram em estado selvagem por não terem sido investidos de representações verbais apaziguadoras.

 

O que ele diz de sua sexualidade com a mulher? Embora Henri tenha se sentido muito rejeitador em termos sexuais durante a gravidez da mulher, com aversão a seus seios gordos, ele se realizou plenamente depois do nascimento da filha. Suas falhas de ereção são mais raras e, sobretudo, ele as suporta melhor. Contudo, alternam-se fases em que Henri se sente bem na sua sexualidade com a mulher e períodos em que se sente culpado de ser outro do que aquele que ela imagina, de ter um segredo que não pode lhe revelar, o de ter tido uma mãe seio-falo (segundo a expressão de Masud Khan) que ele conservou como um fetiche.

 

Com a escalada, Henri se fabricou um pseudofalo social que lhe permitiu sentir-se aceito pelo pai e talvez encontrar uma mulher. Embora o tratamento o tenha libertado da dominação materna, será que ele aceita hoje plenamente a ideia de que existe uma versão paterna do mundo da qual ele poderia se sentir cúmplice? No caso de Henri, ainda não se pode falar de identificação paterna, mas certamente de instalação de um terceiro espaço onde ele não se sente mais indispensável para a mãe.

 

A recusa da realidade da percepção da castração, ou o desmentido desta realidade nesse tratamento, podem ser lidos e percebidos em vários níveis. No nível manifesto, é a impossibilidade que Henri expressa no começo de seu tratamento de pensar a castração de sua mãe. Ela não só é inatacável, como também constrói um casal indispensável com o filho, onde exprime sua insatisfação em relação ao marido. O desmentido se manifestou para Henri pelo interdito de pensar a mãe, interdito mantido por um contrato com ela, que tem toda a aparência de um contrato de amor e do qual jamais se deve sair sob o risco de fortes represálias. Essa injunção de amor, contudo, não abarca tudo: o pai permanece ali, com a condição de ser desprezado para existir.

 

O desmentido da realidade da percepção é um momento incontornável e estruturante para toda criança e que Freud reconstruiu: "minha mãe tem algo ali onde não tem nada". Essa proposição, que prosseguirá metonimicamente como "sei que não tem nada, mas assim mesmo...", encontrará várias saídas, entre as quais a bem conhecida das teorias sexuais infantis, do aparecimento de sintomas neuróticos, ou seja, de um arranjo fantasístico que organiza a diferença dos sexos entre os pais.

 

Ora, o arranjo fantasístico viu-se reduzido, para Henri, a uma cena fechada com sua mãe em que a questão do terceiro está presente, mas não é funcional na economia do desejo. Henri viu-se, portanto, proibido de funcionar com dois pais. A manutenção e a persistência da recusa da realidade que faz da mãe a única saída possível na circulação do desejo é a resposta de Henri a um imperativo que lhe foi imposto. Segue-se daí uma clivagem radical entre duas representações: aquela, recusada, de que poderia haver um outro além dela; aquela, mantida, de que ela é a única para ele.

 

Enquanto a recusa da realidade, em sua acepção estruturante, encontra uma saída para a criança no recalcamento de seu desejo pela mãe bem como numa integração progressiva de um mundo possível fora dela, a recusa da realidade que persiste e que organizará a sexualidade perversa é um mecanismo mais violento, por falta de um espaço de jogo fantasístico da mãe.

 

Falar de fantasia perversa na verdade não é apropriado: trata-se, antes, da urgência de uma encenação pobre em imaginação, pouco criativa, que se repete compulsivamente de maneira idêntica para sustentar uma clivagem como sobrevivência narcísica. Nesse sentido, esse tratamento é o progressivo levantamento de uma clivagem.

 

Termino essa exposição com dois relatos em que a função do a posteriori indica um mundo interno bem mais integrado para Henri.

 

Seu pai sai de viagem; ele liga para Henri e lhe pede para se informar como está sua mãe, pois, de novo, ela se sente mal. Henri se espantou por não ter reagido a essas palavras e nota em sessão que, quando seu pai está, ele não se ocupa da mãe e, quando parte, joga o problema para o filho.

 

Por ocasião de um acontecimento envolvendo a mãe, Henri aconselha o pai sobre a forma de tratar a questão e seu pai aquiesce passivamente. Num segundo momento, Henri pensa que o pai deveria tê-lo posto no seu devido lugar dizendo-lhe que não deveria se ocupar da mãe. Libertação?

 

ii. Comentário

[Heitor O'Dwyer de Macedo]

Considero que o texto de Annie Topalov é um complemento metapsicológico às teorias sobre a perversão. Seu trabalho, que segue o fio da transferência, permite instalar a questão do trauma no centro da defesa perversa.

 

Para começar, gostaria de assinalar três pontos que me parecem essenciais.

 

1.    a diferença entre sexualidade e excitação. Cito: "O que ele compartilha com a mãe é erogeneidade e não sexualidade". E mais adiante: "Henri está [...] às voltas com um mundo onde até agora a sexualidade viu-se reduzida à excitação sexual. É esta que ele renova incessantemente numa relação de predação/abandono para fazer frente à angústia do vazio pulsional". Portanto, se seguirmos essa proposição, a sexualidade perversa é algo diferente da fixação a uma zona erógena, como a define Freud. Annie Topalov tampouco considera o perverso na infância com sendo o falo da mãe. Cito-a: "Ter um pênis adquire aqui o valor do corpo inteiro no sentido de um Eu pênis". A sexualidade perversa também é algo diferente de uma tentativa de reparação psíquica por uma neossexualidade, como diria Joyce McDougall. Esse tratamento nos ensina que a sexualidade perversa não repara nada.

Essa é uma diferença rica em desdobramentos. Eu a recolhi em Winnicott faz muito tempo, para propor o seguinte: é preciso haver um lugar psíquico de onde a vida sexual possa ser reconhecida como uma fonte que aumenta o sentimento de ser real. Se esse lugar não existe, a experiência sexual tampouco é real. Ela se torna um puro acontecimento sem relação com a história. Mas se a experiência sexual é um puro acontecimento sem tradução psíquica, no que ela se transforma? Annie Topalov responde: pura excitação - que se manifesta pelo aumento de tensão muscular ou arterial. Mas, por se tratar de um sujeito humano, coloca-se um problema: se não há tratamento psíquico da excitação, então nenhum meio de descarga da excitação tem condições de proporcionar o relaxamento, o repouso, o bem-estar. Se excluirmos o sentimento de realização que o orgasmo traz como coroamento do circuito que vai da excitação somática à descarga, toda satisfação psíquica fica colocada fora de jogo. O sujeito, como Henri, fica condenado a uma economia do gozo. Mas o que é uma economia do gozo? É uma economia do funcionamento psíquico sem satisfação, e na qual, para que o sujeito tenha assegurada a sua existência, exige-se que haja sempre um grau elevado de tensão, e que qualquer coisa vire material de tensão. Até mesmo a excitação sexual não passa de tensão e ela vem no lugar de uma excitação psíquica que é impossível de ser vivida como tal pelo sujeito.

Essas reflexões merecem ser articuladas com a teoria sobre a agressividade de Winnicott. Segundo Winnicott, a agressividade está inicialmente a serviço da motricidade, portanto, do fortalecimento do Eu. Mas, se a agressividade estiver a serviço da libido antes de ser integrada à motricidade, a experiência da sexualidade trará sempre o selo de uma certa irrealidade.

 

2.    Esse tratamento me ensina uma coisa. Sempre afirmei que o trauma não pode ser nem recalcado nem esquecido. Mas, ao dizer isso, estava sempre pensando na criança que sofreu o trauma. Annie Topalov mostra que seu sujeito nunca esqueceu o trauma do qual ele foi o agente.

 

3.    O cerne da questão da perversão está situado aqui no pacto de segredo que liga o sujeito à sua mãe. Isso se situa na filiação ferencziana. No seu famoso ensaio sobre a "Confusão de línguas", Ferenczi escreve que, na cena perversa em que uma criança é violentada psíquica ou fisicamente por um adulto, é a criança que toma para si a culpa que o adulto perverso evacua. (Esse ensaio de Ferenczi também devolvia ao trauma o lugar de uma causalidade primeira - e Freud não gostou nada disso, porque temia que essa teorização, que descartava a fantasia como única causa eficiente da organização psíquica, abrisse caminho para um retorno a uma concepção naturalista do funcionamento psíquico, caminho que ele mesmo tomara durante sua autoanálise.)

 

Portanto, Ferenczi falava da culpa. Essa culpa não é estranha a Henri. Para Annie Topalov, contudo, e eu concordo com sua avaliação, ela não é o mais importante. O mais importante é o pacto entre a mãe e o filho, pacto selado por um segredo. Mas... qual é esse segredo? Ou melhor: esse segredo concerne a quê?

 

Ele concerne, evidentemente, ao amor.

 

Antes de seguir adiante, gostaria de lhes lembrar uma passagem de O homem do subsolo que esclarece a autorrepresentação do personagem, a de ser incapaz de amar. Para ele, amar é tiranizar o outro. Mas, como tantas vezes ocorre com os personagens de Dostoievski, o conhecimento que o homem do subsolo tem do inconsciente é de uma acuidade impressionante. Ele observará, cito, "que era incrível não tê-la amado ou então, ao menos, não ter apreciado seu amor". E, para concluir: "Eu estava desabituado da vida viva [...] Para mim era insuportável saber que ela estava ali [...] Eu queria ficar sozinho no meu subsolo [...] A vida viva tinha me esmagado por falta de hábito, e eu tinha dificuldade de respirar".

 

Portanto, o que caracteriza o homem do subsolo é sua impotência psíquica, com sua inveja de qualquer vida viva. Os homens do subsolo são indiferentes, insensíveis, natimortos. Incapazes de qualquer generosidade, autocentrados e avaros no que se refere a qualquer investimento que não lhes diga respeito. É no dia a dia que se revelam sua apatia, sua incapacidade para qualquer iniciativa, sua falta de imaginação crônica. Toda a energia é posta a serviço da manutenção de uma economia narcísica muito frágil. Por isso, qualquer demanda dirigida a eles é vivida como uma ameaça. Um desejo em relação ao outro ou qualquer sinal de desejo no outro, como uma violência. Essa economia narcísica de sobrevivência gera uma prática de destruição em que o assassinato psíquico é um expediente defensivo, uma estratégia de evitação do encontro - todo encontro faz sangrar uma velha ferida de amor-próprio. Essa prática de destruição também transformará todo sofrimento em dor moral - o que é uma maneira de excluir definitivamente o outro como causa de qualquer sentimento. Essa prática encerra de antemão todo acontecimento, toda novidade, no já conhecido de uma reiteração. Essa reiteração reduz a temporalidade exclusivamente aos avatares de uma subjetividade monstruosa, que se pretende insensível às circunstâncias, impermeável à mudança, sempre idêntica a si mesma.

 

Henri conhece o segredo da mãe: sua impotência psíquica, seu ódio de toda vida viva. E eis o pacto que ela lhe propõe: se você me ama, deve calar sobre meu desejo de aniquilamento do outro; se você me ama, deve amar meu ódio. Lembro-lhes o que a mãe de Henri disse a uma criancinha: "Me diz que você também gosta muito de mim, como da sua mamãe, mas não diz nada para ela". Em outras palavras: para amá-la, a criança deve aceitar excluir sua mãe de seu amor. Lembremos o comentário feito por Annie Topalov: "O imperativo de amor: ‘me ama', numa cumplicidade a dois, que faz passar para segundo plano, para a criança, qualquer outra relação de amor, é próprio do mecanismo perverso". O equilíbrio narcisista da mãe de Henri exige que o outro nunca exista fora dela - é sob essa condição que ela não tentará destruí-lo. Podemos supor que todo reconhecimento da exterioridade do outro mobiliza nela uma inveja intolerável e irreprimível, uma inveja mortífera.

 

São estes os termos da alternativa inconsciente do pacto que liga Henri a sua mãe: o ódio ou a morte; ou a aceitação de uma relação de dominação, ou a morte. Com sua consequência: depois de o sujeito ter interiorizado o pacto psíquico proposto pelo genitor, qualquer tentativa de escapar da dominação o precipita num real perigo de morte. Annie Topalov escreve que Henri construiu a homossexualidade como "pseudorresposta identitária incestuosa com uma mãe que o idolatra contra um fundo de abandono".

 

Portanto, a relação se desenvolve numa paisagem de destruição. O único benefício possível é o gozo proporcionado pelo ódio, gozo que pressupõe uma cena de assassinato.

 

Annie Topalov notará que as passagens ao ato de Henri "têm todas em comum um fundo incestuoso evidente e não têm o estatuto de lembranças, mas sim de um ‘sempre presente' que não conhece a temporalidade e, portanto, o recalque. Henri viveu num universo traumático, que ele isola para sobreviver". A direção dos tratamentos em que reina o trauma, em que o recalcamento está por fazer, e isso graças à relação transferencial, impõe um enorme trabalho de presença do psicanalista.

 

Três observações sobre esse enorme trabalho que se impõe:

 

1.    Na discussão que se seguiu à apresentação desse tratamento, ante uma pergunta sobre o manejo da relação transferencial, Annie Topalov nos disse que expressava para Henri seu espanto diante do que ele dizia. Também nos falou de sua preocupação de que ele se sentisse em confiança com ela.

Essas observações mostram a prioridade das qualidades afetivas do intercâmbio entre o psicanalista e seu paciente. Penso que essa possibilidade de prestar atenção na tonalidade afetiva do encontro transferencial, de ter a preocupação de inflecti-lo, de modulá-lo para que o paciente fique confortavelmente instalado na transferência, é algo que se adquire na clínica psiquiátrica - que Annie Topalov conhece muito bem, aliás. Os teóricos da psicoterapia institucional propuseram a expressão técnicas de ambiência para essa preocupação com a atmosfera sensível.

 

2.    Segunda observação: nos tratamentos em que o trauma é central, o mais importante é o que não se repete, a relação com o analista inaugura uma experiência do outro até então desconhecida pelo sujeito.

 

3.    Terceira observação: a preocupação com o ambiente afetivo da transferência e o reconhecimento de que o mais importante é o que não se repete na relação transferencial cruzam-se com a teoria winnicottiana da importância do brincar no tratamento, teoria que coincide com a do espaço transicional. Cito Winnicott: "Não tenho a intenção de fazer uma comparação entre a psicoterapia e a psicanálise e nem mesmo de tentar definir esses dois processos para traçar uma linha de demarcação nítida entre ambos. O princípio geral que me parece válido é que a psicoterapia se dá ali onde duas áreas de jogo se superpõem, a do paciente e a do terapeuta. Se o terapeuta não consegue brincar, isso significa que ele não foi feito para esse trabalho. Se o paciente não consegue brincar, é preciso fazer algo para lhe permitir ter a capacidade de brincar, depois do que a psicoterapia poderá começar. Se o jogo é essencial é porque é brincando que o paciente se mostra criativo."


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