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Resumo
Nesse artigo, através do método interpretativo psicanalítico, a identidade adolescente e suas relações na internet vão para o divã, levando com elas o mundo em que vivemos. O perfil de um adolescente no Orkut nos proporcionou o pensamento sobre uma possível lógica de construção identitária: a ilha-cercada-de-mesmos-por-todos-os-lados.


Palavras-chave
construção identitária; redes sociais; subjetivação; condição adolescente.


Autor(es)
Mariana Paula Oliveira
é professora mestra na Universidade Federal de Uberlândia

Maria Lúcia Castilho  Romera
é professora doutora na Universidade Federal de Uberlândia


Notas
1 M. Minerbo, "O método Psicanalítico em Freud".

2 A Teoria dos Campos propõe pensarmos sobre o mundo e seu homem, e não o homem e seu mundo. Leda Herrmann coloca que "o que conta não é o mundo subjetivo de cada homem, mas a subjetivação de cada mundo, seja ele um homem, uma cultura, uma obra literária, um grupo, um setor da sociedade". L. Herrmann, Andaimes do real: a construção de um pensamento, p. 199.

3 F. Herrmann, Psicanálise do quotidiano, p. 130.

4 F. Herrmann, O que é Psicanálise - para iniciantes ou não, p. 144.

5 S. Rolnik, "Toxicômanos de identidade. Subjetividade em tempo de globalização", p. 19.

6 S. Rolnik, op. cit, p. 20.

7 S. Rolnik, op. cit., p. 3.

8 M. Minerbo, op. cit., p. 47.

9 F. Herrmann, "Psicanálise e política - no mundo em que vivemos", p. 245.

10 F. Herrmann, op. cit., p. 244.

11 G. Debord, A sociedade do espetáculo, p. 9.

12 G. Debord, op. cit., p. 9-10.

13 T. Adorno, "A indústria cultural", p. 56.

14 Desejo, aqui, não converge, até onde pudemos apreender, à definição trabalhada pela Teoria dos Campos: parcela do real sequestrada no sujeito.

15 M. R. Kehl, O espetáculo como meio de subjetivação, p. 3.

16 M. R. Kehl, op. cit, p. 4.

17 F. Herrmann, O que é psicanálise - para iniciantes ou não, p. 145.

18 F. Herrmann, Introdução à Teoria dos Campos, p. 145.

19 F. Herrmann, op. cit., p. 141.

20 F. Herrmann, A psique e o eu, p. 146.

21 F. Herrmann, op. cit.

22 F. Herrmann, op. cit., p. 149.

23 F. Herrmann, op. cit., p. 161-162.

24 Disponível em: .

25Disponível em , e também em .

26 Ditado popular.

27 M. Minerbo, "Depleção simbólica e sofrimento narcísico contemporâneo".

28 J. A. Roza Júnior, As inter-relações na adolescência: a máquina in-corporada e a virtualidade contemporânea, p. 38.

29 Acesso em 25 mar. 2011, disponível em .

30 Acesso em 25 mar. 2011, disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/Twitter>.

31 M. Minerbo, "A fragilidade do símbolo: aspectos sociais e subjetivos", p. 42.

32 F. Herrmann, "Adição à adição", p. 4.




Referências bibliográficas

Adorno T. W. (1999). Conceito de Iluminismo. In: Textos Escolhidos – Adorno Vida e Obra. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural.

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Kehl M. R. (2003). O espetáculo como meio de subjetivação. Disponível em pdf/oespetaculocomomeiodesubjetivacao.pdf>. Acesso em 29 dez. 2010.

Minerbo M. (2003). O método psicanalítico em Freud. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 37, n. 2/3, p. 01-10.

Minerbo M. (2009a). Depleção simbólica e sofrimento narcísico contemporâneo. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.7. Disponível em .

Minerbo M. (2009b). A fragilidade do símbolo: aspectos sociais e subjetivos. Contemporânea – Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.7. Disponível em .

Rolnik S. (1997). Toxicômanos de identidade. Subjetividade em tempo de globalização. In: Lins D. (org.) Cultura e subjetividade. Saberes nômades. Campinas: Papirus. p. 19-24.

Roza Júnior J. A. (2009). As inter-relações na adolescência: a máquina in-corporada e a virtualidade contemporânea. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG.

 

Adolescent identity-construction in the virtual world: islands surrounded by selves on all sides




Abstract
In this article, through the psychoanalytic interpretation method, the teenager’s identity and relations on the internet go to the couch, taking with them the world which we live in. The teen’s profile on Orkut has provided us with the thought of a possible logic of identity construction: the island-surrounded-by-selves-on-all-sides.


Keywords
identity construction; social networks; subjectivity; teen condition.

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 TEXTO

Construção identitária adolescente no mundo virtual:

ilhas cercadas de mesmos por todos os lados


Adolescent identity-construction in the virtual world:
islands surrounded by the selves on all sides
Mariana Paula Oliveira
Maria Lúcia Castilho  Romera

Esse trabalho parte de uma pesquisa de mestrado que investiga a construção identitária adolescente no mundo em que vivemos. O uso frequente das redes sociais na internet para se expressar e se relacionar é um fenômeno contemporâneo importante, principalmente entre os jovens. Nesse universo, um campo de estudos que se abre é aquele relativo aos sentidos dessa imersão no meio virtual e suas implicações na construção identitária adolescente.
 

Para percorrer o caminho dessa investigação, o método escolhido foi o psicanalítico. F. Herrmann nomeou esse método como interpretação por ruptura de campo. Esse último termo designa aquilo que delimita um conjunto de sentidos psíquicos que regem as relações humanas. É parte do psiquismo, sendo individual e social/ cultural ao mesmo tempo, e é inconsciente. O método interpretativo visa romper com o campo de sentidos sobressalente, provocando um abalo que possibilite a emergência de novos sentidos - de outros campos. Trata-se do método mesmo que Freud utilizava para fazer suas descobertas, e condição invariável para a produção e reconhecimento de todo e qualquer saber psicanalítico.[1]

 

Na pesquisa da qual esse trabalho é um desdobramento, a identidade do adolescente e sua relação com a internet vão para o divã, tomando em consideração aspectos da construção identitária nas relações virtuais e relacionando-os com certas características psíquicas do nosso universo. Da apreensão dos recursos e dos discursos que possibilitam tal construção em meio ao contexto atual, e particularmente na realidade virtual, busca-se uma ampliação da compreensão do mundo em seu adolescente[2], através da lente psicanalítica e, mais especificamente, da Teoria dos Campos.

 

A princípio, é preciso contextualizar o mundo em que vivemos, lugar onde o homem pôde criar a internet, as redes sociais, como também as suas maneiras de se relacionar dentro (e fora) desses espaços. A Teoria dos Campos nos lembra de que "é preciso mergulhar na psique do real, para compreender como esta determina a interioridade do sujeito"[3]. O conceito de psique do real vem estender a possibilidade da investigação psicanalítica, cujo objeto é a psique, essa que, segundo Herrmann, "não é uma coisa que existe na cabeça do indivíduo, nem na cabeça coletiva [...], é o que produz sentido nas coisas humanas"[4], em todo e qualquer lugar, não apenas nos consultórios. Interpretá-la significa romper os campos e revelar as regras criadoras desse universo compartilhado. Interpretando o mundo conseguimos pensar sobre a sua própria construção, assim como na de seus habitantes.

 

Suely Rolnik discute que, com a globalização e a anulação das fronteiras, pressupõe-se uma grande possibilidade de criação individual e coletiva, a partir das misturas, das infinitas possibilidades de criação com as novas relações, de novas maneiras de se viver. As infovias deveriam ampliar ainda mais essas possibilidades, visto que tornam o planeta uma grande comunidade rica em diferenças culturais. Porém, o que aconteceu foi diferente: não surgiu "uma democracia administrada por um sistema de autogestão em escala planetária", mas, na realidade, "a mesma globalização que intensifica as misturas e pulveriza as identidades implica também a produção de kits de perfis-padrão de acordo com cada órbita do mercado, para serem consumidas pelas subjetividades"[5].

 

Insistir com uma referência identitária traduz um receio em se "virar um nada". E pra ser alguém, dentro desse mundo-mercado, há opções prontas, que a autora traz como drogas variadas:

 

Primeiro as drogas propriamente ditas, fabricadas pela indústria farmacológica, que são pelo menos de três tipos: produtos do narcotráfico, proporcionando miragens de onipotência ou de uma velocidade compatível com as exigências do mercado; fórmulas da psiquiatria biológica, nos fazendo crer que essa turbulência não passa de uma disfunção hormonal ou neurológica; e, para incrementar o coquetel, miraculosas vitaminas prometendo uma saúde ilimitada, vacinada contra o stress e a finitude[6].

 

Além disso, há as drogas produzidas pela tv, pela publicidade, e outras mídias, que Rolnik nomeia como "identidades prêt-à-porter", as quais têm efeito rápido e passageiro, quando consumidas como próteses de identidades. Essas identidades são emprestadas, e não se sustentam por muito tempo; são "falsos-selfs estereotipados"[7]. Seu uso e sua limitação alimentam a necessidade de troca, de se buscar mais e mais identidades; princípio do vício. Os viciados precisam consumir essas imagens para se sentirem reconhecidos nesse mundo-mercado, e assim, existirem.

 

Em direção confluente a essas ideias, Marion Minerbo trabalha essas questões considerando a fragilidade do símbolo no contemporâneo - elemento essencial para a constituição do psiquismo -, e a falta de lastro simbólico. Essas resultam, segundo a autora, em um sofrimento psíquico, em uma crise identitária, e o sujeito vai buscar meios de compensar essa carência. Um desses meios seria através do uso de substâncias psicoativas, naturais (endorfinas, adrenalina) ou artificiais (fármacos, álcool, drogas ilícitas). Outra maneira de aliviar o sofrimento narcísico seria absorvendo da cultura elementos que possam compensar a condição precária da identidade: "O sujeito toma emprestado da cultura elementos - signos - que são usados como ‘tijolos' na construção de uma identidade reificada e exteriorizada"[8].

 

Herrmann apontou, em sua análise das relações humanas, ou mundanas, aquilo que considerou como "perda de substância social", ou "perda geral de substância que afeta a vida contemporânea"[9], para dizer das regras regentes das relações nessa sociedade, influenciadas pelo processo de produção e consumo, pela perda que o homem sofreu de um lugar que é agora ocupado por máquinas, da seguinte maneira:

 

A mudança que parece haver ocorrido reside na independência crescente do processo de produção e consumo, que passa ao largo das fronteiras nacionais, despindo-se de sentido em seu percurso, a ponto de as próprias representações de nacionalidade - história pátria, língua, cultura nacional, etc. - perderem seu vetusto prestígio e sua mais recente credibilidade. Admitamos que aquilo que se perdeu não era por si só um precioso patrimônio da humanidade, mas sua falta põe a descoberto, por carência da identidade nacional, os ingredientes conflitantes da raça humana, que tal identidade conseguia temperar[10].

 

Guy Debord, em "A sociedade do espetáculo", nos ajuda também a refletir sobre o tema. O autor faz uso do termo "espetáculo" para denominar a sociedade contemporânea, dona de uma trajetória histórica e de um funcionamento específico. Nas suas palavras: "O espetáculo não pode ser compreendido como abuso do mundo da visão ou produto de técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é a expressão de uma Weltanschauung, materialmente traduzida. É uma visão cristalizada do mundo"[11].

 

Essa sociedade se formou principalmente a partir das novas relações de mercado, constituí­das a partir da modernidade, onde o produto e a força de trabalho deixam de ser uma unidade para o produtor, sendo o processo dividido em partes, onde o trabalhador tem sua competência alienada, seu saber minimizado, e o resultado final já não lhe cabe. Para o autor, o espetáculo na sociedade representa uma verdadeira fábrica de alienação. Debord afirma:

 

O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração readicionada. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o seu corolário o consumo. Forma e conteúdo do espetáculo são, identicamente, a justificação total das condições e dos fins do sistema existente[12].

 

Essa fala se aproxima da ideia de real como lógica de produção, da Teoria dos Campos. A sociedade do espetáculo, muito além de um exagero na produção e uso de imagens, produz as regras que geram as relações no nosso mundo.

 

Outro autor importante que merece consideração é Theodor Adorno, que em 1947, no texto "A indústria cultural", trabalhou a perda da individualidade a partir do modelo econômico capitalista que já imperava. Segundo ele, "A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente"[13]. Adorno enxergava esse imperialismo e sua consequente eliminação do indivíduo até mesmo nas artes, no cinema, no lazer.

 

Maria Rita Kehl faz um estudo dos textos citados - "A Sociedade do Espetáculo", de Debord, e "A Indústria Cultural", de Adorno - acreditando que entre os dois textos não há mudança de paradigma, mas uma complementação por parte de Debord às ideias de Adorno - 20 anos depois - pela repercussão e transformações advindas da indústria cultural, associada a novas e mais aperfeiçoadas maneiras de se traduzir a vida em imagens.

 

Nessa análise, Kehl problematiza a questão da perda da subjetividade, como fruto da massificação das individualidades e da manipulação feita pela publicidade no próprio inconsciente, o que se dá pela via do desejo. Nas suas palavras:

 

A operação consiste em apelar para a dimensão do desejo, que é singular, e responder a ela com o fetiche da mercadoria. A confusão que se promove, entre objetos de consumo e objetos de desejo[14], desarticula, de certa forma, a relação dos sujeitos com a dimensão simbólica do desejo, e lança a todos no registro da satisfação de necessidades, que é real. O que se perde é a singularidade das produções subjetivas, como tentativas de simbolização[15].

 

A confusão a que Kehl se refere, e que aparece nos textos de Debord e Adorno, entre aquilo que é singular, que é próprio do desejo, com aquilo que é coletivo e agora massificado, parece ser a força que ao mesmo tempo destrói a subjetividade, eliminando a singularidade, e move o indivíduo na busca de novas formas de subjetivação, já que esse sofre com a perda identitária.

 

Ocorre que a sociedade dos indivíduos "desacostumados à subjetividade" não é a sociedade dos homens capazes de estabelecer entre eles relações "objetivas", ou seja, livres do excedente de alienação que o capitalismo industrial fabrica diariamente. Ao contrário, o que o espetáculo produz é uma versão hipersubjetiva da vida social, na qual as relações de poder e dominação são todas atravessadas pelo afeto, pelas identificações, por preferências pessoais e simpatias. E quanto mais o indivíduo, convocado a responder como consumidor e espectador, perde o norte de suas produções subjetivas singulares, mais a indústria lhe devolve uma subjetividade reificada, produzida em série, espetacularizada. Esta subjetividade industrializada ele consome avidamente, de modo a preencher o vazio da vida interior da qual ele abriu mão por força da "paixão de segurança", que é a paixão de pertencer à massa, identificar-se com ela nos termos propostos pelo espetáculo. Por aí se explica o interesse do público que assiste aos reality-shows dos anos 2000 na tentativa de flagrar alguma expressão espontânea da subjetividade alheia sem se dar conta de que os participantes desse tipo de espetáculo estão tão "formatados" pela televisão, tão "desacostumados da subjetividade" quanto o telespectador[16].

 

Fazendo uso dessa citação, destacamo-la como uma síntese articulada dos elementos que buscamos trazer para contextualizar o mundo em que vivemos e seu sujeito. Falamos aqui sobre o sistema econômico vigente, algumas das transformações por ele engendradas, destacando a anulação das fronteiras com a globalização, e os recursos que a sociedade foi construindo para se expressar e para se relacionar nessa nova configuração. Falamos que esses meios se mostram sujeitados à mesma lógica produtora do sistema econômico, o que nos faz entender que essa lógica acaba regendo também nosso pensamento. E, por fim, colocamos a problemática da des-subjetivação, questão que percorrerá toda essa investigação, direta ou indiretamente.

 

A construção identitária

Para Herrmann, identidade é a representação do desejo, sendo esse, a lógica de produção dos sentidos humanos para o indivíduo, ou "porção do real sequestrada no sujeito"[17]. O autor, de forma metafórica, nos apresenta a identidade como as vestes de um corpo invisível, sendo possível vislumbrar o desenho do formato desse corpo através das trocas de roupas. Nessa metáfora, o corpo corresponde ao desejo, que é[18]

 

[...] o inconsciente em ação. Sua ação, no embate com o mundo, vai criando precipitados de representações mais ou menos estáveis que acabam por definir o sujeito. Este ganha um rosto, ou seja, um caráter, uma forma reconhecível. Os outros dão-lhe nome, atribuem-lhe intenções e feitos, um estilo de ser. Como o desejo é repetitivo e bastante limitadas suas variações, há, na maioria das vezes, certa semelhança entre o reconhecimento externo e ação contínua do desejo.[19]

 

Desejo e real são lógicas inconscientes, não se deixam reconhecer diretamente. Mas indiretamente, através de suas representações - a identidade e a realidade - encontramos um acesso, via método interpretativo.

 

A identidade se constrói assim como a realidade, mas é indivi-dual: une os aspectos único e social, indissociavelmente. O homem, por meio das representações, se coloca frente ao outro, como também frente a si mesmo. A essa ação humana, Herrmann chamou de paixão do disfarce.

 

Para o autor, o disfarce "é uma atitude eminentemente social que regula ou desregula a relação com o outro e que depende de uma convenção socialmente compartida, para poder tornar-se efetiva"[20]. Os disfarces são como as máscaras ou adereços que usamos e nos conferem ares de algum personagem, mesmo de forma tão sutil, como através de um olhar, um tom de voz.

 

A primeira coisa que nos maravilha na arte do disfarce é, com toda a certeza, a economia extraordinária de meios sobre os quais se suporta. Basta um mínimo, uma sugestão apenas de identidade, um sinal quase imperceptível no rosto ou no corpo, e a convenção teatral da sociedade, se a aproximação é lícita, incumbe-se de imediato do resto da tarefa: o indivíduo alberga-se na identidade suposta sem nenhum esforço visível[21].

 

Essa convenção se dá justamente através da relação do indivíduo com a sociedade. Primeiramente, ela acontece, pois "é possível reconhecer no disfarce uma das marcas sociais (ou intersubjetivas) de nossa vida mental", como se reeditasse um jogo intrapsíquico. Além disso, "a sociabilidade interior é também garantida pela extensão do mundo externo, onde as experiências constituintes da identidade se deram, ao reino anímico, onde vigem"[22]. Daí, a justificativa para o fascínio exercido pelo jogo de disfarçar-se.

 

A convenção, a crença social no disfarce, exerce uma função importante na construção da identidade do sujeito, visto que o outro legitima cada disfarce seu, e as trocas desses pequenos disfarces lhe conferem a composição de um personagem principal que habita ali. A função é simbólica, sua importância e eficácia estão no sentido que produz. Ela resguarda o indivíduo de se perder em um vazio identitário, logo, ele busca constantemente conservá-la.

 

Herrmann diz ainda que o ato de disfarçar-se reedita o nascimento do sujeito psíquico, ou seja, cada nova representação adquirida "é um novo passo na ruptura com o cerco das coisas - agora rompe-se até a prisão das coisas identitárias de meu mundo habitual. [...] O ato de disfarçar-se está mais próximo do verdadeiro eu do sujeito que a identidade comum, quotidiana"[23].

 

Assim, notamos que o sujeito carrega a ilusão de possuir uma só identidade, visto ser esta uma construção permanente, e pautada em "mentiras". Verdade é, para o sujeito, o ato de se construir.

 

Uma pesquisa de campos

Navegando pelo Orkut[24], uma rede social amplamente difundida no Brasil, procurávamos perfis de adolescentes até que surgisse algum que nos chamasse a atenção. Porém, nas visitas a perfis candidatos, deparamos com a dificuldade de saber se estávamos mesmo em perfis adolescentes, muitas vezes, não pelas descrições na página - seus escritos, fotos, comunidades - mas por não encontrar a idade dessas pessoas ou não poder confiar na idade colocada ali.

Esse fato trouxe uma denúncia: não poderíamos buscar um "fato" ali, uma informação de certa forma mais concreta (idade) para nos deixar ilusoriamente seguras de que estaríamos lidando com os sujeitos prometidos: adolescentes. Assim, resolvemos nos desprender um pouco dessa ideia impossível para considerar a realidade que ali aparecesse. Neste sentido, fomos deparando com sujeitos que delineavam o que passamos a chamar de condição adolescente.

Consideramos, assim, que as determinações cronológicas de idade no mundo real perdem seu sentido no mundo virtual. Na contemporaneidade, ou na era da funcionalidade, e do tudo tem que ser "pra ontem", temos todos uma idade mais ou menos jovem, feliz, e principalmente ágil. É essa a condição adolescente.

Um dos sujeitos encontrados e selecionado para esse recorte foi "Jhon", que se define com 21 anos, católico, simpático, diz não beber, não fumar, não ter filhos, ter uma "outra" etnia, e estar no Orkut para fazer amigos. Pela idade colocada, não se trata de um adolescente dentro dos limites da oms, ou da nossa Constituição Federal, porém, seu perfil retrata bem a condição adolescente e nos suscitou pensamentos sobre a construção da identidade.

Abaixo, trazemos um recorte de sua descrição:

 

J Pra que me descrever?

Pra que editar meus defeitos e minhas qualidades?

Se cada um me vê do jeito que quer?

 

- E no mais...

Quem se define,

Se limita !!! J

Jonathan

©profile original®

 

Jhon está nos contando da sua impossibilidade de ser um só, para ele mesmo e para os outros, já que cada pessoa terá uma ideia a seu respeito. Além disso, ele não quer limitar suas possibilidades de ser, ou parecer, e quando escreve: "Quem se define, se limita", reafirma que quer e pode ser vários, e é interessante que logo depois assina o seu nome, "Jonathan", provavelmente o nome que lhe foi dado, diferente de "Jhon", apelido que usa para nomear sua página. A assinatura "Jonathan" ao final da descrição parece contradizer o que acaba de escrever, afinal, ele firma sua identidade, com um nome que se desdobra em uma história e vários sentidos; ele pode ser vários, mas algo o mantém nele mesmo.

 

Jonathan e Jhon são nomes de origem hebraica, de significados religiosos. Jonathan significa: presente de Deus, e Jhon - considerando uma variável de Jonathan -, misericórdia de Deus[25]. Vemos que ele se define como cristão/ católico no seu perfil, embora não percebamos um perfil religioso naquela página.

 

No final da descrição, Jhon acrescenta um código de barras e escreve: "profile original", ou seja, perfil original, entre símbolos que representam marca registrada "®" e direitos autorais protegidos "©". Quando deparamos com esses símbolos, podemos associar aquele perfil com um produto à venda, seja para consumo, seja para contemplação, como um quadro exposto em uma galeria. A partir disso, pensamos naquela descrição como uma propaganda, um marketing pessoal, que oferece ao leitor-consumidor uma imagem-produto, que, se ele gostar, que compre: basta passar o código de barras na leitora e pagar o preço. Conhecer bem a imagem-produto não é necessário aqui, se a aparência agrada. Conhecendo ou não, o importante é que a imagem seja vendida.

 

Outras formas de dizer de si, além da descrição citada por Jhon, são através de seu grupo de amigos virtuais que aparece na sua página, e também por meio das comunidades às quais ele pertence, ou aquelas que pertencem a seu perfil.

 

Os adolescentes, de forma geral, vivendo o processo de construção identitária, querendo muitas vezes se reconhecer como únicos e, ao mesmo tempo, parte da comunidade onde estão inseridos, têm diante de si uma gama de possibilidades de identificação. Os sites de relacionamento sugerem possibilitar a experiência de construção de vínculos de amizade, bem como a de manutenção desses vínculos.

 

"Diga-me com quem andas, que te direis quem és"[26]. O que dizem de Jhon as fotos de seus amigos? Visualizamos ali, no momento de nosso acesso, as fotos e nomes de nove entre seus 304 amigos do Orkut. O número 304 já nos chama a atenção para a ideia discutida anteriormente sobre a perda do lastro simbólico e da substância social, atribuindo aqui esses conceitos à questão da amizade. Afinal, seria possível estabelecer amizade com 304 pessoas?

 

As fotos dos amigos de Jhon parecem peças de um quebra-cabeça que espelham o usuário em sua identidade em fragmentos. Não parece haver uma veiculação de ligação afetiva. Na exibição do corpo do outro há uma espécie de identificação em amálgama.

 

Passando às comunidades de Jhon, dentre as 186 escolhidas, selecionamos as três primeiras que apareceram: "A vida é feita de Escolhas!", "The Beyoncé Experience Tour", e "Não leve a vida tão a sério". "A vida é feita de escolhas!", outra realidade que parece, mas não necessariamente é. Ou, como já apontado anteriormente, temos várias opções de escolhas, podemos optar por qual produto consumir, mas não temos mais a opção de não consumir, de não escolher. "The Beyoncé Experience Tour": uma expressão em inglês, citando uma cantora americana, que está "na moda". E "Não leve a vida tão a sério!", a qual trata de um bom conselho para se viver a contemporaneidade e, quem sabe, ser um pouquinho feliz: não leve nada muito a sério! É como se ouvíssemos: "leitor, não leve a sério o que eu escrevo, a foto que eu publico, as comunidades às quais eu pertenço. Isso tudo não diz muito, e o que diz pode não ser verdade. Tenho meus amigos no Orkut, mas não é amizade de verdade. Eu posso ter uma namorada, mas também não é sério." Ouvimos também ao fundo: "Consumidor, não leve meu produto tão a sério, você vai descartá-lo, logo, logo, com apenas alguns cliques". Jhon na verdade não diz nada, por falta de recursos, e, sendo assim, é a imagem que diz, imperando.

 

Minerbo diz que "pertencer a uma comunidade é fazer uma ‘proclamação instantânea do self': amo isto, odeio aquilo. Elas funcionam como peças para que o sujeito componha um ‘mosaico virtual da identidade'"[27].

 

Roza Júnior analisa o Orkut como uma "ilha de edição". Ele explica:

 

Por ilha, entendemos a solidão desse homem frente ao mundo; e por edição, a seleção e combinação de conteúdos escolhidos para serem apreciados pelo outro. Assim, adentraremos em um conceito de ilha de edição como uma combinação de imagens escolhidas cuidadosamente pelo ser humano. [...] Este ser humano "ilha de edição" é ou seria um ser humano ilhado pela edição da psique do Real, agregado à máquina ou degredado pelo pensamento[28].

 

Apreendemos a edição de Jhon como a de uma ilha cercada por pedaços do mesmo por todos os lados. Tanto as comunidades, como as fotos dos amigos, acrescidas de outras informações do perfil, são peças de um mosaico que forma a identidade de Jhon, composto por fragmentos de eus-outros-mesmos-Jhons.

 

Na produção de tensões à regra "descrição do perfil de Jhon", buscamos abalar as apreensões rotineiras para possibilitar o delineamento de outros campos, tais como: "como Jhon reflete a construção identitária adolescente no mundo virtual", ou "as revelações dos disfarces de Jhon".

 

Jonathan se disfarça de Jhon, e Jhon se disfarça de Jonathan. Jhon se disfarça de quem não liga, não se importa, não sofre, não leva nada a sério. Jhon se disfarça de "descolado", está no mundo virtual, está inserido, está atual, é fã da Beyoncé. Ele se disfarça de "popular", tem 304 amigos, não está só. Jhon se disfarça de mercadoria, mas com marca registrada e direitos autorais protegidos: mercadoria de qualidade! Nesse jogo de disfarce, nessa troca de vestes, conseguimos apreender um pouco sobre esse sujeito e sobre o mundo que constitui sua habitação.

 

Considerações finais

Começamos esse estudo buscando, para diálogo, os adolescentes da contemporaneidade. À medida que fomos para o espaço da internet, a problemática da idade nos fez reconhecer que deparávamos com sujeitos em condição adolescente.

 

Esses sujeitos em processo de adolescer, tendo acesso ao ciberespaço - que acreditamos ser a grande maioria deles - tem diante de si novas possibilidades de construção identitária. As redes virtuais são muito novas, o Orkut foi criado em 2004[29], e o Twitter, em 2006[30], e essas, entre outras, obtiveram grande repercussão especialmente entre os brasileiros adolescentes e jovens adultos.

 

Nos ambientes sociais-virtuais, esses indivíduos têm a chance de conhecer pessoas de todo o planeta, e de se relacionar com elas, o que nos faz acreditar - antes, mais do que agora - que eles detêm uma grande riqueza em mãos: possibilidades infinitas de encontros e trocas.

 

Porém, ao navegarmos em sites de relacionamento como o Orkut, tivemos, ao contrário, um encontro com repertórios empobrecidos, repetitivos, extensos - porém, vazios -, e muitas vezes desinteressantes. O excesso de escritos, fotos, discussões, vídeos, amigos, etc. parece tamponar a ausência de contorno e os vazios que separam os fragmentos das ilhas-identidades. Espaços teoricamente propostos para a liberdade de criação e de interação se revelaram lugares de repetição e solidão. São esses os lugares que fascinam tanto os adolescentes. E o que isso nos diz a respeito da psique do real?

 

O mundo em que vivemos não está amparando nossos adolescentes em uma construção identitária com possibilidades efetivas de constituição de sentidos. Vivemos em uma realidade fragmentada e superficial, além de virtual. Nosso mundo é um próprio caleidoscópio "quebrado", com vidrilhos tão estilhaçados que desfavorecem a formação de imagens passíveis de reconhecimento e apreciação. Mais uma vez recorremos a Minerbo, para quem "o sujeito não dispõe dos elementos necessários e suficientes para fazer sentido de si, de suas experiências, e do mundo. Daí o sentimento de angústia, de vazio existencial e de tédio, que têm sido descritos, equivocadamente, como depressão"[31]. Tudo isso não se deu pela ascensão da internet e das redes sociais. O ciberespaço é apenas mais um lugar regido pela mesma regra que nos sustenta em qualquer campo: o real.

 

E quanto ao fascínio dos adolescentes? Produto da mesma lógica que move toda a nossa psique, tal fascínio advém da sociedade espetacular, que cultua a imagem como a coisa-em-si, e o excesso como valor. O que é vivido na relação com a mercadoria e com a máquina se traspõe para as relações humanas. Quase que sem metáfora, ou sem mediação simbólica.

 

Se a existência na rede social não requer muito esforço em direção da criação, ela exige esforços na busca por manter o excesso, com postagens frequentes, adição de amigos, fotos, e "novidades". Adição é um termo pertinente, que nos remete agora ao sentido que Herrmann utiliza quando fala da adição à adição, vício que não é definido pelo que é ingerido (drogas, comida, identidades), mas pelo "estímulo de realimentação" [32] O fascínio alimenta as páginas virtuais e se alimenta delas. Caso os perfis não sejam alimentados frequentemente, eles e seus donos desaparecem, caem no esquecimento. Afinal, na sociedade do espetáculo, é preciso apare-ser para ser. De forma mais exigente, parece ser preciso atingir o absurdo de parar-de-ser para ser. É o que reflete a lógica de construção identitária adolescente das ilhas-cercadas-de-mesmos-por-todos-os-lados.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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