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Resumo
Resenha de Adélia Bezerra de Meneses, Cores de Rosa. Ensaios sobre Guimarães Rosa. São Paulo, Ateliê Editorial, 2010. 236 p.


Autor(es)
João A. Frayze-Pereira
é psicanalista do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor livre-docente do Instituto de Psicologia da USP.

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 LEITURA

Psicanálise e cultura em Guimarães Rosa: a travessia poética de Adélia Bezerra de Meneses [Cores de Rosa. Ensaios sobre Guimarães Rosa]

Psychoanalysis and culture in Guimarães Rosa: the poetic journey of Adelia Bezerra de Menezes
João A. Frayze-Pereira

Adélia Bezerra de Meneses é um nome que já se tornou  referência entre muitos psicanalistas brasileiros. Desde Desenho mágico (1982) até As portas do sonho (2002), passando por Figuras do feminino (2001) e pelo conjunto de ensaios de literatura e psicanálise, reunidos em Do poder da palavra (1995), Adélia foca seu pensamento sobre as relações entre cultura e psicanálise, dentro do campo específico da literatura. Entretanto, se nos primeiros estudos percebe-se que o exercício da psicanálise é cercado de certa cerimônia, à medida que nos aproximamos do último livro, tal distância é gradualmente reduzida com o uso de certos recursos teórico-clínicos que facilitam à autora a realização de uma experiência psicanaliticamente implicada no campo cultural, delimitado pela literatura, campo simbólico cuja forma poética pode encantar o leitor. E como não é a primeira vez que resenho livro dessa autora, tenho tido o privilégio de acompanhar o perfazer de seu pensamento[1].

 

Em As portas do sonho, por exemplo, o leitor trabalha inteiramente seduzido, uma vez que se trata de um livro belíssimo não apenas do ponto de vista da escrita, como também do ponto de vista editorial. Por ser ensaístico e plástico, pode ser considerado um exemplar dos chamados livros de arte, um volume que facilmente se elege como livro de cabeceira a maravilhar o leitor: portas do sonho. Não são poucos os parágrafos que suscitam pausa na leitura para ter início um processo cognitivo situado entre o pensamento e o sonho, aquele tipo de atividade poética designado por Gaston Bachelard devaneio. Assim, é prazeroso o ato de ler esse livro, pois, não apenas conceitual, é também imaginativo. Desde a primeira página, o leitor é introduzido pela autora no campo dos sonhos realizados pelos gregos na Antiguidade, tal como aparecem registrados na literatura da era clássica. Ora, em grego, a palavra imaginação (phantasia) vem do mesmo radical de luz (phaos). E não por acaso As portas do sonho é também um objeto visual. Afinal, como lembra Adélia, não é a poesia o luzir sensível da ideia (Hegel)? Em Cores de Rosa. Ensaios sobre Guimarães Rosa, essa ideia é radicalizada. Afinal, este também é um livro colorido.

 

Nos oito capítulos que o compõem, são analisadas obras diversas de Guimarães Rosa -Grande sertão: veredas, A hora e vez de Augusto Matraga, Buriti, Dãolalalão, O homem do pinguelo, O recado do morro, Fita verde no cabelo. Neles, a autora considera a simbologia das cores, elaborada por Guimarães, e decide pesquisá-la. E, como resultado dessa decisão, surge um texto trabalhado visualmente ao pé da letra. Isto é, para cada cor, contextualizada na obra que analisa, Adélia descobre significados vinculados aos personagens. Por exemplo, em Grande sertão: veredas, codificam-se o vermelho, o verde, o azul e o violeta, codificação que recebe um cuidadoso tratamento editorial: "1. Azul: comportamento/atitude de Diadorim; 2. Vermelho: a atração de Riobaldo por Diadorim; 3. Verde: descrição de Diadorim (sobretudo os olhos); 4. Violeta: introdução ao encontro, feito por uma Mulher" (p. 45). Assim, interrogada de diferentes perspectivas, a relação entre literatura e visão anuncia-se desde a epígrafe do livro - As cores são ações da luz. Ações e paixões (Goethe) - que é reforçada com as fotografias de Germano Neto, verdadeiras vistas do sertão, distribuídas no interior da prosa. Afinal, como diz Riobaldo, "sertão: é dentro da gente" (p. 15, 24, 73).

 

Como nos outros livros da autora, neste, reiteram-se as análises preciosas cuja retransmissão é impraticável, salvo o recurso às citações que, nesse momento, seriam muitas. São análises, em suma, projetadas a partir de dois pontos de vista - o psicológico e o antropológico - que, por sua vez, instauram uma profunda reflexão de cunho fenomenológico-existencial. Associada a Guimarães Rosa, Adélia pressupõe em seus leitores uma "consciência etimológica" e uma "sensibilidade ao significante" (p. 88) que ela explora magistralmente. São exemplos, nesse sentido, as análises dos nomes próprios e seus correspondentes: Riobaldo//rio (p. 72-73), Diadorim//neblina (p. 38; p. 64), Matraga//matraz (p. 89), entre outros. A ideia subjacente a elas é a da correspondência sensorial de todos os seres ou, mais profundamente, a da correspondência das artes, o que foi elaborado por escritores, poetas e filósofos como Vico, Goethe, Baudelaire, Souriau, entre outros. E, com efeito, durante a leitura de Cores de Rosa, pouco a pouco, é possível perceber no intervalo das palavras a ideia de  obra de arte total que se funda na  unidade dos sentidos, questão florescente no campo da Fenomenologia.

 

Cabe lembrar que a proposição de uma obra de arte total não é uma ideia abstrata. Ela aconteceu em vários momentos da história das artes. No século xvi, Arcimboldo imaginara um sistema de equivalências entre gradações do preto ao branco e intensidades sonoras. E no xviii, não foram poucos os que se interessaram pelas articulações entre música e artes plásticas, antecipando certas problemáticas que se farão presentes no século xx. Mas, antes disso, a ideia de uma espécie de unidade primordial da criação artística, sobretudo com o romantismo, levou muitos artistas a recusar a divisão das artes em artes espaciais ou visuais (arquitetura, escultura e pintura), artes temporais ou da audição (música, poesia e prosa) e artes do movimento (dança, teatro e cinema). Etienne Souriau[2] interroga essa concepção linear e esquemática que muitas manifestações contemporâneas também se encarregam de problematizar e, finalmente, destruir. Ou seja, são principalmente os artistas da segunda metade do século xx que se manifestam com projetos que ultrapassam as correspondências sensoriais como meras analogias, trabalhando tal sensorialidade poética a partir de uma interpretação mais complexa da própria atividade perceptual. A reflexão contida em Cores de Rosa permite pensar que a obra de Guimarães participa desse campo de interrogações. E, nesse instante, é preciso abrir parêntese para dizer que a reflexão desenvolvida neste livro, apoiada nos diversos autores escolhidos por Adélia, tem afinidade com a "Fenomenologia da Percepção" de Merleau-Ponty, na qual o corpo é espaço expressivo por excelência, transformador das intenções em realidades, meio de ser no mundo e fundamento da potência simbólica[3]. Como se sabe, desde esse filósofo, o campo privilegiado em que se realiza o fenômeno da expressão é o corpo, campo que permite a pregnância de todas as experiências sensoriais - auditivas, visuais, táteis... - no qual se funda a unidade antepredicativa do mundo percebido que, por sua vez, servirá de referência à expressão verbal e à significação intelectual. No capítulo sobre a "passionalização da natureza em Grande sertão: veredas",  Adélia deixa perceber essa afinidade intelectual.  Por exemplo, considerando que a característica principal de Guimarães Rosa é a visualidade, a autora diz:

 

realmente, a apreensão plástica do mundo, a visão como órgão dominante é tal que, nele, até a percepção olfativa é "vista": "um cheiro pingado, respingado, risonho, cheio de alegriazinha", refere o narrador em "campo geral"; nele, o táctil (e, eventualmente, o acústico) também vira visual: "o vento é verde" (p. 56).

 

Ora, tais correspondências, baseando-me em Merleau-Ponty (1945), falam de uma natureza enigmática do corpo que transfere para o mundo sensível o sentido imanente que nasce nele em contato com as coisas e nos faz assistir ao milagre da expressão. Quer dizer, como uma totalidade sensível e sentiente, o corpo é ambíguo. Simultaneamente sujeito e objeto, é um ser capaz de reflexão. Melhor dizendo, ele é esse ser estranho que utiliza suas próprias partes como simbólica geral do mundo e pelo qual podemos frequentar esse mundo e encontrar para ele uma significação. Assim, compreende-se que, dessa perspectiva, a passionalização da natureza é uma operação não apenas possível, mas real. Admitindo que haja em cada ser sensível uma simbólica que vincula cada qualidade sensorial às outras, constituindo conjuntamente uma única coisa, pode-se concluir que o olhar, o tato e todos os outros sentidos também são conjuntamente os poderes de um mesmo corpo integrados em uma única ação. A análise profunda feita por Merleau-Ponty do processo perceptivo demonstra que os sentidos se comunicam. E é essa comunicação intersensorial que Adélia pressupõe, desvendando a "sensorialidade" (p. 55) do corpo literário e as correspondências sensíveis como "fundamento da linguagem poética" (p. 56). E, finalmente, reconhece que a "ambiguidade" é o grande tema de Guimarães Rosa (p. 73). Nesse sentido, em diálogo com Marcuse, nossa autora lembra que "a moralidade castradora da civilização interditou de tal maneira o uso do corpo como instrumento de prazer, que esse uso se manteve como infeliz privilégio de prostitutas, degradados e pervertidos" (p. 146). E de escritores como Guimarães Rosa, pode-se acrescentar que fazem do corpo o fundamento de sua literatura dadivosa - corpo intersensorial, ambíguo, reflexivo. Mas, e a psicanálise?

 

Escapando do caminho oferecido pela metapsicologia que, frequentemente, leva o leitor, ingênuo, a um seguro, porém abstrato exercício intelectual, que confunde prática da psicanálise com psicanálise aplicada, inevitavelmente reducionista, a leitura que Adélia Bezerra de Meneses realiza é mais sofisticada: a que pode e deve dar a si mesma dos efeitos das obras de cultura sobre a sua própria subjetividade. Nessa medida, a relação entre psicanálise e literatura fica fora dos limites da mera psicanálise aplicada, pois não se restringe a uma verificação do método ou dos conceitos psicanalíticos. Mais exatamente, sem prescindir do processo associativo, Adélia realiza um tipo de trabalho, homólogo ao da clínica psicanalítica, que designa "associação cultural"[4], isto é, associar, não tanto o que lhe vem à mente a propósito deste ou daquele símbolo, mas como um personagem, um sertanejo, supostamente associaria - trabalho arriscado, pois todo o esforço será o de entrar na pele (melhor dizendo, na "psique cultural") de Riobaldo, Diadorim, Matraga, Soropita, Doralda, Cesarino, Mourão...  Assim, em Cores de Rosa, melhor será falar em psicanálises, pois são diversos os psiquismos em foco, diferentes os recursos conceituais evocados, quase sempre implicados nas análises realizadas. Nessa medida, por um lado, a autora privilegia o processo metódico, freudiano, da associação livre, entendido por ela como "associação cultural", e compara o que se passa entre Riobaldo e seu interlocutor a uma sessão psicanalítica, referindo tal analogia a certas ideias de individuação, de cura e de interpretação, articuladas a certa concepção de "campo transferencial" (p. 28, 32, 39, 41); por outro lado, para a interpretação dos símbolos, além dos vários dicionários de Etimologia, a autora recorre à Psicologia Analítica de Jung, à Antropologia e à História das Religiões de Mircea Eliade, apenas para citar alguns dos autores evocados que vão desde os clássicos aos brasileiros, especialmente, aos que trabalham na área da Teoria e da Crítica  Literária. Nesse sentido, é evidente no livro que,  além da relação transferencial com a personagem, é imprescindível a erudição do analista, também entendida como recurso metódico, isto é, o conhecimento profundo do universo simbólico em que vive o outro a analisar, recurso sem o qual torna-se impossível evitar a arbitrariedade associativa e a violência das interpretações, obstáculos para a realização de uma "travessia" poética, isto é, "na linguagem", "em comunhão com um Outro" (p. 24). Nesse caso, a pergunta que Adélia tacitamente propõe ao leitor é grave: até que ponto tal recurso valeria apenas para a análise de personagens histórica e culturalmente distantes do intérprete; até que ponto a ignorância da memória cultural na relação do psicanalista com seu analisando poderia implicar o embrutecimento não somente do outro, mas sobretudo de si mesmo?

 

Para nós, psicanalistas, a questão crítica que se destaca em Cores de Rosa é a mesma que encontramos nos outros livros da autora: a possibilidade de realização de um estudo crítico-clínico da metáfora (na linha de uma "clínica extramuros", segundo Jean Laplanche, de uma "clínica extensa", diria Fabio Hermann), fundamental para ampliar e compreender a constituição poética do próprio campo psicanalítico. Não há dúvida, como todos os livros de Adélia Bezerra de Meneses, este é um livro erudito que também tem a potência de emocionar o leitor. É a cultura brasileira - a travessia da autora nessa cultura, dado o contato que teve com a gente do sertão rosiano - que é analisada em todos os capítulos do livro, desde a percepção da paisagem agreste, do céu e da vegetação, das boiadas e dos cavalos, até a sensibilidade às paixões que nutrem os seres humanos, à opressão de um pelo outro num mundo desequilibrado, à resistência a tornar-se aquilo que é, os doloridos processos de individuação e de reparação. E um dos pontos mais altos do livro é atingido quando nos damos conta de que, amparado em Guimarães Rosa, o desejo profundo de Adélia é expressar não apenas a dignidade do sertanejo, mas conferir a ele o "direito à tragédia", o "direito ao pathos" (p. 161). Nesse sentido, a psicanálise revela-se uma perspectiva essencial, pois faculta tornar visível a proximidade entre o mundo do sertão e o mundo clássico (p.179). E isso significa que entre Cores de rosa e As portas do sonho há muitas correspondências.

 

Finalmente, gostaria de confessar que li este livro durante uma temporada em Cunha, na fazenda em que costumo passar férias, região serrana na qual, segundo soube, se enraíza a linhagem materna de Adélia - mar de verdes morros, de boa terra vermelha e cerâmica bem acabada, de festas religiosas populares, de congadas nas ruas e audições musicais no pequeno teatro da cidade.  Foi nesse ambiente que fiz a primeira leitura desse livro emocionante, visualizando com pouquíssimo esforço a paisagem mineira no interior paulista, uma das múltiplas correspondências que Adélia Bezerra de Meneses inspira realizar.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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