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Resumo
Resenha de Alcimar Alves de Souza Lima, Acontecimento e linguagem. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2010. 217 p.


Autor(es)
Maria de Lourdes Caleiro Costa Costa
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, no qual integra o conselho editorial da revista Percurso, membro da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família (ABPCF) e da Associação Internacional de Psicanálise de Casal e Família (AIPCF).



Notas

1  Leibniz Apud G.Deleuze, A Dobra, Leibniz e o barroco, p. 110.

2   G. Deleuze, Pourparlers, p. 196.

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 LEITURA

Clínica contemporânea: questões e propostas

[Acontecimento e linguagem]


Contemporary clinic: issues and proposals
Maria de Lourdes Caleiro Costa Costa

No início era o caos. Partículas e mais partículas em movimento sem fim; expansões, retrações. Algumas se encontram; aglomeram-se. Sob a ótica do tempo, alongam-se; linhas e linhas. Pulsam. Em dado momento, pontos de inflexão determinam dobras. Dobras em curvas cada vez menores; constelação - pontos circunscrevem lugares do desejo parental. Em meio a fluxos biológicos, psíquicos e sociais, a relação mãe-criança acontece e se organiza; sensações - fluxos de intensidade criam um corpo. Devires.

 

Poderiam ser essas as imagens iniciais do mundo que se apresenta em Acontecimento e linguagem, reunião de artigos escritos por Alcimar durante os últimos vinte anos. Se há um convite, sempre renovado, para esse olhar em perspectiva, para a apreensão dos grandes planos das cenas que se multiplicam, suas questões de proa são logo explicitadas: como compreender os processos de subjetivação da pós-modernidade e melhor responder às demandas da clínica contemporânea?

 

"Uma das marcas de nosso tempo, diz ele, é o imperativo de uma digestão sem interdição em altíssima velocidade, [...] o que pode levar as pessoas à morte por intoxicação narcísica" (p. 177). Multiplicam-se casos de anorexia, bulimia, depressão, toxicomania, estresses de todos os tipos, distimias, transtornos dissociativos e somatoformes, psicoses, distúrbios radicais do sono.

 

A partir de seu cotidiano, tanto como psicanalista como psiquiatra, seja no consultório, ou em instituições, tais como prisões ou hospitais, busca "novos paradigmas" que lhe permitam pensar uma prática comprometida com "a produção de uma ética que sustente a intensidade e as transformações de nossa época" (p. 180).

 

A subjetividade será pensada como processo de auto-organização em redes do universo subjetivo - sim - e cultural, por movimentos constantes de montagens e desmontagens, complementares e paradoxais, em articulações que possibilitem a circulação de fluxos pulsionais.

 

Mas a que vem essa ideia de auto-organização? Em excelente prefácio, Renata Cromberg sublinha que, em "O futuro de uma ilusão", Freud diz: "nossa organização, quer dizer, nosso aparelho psíquico" (p. 19). E que, em seguida, ele enfatiza que tal organização sofre a influência do mesmo mundo externo para o qual se desenvolveu para explorar. A autora recorre à origem latina, organon, em Aristóteles, lembrando que, da física à política, o conceito remete a funcionamento articulado. E destaca a originalidade do uso feito por Alcimar: "A auto-organização é uma forma complexa de recolocar o aparelho psíquico e libertar o eu de suas prisões identitárias [...], de permitir o acontecimento enquanto ligação entre o dentro e o fora, entre o eu e o outro de tal forma que essas oposições somem e criam uma nova ordem, uma nova auto-organização" (p. 20).

 

Lima recorre a diversos autores para fundamentar suas propostas. Em "Introdução ao narcisismo", sublinha a afirmação de Freud quanto à necessidade de um novo ato psíquico na passagem de auto-erotismo para narcisismo, sempre mediado pela função materna, e quanto à necessidade do outro para que haja uma organização. Uma auto-organização, continua Alcimar.

 

Desde a teoria dos sistemas, traz a ideia de que os sistemas abertos - e assim compreende o psiquismo, o pulsional, o inconsciente - já supõem a superação de uma oposição do eu e do outro, estabelecendo uma relação de contiguidade, cujas diferenças se dariam por graus.

 

Nesse ponto, encontramos Deleuze, em sua leitura de Leibniz, à qual Lima recorre para o conceito de dobra e a superação de dicotomias tais como dentro-fora, profundidade-superfície, sujeito-objeto. Deleuze e Leibniz falam de um tempo intrinsecamente variável, "o presente repleto de futuro e carregado de passado"[1], o que atrela a possibilidade de entendimento do que se dá à consideração de planos de finito-infinitos. Trata-se de matéria elástica, em que tanto extensão como intensidade estão tomadas em perene movimento de preensões e séries, divergentes e convergentes, que se estendem ao infinito.

 

É desse ponto de vista, e pelas inquietações de sua clínica, que Alcimar se pergunta: como através da relação com o outro nos singularizamos? A busca de diversos autores procura responder consequentemente à insistência de tal questão; a cada vez. Lima procura plasticidade à diversidade da vida e do que hoje se apresenta.

 

No prefácio, Renata faz um inventário dos autores, e conceitos, que Alcimar convoca junto às suas leituras de Freud e Lacan. Ela diz: "De Edgar Morin, as teorias da complexidade, de sistemas em aberto, de acaso e de auto-organização. De Mandelbrot, os conceitos de fractal e de bifurcações. De Ilya Prigogine e Isabel Stengers, a experimentação científica que corrobora as noções de caos, bifurcação, organização na instabilidade, no desvio, na dissipação energética, estruturas dissipativas e paradoxo do tempo. De Schorödinger, o conceito de vida como autoprodução" (p. 18). Antes, destaca Deleuze, em sua leitura de Hume, Leibniz, Espinosa, Bergson, e os conceitos de acontecimento, corpo sem órgãos, intensidade, dobra, fluxo, caos, sentido, virtual, diferença e acaso.

 

Aqui, eu acrescentaria o vitalismo que Deleuze reivindica e que permeia muitas linhas do autor de Acontecimento e linguagem. À p. 194 de Pourparlers[2], o filósofo francês, ao ser indagado a respeito da relação da literatura e de sua filosofia, em sua obra, à certa altura, diz o seguinte: "Em Proust, não é a memória que é explorada, mas signos de toda espécie, cuja natureza é preciso descobrir a partir dos meios, o modo de emissão, a matéria, o regime". E mais adiante afirma: "Há um laço profundo entre os signos, o acontecimento, a vida, o vitalismo. É a potência de uma vida não orgânica , que pode haver numa linha de desenho, de escrita ou de música. São os organismos que morrem, não a vida. Não há obra que não indique uma saída para a vida, que não trace um caminho por entre as vias". Com isso, se o acontecimento é intrinsecamente do campo da linguagem, os signos, os sintomas são expressão da maneira pela qual foram arrastados de dentro por algo que lhes era externo secretando seu próprio devir, havendo portanto aí a produção de uma narrativa. Há nessa posição uma crença essencial na vida que é, por definição, movimento perene, e que não cessa de se autoengendrar e se atualizar sempre segundo as configurações dos elementos em jogo.

 

Assim, a leitura que Alcimar faz de Além do princípio do prazer privilegiará a pulsão de morte como potência de criação. Sem deixar de considerar seus aspectos mortíferos, todas as articulações feitas irão no sentido de explicitá-la, enquanto compulsão à repetição - diferenciando-a da repetição, ligada à pulsão de vida -, em sua possibilidade de orquestração de intensidades assignificantes em direção à inscrição psíquica. É o próprio potencial destrutivo que, por sua força e insistência, se torna potência de criação.

 

Diz ele: "A questão nodal desse texto, parece-me, é o modo como as intensidades podem vir a ganhar representabilidade, e Freud vai tentar dar uma direção para essa indagação por meio da conceitualização da pulsão de morte" (p. 38).

 

Lima chama a atenção para o fato de a tônica inicial do texto ser a questão do trauma: como, diante de vivências terroríficas, o aparelho caotizado ganha possibilidades de organização? O sonho traumático é compreendido então como tentativa de captura de acontecimentos - traumáticos - para processamento psíquico. "O sonho traumático é a forma com que a pulsão de morte ata grandes intensidades a constelações significantes, criando possibilidades de inscrições representacionais às vivências do caos" (p. 46).

 

Nesse mesmo sentido, Freud postula o jogo do fort-da, no qual, através da compulsão de repetição, a criança busca dar conta dos efeitos em si das saídas e chegadas da mãe. Freud mostra, diz Alcimar, como esse "acontecimento instaura o simbólico e não como ele entrou numa ordem simbólica" (p. 42). A pulsão de morte é portanto aqui afirmada em sua condição de produtora do simbólico.

 

Há muitos anos ouvi, em uma entrevista sobre loucura, arte e instituições asilares, uma frase que ao longo do tempo foi se tornando assim: Quando o louco passa a mão na parede, dizem que é loucura. Não. É cura; procura de uma realidade que está se esgarçando.

 

É pela via do sensível que se dá a produção de uma narrativa, mínima que seja, de um eu que procura restituir-se em si, já outro. Na base de tais processos, e de resto quaisquer pensamentos, o corpo sensível pulsional - atravessado constantemente por fluxos biológicos, psíquicos, sociais - se impõe.

 

Nesse processo nascedouro, a eventual participação de um analista, poderíamos pensá-la enquanto "compromisso no contexto da organização de uma relação" (p. 84); olhar que propicia acolhimento a um corpo despedaçado, escuta que ao captar - sem capturar - o que se insurge, participa da construção de trilhas que o afirmem.

 

Alcimar faz inúmeras considerações sobre o trabalho psicanalítico, inclusive a partir de relatos de sua clínica, e que são os momentos do livro em que determinadas articulações propostas aparecem mais precisas. E o pensa: "O analista escuta pelos entremeios da linguagem, como nos lapsos e nos sonhos, [...] capta as intensidades, torna-as sensíveis. Isso surge nos movimentos transferenciais e liberta a vida contida nas malhas da linguagem que estava cristalizada e através dos lapsos e dos sonhos ganham linhas de fuga" (p. 186).

 

Chama a atenção para o jogo de singularidades e intensidades que se dá diante do qual analista e analisando vão se reposicionando. Em seguida, aponta para a irreversibilidade do tempo analítico, que "é vida e produz novas formas no interior dessa relação" (p. 186), e para as possibilidades de intervenção que uma clínica - articulada ao pulsional - abre, inclusive junto a pacientes cujas sintomatologias somatoformes se impõem. A ideia é explicitar instrumental para pensá-las no "bojo do escopo psicanalítico".

 

Um inconsciente compreendido como não sendo só da ordem da repetição simbólica, mas produtor, mergulhado no real, no pulsional estará vinculado a um trabalho analítico que "deixa de ser uma relação com um inconsciente já dado, para tornar-se uma relação com um potencial, um virtual. Ganha destaque o campo pulsional" (p. 50).

 

Se várias articulações são feitas através de relatos de sua clínica, o autor também recorre a casos noticiados pela mídia. Ao procurar pensar um ética para nosso tempo, cita o caso de um menino da Febem que degola seu colega, também o de um cidadão que pede a outro que lhe decepe a mão para receber um seguro, ou ainda aquele do Morumbi Shopping, de 1999, em que um moço entra em um cinema com uma metralhadora e atira em diversas pessoas. Chama para as transformações de grande envergadura por que passam instituições antes fortemente arraigadas tais como família, escola, nação, Estado - como efeito da globalização e do desenvolvimento tecnológico e midiático - e para a consequente "falta de referências que muitas vezes a subjetividade não suporta" (p. 178). E recorre à etimologia da palavra "autoridade, que provém do verbo latino augere, que significa aumentar" (p. 181), para, diante de rasgos de solidariedade plasmados nesses acontecimentos, defender uma ética que possa levar em conta aquilo que está transbordando das tradições culturais enquanto devir histórico.

 

Uma peça importante de suas articulações é considerar o conflito apresentado no Mito da horda primitiva não a partir da ótica do assassinato do pai, mas de sua morte. Seja para pensar uma ética que sustente as transformações do nosso tempo, seja para "agenciar o potencial destrutivo da pulsão de morte em potência criadora do novo" (p. 17), como diz Renata, seja para pensar novas configurações familiares ou para considerar desdobramentos do conceito freudiano de séries complementares.

 

Ao considerarmos um plano que se desdobra por séries e a consequente valoração por graus, afirma o autor: "Podemos pensar um conceito de falo contendo em si mesmo diferenças [...] e conceber uma origem que não parte de uma onipotência e sim de um conjunto de redes articuladas sem começo e nem fim" (p. 168).

 

As séries complementares e a pulsão de morte se articulam em primeiro plano para a fundamentação de uma clínica que, desde Viena pós primeira Grande guerra, se insurge porosa à atualidade do mundo que a produz.

 

"Como levar em conta o novo e as produções sem deixar de lado as tradições?", Alcimar assim enuncia a questão de Freud ao formular o conceito das séries (cf. p. 96).

 

Nelas se articulam o vivenciar pré-histórico, infantil e adulto de modo que em todo e qualquer movimento psíquico estas três dimensões estão presentes. "O devir atualiza-se carreando uma memória ancestral" (p. 145), diz o autor. E continua: Há uma "orquestra geracional e transgeracional" que é produzida e pode ser escutada e sempre atualizada na transferência (cf. p. 199).

 

Essas séries serão articuladas ao campo do pré-representacional e à economia das intensidades, abertos pela pulsão de morte: "Existem, no âmago daquilo que chamamos sensação, precipitados provenientes de gerações anteriores. [...] Nesses precipitados, é possível localizar, através da escuta psicanalítica, posições e lugares ocupados e desocupados por essas gerações, [...] em uma espécie de fort-da transgeracional" (p. 202).

 

Enfatizo aqui, a partir de minha experiência clínica, a relevância de tais conceitualizações e dos estudos que se dão a partir das séries complementares para o atendimento psicanalítico de casais. Se falamos acima da importância da escuta dessa "orquestra geracional e transgeracional" nos atendimentos individuais, imaginemos aqueles de casal, em que, de forma amplificada, estão em jogo as escolhas - e não escolhas - da dupla, em meio à interpenetração de duas grandes redes que se desdobram em complexas ramificações.

 

Por fim, é preciso mencionar o empenho do autor em levar a psicanálise para outros fóruns de discussão. No texto para o Congresso Interlatino para Pensamento Complexo, de setembro 1998, no Rio de Janeiro, e que faz parte dessa publicação, ele discorre, para essa plateia heterogênea, sobre conceitos freudianos que crê serem importantes para se pensar a transdisciplinaridade, que é, por sua vez, um dos postulados centrais do livro.

 

Porém esse grande painel desenhado por Alcimar, além das questões que apresenta, e principalmente pela importância delas, deixa outras a serem revistas. Talvez um pouco pelas características dessa publicação que reúne textos escritos para mesas-redondas ao longo de vinte anos, e nas quais não cabe a explanação de determinados pontos. Talvez pela liberdade que o autor tem em relação à leitura de outros autores ou à urgência do que vem afirmar. Fato é que em alguns momentos fica a ideia que teria sido necessário trazer mais detidamente alguns conceitos dos autores envolvidos - e nem sempre mencionados, o que dificulta a leitura de quem não os conhece - para extrair melhor as consequências do que ali foi mobilizado, às vezes tangencialmente.

 

Assim entendo ser, por exemplo, quando diz: "Porém, Freud mantém a ideia de representação que Deleuze tenta superar. Na representação cabe a síntese disjuntiva, ideia básica para pensarmos um conceito para auto-organização dos sistemas abertos. O inconsciente é uma auto-organização, um sistema aberto vivo" (p. 131).

 

Mas fica sobretudo a convicção de que a relevância de determinadas articulações apresentadas, bem como das questões convocadas, supera em muito eventuais pontos problemáticos. Como quer o próprio autor em relação a leituras suscitadas, que essas se constituam em oportunidade para outros desdobramentos.

 

Não é possível terminar sem mencionar os versos que encontramos, em meio a páginas brancas, entre os capítulos. Outro ritmo se insurge. Pulsa. "Palavras transbordam páginas" (p. 203). No jogo do corpo e do sentido, Alcimar engendra novos pensamentos.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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