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Resumo
Situando a visita de Conrad Stein ao Sedes (1988) no contexto da época em que ocorreu, o autor delineia os processos mais amplos nos quais ela se inscreve, examina a influência do seu professor sobre alguns escritos de analistas brasileiros, e sugere alguns motivos para o ler na atualidade.


Autor(es)
Renato Mezan
é psicanalista, membro Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP, e autor de vários livros, entre os quais O tronco e os ramos: estudos de história da Psicanálise (Companhia das Letras).


Referências bibliográficas

Mezan R. (2004). Plaisir d'Enfant. In: Brun Danièle (org.), L'écriture et la parole: mélanges en hommage à Conrad Stein. Paris: P.A.U.

_____ (2002). A Recepção da Psicanálise na França. In: Interfaces da Psicanálise, São Paulo: Companhia das Letras.

_____ (1994). Traces durables d'une rencontre, Cliniques Méditerranéennes n. 43-44. Trad. bras.: Homenagem a Conrad Stein. In: Figuras da Teoria Psicanalítica. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.

_____ (1991). Trois conceptions de l'originaire, Etudes Freudiennes, n. 32. Trad. bras. In: Figuras da Teoria Psicanalítica, 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.

_____ (1982). A conquista do proibido. São Paulo: Ateliê, 2000.

Marin I. K. (2001). Violências. São Paulo: Escuta.

Monzani L. R. (1990). Discurso Filosófico e Discurso Psicanalítico. In: Bento Prado Jr. (org.). A Filosofia da Psicanálise. São Paulo: Brasiliense.

Moreira A. C. (1992). A Depressão em Freud e em Conrad Stein, com uma Ilustração pelo Personagem Eva de Sonata de Outono. puc/sp.

Vianna H. B. (1998). Não Conte a Ninguém. Rio de Janeiro: Imago.





Abstract
Situating the visit to the Headquarters of Conrad Stein (1988) in the context of the era in which it occurred, the author outlines the broader processes in which it is inscribed, examines the influence of his teacher's writings on some Brazilian analysts, and suggests some reasons for read it today.

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 TEXTO

Conrad Stein no Brasil

Conrad Stein in Brazil
Renato Mezan

Paris, abril ou maio de 1978. Um jovem filósofo brasileiro, então amadurecendo o desejo de se tornar psicanalista, telefona para o autor de um livro recomendado por sua orientadora, cuja leitura o havia impressionado vivamente. O autor o recebe, sugere nomes para que ele retome sua análise, dá-lhe cartas de recomendação para alguns colegas franceses, e o convida ao seu seminário no Instituto de Psicanálise.[1]

 

O autor em questão era Conrad Stein; o livro, L'Enfant Imaginaire; e vocês já adivinharam o nome do jovem filósofo. Assim começou uma das relações mais importantes em minha vida, que, em parte por vias casuais, em parte por fatores dos quais falarei em seguida, está na origem da presença do meu professor na Psicanálise brasileira.

 

Para bem entender por que, é necessário evocar brevemente algumas características da época, tanto de um lado do Atlântico como do outro, pois entre aquela tarde de primavera e a visita de Stein a São Paulo transcorreram dez anos. Dividirei portanto esta comunicação em duas partes: o período que precedeu essa estada, e depois os caminhos pelos quais certos aspectos do pensamento dele encontraram acolhida em nosso país.

 

Contextos

Na época em que fui para a França para preparar meu doutorado em Filosofia, que devia tratar da teoria freudiana da cultura, estavam ocorrendo na Psicanálise brasileira importantes transformações, que estão na origem da sua configuração atual. Do lado francês, após um período bastante movimentado do ponto de vista institucional, as armas pareciam um pouco em repouso, a tal ponto que René Major podia propor um diálogo entre analistas de diferentes sociedades - é certo que num terreno neutro, o desta instituição notável chamada Confrontation. Mencionemos rapidamente alguns elementos destes processos:

 

  a.  No Brasil, o monopólio da ipa quanto à formação dos analistas, bem como a predominância do kleinismo na prática e no ensino, se viam contestados por dois fatos originalmente independentes um do outro, mas que vieram a se cruzar ao redor dos anos 1975-1976: de um lado, a chegada de muitos psicanalistas argentinos, que fugiam da barbárie militar instalada em seu país; de outro, os inícios do movimento lacaniano, vindo simultaneamente da França, da Argentina e da universidade belga de Louvain.

  b.  Por razões diferentes, mas que do ponto de vista prático tinham efeitos similares, estes dois grupos eram muito críticos em relação à instituição oficial, que lhes parecia politicamente reacionária e cientificamente estéril. Em São Paulo, este mesmo sentimento havia feito surgir um projeto sui generis, nascido do espírito audacioso de Madre Cristina, uma religiosa alinhada com as perspectivas da Igreja progressista: o Instituto Sedes Sapientiae. A vocação do Instituto era fornecer um "guarda-chuva" a certos movimentos sociais que começavam a se organizar, e também a cursos "alternativos" nas diversas áreas da psicoterapia. Em 1977, Regina Schnaidermann, uma psicanalista aberta à produção francesa em virtude de seus estudos de filosofia, juntou-se a Madre Cristina, a alguns emigrados argentinos e a três ou quatro analistas da Sociedade insatisfeitos com o estado de coisas então vigente nela, e com eles criou um curso de Psicanálise - o que tem importância para esta comunicação, pois foi nesse espaço que em 1988 Conrad Stein foi convidado a dar conferências e supervisões.

  c.  Por "produção francesa", entendo a de alguns analistas entre os quais deve se contar meu professor, cujas obras chegavam à maturidade mais ou menos na mesma época em que se situam os desenvolvimentos mencionados: André Green, Piera Aulagnier, Jean Laplanche, Pierre Fédida, Serge Viderman, Joyce McDougall e outros. Eles não formavam um grupo no sentido usual do termo, ou seja, com objetivos comuns, uma estrutura, etc. Contudo, compartilhavam um traço que iria se mostrar decisivo nos seus respectivos percursos: todos haviam sido próximos de Lacan, eram sensíveis à renovação trazida por ele, sem no entanto aderirem formalmente à Escola Freudiana de Paris (com exceção de Piera Aulagnier, que porém se desligou dela - batendo a porta, é o caso de dizer - quando da discussão sobre o passe). Dito de outra forma, todos reconheciam a necessidade de um retorno a Freud, mas não se satisfaziam com a forma que este retorno tomara nas mãos de Lacan. Seguindo os passos do mestre, todos retomaram a obra freudiana desde os fundamentos, e - cada qual à sua maneira - procuraram reconstruir a Psicanálise de modo a expurgá-la do que (pelos motivos mais diversos) lhes parecia inaceitável na versão herdada do fundador.[2]

  d.  Este movimento se inscrevia na esteira da recepção francesa de Freud, marcada como se sabe pela preocupação de distinguir o "bom" do "mau" Freud. Este é o traço mais característico da maneira pela qual o pensamento do mestre de Viena encontrou audiência na França - primeiro entre filósofos como Roland Dalbiez, Georges Politzer, e mesmo Sartre - em seguida pelo remanejamento lacaniano. Não é este o lugar para me estender sobre este ponto[3], mas convém ao menos precisar uma diferença capital entre a forma como esses filósofos absorveram Freud e a dos psicanalistas a que me referi acima: enquanto aqueles visavam a acomodá-lo a seus respectivos sistemas (essencialmente a fenomenologia e o marxismo), os analistas queriam chegar a um freudismo mais coerente e mais sólido que o presente nos textos freudianos. É isso que faz a originalidade desses pensadores, e em boa medida explica o interesse que seus trabalhos suscitaram, não apenas para os analistas agrupados no Sedes, mas também em outros lugares do Brasil, e mais tarde também na Argentina. Foi tal interesse que, na década de 1980, motivou os convites para que viessem a São Paulo, e também a outros centros analíticos latino-americanos.

 

Mas não avancemos rápido demais. Quando Conrad me acolheu tão generosamente, esses desenvolvimentos no Brasil pertenciam ainda ao futuro. Na tela de fundo que acabo de esboçar, é preciso agora situar fatos mais precisos. Peço desculpas a vocês por dever falar um pouco de minhas próprias atividades - mas como foi por meu intermédio que ele se tornou conhecido no Brasil, não há muito como escapar disso...

 

De 1978 a 1981, quando retornei ao Brasil, assisti ao seu seminário da Rue St. Jacques, li tudo o que ele publicava - em particular La Mort d'Oedipe e Aussi, je vous aime bien - e redigi meu doutorado, no qual se encontram umas boas vinte referências a L'Enfant Imaginaire e a outros textos de Stein. Além dos efeitos transferenciais (compreensíveis, me parece, dada a relação que se estabeleceu entre nós), isso se deve ao fato de que ele havia explorado em profundidade uma série de temas centrais para o argumento que estava desenvolvendo no que viria a ser o livro Freud, Pensador da Cultura: a importância da autoanálise de Freud para a elaboração de suas teorias, a questão da paternidade, as referências gregas sem as quais seria impossível formular conceitos como o de Complexo de Édipo, e uma série de outros.

 

Até então, Stein era para mim um autor cujas reflexões me apaixonavam pelo estilo e pela imaginação teórica da qual davam prova. Só quando comecei a trabalhar na clínica é que pude me dar conta da importância de suas ideias sobre a situação analítica e sobre os processos em ação no tratamento: L'Enfant Imaginaire se tornou então um dos meus guias na aprendizagem do ofício.

 

Querendo expressar minha gratidão quanto a ele, dediquei-lhe uma pequena introdução à vida e à obra de Freud, A Conquista do Proibido[4]. Como outros volumes da coleção de bolso da qual fazia parte, este volume encontrou um grande sucesso, menos por seus eventuais méritos que pelo momento no qual foi publicado.

 

Com efeito, na primeira metade dos anos oitenta a sociedade brasileira passava por transformações capitais. O regime militar imposto em 1964 começava a fazer água; o desejo de liberdade política e cultural tomava corpo, primeiro em manifestações isoladas, em seguida na campanha pelas eleições diretas que ganhou as ruas em 1983. Os livros da editora Brasiliense vinham saciar a sede de conhecer de uma geração que crescera sob a censura de tudo o que pudesse "colocar em perigo a segurança nacional" - e por isso se vendiam como pão quente.

 

Os ventos da mudança sopravam também sobre o pequeno mundo analítico. Aos processos descritos acima, acrescentavam-se agora dois outros: a relativa democratização das sociedades pertencentes à ipa[5], e - o que nos concerne mais de perto - o retorno ao Brasil de vários analistas formados na França. Na bagagem, estes traziam as ideias daqueles com quem haviam se analisado, estudado e supervisionado - escolhidos em geral naquele grupo mais ou menos heterogêneo de analistas que sofreram a influência de Lacan, e em seguida tomaram rumos próprios.

 

Durante a abertura que se seguiu ao fim da ditadura militar (início de 1985), as obras destes autores começaram a ser traduzidas. Isso era ao mesmo tempo efeito e causa do aumento do público interessado em Psicanálise, que crescia a cada ano - sinal de que, contrariamente à década anterior, quando era considerada "elitista" e bem minoritária frente a terapias como a reichiana e outras - esta começava a ser percebida como uma prática e como uma experiência capazes de promover liberdade interna e melhores relações interpessoais. Em 1988, este fenômeno tornou possível a criação de uma editora especializada no território psi, a Escuta, que obteve os direitos de tradução de muitas obras psicanalíticas produzidas na França e na Argentina.

 

E foi neste ano que teve lugar a visita de Conrad ao Sedes. Ela coincidiu com a publicação do segundo livro da Escuta, O Psicanalista e seu Ofício, uma coletânea de artigos organizada por mim e traduzida por Nelson da Silva Jr.

 

O grupo que o trouxe havia se dado conta de que o esforço considerável que representa a organização da visita de um convidado estrangeiro não podia produzir resultados duráveis a não ser que fosse além de conferências e supervisões pontuais, como então era o costume. A razão disso é simples - a Psicanálise, mesmo em seu aspecto teórico, só pode ser transmitida no contato pessoal, indutor de transferências e de um interesse diferente da mera curiosidade. Ouvir palestras sem continuidade, ou ler algum artigo de um autor, não basta para engendrar esse efeito: tenho certeza de que, se meu contato com as ideias de Stein tivesse se limitado à leitura, ele seria apenas um autor a mais entre tantos mencionados em Freud, Pensador da Cultura. Uma vez passado o entusiasmo por aquilo que ele pudesse ter contribuído para o argumento, seu livro teria sido recolocado na prateleira, e outros autores, interessantes para outros aspectos da pesquisa, teriam tomado seu lugar na minha mesa de trabalho.

 

Pouco antes da visita de Conrad, por sugestão de Luís Carlos Menezes, um grupo de colegas havia convidado Pierre Fédida para uma estada prolongada em São Paulo. Ele ficou conosco um mês, trabalhando várias vezes por semana com grupos que tinham estudado seus escritos e apresentavam casos para serem discutidos; destes relatos, partiam comentários clínicos e técnicos, e também desenvolvimentos teóricos apropriados às características da situação ou sessão que servia como disparador.

 

Foi uma fórmula semelhante que o Sedes propôs a Conrad. Durante duas semanas, ele trabalhou conosco, tanto em pequenos grupos como em conferências mais formais. O estilo de escuta, a inventividade clínica, a maneira simples e direta de apresentar suas ideias encantaram os participantes[6]. A disponibilidade de uma amostra representativa do seu pensamento - resenhada na Folha de S. Paulo, na época o jornal mais progressista do país - contribuiu para chamar a atenção sobre esse psicanalista, então desconhecido no Brasil. O sucesso da visita fez com que Stein fosse convidado para um congresso a ocorrer no ano seguinte, no Rio de Janeiro; para a ocasião, a Escuta publicou um segundo livro dele, As Erínias de uma Mãe, igualmente traduzido por Nélson da Silva Jr.

 

Estudos e citações

Pouco tempo depois, Nélson viajou para a França, a fim de escrever seu doutorado, que seria orientado por Pierre Fédida. Querendo continuar sua análise em Paris, ele escolheu o divã de Conrad, o que elevou a dois o número de brasileiros a ter um contato mais estreito com ele. Enquanto professores do Sedes (nós dois), do Instituto de Psicologia da usp (ele) e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da pucsp (eu), ambos continuamos a difundir o pensamento de Stein em nossos cursos e publicações.

 

Segundo uma comunicação pessoal de Nélson, As Erínias de uma Mãe é o texto de Stein mais utilizado e citado por seus alunos, pela pertinência clínica da tese ali exposta sobre o ódio de si mesmo ancorado na identificação ao ódio que a mãe pode sentir por seu filho. Este fato é confirmado por minha experiência de orientador: uma de minhas alunas escreveu sobre "a depressão em Freud e em Stein"[7], na qual o livro sobre as "cadelas enfurecidas" tem lugar eminente. A obra continua a ser mencionada por autores que se debruçam sobre fenômenos que apresentam um componente ligado ao ódio - por exemplo, a violência[8], a agressividade ou o suicídio.

 

Quanto a mim, dediquei dois estudos a aspectos do pensamento de Conrad: "Três Concepções do Originário" e "Plaisir d'Enfant". O primeiro confronta sua visão do originário - que ele localiza nos fenômenos induzidos pela situação analítica - às de Jean Laplanche e de Claude Le Guen. O que me levou a compará-las foi a perplexidade diante do fato de que estes três "escaladores do castelo analítico", como diz Le Guen, partem da mesma inquietação, mas chegam a conclusões completamente diferentes. A inquietação é aquela de que lhes falei: a necessidade de reconstruir a Psicanálise, tendo como interlocutor o mesmo Freud a ser despojado de certos resíduos ideológicos; suas conclusões dão lugar a três teorias fundadas sobre uma vasta experiência clínica e sobre uma leitura rigorosa dos textos freudianos - e no entanto muito afastadas uma da outra.

 

"Plaisir d'Enfant", cuja tradução em português deve sair numa coletânea prevista para 2013, sugere um vínculo entre os processos de identificação e de sublimação. Foi minha contribuição para o Festschrift organizado por Danièle Brun para festejar os oitenta nos de Conrad[9]; ali, quis seguir o movimento de tantos trabalhos dele, tomando como base da teorização um fragmento (publicável...) de autoanálise.

 

Querendo apresentá-lo a uma nova geração de leitores, incluí na edição revista e ampliada de Figuras da Teoria Psicanalítica publicada em 2010 uma "Homenagem a Conrad Stein", contendo o essencial do artigo escrito em 1994 para Cliniques Méditerranénnes mencionado atrás, que permanecia inédito em nossa língua, e os prefácios redigidos para os livros publicados pela Escuta. Seria fastidioso repertoriar as citações dos seus trabalhos naqueles que pude escrever; são numerosas, como se pode ver pelos índices remissivos das coletâneas em que figuram. Tratam em geral de temas nos quais as ideias de Stein continuam a me parecer instigantes, como a eficácia da palavra do analista, a autoanálise de Freud, a identificação do psicanalista com ele, Freud, a relação entre incidentes da sua vida (refratados, é claro, por suas fantasias) e certos elementos das teorias que elaborou, a supervisão, o infantil, e outros ainda.

 

Em retrospecto, e à medida que esse tipo de avaliação é possível, parece-me que uma das contribuições da geração de analistas da qual faço parte foi introduzir o pensamento de nossos mestres franceses num meio até então quase exclusivamente impregnado pela influência inglesa. Mesmo se os laços transferenciais que nos uniam a eles têm nisso algum papel, os efeitos das nossas iniciativas ultrapassam largamente este domínio mais pessoal. A combinação de diversos fatores - alguns ligados ao estilo e ao conteúdo das obras desses pensadores, outros ligados às condições de recepção de não importa qual obra estrangeira na cultura nacional, outros ainda específicos do meio psicanalítico - determinou uma consequência cujo alcance é sem dúvida considerável: a presença significativa da Psicanálise francesa na prática, nos colóquios e na produção escrita destes últimos vinte ou vinte e cinco anos.

 

Pode-se dizer que, na época em que Conrad Stein veio ao Brasil, a Psicanálise brasileira ainda procurava sua própria voz. De modo geral, a geração dos pioneiros tinha se contentado em validar pela prática as teorias kleinianas absorvidas na Inglaterra ou na Argentina: quando comecei a estudar Psicanálise, em meados dos anos 1970, contavam-se nos dedos as obras verdadeiramente originais escritas em português. A paisagem é hoje muito diferente: a produção escrita dos brasileiros não deve nada, em quantidade e em qualidade, à dos centros psicanalíticos mais antigos. Entre os motivos deste fenômeno, o exemplo dos franceses tem com certeza um lugar de relevo - e, entre eles, os escritos de Stein fecundaram um bom número de produções.

 

Assinalei acima a importância, neles, de Freud como interlocutor. Isso pode parecer evidente a um público francês; entretanto, num ambiente no qual ela era muito menos lido que a de Klein e seus continuadores, a valorização da obra freudiana e o constante diálogo com ela constituíam uma novidade da qual é difícil exagerar a importância. Nesse panorama, uma particularidade da obra de Conrad lhe confere um relevo especial, e a torna indispensável, a meu ver, para as novas gerações de estudantes e de profissionais: o lugar central da autoanálise, seja a de Freud, seja a do psicanalista.

 

Por outro lado, é preciso reconhecer que a radicalidade do pensamento de nosso autor o torna tão unzeitgemäss no Brasil quanto o foi na França dos anos 1960. Ao empregar este termo de Nietzsche[10], que traduzido literalmente significa "não conforme ao tempo", "fora de medida em relação ao tempo", quero sublinhar que ela é tudo salvo vetusta ou ultrapassada: ao contrário, o termo alemão tem uma forte conotação crítica em relação ao que absorvemos sem nos darmos conta, apenas porque é aquilo em que todo mundo acredita, ou ao que todos aderem.

 

Um exemplo entre outros: buscaríamos em vão nos escritos de Stein uma discussão da psicopatologia análoga à que encontramos em outros autores, contemporâneos seus, e que conduzem a conceitos inteiramente psicanalíticos, como os de neossexualidade em Joyce McDougall ou de psicose branca em André Green e Jean-Luc Donnet: ele considerava que este tipo de debate tem mais a ver com a psiquiatria que com a Psicanálise. Isso ganha destaque ainda maior se levarmos em conta que, como nos foi contado neste Colóquio, na sua juventude ele foi um psiquiatra de grande talento. À primeira vista, tal fato a tornaria pouco atraente para quem procura na literatura analítica pontos de referência para a clínica - mas essa impressão, a meu ver, é completamente equivocada.

 

Digamo-lo de outro modo: o foco do qual emanam as concepções fundamentais de Stein é a situação analítica clássica, que se repete várias vezes por semana durante um tratamento igualmente clássico. É neste contexto que o paciente pode regredir até temer a queda no informe, que a fala do analista pode ser fazer esperar por várias sessões, e assim por diante. Ora, esse tipo de trabalho vem se tornando cada vez menos frequente, por razões conhecidas de todos e que não é necessário evocar aqui; no lugar dele, têm surgido formas de trabalho diferentes, inclusive algumas derivadas da Psicanálise clássica.

 

Este fato tornaria ultrapassada, para não dizer inútil, uma reflexão que tem como base precisamente processos que dependem de parâmetros ausentes ou muito modificados nos tratamentos mais comuns na atualidade? De modo algum, penso. E isso não por alguma idealização do paraíso perdido, mas porque, para bem conduzir as "psicanálises complicadas", como Pierre Fédida denominava as "psicoterapias de base freudiana", é preciso um sólido conhecimento e uma experiência igualmente sólida do funcionamento de uma psicanálise "clássica". São eles que permitem uma certa desenvoltura no manejo de situações diversas daquelas em que prevalecem as condições ideais.

 

Ora, ocorre que são justamente aqueles que se iniciam no métier que, no mais das vezes, se veem confrontados a situações deste gênero, porque raramente dispõem das condições econômicas ou de prestígio que possibilitam a prática ampla em consultório. É por isso que, a meu ver, os trabalhos de Stein devem ser recomendados a esses jovens colegas, pois neles encontrarão análises e exemplos de todas as vertentes do processo analítico - e ter uma ideia clara deles, ao menos teoricamente, pode certamente auxiliar quem faz psicoterapias a se orientar nos fenômenos com que se confronta a cada dia.

 

Um paciente que Stein menciona em L'Enfant Imaginaire lhe disse um dia: "je ne veux pas que vous restiez intact de moi" (não quero que o senhor fique intacto de mim). Quem quer que se disponha a seguir o caminho que ele abriu em seus textos, nascidos de um profundo compromisso com a Psicanálise, tampouco ficará "intacto" dele.

Obrigado, Conrad!


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