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Resumo
Resenha de Elisabeth Antonelli, Os sentimentos do analista: a contratransferência em casos de difícil acesso. São Paulo, Zagodoni, 2011, 114 p.


Autor(es)
Paula Regina Perón Perón
é psicanalista em formação no Instituto Sedes Sapientiae, doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP.

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 LEITURA

A contratransferência como instrumento terapêutico

[Os sentimentos do analista: a contratransferência em casos de difícil acesso]


Countertransference as a therapeutic tool
Paula Regina Perón Perón

O avanço do conhecimento em psicanálise tem-se dado na direção das dimensões mais arcaicas, profundas e pouco estruturadas da psique. Temos estudado as manifestações psicossomáticas, as organizações psíquicas com menos consistência subjetiva e representacional, e situações que remetem ao aquém da representação. São estes alguns dos desafios do psicanalista da contemporaneidade, desafios que muitas vezes ganham manifestações surpreendentes na contratransferência.

 

Nesse contexto, a pesquisa sobre a contratransferência deve ganhar profundidade, e é exatamente na direção desse aprofundamento que trabalha a psicanalista Elisabeth Antonelli em seu livro Os sentimentos do analista: a contratransferência em casos de difícil acesso. Antonelli é psicóloga e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e membro filiado do Instituto Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. A autora explorou as questões em torno do tema da contratransferência em sua dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e dela deriva a publicação de seu livro. Antonelli participou, durante o Mestrado, do Laboratório de Psicopatologia Fundamental, conhecido por agregar e impulsionar produções importantes acerca dos impasses da clínica psicanalítica atual.

 

Em nosso campo, geralmente dizemos que Sigmund Freud manteve uma concepção negativa da contratransferência: algo a ser superado ou ultrapassado para que o analista volte a trabalhar em condições adequadas. Precisamos lembrar que suas advertências sobre a contratransferência mantinham estreita relação com o atendimento das histéricas. O perigoso poder de sedução das histéricas gerou vários episódios de envolvimento amoroso entre analistas e pacientes, como sabemos pela historiografia psicanalítica. O fato é que as observações de Freud não esgotam a necessária problematização acerca do tema da transferência do analista.

 

Por outro lado, Freud deixou-nos a inspiração para pensarmos as muitas dimensões da técnica considerando a peculiaridade da situação analítica que se apresenta. Por isto, para que a técnica não seja uma codificação burocrática, é necessário investigar a fundo certas situações clínicas que questionam seriamente as bases freudianas.

 

Em seus textos técnicos, especialmente em "Recomendações aos jovens praticantes da psicanálise" (1912), Freud deixa clara a importância do inconsciente do analista para que o trabalho terapêutico aconteça (ou não). Antonelli, utilizando um embasamento principalmente kleiniano, enfrenta as dimensões resistenciais do lado da analista, evidenciadas em atendimentos dos chamados casos difíceis. A autora explora suas próprias reações e percepções de maneira muito proveitosa tanto para o avanço do tratamento analítico, quanto para a produção teórica.

 

O livro de Antonelli enfrenta a difícil articulação entre aspectos teóricos e clínicos de nosso trabalho como psicanalistas. Esta costura é muitíssimo bem realizada pela autora, que consegue colocar a teoria a serviço da elucidação das dificuldades da clínica, como fazem os bons psicanalistas. Há respeito pela teoria e consistência neste sentido e, ao mesmo tempo, a psicanalista mostra os fios que puxam os avanços da teoria, fios tecidos na prática clínica. Nos casos que apresenta - são três no total - seria mais apropriado falar em entrelaçados, fios embaralhados convocando a analista para afetar-se e pensar. E, sobretudo, fazer operar o dispositivo analítico quando ele se mostra vacilante, deficiente e confrontado - e não por imaturidade clínica ou teórica da analista, como muitas vezes é o caso.

 

Neste sentido, a publicação de Antonelli é preciosa - há poucos relatos francos sobre os becos sem saída que os tratamentos analíticos impõem e nossas maneiras de enfrentamento. Geralmente, falamos sobre isto em supervisões, discussões clínicas, mas a coragem para divulgar tais aspectos de forma detalhada e a um público mais extenso é matéria rara em nosso campo, infelizmente.

 

Quais são os pacientes motivadores de seu estudo? Aqueles que "no momento que adentram no consultório do analista provocam todo o tipo de impacto emocional" (p. 7), define a autora, e aqueles que apresentam patologias narcísicas cuja "raiz parece ser sua própria constituição que se vê ameaçada e acarreta um sofrimento constante, gerado em grande medida pela incapacidade de se lidar com as angústias, tanto de origem interna quanto externa; ou seja, um fracasso do narcisismo" (p. 17).

 

Antonelli toma a descrição de Betty Joseph do paciente de difícil acesso como baliza. Essa descrição adquiriu valor heurístico na contemplação de uma ampla gama de pacientes marcados por intensos traços narcísicos. Joseph evoca problemas técnicos que este grupo de pacientes provoca, cujo ponto em comum é a dificuldade de serem atingidos pela interpretação. Ela considera que, no tratamento de tais casos, há uma cisão dentro da personalidade do paciente, que mantém uma parte do ego distanciada do analista e do trabalho analítico. Pode ser que aparentemente o paciente esteja trabalhando e colaborando com o analista, mas mantendo cindida uma outra parte, "mais necessitada ou potencialmente mais responsiva e receptiva". Esse mecanismo defensivo toma formas variadas, e por vezes "uma parte do ego mantém-se à parte, como que observando tudo que se passa entre o analista e a outra parte do paciente e destrutivamente impedido que se faça um contato verdadeiro, utilizando-se para tanto de vários métodos de evitação e evasão". Outras vezes, "grandes partes do ego parecem desaparecer temporariamente da análise, resultando em apatia ou extrema passividade - frequentemente associada ao uso intensivo de identificação projetiva" (p. 14).

 

Transformar estes impactos transferenciais em palavras, sair do registro do ato, da descarga impulsiva, para produzir registro de elaboração dessas angústias é a tarefa imposta inclusive ao próprio analista. Não é somente o paciente, portanto, que transformará o impensável em representação; a dupla precisa operar analiticamente e o analista está em jogo também. O interessante é que a autora não transforma este cenário de obstáculos e consequentes propostas em uma espécie de novo caminho para a Psicanálise. Ela reconhece o que há em nosso campo para auxiliar no enfrentamento dessa situação, sem para isso assumir a postura de uma redentora da psicanálise. Levou suas dificuldades também para a Universidade, lugar onde a pluralidade de pensamentos deve vigorar, fortalecendo uma discussão muito relevante e, a julgar pelo resultado, muito produtiva para que a analista tenha transformado suas angústias, bastante legítimas, em uma dissertação e livro. Assim, metaboliza o impacto da presença do paciente de modo a não perder a dimensão psicanalítica do encontro.

 

Antonelli não trilha "o perigoso e tentador caminho da relação interpessoal, burlando a técnica psicanalítica clássica e inovando com conceitos como manejo e maternagem, numa atitude de maior proximidade ao paciente" (p. 13), embora reconheça a contribuição dos autores que trabalham desse modo para a compreensão dos casos. Sua postura analítica focaliza os aspectos intrapsíquicos, motivada por Freud, Melanie Klein, Paula Heimann e Margareth Little.

 

O exame da contratransferência foi feito levando-se em conta a proposta de Heimann de que "a resposta emocional do analista à situação analítica representa uma das ferramentas mais importantes em seu trabalho. A contratransferência do analista é um instrumento de pesquisa do inconsciente do paciente" (p. 18). Antonelli afirma que a contratransferência, além de instrumento de diagnóstico diferencial, atua como importante aliada e como desafio. O conceito é rastreado de maneira bastante informativa em Freud, Ferenczi e na escola inglesa (Melanie Klein, Winnicott, Paula Heimann, Margareth Little) no segundo capítulo do livro.

 

A seguir, no livro são apresentados três casos atendidos em clínica particular. O primeiro, Cecília, é descrito como um caso-limite e são explorados com enorme clareza e riqueza de detalhes os movimentos psíquicos da analisanda e da analista, em um pano de fundo de articulações que aproveitam as teorias apresentadas. A descrição deste caso contempla dificuldades, pelas quais provavelmente todo analista passa, no atendimento de pacientes com patologias narcísicas.

 

A psicanalista recorre à noção de falha básica, de Michael Balint, para descrever a paciente que tem enorme dificuldade em lidar consigo mesma, em vários aspectos da vida, "desde o mais simples e concreto até o mais abstrato e complexo" (p. 45). Há dificuldades intensas nos processos de pensamento e simbolização, e necessidades da ordem do real, que dificultam o acesso às metáforas desejantes e podem provocar uma equivocada intervenção pedagógica no trabalho clínico, o que a autora aponta com muita precisão.

 

A analista salienta a importância da supervisão nestas situações que apresentam uma demanda oscilante para análise. Acompanhamos a autora no desenrolar do tratamento - algumas sessões-chave são apresentadas, até que a capacidade de sonhar da paciente é recuperada, índice bastante importante para considerarmos a fertilidade psíquica dos pacientes. Na análise teórico-clínica do caso, Antonelli utiliza o auxílio das ideias de Bion e também de Rosenfeld e seus comentários sobre pacientes esquizofrênicos. Na clínica dos casos-limite, muitas vezes percebemos certos mecanismos psicóticos e estes provocam reações contratransferenciais ambivalentes e intensas de difícil manejo, o que é bastante explorado no livro.

 

No segundo caso apresentado, sobre o Inacessível Gerson, são tematizadas características depressivas, as fobias e os ataques de pânico, e principalmente certas condições psíquicas impeditivas do trabalho analítico. O paciente passa de um estado fóbico para as crises de pânico, dando visibilidade à sua fragilidade frente aos perigos do mundo, "frente aos quais o indivíduo pressente não ter anteparo" (p. 93). Consequentemente, apenas o refúgio do próprio quarto resta-lhe, impedindo as mudanças que a análise poderia trazer. Como ao longo do livro todo, a autora trata daquilo que é mais difícil e delicado para o analista. Desta vez, o que é tematizado é o abandono do tratamento por parte do paciente.

 

No último caso, a psicanalista corajosamente toca em mais uma destas dificuldades, talvez a mais trágica: o luto solitário da analista que perde a paciente para a morte. Aqui, remeto o leitor ao livro, já que nas descrições clínicas está sua maior contribuição aos iniciantes e também aos experientes neste ofício que nos provoca a pensar situações em que a interpretação mostra-se insuficiente, onde o irrepresentado provoca atos e evidencia a precariedade psíquica, e o narcisismo impõe sua impenetrabilidade. Por isso, a leitura do livro de Elisabeth Antonelli é boa fonte de estudo e reflexão para enfrentarmos esses desafios.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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