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Resumo
Resenha de Nelson Coelho Junior, Pedro Salem e Perla Klautau (orgs.), Dimensões da intersubjetividade. São Paulo, Escuta/FAPESP, 2012, 279 p.


Autor(es)
Eugênio Canesin Dal Molin
é especialista em Teoria Psicanalítica pelo COGEAE-PUCSP e em Psicoterapia Psicanalítica pela usp, mestrando no IPUSP e aluno do curso Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae. Trabalha no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS-III) em Londrina/PR, onde são atendidas crianças e adolescentes vítimas de violência.

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 LEITURA

As quartas partes da coroa: a intersubjetividade em cena

[Dimensões da intersubjetividade]


The fourth parts of the crown: intersubjectivity on the stage
Eugênio Canesin Dal Molin

As palavras de Garcin na mais famosa peça de Jean-Paul Sartre poderiam constar na epígrafe do livro em questão, mas, por bons motivos, não estão impressas em nenhuma página. Diz o personagem: "Então, é isto o inferno. Eu não poderia acreditar... Vocês se lembram: enxofre, fornalhas, grelhas... Ah! Que piada. Não precisa de nada disso: o inferno são os Outros"[1]. Os motivos da ausência da citação - que, como já disse, são bons - implicam uma posição teórica, uma percepção clínica e uma experiência de trabalho que não ignora a quota de veracidade da afirmação sartreana, mas explicita diferentes aspectos do contato com "os Outros".

 

Vêm daí o interesse e a importância do livro ao reunir textos de pesquisadores nacionais e estrangeiros que se debruçam - cada um a sua maneira - sobre a experiência e o conceito de intersubjetividade. Os organizadores Nelson Coelho Junior, Pedro Salem e Perla Klautau expressam a importância da variedade de opiniões na própria escolha dos trabalhos enfeixados no livro. Uma boa forma de iniciar a leitura é, parece-me, apresentar a "experiência de trabalho" dos organizadores. Em outras palavras: a gênese do livro.

 

Em 2009 foi promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e pelo Instituto de Psicologia da mesma universidade o Simpósio Dimensões da Intersubjetividade, que durou dois dias e contou com a participação de professores convidados de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e dos Estados Unidos. O evento foi organizado em torno dos trabalhos sobre Intersubjetividade realizados por Nelson Coelho Jr. e Luis Claudio Figueiredo e contou, da concepção à execução, com o auxílio de Pedro Salem e Perla Klautau. O resultado do simpósio, as discussões ali geradas e o interesse dos trabalhos pediam desdobramentos - ou melhor, um desdobramento necessário: a publicação. Os artigos que compõem o livro são, deste modo, os textos apresentados em 2009, retrabalhados por seus autores. Três das comunicações originais, por motivos diferentes, não puderam compor a publicação e foram substituídos por outros três artigos de pesquisadores da área "com a intenção de ampliar o escopo do debate sobre a intersubjetividade" (p. 9). "Ampliar o escopo" é oferecer mais ângulos, tomar o tema da intersubjetividade por outros lados, intenção que fica assim expressa, mas que poderia ficar subentendida na leitura do livro. Voltaremos em breve a este ponto.

 

Ainda quanto à gênese da publicação, é importante explicitar algo que encontramos no livro já em sua apresentação: "Tanto o Simpósio como o presente livro são resultado de um trabalho coletivo, que vem sendo desenvolvido há muito tempo, em vários grupos de trabalho" (p. 15). Ou seja, o livro é fruto de encontros e trabalhos coletivos, forma de produção tão comum em nossa área, mas nem sempre valorizada como deveria. De tais encontros intersubjetivos surgem questões, ideias e, algumas vezes, respostas. Desde a gênese, portanto, o livro apresenta-nos um aspecto da alteridade diferente daquele expresso pelo personagem Garcin: os Outros nem sempre são o inferno.

 

Um entendimento reconhecido assim de antemão implica uma posição teórica que favoreça a observação do fenômeno e a discussão do conceito de forma não restritiva, o que dá espaço para um conjunto de textos destinado a psicanalistas (de variadas escolas) e também a adeptos de outras formas de observar o homem que não a psicanalítica.

 

No artigo de Julio Verztman, por exemplo, encontramos as palavras de uma paciente melancólica que poderia ser aplicada à composição do livro. Ela lhe dá um presente nada convencional e acrescenta: "Comprei isto pra você porque logo que vi me lembrei de você, do nosso tratamento. Você é capaz de me ver destes vários ângulos como neste caleidoscópio?" (p. 122). Qual foi a resposta do analista, ficamos sem saber, mas bem poderia ser a história que José Saramago conta no documentário Janela da Alma. Diz ele que quando criança ia muito ao São Carlos, teatro de ópera de Lisboa, e ficava no galinheiro, no topo, em cima do camarote real. O camarote começava na altura da plateia, erguia-se frondoso e terminava com uma coroa dourada enorme. Vista do lado da plateia, dos camarotes, a coroa era magnífica. "Mas", diz Saramago, "do lado em que nós estávamos não era, pois a coroa estava feita entre as quartas partes e dentro era oca e tinha teias de aranha e tinha pó. Isso foi uma lição que nunca esqueci. Nunca esqueci essa lição. Para conhecer as coisas há que dar-lhes a volta, dar-lhes a volta toda".

 

Dos vários ângulos em que a experiência e o conceito de intersubjetividade nos são apresentados ao longo do livro, precisei fazer um recorte, uma escolha de quais artigos comentar. O recorte seguiu dois princípios que postos lado a lado soam paradoxais. O primeiro é a lição de Saramago - "para conhecer as coisas" é preciso dar-lhes a volta. O segundo, uma lição inevitável aprendida na experiência clínica: tentando conhecer as coisas, não podemos ter delas uma visão completa, pois algo sempre permanece oculto, seja pelo espaço que temos para a escrita, seja pelo convite à leitura implícito na ausência da discussão de todos os ângulos. O que se segue não é o todo, nem poderia. Uma importante parte fica a cargo do leitor.

 

O artigo de Luis Claudio Figueiredo e Nelson Coelho Jr., que abre o livro e precede as quatro seções temáticas em que a publicação está dividida, serve de referência para compreensão e classificação do conceito. Eles discutem o quão recente é para a filosofia e para as teorias psicológicas a elaboração da ideia do "outro", do "não-eu" como elemento constitutivo da subjetividade, e indicam que o estudo do surgimento das relações Eu-Outro "é uma das marcas principais do pensamento contemporâneo" (p. 22) na filosofia, na psicanálise e em outras áreas do saber. A proposta é distinguir quatro matrizes de diferentes dimensões da alteridade, que funcionam como figuras organizadoras do conceito de intersubjetividade. Vale dizer, antes de apresentá-las, que, ao contrário de uma classificação estanque e limitadora, as matrizes seguem uma lógica da suplementariedade, exprimem dimensões de endereçamento ao outro, convivendo, ao mesmo tempo, nos diferentes processos de constituição subjetiva. Elas podem ou não funcionar como chave de leitura dos artigos do livro. Funcionam como tal porque cada artigo nos leva (conscientemente) de volta à classificação; e não funcionam como chave na medida em que a grande maioria dos artigos não pede as matrizes propostas para imporem seus valores como textos singulares. A escolha da utilização da chave exposta no primeiro artigo fica ao gosto do leitor.

 

Sinteticamente as quatro matrizes são:

1) A intersubjetividade transubjetiva, herdeira de M. Scheler, M. Heidegger e M. Merleau-Ponty, que explicita uma "modalidade pré-subjetiva de existência" (p. 26), na qual a alteridade é concebida como "inaugural e anterior [a um eu], como um solo transubjetivo, anterior inclusive à possibilidade instituída de um eu que venha a se opor ou se relacionar com um outro" (p. 29). É a situação de uma realidade primordial, "materna", como escrevem os autores, e inaugural, porque de "indiferenciação primitiva" e de uma radical relação intercorpórea.

 

2) A intersubjetividade traumática, cujo patrono é E. Lévinas, abarcaria uma dimensão na qual "o outro me precede e me traumatiza e com isso me constitui" (grifo meu). O outro aqui é concebido "como uma radical alteridade" e a relação intersubjetiva "implica, necessariamente, um certo deslocamento, em uma certa cisão ou modificação na experiência subjetiva" (p. 29), porque o outro é sempre excessivo, e neste sentido, traumático. "Trauma e excesso que pedem, que exigem, trabalho (e travaglio, dor) por parte do sujeito [...] em processos permanentes de inadaptação entre eu e outro" (p. 30). Mas o outro constitui igualmente minha capacidade de "cuidar", de responsabilizar-me nas relações onde há alteridade. Ele é, para Lévinas, também o elemento necessário de uma possibilidade ética. Esta matriz, em sua radicalidade, pode ser vista como aquela expressa por Garcin na peça de Sartre.

 

3) A intersubjetividade interpessoal, própria do pragmatismo social e interacionismo simbólico. Trata-se daquela a que estamos, comumente, mais afeitos a pensar no dia a dia; a da relação entre dois organismos e sujeitos individuais. É o campo, por exemplo, dos gestos dirigidos, ações parciais que são completadas à medida que fazem parte da interação com um outro que lhes dá sentido.

 

4) A "intersubjetividade" intrapsíquica, de Klein, Fairbairn e Winnicott, "refere-se, fundamentalmente, ao plano dos objetos internos e das fantasias e, de modo geral, ao que em psicanálise denomina-se como o modo object-relating de funcionamento psíquico" (p. 32). A concepção, neste caso, é a de uma intersubjetividade que ecoa internamente a partir de objetos que num momento anterior estiveram ligados a algo externo, passaram por processos de identificação, incorporação e introjeção, e agem agora na realidade psíquica.

 

A primeira seção do livro, dedicada a Intersubjetividade e Corporeidade, revela um aspecto nem sempre salientado nas discussões sobre a alteridade: a expressividade e a relação corporal na clínica. Nota-se a urgência de uma teorização que parte da clínica dos chamados "casos difíceis" que tanto demandaram de autores como Ferenczi, Balint e Winnicott. Pacientes com profunda dificuldade associativa e que traziam marcas, na maioria das vezes, não representacionais de sua história. O acesso a eles e a seus psiquismos era possível através da análise das atuações, de suas reações corporais e também de seus silêncios. Tal acesso pedia novas teorizações que compreendessem e balizassem o trabalho analítico. Os casos difíceis não desapareceram - mais, eles mostraram, e mostram ainda hoje, que a clínica e a teoria ganham sutilezas quando damos atenção aos aspectos mais primitivos presentes mesmo nos pacientes que não precisam de alterações no setting clássico para seguirem suas análises. Nesta direção podemos ler os artigos de Alfredo Naffah Neto, sobre o conceito winnicottiano de "elaboração imaginativa das funções corporais", e o de Silvia Maria Abu-Jamra Zornig, no qual a autora discute um caso que envolve encenações da paciente e elasticidade por parte da analista. No último artigo da primeira sessão, Nelson Coelho Jr. retoma a noção de corporeidade, que lhe é cara, e partindo de exemplos clínicos discute os conceitos de intercorporeidade e corporeidade no setting. Apresentando o lugar da corporeidade na clínica freudiana, o autor procura recuperar a relação desta com o Eu, o que o leva a um interessante percurso que passa por Merleau-Ponty, T. Ogden e R. Roussillon em direção a um novo conceito: co-corporeidade, que não situa a ênfase no "entre", mas na "copresença de duas corporeidades, que já trazem em si o Eu e o outro" (p. 87). Ideia profícua que dá relevo, no campo analítico, à presença simultânea de duas corporeidades que permitem um certo nível de diferenciação e de indiferenciação - porque nenhuma delas é fechada em si mesma, estando ambas revestidas por um tecido móvel, um campo de forças e protossentidos que não exclui a dimensão relacional.

 

A segunda seção do livro trata das relações entre Intersubjetividade e Psicopatologia, mas os artigos não se restringem a este escopo. O texto de Perla Klautau, uma das organizadoras, parte de casos como os descritos acima, nos quais podemos observar a vivência, pelo paciente, de "situações traumáticas nos estágios precoces do desenvolvimento infantil" (p. 91) que não encontram representação. Ou, dito de maneira mais acurada, as marcas impressas nesta fase prematura da vida ficam gravadas num plano ao qual a palavra não tem acesso. Seguindo a cada vez mais valorizada teorização ferencziana sobre o manejo em tais casos, a autora discorre sobre o tato e a empatia, tirando-lhes a pecha de algo necessariamente problemático e não analítico. Na mesma seção, Julio Vertzman propõe uma clínica característica da melancolia na qual o uso de imagens é condição fundamental. No artigo que fecha esta seção, Monah Winograd e Flávia Sollero-de-Campos discutem casos que interrogam constantemente a psicanálise e sua compreensão da vida mental: os que envolvem pacientes com lesão cerebral.

 

A terceira seção do livro, pertinente à questão levantada por Sartre e seu personagem Garcin, dedica-se a Intersubjetividade e Constituição do Eu. Uma espécie de núcleo de curiosidades, a seção conta com um artigo de Philippe Rochat, formado por Jean Piaget e seus colaboradores, em que somos confrontados com diversas pesquisas sobre desenvolvimento infantil realizadas nos últimos 30 anos. O autor apresenta dados que corroboram a tese de que os bebês não nascem confusos ou desorganizados, mas providos de capacidade inata para buscar e criar similaridades entre suas expressões e o mundo externo. Nessa seção e fazendo uso de pesquisas sobre o mesmo tema, como as dedicadas à existência e ao funcionamento de sistemas de neurônios-espelho, Paulo de Carvalho Ribeiro discorda da ideia de uma intersubjetividade inata. Busca, por meio das teorizações sobre a imitação, explicitar que o inato estaria no mecanismo utilizado na imitação, e não numa capacidade intersubjetiva prévia. Também sobre imitação é o artigo de Pedro Salem, que a discute tendo em vista as contribuições de T. Ogden e R. Roussillon. A hipótese é a de que a imitação precoce do bebê, e também a efetuada por pacientes com capacidade associativa comprometida, serve como forma de defesa e como modalidade de relação de objeto. Neste último sentido, a imitação seria fonte de prazer, não devido à descarga pulsional, mas ao compartilhamento emocional que ela envolveria. A seção ainda conta com um texto de Claudia Passos-Ferreira que discute intersubjetividade e autoconsciência. A autora detalha diversas teorias sobre a origem da mente e só posso recomendar a leitura; neste espaço o texto ficará na parte oculta da coroa.

 

Também na parte da coroa que pediria mais uma volta, terei de deixar o primeiro texto da quarta e última seção do livro, dedicada a Intersubjetividade e Clínica Psicanalítica. O artigo que reservo para a curiosidade do leitor foi apresentado pelo psicanalista norte-americano Bruce Reis no Simpósio que deu origem ao livro. Citarei, porém, uma frase do artigo como um chamativo cartão de visitas: "Fugir do mundo teve consequências desastrosas para o campo da psicanálise" (p. 220). A clínica e o uso da empatia, tematizados por Perla Klautau anteriormente, voltam no artigo de Octavio Souza, que faz um apanhado teórico sobre o conceito e discute dois exemplos clínicos de T. Ogden, nos quais a empatia ora aparece como o winnicottiano holding ora como a rêverie bioniana. A intersubjetividade intrapsíquica, discutida no texto de abertura da publicação, perde aspas no último artigo do livro, de Luis Claudio Figueiredo. O autor procura articular as dimensões intrapsíquica e intersubjetiva de forma a estabelecer uma metapsicologia que se ampara no conceito de fantasia inconsciente[2], na ideia de que funções intersubjetivas pertenceriam ao "campo do superego" e, consequentemente - num claro desdobramento da teorização kleiniana - das possibilidades terapêuticas do trabalho analítico baseado na transferência, aqui entendida como experiência intersubjetiva, capaz de operar as perlaborações que modifiquem o que seria intrapsíquico.

 

Deve-se reconhecer a importância da reunião e da organização de textos que nos oferecem tantos ângulos sobre um tema que tem obtido também em nossa área uma relevância cada vez maior. Trabalho inédito que se prolongará, inevitavelmente, em mais pesquisas e num auxílio a todos que, dentro ou fora dos consultórios, encontram Outros e tentam, a passos curtos, dar a volta toda para conhecer as coisas.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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