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Resumo
Resenha de Hendrika C. Freud, Electra vs Oedipus, the drama of the mother-daughter relationship. New York, Routledge, 2011. 197 p.


Autor(es)
Susan Markusszower
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas

1 Disponível em 451712.htm>.



Referências bibliográficas




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 LEITURA

Mães e filhas, ligações inevitáveis

[Electra vs Oedipus, the drama of the mother-daughter relationship]


Mothers and daughters, inevitable bonds
Susan Markusszower

Electra versus Oedipus, the drama of the mother-daughter relationship é a tradução para o inglês (2011)[1] do mesmo livro que foi publicado, originalmente em holandês, em 1997. As questões tratadas na obra continuam atuais e agora numa língua mais acessível para um público maior.

 

Hendrika C. Freud é psicanalista holandesa, membro da International Psychoanalytic Association (ipa) e da Association for Child Psychoanalysis, além de professora e analista didata da Sociedade Holandesa de Psicanálise e da Associação Holandesa de Psicanálise. No início dos anos 1960, ingressou na Sociedade Holandesa de Psicanálise e logo depois continuou sua formação com psicanalistas ingleses, entre eles Anna Freud e Ernst Freud. Recentemente, foi premiada, por suas contribuições para a divulgação da psicanálise na Holanda.

 

Nessa edição, que acaba de ser publicada em inglês, podemos observar que Iki - como prefere ser chamada - Freud acompanha as várias reformulações da teoria psicanalítica que estão presentes nas suas reflexões teóricas.

 

Em relação ao sobrenome famoso, ela afirma o seguinte em sua autobiografia (Mijn naam is Freud, Iki Freud, 2004):

 

Nomen est omen. É coincidência que eu seja filha de um pai cujo nome era Freud e que tenha dedicado minha vida à psicanálise, a descoberta de Sigmund Freud. Eu mesma nunca parei para pensar nesses fatos, mas as pessoas ao meu redor sempre pensaram. Esse nome famoso nunca me ajudou no meu trabalho. Obviamente, minha afinidade com Freud nada teve a ver com o nome. A partir do momento que entrei em contato com seu trabalho, fiquei fascinada com a importância que atribuía aos sonhos. Foi um ponto de reconhecimento. Desde criança tive a sensação de que meus sonhos permitiam-me entrar no mundo do inconsciente. Todas as noites, aquele mundo estava presente. Desde cedo convenci-me de que os sonhos indicam como a realidade é vivida (p. 7).

 

No seu primeiro livro, Freud, Proust, perversion and love (1991), Iki Freud descreve a relação perturbada que homens podem estabelecer com suas mães. Ao longo do tempo, percebe que, com maior frequência, mulheres podem enredar-se na relação com suas mães. O livro Electra versus Oedipus é resultado dessas reflexões.

 

Iki Freud atribui ao mito de Electra maior aplicabilidade para descrever as vicissitudes do desenvolvimento feminino, que ao mito de Édipo. Electra marcada, desde seu nascimento, por vários aspectos de ambivalência em relação à mãe, refletiria o destino da mulher. Neste sentido, a autora afirma que não se deve pretender que o complexo de Electra venha substituir o complexo de Édipo, mas aquele serviria como complemento, principalmente útil para compreender as complicações que podem surgir na relação mãe-filha. De acordo com Iki Freud, considerar a mãe como figura central na trama do desenvolvimento feminino prestar-se-ia melhor como modelo do que aquele referido à figura paterna.

 

Para Iki Freud, a cultura mudou e é mutável, mas certas coisas estão marcadas. Assim, a autora refere-se especificamente ao fato de que meninas começam sua vida numa relação amorosa homossexual - uma vez que, geralmente, seu primeiro objeto libidinal pertence ao sexo feminino, e é sobretudo com ele que a menina se identificará. Estes dois fatores levam a uma lealdade dupla da filha em relação à mãe, tornando a separação mais complexa. E só mais tarde o amor heterossexual em relação ao pai é agregado.

 

Em relação a esse vínculo libidinal inaugural, a autora afirma que, para uma mulher, o vínculo com a mãe pode ser uma fonte de força, mas também de frustração. Em grande medida, o primeiro vínculo é decisivo para a identidade e autoestima da criança, sobretudo no caso das mulheres. As relações amorosas futuras podem ser prejudicadas quando uma mulher continua se sentindo uma extensão de sua mãe. Mãe e filha permaneceriam espelhando-se uma na outra, como no conto de fadas da Branca de Neve: espelho meu, espelho meu, quem é a mais linda de todas? Desta maneira, a filha se manteria dentro da esfera de influência materna, como se fosse uma parte da mãe, de seu corpo e de sua alma. Em vez de satisfazer seus próprios desejos, teria que realizar os da mãe. O resultado seria o predomínio da hostilidade, sobretudo inconsciente, dirigida a esta.

 

De acordo com a autora, o complexo de Electra descreveria a combinação ainda mais fatídica na mulher - de amor e ódio pelo mesmo genitor: a mãe. Por isto pergunta até que ponto a menina pode e deve superar totalmente a ligação com a mãe, segundo a suposição de Freud, que põe em dúvida.

 

O objetivo principal do livro é demonstrar o modo pelo qual o ódio inconsciente pode colorir e decidir a vida emocional de uma filha. A partir dessa perspectiva, a autora propõe que se use a luta fatídica de Electra como paradigma do desenvolvimento feminino. O paradigma edípico muitas vezes termina no complexo de Electra, no caso da mulher - ou seja, raiva em relação à mãe e idealização do pai. No outro extremo, a ilusão simbiótica pode representar a solução oposta.

 

Simbiose, o nome de um conceito biológico, é usado, nesse caso, para descrever um conceito psicológico e refere-se à dependência mútua e inibidora de dois indivíduos - especificamente, a mãe e seu filho ou filha. De acordo com Iki Freud:

 

A mãe e seu filho, evidentemente, desfrutam de momentos idílicos, quando estão totalmente envolvidos. Mas quando uma mãe se sente constantemente dependente da aprovação do seu filho, há uma desordem em jogo. Isso se manifesta, por exemplo, na necessidade da criança de se agarrar à mãe quando a mãe se afasta porque, caso contrário, ela poderia sentir que não é uma boa mãe. Chamo esta dependência mútua e insalutar de ilusão simbiótica. É uma desordem que impede o processo de maturação. Quando esse vínculo entre mãe e filha se mantém intacto pelo resto da vida, não há espaço para independência e outras relações (p. 2).

 

Foi pensando nas relações de homens com suas mães, que Iki Freud atribuiu à ilusão simbiótica as perversões masculinas e a homossexualidade. Posteriormente, tornou-se evidente para ela que o uso do conceito não se restringe apenas a esses casos e que deve sua referência ser considerada uma estrutura fundamental. Entretanto, na conclusão do capítulo dedicado à ilusão simbiótica, ela adverte que a falta de proximidade emocional pode ser tão prejudicial quanto a intimidade excessiva sem limites, onde toda e qualquer separação é repudiada. A respeito disto, afirma o seguinte:

 

A capacidade de amar - um sentimento jubiloso - remete a nossas primeiras experiências com a figura materna. A filha não necessita renunciar à sua mãe para se tornar independente. Pelo contrário, a filha terá problemas no caso de uma solução extrema numa ou outra direção - ou ela foge e rejeita sua mãe na tentativa de obter independência ou se mantém agarrada a ela, considerando que é responsável por cuidar dela e protegê-la. Algumas mulheres crescem sem a presença da mãe e mantêm um sentimento doloroso de perda, para sempre. Algumas mães morrem ou abandonam seus filhos ou têm tantos filhos que não conseguem dar atenção a cada um individualmente. Uma falta total da experiência simbiótica causa o mesmo vazio que uma fusão excessiva com o objeto de amor (p. 25).

 

Um terceiro tema do livro é a transmissão geracional. A psicanalista acredita que as influências transmitidas de uma geração para outra são sobretudo notáveis entre mães e filhas. Para ela, a linhagem feminina é o mais poderoso transmissor de atitudes emocionais, devido ao intenso envolvimento mútuo entre mães e filhas, potencializado pela equivalência de gênero, que dificulta o reconhecimento das diferenças. É destino de todas as mulheres recriarem-se na figura da filha, muito mais do que na do filho. Pode haver desvantagens nesse nível de vinculação, mas também muitas vantagens, como, por exemplo, no caso do ensino da arte da maternagem.

 

No capítulo dedicado à depressão pós-parto, a autora analisa a relevância específica da relação mãe-filha para esse distúrbio. Os dois aspectos, a ilusão simbiótica e o envolvimento geracional, de alguma forma, coincidem nesse caso. Em geral esse problema remete a várias gerações. De acordo com Iki Freud, a linhagem feminina facilita a passagem tanto de saúde, quanto de patologias, através das gerações. Vale acompanhar suas reflexões teóricas a respeito do trauma enredado na intimidade feminina. E onde o tratamento psicanalítico não apenas pode prevenir a repetição mas pode abrir novos espaços, conforme demonstra a descrição dos casos encontrados no livro.

 

No capítulo sobre mães rejeitadas, Iki Freud recorre ao conto bíblico para demonstrar a dificuldade de criar uma pessoa à própria imagem, como acontece com a mãe quando dá à luz uma filha. Como no livro de Genesis, a criação pode dar errado. Enfurecido com o homem desobediente que criou conforme sua imagem, Deus expulsa Adão e Eva do Paraíso como crianças travessas, e a primeira simbiose é brutalmente rompida. Na sequência, destrói sua criação, enviando o Dilúvio sobre homens e animais e, por fim, como castigo pela desobediência, reduz Sodoma a cinzas. De forma exatamente similar, o espelho entre mães e filhas pode ter consequências, que às vezes não são muito boas, e pode também resultar em ódio e destruição mútua.

 

Ao longo do capítulo sobre a história do amor materno, a autora demonstra que o conceito desse amor é um resultado do processo de modernização. A noção de que uma criança necessita do amor, de carinho e da empatia é relativamente recente na história. A virada do século xix para o século xx marca o início da preocupação em relação às necessidades específicas da infância.

 

O amor materno, em termos gerais, é definido pela suposição de que a presença constante da mãe na sua função de doadora de amor não apenas garantiria a saúde psicológica da criança, mas também sua felicidade. Iki Freud questiona até que ponto a mulher moderna se sente falhando, quando não consegue dar conta desse idílio. Ela acredita que, hoje em dia, descobrimos, além do amor materno, também o amor paterno que existe desde o primeiro momento e é um vínculo igualmente vital. Assim, a autora afirma que a tríade é o remédio para a díade unilateral entre mãe e criança, que pode gerar uma ilusão simbiótica indesejável ao longo da vida.

 

No capítulo sobre a meia-idade, a psicanalista afirma que essa fase, apesar de trazer uma deterioração das funções vitais, pode significar progresso, desenvolvimento e criatividade renovada. O confronto com a finitude e com a mortalidade pode aumentar e intensificar a qualidade da experiência subjetiva. Sobretudo na vida da mulher, mudanças significativas podem ocorrer nessa fase, tanto no campo profissional como na vida privada. Na meia idade, aspectos reprimidos da personalidade e capacidades não utilizadas ganham uma chance de serem renovados.

 

O relógio biológico de ambos os sexos não corre paralelamente, de acordo com Iki Freud. Por esse motivo, a harmonia entre os sexos pode se realçar nessa fase, não apenas porque os homens tendem a se tornar mais sensíveis, mas também porque as mulheres se permitem uma expansão maior.

 

Ao retomar o artigo de Freud "Estudos sobre a Histeria" (1895) no último capítulo do seu livro, a autora acompanha a evolução da teoria psicanalítica no que concerne ao desenvolvimento feminino. E expõe suas reflexões a respeito da validade do uso da histeria na atualidade como designação de certo tipo de sofrimento emocional. Ao final desse longo debate, no qual a histeria de outrora é confrontada com sua versão contemporânea em termos clínicos e teóricos, ela afirma que as descobertas que Freud extraiu da histeria não apenas são de grande importância histórica, mas também proporcionam um conhecimento clínico atual. Ela considera que o artigo "Estudos sobre a Histeria" é, de certa maneira, mais próximo de nosso tempo que os trabalhos posteriores de Freud, apesar de as noções a respeito das fases sexuais e do complexo de Édipo ainda não estarem formuladas, como estão hoje, para seus herdeiros na atualidade, porque Freud ainda estava buscando e pesquisando. Enquanto muitos dos axiomas psicanalíticos a respeito da feminilidade continuam vagos, os fatos clínicos mantêm-se.

 

A advertência de Freud para sua fiancée - sem conhecer o passado não podemos conhecer o presente - continua verdadeira, tanto para a teoria como para o indivíduo. Por isso, para essa psicanalista, para compreender o desenvolvimento da psicanálise é necessário estudar esse centenário desde o início.

 

De acordo com Iki Freud, a psicanálise anda atualmente fraca das pernas como teoria e como ciência. Para a autora, a única coisa que permanecerá, no futuro da descoberta centenária da psicanálise, talvez seja uma maneira particular de pensar e observar. E essa maneira psicanalítica de pensar já estava presente nos "Estudos sobre a Histeria".

 

Com essas previsões sombrias para o futuro da prática psicanalítica, Iki Freud termina seu livro, que, por outro lado, ainda é um mergulho apaixonado no campo psicanalítico, seja nas produções teóricas ou clínicas. A leitura do livro é particularmente esclarecedora, porque as reflexões teóricas são elucidadas pela descrição de vários casos da sua larga experiência clínica de quase cinquenta anos.

 

Assim, as previsões finais refletem a sensibilidade dessa psicanalista para mudanças culturais e sociais, implicando desdobramentos para a compreensão e tratamento do sofrimento emocional. Também nesse último aspecto, mostra-se próxima de seu homônimo.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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