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Resumo
Resenha de Luis Claudio Figueiredo, Gina Tamburrino e Marina Ribeiro, Bion em nove lições: lendo ‘Transformações’. São Paulo, Escuta, 2011, 156 p.


Autor(es)
Renato Mezan
é psicanalista, membro Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP, e autor de vários livros, entre os quais O tronco e os ramos: estudos de história da Psicanálise (Companhia das Letras).

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 LEITURA

Uma visão binocular de Bion

[Bion em nove lições: lendo “Transformações”]


A binocular view of Bion
Renato Mezan

Suponhamos que, percorrendo a estante de Psicanálise de uma livraria, um estudante depare com a lombada da obra que comentaremos a seguir. Não seria de admirar se fosse tomado por uma grande alegria: um pensamento tão complexo exposto em apenas nove lições? Que presente dos céus! Puxa o livro, percebe que ele se refere apenas a um texto de Bion, e folheando-o, se dá conta de que a expectativa era infundada: a proposta do autor não é apresentar o percurso do psicanalista inglês, menos ainda uma exposição sistemática dos seus conceitos, mas acompanhar passo a passo o movimento e as implicações de alguns parágrafos pinçados nos três primeiros e nos três últimos capítulos de Transformations.

 

Frente a tal descoberta, nosso estudante poderia ter várias reações. Uma delas talvez fosse de decepção: um tanto irritado, recolocaria o livro na prateleira e continuaria seu passeio pela loja. Mas, caso tivesse um pouco mais de curiosidade e de "tolerância à frustração", poderia aceitar o convite, sentar-se em algum canto, e prosseguir na leitura - e, ao terminá-la, acredito que reconheceria ter aprendido bastante.

 

A forma inusitada - trata-se da transcrição editada de uma série de aulas proferidas na puc/sp, da qual se encarregaram Gina Tamburrino e Marina Ribeiro, por isso consideradas coautoras - vai se revelando ao longo das páginas uma ótima escolha. Entremeando a reprodução dos textos selecionados com comentários sobre cada um, Luis Claudio nos introduz nos meandros de um livro fundamental tanto para quem deseja se aprofundar no pensamento de Bion quanto para os que querem compreender a posição dele na história da Psicanálise.

 

Isso porque, além da explication de texte no melhor estilo franco-uspiano - ou seja, destacando os conceitos, expondo seus pressupostos e a relação que vão estabelecendo uns com os outros, e portanto permitindo-nos perceber as articulações de um pensamento que evolui em espirais sucessivas - o método inclui outras dimensões. Uma delas é a busca das razões para certas peculiaridades do texto bioniano que costumam desnortear o leitor: a brusca passagem de fragmentos de sessões com psicóticos a um grau elevadíssimo de abstração, o retorno incessante sobre os próprios passos, que com frequência desconstrói o que parecia solidamente estabelecido, certas inconsistências lógicas no argumento, o uso um tanto desenvolto (para dizer o mínimo) feito por Bion das suas referências filosóficas, e outras mais. Longe de serem casuais, ou devidas a algum descuido do autor, tais características traduzem, segundo Luis Claudio, o desejo dele de tornar sensível a quase insuperável dificuldade para falar de uma experiência que comporta por natureza um aspecto indizível e irrepresentável - a experiência do processo e da prática psicanalíticos.

 

Transformations trata, como se sabe, das transposições dessa experiência no paciente e no analista, desde sua origem (suposta) até as elaborações mais complexas e refinadas que ambos podem lhe dar. O ponto de partida é o que Joan e Neville Symington chamam, em seu livro sobre Bion, de "fenomenologia da sessão"[1]: aquilo que nela se passa, tomado no sentido mais imediato - as associações do analisando, e as vivências que despertam no analista. A hipótese de Bion é que esses fenômenos resultam de transformações sucessivas de "algo" designado como O, um ponto zero incognoscível (de onde o uso do termo kantiano de "coisa em si"), mas cujas manifestações podem ser apreendidas, porque formam padrões recorrentes.

 

A tarefa do analista é descobri-los, e formular, a partir deles (e das suas próprias reações a eles), interpretações que favoreçam, em seu parceiro, o contato com a realidade psíquica da qual derivam. Assim como nosso estudante na livraria, este pode aceitar os sentimentos que costumam acompanhar tal contato - na perspectiva bioniana, habitualmente feitos de terror, angústia, perseguição, culpa, desamparo - ou deles fugir por meios variados, que evidenciam suas defesas e aparecem, no imediato da sessão, como o que Freud denominava "resistências".

 

A seleção feita por Luis Claudio nos doze capítulos do livro destaca os eixos principais do argumento construído por Bion: a noção de transformação (objeto das primeiras "lições") e o conceito de O (tratado nas últimas). Entre uma e outro, é estudado um tipo específico de transformação, a "transformação em alucinose", uma das mais originais contribuições do psicanalista britânico ao arsenal conceptual da Psicanálise.

 

Assim como ele, que transita dos "mais miúdos detalhes do terreno" a "patamares de alta abstração", nosso autor examina com lupa cada frase dos trechos que transcreve, para em seguida situá-los no lugar que lhes corresponde na construção do argumento, e analisar algumas das suas implicações teóricas e clínicas. As citações, que por vezes ocupam mais de uma página, são indispensáveis para que o leitor possa acompanhar o comentário - e devemos agradecer a Luis Claudio o tê-las feito também do original, o que permite apreciar a propriedade da tradução. Um ou outro deslize (como a versão de assessment por levantamento, quando no contexto significa claramente avaliação, p. 49, ou a falta de vírgulas numa passagem em português, que inverte o sentido da frase, p. 28) serão com certeza corrigidos numa próxima edição, assim como a ausência de algumas palavras aqui e ali nos trechos em inglês. Mas, no conjunto, a tradução proposta é bem superior à da edição Imago[2], que sofre dos mesmos defeitos tantas vezes apontados na Edição Standard Brasileira das obras de Freud: literariamente um desastre, muitas vezes alambicada, torna ainda mais árido um texto que não é de fácil absorção, mas de modo algum deliberadamente obscuro.

 

Outra característica da forma como Luis Claudio o lê é uma saudável distância da veneração presente no livro dos Symington, que "não têm a menor hesitação" (sic, p. xii) em qualificar Bion de "o mais profundo pensador da Psicanálise - e esta afirmação não exclui Freud". Não se trata aqui de distribuir medalhas de "profundidade", mas tampouco podemos deixar de observar que, se os autores ingleses tivessem lido Freud com o mesmo cuidado com que leram Bion, não se exporiam ao ridículo de apresentar, do pensamento do fundador da Psicanálise, a versão esquemática e superficial a que sistematicamente o reduzem quando comparam as ideias de um e de outro.

 

Tirando aquela hipérbole desnecessária, o livro que escreveram é uma excelente introdução tanto ao pensamento teórico de Bion quanto às suas implicações para a prática cotidiana do analista - e Luis Claudio se serve dele em determinados momentos da sua exposição. Poder-se-ia dizer que Bion em Nove Lições se situa a meio caminho entre o que realizou o casal britânico e outro ótimo volume sobre Bion, escrito por Gerard Bléandonu: Wilfred R. Bion, la vie et l'oeuvre, 1897-1979[3]. Este abrange a totalidade da obra, situa-a no contexto biográfico, descreve sua evolução interna, esclarece a relação das ideias com os problemas que elas visavam a elucidar, com o ambiente psicanalítico em que tomaram corpo, e com as fontes filosóficas e literárias que ajudaram Bion a formulá-las.

 

Sem ter esse intento, o livro que estamos examinando leva em conta que Bion não surgiu do nada, como o famoso "raio em céu azul" de que fala Marx no Dezoito Brumário. Pelo contrário: está firmemente enraizado na Psicanálise britânica, quando mais não fosse por ter frequentado o divã de Melanie Klein precisamente na época em que esta desenvolveu suas ideias mais importantes (1945-1953), e por ter-se declarado explicitamente, nos textos sobre a psicose dos anos cinquenta, um seguidor da Grande Dama. Isso nada tira da sua originalidade, que se revelou por completo nos trabalhos da década de sessenta, em particular na trilogia que se inicia com Learning from Experience (1962), continua com Elements of Psycho-analysis (1963) e se conclui justamente com Transformations (1965).

 

Embora a certa altura - para ilustrar como Bion retoma questões que já havia tratado, e, para surpresa do leitor, serra o galho sobre o qual ambos estavam sentados - Figueiredo diga que para compreender Bion seria preciso não apenas "esquecer Freud e Klein, mas ainda esquecer Bion, acompanhá-lo ‘sem memória e sem desejo' pelas trilhas que vai desbravando" (p. 45) - esta não é a tônica da sua leitura: ele não se priva de utilizar textos anteriores para esclarecer certas passagens obscuras de Transformations - por exemplo, as que chamam de T(analista)beta e de T(paciente)beta o produto das transformações operadas em suas "impressões" pelos participantes da sessão, enquanto anteriormente o termo beta designava os elementos protomentais inutilizáveis pelo aparelho de pensar, ou seja, algo que de modo algum pode ser considerado como um "produto".

 

Estas e outras variações na terminologia são atribuídas - com razão, penso - ao desejo de Bion de manter ambíguas e abertas a novas significações ("não saturadas") mesmo as suas fórmulas mais abstratas, com o que, esperava ele, o leitor evitaria o erro de crer que algo esteja definitivamente estabelecido, quer no plano da teoria, quer no da prática clínica.

 

Há nessa postura de Bion um misto de sabedoria e de coqueteria. Sabedoria, porque é uma parte essencial de sua visão do funcionamento psíquico a crença na incognoscibilidade da realidade última (O), e portanto a afirmação do caráter necessariamente defectivo das palavras e das teorias com que procuramos descrevê-la. Este é, aliás, o motivo pelo qual a verdadeira mudança psíquica só pode ocorrer mediante uma transformação em O, o que é bem diferente de um conhecimento, mesmo "emocional", desta misteriosa entidade. Coqueteria, porque apesar disso seu pensamento - como o de qualquer grande criador, em qualquer área da ciência ou da filosofia - apresenta uma forte coesão sistemática, assim como traços que se repetem desde os primeiros até os últimos trabalhos, e que são, por assim dizer, sua linha d'água característica, sua "assinatura", ou, como dizia Karl Abraham acerca de Totem e Tabu, a marca das "garras do leão".

 

Um desses elementos é a sensibilidade para os aspectos psicóticos do funcionamento mental, já evidente no trabalho com os grupos a que Bion se dedicou durante parte da sua carreira, especialmente durante e logo após a Segunda Guerra Mundial. A psicose (em particular a esquizofrenia) é a matriz clínica da qual derivam suas concepções fundamentais, e nos fornece um bom exemplo de como estas se enraízam no "tronco freudiano" (a expressão é de Luis Claudio) e neste grosso ramo da árvore psicanalítica que é a obra de Melanie Klein.

 

Como muitos dos que adotam a perspectiva bioniana compartilham a opinião dos Symington de que seu mestre é o Messias da Psicanálise, a convicção de Luis Claudio de que ele é parte integrante de uma história sem a qual sua obra não teria sido possível tem implicações muito mais amplas do que poderia sugerir a discrição com que aparece nessas Lições. De fato, não é o tema principal do livro, mas o atravessa de ponta a ponta, e é sustentada pelo percurso do próprio Luis Claudio, que escreveu - juntamente com Elisa M. de Ulhoa Cintra - um estudo sobre Melanie Klein[4], e, em seus cursos de pós-graduação, vem se dedicando à leitura de outros autores importantes na história da Psicanálise, como Douglas Fairbairn e Heinz Hartmann.

 

A meu ver, a contextualização de qualquer pensador é um poderoso antídoto contra a tendência a idealizá-lo, porque evidencia as conexões entre suas ideias e o ambiente no qual emergiram as questões que o ocuparam, e portanto as reabre, permitindo entrever as vias pelas quais ele transitou em sua tentativa de as elucidar. Isso está longe de ter interesse meramente histórico ou acadêmico, pois o que torna grande uma obra é justamente sua capacidade de estimular os que a leem a formular suas próprias questões, e ao mesmo tempo de fornecer-lhes instrumentos com os quais avançar em seu caminho singular. Vejamos então como Bion procede com os autores que lhe servem de estímulo, tomando como guias tanto as observações esparsas de Luis Claudio quanto as análises mais detalhadas dos Symington e de Bléandonu.

 

Este observa com argúcia que a análise de Bion com Melanie Klein se estende entre o ano da publicação de "Notas sobre alguns mecanismos esquizoides" (1945), que introduz o conceito de identificação projetiva, e Developments in Psycho-Analysis (1952), a grande síntese das concepções da escola realizada por ela e por seus colaboradores (entre os quais Bion, que tem um artigo na coletânea) a partir das comunicações apresentadas durante as "discussões controversas" dos anos quarenta. Por sua vez, Luis Claudio ressalta como ele recorta da obra de Klein o que lhe serve para pensar, deixando de lado, por exemplo, nada menos que o conceito de reparação, essencial na visão kleiniana da posição depressiva, e que ele substitui pela ideia de crescimento emocional.

 

Teria Bion lido mal a sua grande predecessora? Obviamente, não, assim como não "leu mal" Freud, do qual também seleciona o que é afim à sua sensibilidade clínica e à matriz psicopatológica a que o conduz essa sensibilidade. Das seis mil páginas de textos e cartas de Freud, o que ele retém e usa sem cessar é o pequeno artigo de 1911 sobre os "dois princípios do funcionamento psíquico", que vincula a aparição do pensamento ao princípio de realidade e ao que a escola inglesa chamará - numa importante "transformação" do que diz Freud - de "tolerância à frustração".

 

Mas Bion impõe a essa ideia freudiana, assim como à de identificação projetiva, a torção própria ao seu sistema - e é essa operação que evidencia tanto sua inserção na tradição psicanalítica quanto a originalidade com que ela se efetua. Merleau-Ponty escreve[5] que toda filosofia é a longa e laboriosa explicitação de uma "intuição central". O mesmo se poderia dizer de um sistema de Psicanálise, entendendo por este termo uma construção original e abrangente sobre o funcionamento psíquico, sobre sua evolução da infância até a fase adulta, sobre as entidades psicopatológicas e sobre o processo analítico. São essas construções que servem de base para as diversas escolas de Psicanálise, e, por sua complexidade, compreende-se que não sejam numerosas. Penso que todas repousam sobre uma "intuição central", e a desenvolvem de muitas maneiras, em muitas áreas; tais desenvolvimentos vêm a formar uma espécie de rede, que é justamente o que dá conta do seu caráter sistemático e ao mesmo tempo aberto a novos desenvolvimentos, por vezes em campos dos quais o criador do sistema não podia ter ideia alguma.

 

Talvez a "intuição central" de Bion possa ser formulada mais ou menos assim: a realidade psíquica é feita de dor e de angústia, das quais o ser humano busca fugir pelos mais variados meios. Isso, porém, lhe causa apenas sofrimento; se é possível alguma paz de espírito, ela só pode ser alcançada se pudermos reconhecer, tolerar e aceitar aquilo de que no fundo somos feitos. O caminho para isso é o pensamento, e a forma menos imperfeita de aceder ao pensamento é a experiência emocional que se pode ter numa análise.

 

Vista como exploração multifacetada dessa "intuição", a trajetória do analista britânico se apresenta como notavelmente coerente - nisso, creio, estariam de acordo tanto Luis Claudio como os Symington e Bléandonu. Foi no trabalho com os grupos que ele forjou os primeiros instrumentos para abordar a realidade psíquica; o encontro com Klein e o estudo da Psicanálise tal como se apresentava nos anos 1940 lhe forneceram a possibilidade de refinar estes instrumentos, em particular abordando os fenômenos psicóticos do ponto de vista da linguagem e do pensamento. Isso já era bastante original, se confrontado com a parca literatura sobre o assunto até então produzida pelos psicanalistas. Na maturidade, que atingiu na década de 1960, esse percurso se completa com novas ideias, e com um grau considerável de formalização. A notação dos processos em curso numa análise por meio da Grade, e a criação de uma terminologia própria, são os aspectos mais salientes deste movimento, mas não o seu fundamento: este reside no conceito de O - e um dos pontos altos do livro de Luis Claudio é a análise desta noção que encontramos nas suas últimas "lições"[6].

 

Se agora retornamos às "Considerações Iniciais", compreendemos por que elas contêm várias páginas sobre a intertextualidade, ou seja, sobre o fato de que nenhum livro se basta a si mesmo: todos dialogam, de um modo ou de outro, com os que os precederam e com os que lhes são contemporâneos - até mesmo, se poderia dizer, com aqueles que o autor não leu. Isso porque os temas de que trata (e os meios para tratá-los) estão de certa forma "no ar": noções como a de episteme, de Foucault, nos ajudam a entender como isso se dá.

 

A episteme é um solo comum de ideias, conceitos, pressupostos e modos de pensar que subjaz às produções científicas e filosóficas de uma dada época, ou de um determinado meio cultural. É ela que, silenciosa mas eficazmente, determina o que é possível pensar, e o "ar de família" que, vistos a uma certa distância, os "pensados" durante sua vigência demonstram possuir. Assim, por exemplo, a teoria da linguagem, a análise das riquezas e o estudo dos seres vivos compartilham, durante os séculos xvii e xviii, certos elementos que o filósofo francês relaciona com o primado da representação; já no xix, esses mesmos ramos do saber operam com a ideia de uma temporalidade constituinte, o que permite o surgimento da gramática histórica (que inclui o estudo da diversificação das línguas ao longo do tempo), da economia política (que leva em conta o ciclo do trabalho, como em Marx), e a biologia moderna (em cuja teoria da evolução é evidente a importância do fator tempo)[7].

 

Estamos longe de Bion, e da Psicanálise? De modo algum. Se tomarmos com a ideia de episteme certas "licenças poéticas" (ou epistemológicas...), salta aos olhos que o empreendimento bioniano tem em comum com outros uma série de elementos, o que se deve ao fato - aparentemente óbvio, mas riquíssimo de consequências - de que todas se situam no território desbravado e parcialmente mapeado por Freud. Como este representa apenas alguns hectares de algo bem mais amplo, a que se poderia chamar de "pensamento moderno", as linhas de intertextualidade entre as teorias psicanalíticas e alguns desenvolvimentos em outras áreas são numerosas, complexas - e interessantíssimas.

 

Para nos limitarmos ao caso das referências filosóficas de Bion: Bléandonu esclarece que a notação da Grade é "literalmente decalcada" (sic, p. 163) da Begriffsschrift (escrita conceitual) proposta por Frege nos seus Fundamentos da Aritmética (1884), a qual por sua vez é uma variante da ideia leibniziana de mathesis universalis (uma espécie de notação simbólica capaz de eliminar as ambiguidades do raciocínio e da comunicação). O mesmo Bléandonu assinala a dívida de Bion para com o livro de Richard Money-Kyrle Man's Picture of His World, que leu ainda em manuscrito e no qual o autor lhe agradece as sugestões que fez. Sem entrar em detalhes aqui desnecessários, é interessante observar que a epistemologia de Money-Kyrle se baseia na do orientador de sua tese em Filosofia, Moritz Schlick, um dos principais expoentes do positivismo lógico associado ao Círculo de Viena. Já os Symington, num capítulo dedicado à genealogia da teoria bioniana do pensamento, assinalam sua preferência pelas correntes psicológicas que destacam a atividade de ligação própria ao funcionamento mental, como as de Piaget e Vygotsky. Coerentemente, ele se opõe ao associacionismo: segundo este último, as imagens se imprimem numa tabula rasa, na qual se vinculam quase automaticamente por semelhança, contraste e contiguidade para dar origem às ideias - o que implica que a atividade de construção própria à mente só se inicie num patamar mais elevado.

 

A lista poderia continuar por várias páginas, mas estas são suficientes para apoiar meu argumento. Assim como faz com Freud e Klein, Bion impõe aos autores extrapsicanalíticos as torções necessárias para poder pensar através deles - e Kant é o caso mais evidente. Com efeito, este se revolveria no túmulo se soubesse que sua cuidadosa e essencial distinção entre as operações do espírito a priori (anteriores lógica e cronologicamente a qualquer experiência possível, porque são condição para que esta se constitua) e a posteriori estava sendo jogada às águas do Tâmisa por esse "discípulo" tresloucado, que se permitia psicologizar as categorias transcendentais!

 

Mas a indignação do filósofo de Königsberg não teria razão de ser: toda apropriação criativa é em certo sentido uma traição, e em outro uma homenagem ao autor "pirateado". A sem-cerimônia de Bion para com Kant lembra a de Lacan para com Saussure - e está longe de ser o único paralelo entre esses dois gigantes da Psicanálise. Apesar do cuidado que devemos tomar quando comparamos pensamentos complexos, não me parecem triviais as semelhanças entre ambos, que mereceriam uma investigação mais detalhada.

 

Uma rápida lista delas incluiria a mesma justificativa para o estilo hermético (embora o de Bion o seja em grau menor que o do francês): estimular o leitor a pensar, sensibilizando-o para a estranheza do universo inconsciente[8] e minando suas certezas reconfortadoras. Ambos recorrem à matemática na tentativa de contornar o obstáculo à reflexão analítica representado pelo imaginário (Lacan) ou pelas imagens saturadas (Bion). Ambos se interessam primordialmente pela psicose, e a abordam a partir do vértice da linguagem e do pensamento (veja-se o caso Aimée, discutido por Lacan em sua tese de 1932). Ambos fazem uso de teorias linguísticas inovadoras (Wittgenstein na Inglaterra, Saussure na França). Ambos postulam, subjacente às funções mentais mais evoluídas, um real feito de turbulência e dor. Ambos dedicaram uma parte importante de sua atividade ao ensino e à escrita, ambos se tornaram referência para discípulos que acabaram por se limitar ao estudo da sua obra, supostamente o alfa e o ômega da Psicanálise.

 

É evidente que tais semelhanças não excluem diferenças consideráveis, mas impressionam pela importância que têm na construção da perspectiva de cada um dos autores. Uma hipótese para tentar dar conta deste fato - assim como das semelhanças entre as teorias do pensamento de Bion e de Piera Aulagnier - é que a matriz clínica a partir da qual os três trabalham é claramente a psicose. Quanto às diferenças, os motivos para que existam são de várias ordens. Um deles me parece estar ligado aos ambientes psicanalíticos - tão diversos, apesar da proximidade geográfica - da França e da Inglaterra: na época da formação de ambos (anos 1930 e 1940), as ideias de Melanie Klein não tinham em Paris praticamente penetração alguma. Assim, é possível que a função de referência que o kleinismo desempenhou para Bion tenha sido preenchida, no caso de Lacan, pela psiquiatria dinâmica gaulesa (Clérambault e outros).

 

Seja como for, o livro de Luis Claudio vai na contramão da tendência a idealizar Bion. É isso, creio, que lhe permite lê-lo de "dentro", sem por isso perder o ângulo do "fora", ou seja, da contextualização de Transformations em relação a Freud, a Klein e ao Bion "anterior". Um belo exercício de visão binocular, que nos permite vislumbrar quanto perderia aquele estudante, se, decepcionado por não encontrar no livro a chave de todas as asperezas da obra bioniana, o recolocasse na prateleira com a pressa dos parvos.


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